sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O lirismo nos haikais de Cloves Marques


São muitos os poetas nordestinos que contribuíram para a assimilação e popularização do haikai no Brasil, a partir do pioneirismo de Afrânio Peixoto, passando por Gil Nunesmaia, Oldegar Vieira e Abel Pereira, na Bahia; Eduardo Martins, na Paraíba; Pedro Xisto, em Pernambuco; Adriano Espínola, no Ceará, entre outros.
O nome mais recente dessa lista de notáveis é Cloves Marques, um alagoano de Delmiro Gouveia, embora radicado no Recife há mais de 40 anos. Trata-se de um poeta que possui uma obra haikaística vasta e que por diversos motivos agrada. O principal deles está no livro intitulado “365 haicais de sol e chuva” (edição do autor com o patrocínio da Chesf), um compêndio de muito boa qualidade, tanto estética quanto literária.


Seus haikais refletem uma realidade nordestina, sobretudo a sertaneja, onde as estações do ano se dividem entre a chuvosa e a seca, refletem também a natureza do local e suas peculiaridades, como por exemplo, as flores da macambira ou da sucupira, a sombra da ingazeira, o facheiro, o Capibaribe, tudo amalgamado à compreensão de que a tessitura de um bom haikai não passa, necessariamente, pelo intelecto, mas, sobretudo, pela vivência do autor em sintonia com a natureza.

Brotou uma folha.
Quando a chuva molha a terra,
não existe escolha.

            Por impensado que pareça, ao se empenhar na transmutação de elementos nordestinos para o haikai, Cloves Marques termina por aproximar a sua poesia à de João Cabral de Melo Neto, a partir da exposição de uma realidade concreta, desvelando a sua essência sem que para isso seja necessário abrir mão da efemeridade caracterizada pelo paradoxo, eliminando a linearidade do pensamento, quase sempre em estruturas bipartidas, embora dispostos em três versos, promovendo contrapontos entre o permanente e o transitório.

O beija-flor para
na flor lilás da sucupira.
Suga a poesia.

Tudo, como se vê, com um lirismo poucas vezes visto entre haikaístas brasileiros contemporâneos, cuja vocação lírica está esgotada ou anda sendo, por razões estéticas, evitada, uma vez que, seguindo a estética japonesa que a cada dia ganha novos adeptos, seus cultores irão se deparar com conceitos que recomendam, por exemplo, não deixar a arte aparecer na arte (karumi).  Cloves Marques procura um equilíbrio entre as tradições oriental e ocidental, descortinando a realidade com alguma parcimônia, não temendo essa confrontação estética, terminando por criar um haikai mais ao gosto do leitor não iniciado nas teorias do tradicional haikai japonês, como neste caso, onde a forma japonesa abriga uma alma nordestina:

A chuva é assim:
traz a vida, encharca a lida
é começo e fim.

Mais haikais de Cloves Marques:

Toques na vidraça.
A chuva tamborilou
como quem abraça.

***

Vento no braseiro.
O homem dorme com fome,
a chuva primeiro.

***

Às vistas do céu,
a flor do mandacaru.
Silente troféu.

Entrevista com o autor:

Biografia:
Cloves Marques é escritor, fotógrafo e engenheiro civil. Natural de Delmiro Gouveia/AL, nasceu em 10 de setembro de 1944. Reside, há mais de 40 anos, no Recife/PE. Publicou, entre outros, Pra não Morrer de Amor (poema), É Eterno, Mas é Preciso (poema), Crônicas do Encontro (crônicas), Umareru – Instantâneos de Natal (haicai), Haicai ao Recife (haicai), Máscara em Haicai (ensaio, haibum e haicai), 365 Haicais de Sol e Chuva (haicai – premiado, em 2005, com Menção Honrosa, pela Academia Pernambucana de Letras e Conselho Municipal de Cultura do Recife); Tankas de Amor Amado, 2008, (premiado com Menção Honrosa, em 2006, pelo Conselho Municipal de Cultura do Recife) e Noturno – Tankas da Madrugada, também de 2008 . Participou de diversas exposições fotográficas e de antologias. É sócio efetivo da Academia de Letras e Artes do Nordeste, da Academia Recifense de Letras e membro da UBE/PE.

4 comentários:

R.B.Côvo disse...

Este sim tem hai-kais de qualidade. Tenho visto alguns aqui na blogosfera que pelo amor de Deus! Um abraço. Obrigado pela partilha.

Marcilio Medeiros disse...

Parabéns a Cloves.
Um abraço

Hilton Valeriano disse...

Cloves, um grande poeta, além de um grande ser humano!

Henrique Pimenta disse...

Conhecendo mais um pouco - aprendendo.

Obrigado!