quarta-feira, 22 de junho de 2011

E por falar em Ferreira Gullar...


Em outubro do ano passado, logo após lançar “Em alguma parte alguma”, Gullar concedeu uma entrevista ao jornalista Marcos Dias, do jornal A Tarde, diário aqui da Bahia, oportunidade em que foi indagado sobre a métrica na poesia. Disse-lhe o jornalista que por aqui “ainda há quem acredite que um soneto é a prova dos nove para alguém ser considerado poeta”, e pergunta-lhe o que pensa a respeito. O jornalista estava fazendo referência há poetas que sempre condenaram a preguiça mórbida de escritores que teimam em desconhecer o que pulsa por dentro das formas fixas, e que por isso mesmo não conseguem avançar um único passo em suas obras, o que acabou resultando em tensões entre um e outro grupo.
Particularmente penso que conhecer sobre versificação e métrica é fundamental, sobretudo nos dias de hoje em que a poesia está engessada, o que pode parecer contraditório, mas não é, pois com a banalização do verso livre – que de livre só tem o nome – ganha muito quem possui passagem pelas formas fixas justamente porque elas nos dão maior intimidade com o andamento do poema e mais consistência na composição das imagens, aquilo que Pound chamou de melopéia e fanopéia, elementos que carregam de energia a linguagem poética que, combinados o conteúdo do poema, se extrai uma obra sublimada pela beleza estética.
Mas vejamos o que Gullar respondeu ao jornalista: você pode fazer um soneto e ser uma poesia de alta qualidade e pode fazer sonetos e ser uma bobagem. Uma das coisas que poesia rimada e metrificada provocava era a ilusão de que se está rimada e metrificada direitinho é poesia. E não era. Não basta estar dentro do tamanho e da medida para ser poesia. Grande parte de poesia parnasiana brasileira não presta e, no entanto, está tudo bem rimado e metrificado. Poesia não é isso. Agora, você pode fazer poesia rimada e metrificada de alta qualidade. João Cabral de Melo Neto é um exemplo disso.
Nada do que o poeta disse é novo, mas vale para todos o velho alerta de que se não são quatorze versos rimados e metrificados que fazem um soneto, tampouco será um poema qualquer amontoado de versos livres que não observem aquelas simples considerações do velho Pound.
Mas vamos ao que realmente interessa nessa postagem de hoje, um belíssimo poema metrificado, uma redondilha menor cheia de ritmo. Um poema de Ferreira Gullar ao melhor estilo Bossa Nova, que a meu ver poderia muito bem ser atribuído ao Vinícius de Morais.

Definição da Moça

Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda 
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?

Como possuí-la
quando está desnuda
se ela toda é chuva?
se ela toda é vulva?

Em Muitas Vozes, 1999. Ed. José Olympio, pág. 73.

3 comentários:

Hilton Valeriano disse...

Gullar é uma grande poeta, sem dúvida, mas como seguidor do modernismo comete as mesmas idiotices quandos se refere ao parnasianismo... Se Raimundo Correa não presta ou não é poeta, o que é poesia?

Gustavo Felicíssimo disse...

muita calma nessa hora, meu caro! Gullar não falou nada sobre Raimundo Correa, mas sobre o verso ruim que, em geral, era feito pela maioria dos parnasianos. será que ele não tem razão?

BAR DO BARDO disse...

Poesia não é tratado de versificação. Entanto, há muita poesia sendo bem tratada pelo verso.

Bom falar, Felicíssimo!