quarta-feira, 4 de março de 2009

INFÂNCIA RECONTADA - PARTE III

A PRIMEIRA PARTIDA

Ansioso, naquele dia acordei muito antes do horário habitual, despertado talvez pelos galos “tecendo a manhã”, como no antológico poema de João Cabral, e fiquei rolando na cama, de um lado para outro, ensaiando mentalmente os dribles que daria na zagueirada, antevendo as jogadas, a bola na rede adversária, afinal, é disso que vive o atacante.
Seria a primeira vez que adentraria em local tão luxuoso, que pisaria em um gramado que mais parecia um tapete. A cal delimitando detalhadamente o campo de jogo, o círculo central, a grande e a pequena área, locais com os quais possuía grande intimidade. Havia até uma pequena arquibancada para os espectadores, um prelúdio ao que encontraria na semana seguinte.
Enfim, chegou a hora de esticar os ossos, de tomar banho, arrumar a cama e descer para o café. Como sempre, lá estava Odenir servindo nossa fração matinal de creme dental, pacientemente organizando a entrada no banho. Enquanto alguns escovavam os dentes, outros caíam na água fria. Em seguida, cada menino receberia a sua toalha, vestiria o fardamento escolar e desceria ao refeitório, onde o único assunto vigente seria a partida de futebol que disputaríamos naquela tarde. Antes, uma oração coletiva, após, uma caneca de leite e pão com manteiga.
Na sala de aula, pouco adiantou a professora chamar minha atenção seguidas vezes, “sai do mundo da lua, menino”. Eu não estava ali, mas vivendo o tempo, contando cada fração de minuto, cada instante, habitando o vazio entre o anúncio do fim das aulas e a ida ao Tênis Clube, onde, finalmente, estaria vivendo o ápice da minha vida até o momento.
Nunca fora tão demorada a conclusão do trajeto entre o Educandário e um campo de jogo. Me lembro bem: percorremos a Nove de Julho até a Sampaio Vidal, passamos em frente à prefeitura, daí entramos na Rio Branco, a rua mais bonita de Marília, avistamos a biblioteca pública e o teatro municipal, cruzamos vários semáforos que para minha aflição sempre estavam fechados para nós. Em seguida, o Colégio Monsenhor Bicudo, contra o qual já havíamos jogado, e chegamos, ansiosos, mas confiantes, certos de que aquela seria uma tarde inesquecível.
Antes do jogo, a preleção. Genaro, com sua perna coxa, distribuiu as camisas, chamou todo mundo e não disse nada mais, nada menos, que aquilo que esperávamos ouvir: “vão lá e façam o que vocês sabem fazer”, “façam tudo conforme ensaiamos que nada vai dar errado”. Batata! Joguei sem a necessidade de marcar o lateral ou algum defensor.
Não demorou muito para o técnico adversário colocar um jogador na minha cola, pois logo no início do jogo já tinha feito das minhas; além de dar uns olés no lateral, havia centrado uma bola na cabeça do centro-avante. Foi quando, para minha surpresa, observei atônito que, assistindo ao jogo estavam, lado a lado, simplesmente, Pedro Pavão, Presidente do Mac, e Zé Guimarães, o grande ídolo da cidade naquele momento. Aliás, devo dizer que além de Ayrton Senna, o atleta que mais admirei em toda minha vida foi o Zé Guimarães, ponta direita, como eu. Ágil e veloz, batia com as duas e cobrava falta como ninguém. Chegou a ser vice-artilheiro de uma das edições do paulistão, não logrando a artilharia apenas por motivo de contusão. Olha eu mudando o rumo da prosa.
O time da filantrópica também havia se preparado bem e o primeiro tempo terminou com um mísero zero a zero no placar. Mas isso não duraria muito. No intervalo vieram Pedro Pavão e Zé Guimarães falar com a gente. Eu cheguei perto deles, tímido, e o Padre Agenor me perguntou: “não vai apertar a mão do seu ídolo, rapaz?”. Cumprimentei acanhadamente o artilheiro e logo voltei ao campo para o reinicio do jogo, disposto a vencer.
Genaro me tirou da ponta direita e, dada a minha estatura, mandou que jogasse no meio dos beques, enfiado. Foi o que fiz. E logo na primeira bola centrada na área deixei minha marca, recebi e testei firme. Um sonho. O goleiro nem saiu na foto e eu saí comemorando feito um louco.
Fui recompensado com inúmeras congratulações e passei a semana toda falando naquele gol. Cheguei mesmo a sonhar inúmeras vezes com ele, pois havíamos ganho a partida por causa daquele golzinho, o gol mais importante de toda a minha vida, o que pude constatar após o término da segunda partida.

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