domingo, 25 de março de 2012

Obrigado Chico Anysio!!!


         Já que está todo mundo homenageando Chico Anysio, eu também vou entrar nessa, afinal, sou daqueles que cresceram assistindo-o. Só que, ao contrário da maioria das pessoas, o que mais me chama a atenção em sua obra são seus textos, muitos deles com forte carga emocional, como, por exemplo, Mundo Moderno, tido para muitos como clássico. Esse texto é simbólico, sobretudo por ter sido composto basicamente com substantivos, verbos e alguns adjetivos, primando assim pela ausência de preposições, artigos, pronomes. Ainda há esse toque charmoso, as palavras todas iniciadas com a letra “M”, fator que dificulta a criação, limitando sobremaneira o léxico, exigindo do autor toda a sua capacidade criativa. Eu não diria jamais se tratar de um poema, como se afirma por aí, mas de uma crônica singular.
Não deixem de acompanhar, após a leitura do texto, a récita feita por Chico Anysio no Programa do Jô. Uma beleza! Ele termina imitando Louis Armstrong em “What a Wonderful World”. Um show à parte. 
Obrigado Chico Anysio! Você sempre foi um show!!!

Mundo Moderno
Chico Anysio

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio – maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matungo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, maratonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas. Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos… Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda. 

3 comentários:

Paula Gomes disse...

maravilhoso mesmo!!!

Anônimo disse...

chico anysio era um mestre. esse poema é maravilhoso. e a rede globo é hipócrita pois durante anos mantiveram chico anysio loja das cameras, sendo que ele precisou implorar para voltar as telas e ainda colocaram ele num programa como mero coadjuvante. Agora que ele morre faz mil e uma homenagens. gente hipocrita.

Ramon Barbosa Franco disse...

'Negro Léo'. Gustavo, ao ler sua homenagem ao Chico Anysio, me ocorreu, de pronto e de supetão, um outro lado pouco falado do Chico, o Chico prosador. Me chegou umas imagens de um falso documentário que a Rede Globo fez sobre 'Negro Léo'. Eu era pequeno demais para entender que aquela trama era interpretada por Milton Gonçalves, pelo Lima Duarte. Parecia gente de fato, trazendo pedaços de um personagem que botava medo.