sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Contracultura e haikai

A vertente mais nova do haikai é aquela que coincidentemente mais foi divulgada e cultuada entre nós a partir dos anos 60. Deve-se muito a Millôr Fernandes o seu desenvolvimento a partir das suas tiradas humorísticas nas revistas O Cruzeiro, primeiramente, e depois na Veja. Millôr deu um ar descontraído ao haikai, aproximando-o do poema-piada, eliminando a métrica, título e referências às estações do ano, contribuindo para o aparecimento de jovens poetas. Esse formato foi muito difundido no mundo, inclusive no Japão. Este formato é também conhecido por Senryu por tratar de questões unicamente humanas, em tom irônico ou satírico.
Em seu livro Hai kais
[1], em breve introdução à obra, Millôr afirma ver o haikai como uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística. E assim compôs e publicou-os acompanhados por ilustração que acentua o sentido cômico dos seus versos.
Também não se pode descartar a importância de poetas concretistas como Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari que a partir da segunda metade do século passado buscaram traduzir ou transcrever o haikai japonês para o nosso idioma.
Entretanto, quando falamos de haikai no Brasil, o nome de Paulo Leminski surge invariavelmente em primeiro plano. Sabe-se que já no início da década de 60 ele começou a estudar japonês, cujo interesse teria surgido na academia de judô em que treinava. Alinhado aos valores contraculturais e libertários dos anos sessenta, Leminski produziu uma obra tensa, densa e provocadora como sua própria personalidade. E como Millôr, também produziu uma obra livre de amarras, cheia de sacadas, clicks, como ele dizia. São de sua lavra os seguintes haikais
[2]:


passa e volta
a cada gole
uma revolta

***

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

***

nu como um grego
ouço um músico negro
e me desagrego

Referências:
[1] Editora Senzala, 1968
[2] Melhores poemas de Paulo Leminski, Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins, 7ª edição, Editora Gaia, 2006

3 comentários:

Ramon Barbosa Franco disse...

Gustavo, aqui quem escreve é o jornalista e escritor Ramon Barbosa Franco, fui o repórter que fez a matéria sobre o Osório Alves de Castro, que você leu no blog da Mostra Marília de Cinema.
Por favor, entre em contato comigo através deste e-mail
monfranco8@hotmail.com
Gostaria de conversar com você, ainda que por e-mail. Tenho interesse também em fazer uma reportagem sobre a sua vida literária. Visite o meu blog,
www.ramonbarbosafranco.blogspot.com
Um forte abraço!

Caio Rudá disse...

Haikais e mais haikais por aqui.

Rafael Noris disse...

Leminski e Millôr ao unir inteligência, bom humor e malandragem criaram um senryu BEM brasileiro!