domingo, 17 de maio de 2009

Os haicais de Capinan

Esse texto, de nossa autoria, foi publicado originalmente no caderno "Cultural" do Jornal A Tarde, da Bahia, edição de 16/05/2009 e no cronopios.com.br, excelente site dedicado à literatura

Através do pesquisador e amigo Gilfrancisco, tomei conhecimento que o poeta e compositor José Carlos Capinan, autor de livros admiráveis como “Inquisitorial” e “Confissões de Narciso”, bem como das canções antológicas “Ponteio”, em parceria com Edu Lobo e “Soy loco por ti América”, com Gilberto Gil, entre outros grandes sucessos, havia publicado em 1995, pela editora BDA, Salvador, um livro exclusivamente de Haicai. Logo corri ao site http://www.estantevirtual.com.br/, uma maravilha proporcionada pela internet, e consegui adquirir o livro que há muito tempo está fora de catálogo.
Falamos de “Balança mas hai-kai”, um livro composto de quarenta e uma pílulas líricas, irônicas e repletas de humor, desprovidas de métrica e pouco preocupadas com o kigô (termo de estação a que o haicai tradicional faz referência). Enfim, haicais tipicamente brasileiros, naturalizados e aclimatados no fogo das nossas emoções.
Para este livro, diz o autor: "juntei centenas de hai-kais que havia escrito e, depois de uma seleção inicial, reli os hai-kais de Millôr (foi dele certamente que incorporei a primeira informação dessa estrutura oriental de compor poemas, creio que na revista “O Cruzeiro”). Tomei então coragem de publicar os meus. E aqui estão, generosamente apresentados pelo nosso inspirado e verdadeiro haijin, Oldegar Vieira"
Oldegar Vieira, primeiro poeta baiano a publicar um livro exclusivamente de haicais e o segundo do Brasil, com “Folhas de Chá”, em pequeno texto na orelha do livro de Capinan, diz: "temos aqui, Capinan com seus haikais, poéticos sem dúvida, mas indisciplinados, isto é: não metrificados (com 5-7-5- sílabas), caracteristicamente brasileiros, portanto". E mais adiante, nesse mesmo texto, manifesta o desejo que o autor "se ponha decisivamente na senda do São Francisco nipônico, a converter-se (continuando brasileiro) em verdadeiro haijin".
Entendemos que essa preocupação, manifesta por Oldegar Vieira, é controversa, pois, conforme sabemos, no Brasil, e mesmo no Japão, existem várias correntes de haicai. Como disse o mestre Paulo Franchetti, em correspondência eletrônica a nós enviada, "cada um o faz à sua maneira, sob diversa inspiração. Não há um só haicai, há vários. Portanto, não faz sentido dizer o que pode e o que não pode em haicai. Mas apenas o que, numa certa vertente tem ou não tem interesse ou propriedade".
Pensamos que a forma fixa é um aspecto secundário, mas que valoriza e facilita a comunicação do que se quis exprimir. Entretanto, fundamental mesmo é que se faz importante o cuidado do poeta para que sua técnica, independente da vertente praticada, não pareça mais importante que o haicai em si, ou como queria Bashô, que o virtuosismo não aniquile o que o poema possui de mais específico: a simplicidade projetada através da captação de um momento.
Resta-nos, então, aguardar um próximo livro de haicais de Capinan, com o desejo permanente que este venha a público em breve, tão interessante como é este “Balança mas hai-kai”.
Abaixo, alguns haicais de Capinan

Pedro era de pedra
(O galo cantou três vezes)
Pedro desfez-se em pó

***

Um sinal vermelho
Fogo e batom
Tua boca no espelho

***

A cara da caridade
Será de culpa
Ou perversidade

***

Um trovão
Relampeja na rua
Um raio de lua

***

Sobre o pão fatia
Escorrega sem manteiga
A nossa faca vazia


NOTA: Como o poema, no Japão possui o nome Haiku, que no Brasil foi aportuguesado, não havendo consenso para o modo de grafá-lo, cada poeta ou vertente haicaista o faz ao seu modo. Neste breve texto aparece de maneiras diferentes, a começar pelo título, como grafamos, “haicai”; após, no título do livro: “hai-kai”. Por fim, na citação de Oldegar Vieira: “haikai”.

2 comentários:

José Rosa Soares Filho disse...

Caro Gustavo,

Vi este seu artigo sobre os haikais de Capinam e gostaria de colocá-lo em meu blog, o ZEducando (http://joserosafilho.wordpress.com/), solicito portanto autorização para tal.

um abraço,

José Rosa (joserosafilho@hotmail.com)

José Rosa Soares Filho disse...

Caro Gustavo,

Vi este seu artigo sobre os haikais de Capinam e gostaria de colocá-lo em meu blog, o ZEducando (http://joserosafilho.wordpress.com/), solicito portanto autorização para tal.

um abraço,

José Rosa (joserosafilho@hotmail.com)