quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A poética de Suffit Akenat

Texto de Fátima Khadija, Professora
Seleção de poemas de Gustavo Felicíssimo

Suffit Kitab Akenat (1905-?) é uma escritora nascida em Tesseney, na fronteira entre Axum e a Eritreia, naquilo que se convencionou chamar o «corno de África». Segundo Pires Laranjeira (Professor da Universidade de Coimbra), autor do elucidativo prefácio da obra “Máximas Mínimas e outros textos”, publicado em língua portuguesa pela editora Landy, Suffit surge num meio cultural islamista, a que não parece ser alheio o discurso poético, vinculado ao aforismo, o qual nos parece tributário de poetas como Jall Hussein ou o tão propalado Kahlil Gibran, mas muito mais marcado por uma vertente do extremo oriente, que só parece ser possível descortinar em formas epigramáticas como o haicai dos poetas japoneses ou de muitos anônimos chineses: referimo-nos a Lao Tsé (Lao significa o caminho, e é curioso que esta edição apresente o subtítulo “Um caminho para alguns”), Bashô, Lao Ksap, Kyorai, Issa e muitos outros. Mas não podemos substimar toda a tradição árabe, desde Ibn Al-Farid, Ibn Hazm, Kabir (poeta indiano sobre o qual falaremos na próxima postagem). Obviamente seria injusto omitir a tradição poética suméria, tunisina, assíria e dos países africanos que cercam a Eritréia.
Sabe-se que Suffit viveu, na década de 30 do século XX, em Paris e Londres, este último local onde Jall Hussein a terá conhecido, e só por si, esta diáspora pelo ocidente permitiu-lhe ser a síntese de um pensamento dialético que reivindica uma estética de ascese, de contemplação, mas também de intervenção. Aliás, é notória a sua linha vetorial marxista, sobretudo no conjunto de versículos intitulado «Câmara Obscura». Leia-se, por exemplo, este epigrama: «a imagem mata/quem nela se reconhece/tal é a cegueira».
Como reagir contra aqueles que possam tomar a obra de Suffit por exótica, excessivamente espiritualista ou simpaticamente estranha? Parece-nos que a autora dá a resposta: «não querem saber/nem sabem imaginar/que podes ser outro». De facto, é fundamental entender toda a trajetória de vida desta poetisa, o seu contexto familiar e a sua concepção do mundo (se é que isso chega). Julgamos descortinar, sobretudo pelos poemas mais extensos e pela sua Introdução à Ideocrítica, uma estética profundamente original, em devir contínuo, longe de poder ser rotulada pelas formulações orientalistas. Algo nos parece universal, no sentido em que combina estilos literários e ideários de continentes tão diferentes como o asiático, o africano ou o europeu. O pretenso orientalismo esbate-se na ação política; o simbolismo de certas formas aforísticas esmaece no tom coloquial de poemas mais longos.

POEMAS:

18
Vives uma fuga
Veloz que nem conheces
O canto que cantas

22
Vê a sombra rápida
Que passa sem pensar
E pensa que passa

109
Educar é fácil
Se treinares teu filhinho
Para te educar

***

Lendo o horóscopo nas entrelinhas
Interpreto a nostalgia de um gesto evasivo
A obscura citação do amor encurralado.
Piano e flauta andina ou cítara de doze cordas
Recuperem a doce memória submersa por aluviões
De versos frígidos sem resposta.
A voz arrasta-se pelas paredes
Tensa e fria
Pétala castanha contra o vidro embaciado
De florir o tambor do peito.
Ó meu amado!

Um comentário:

Vasudeva (Gui Coelho) disse...

Show essa mulher! Incrivelmente uma mulher!