quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

INFÂNCIA RECONTADA II


A MINHA MARÍLIA

Apesar do desenvolvimento, das universidades, das indústrias e da pujança do seu comércio, Marília continuará sendo para mim sempre aquela cidade pequenina onde nasci, a cidade bucólica que traz consigo o nome da personagem do poema de Tomás Antônio Gonzaga, não essa que cresceu tanto em tão pouco tempo, de um modo vertiginoso e desordenado. A minha Marília será sempre aquela do meu tempo menino, pés descalços, pipas ao vento, brincadeiras de pião, estilingue na mão. Será sempre a Rua Rio Claro, calçada por antigos paralelepípedos, as casas de madeira, os vizinhos, o antigo prédio do INPS, a fazenda Cascata, o Educandário Bento de Abreu, o Parquinho Monteiro Lobato, cujas praças, aos finais de semana, eram transformadas por mim e meus amigos em campinhos de futebol. Será sempre o enorme terreno, herança deixada pelos meus avós maternos, que abrigava a nossa casinha e as casinhas das minhas tias, Vilder, Lia e Valdívia, as duas últimas, mães dos primos e primas que dividiram comigo a infância. Contando comigo e com minhas irmãs, éramos dez crianças no total.
A Tia Lia não é irmã da minha mãe, mas era como se fosse. Ela foi esposa do Tio Dilo, este sim, irmão dela e pais do Alessandro, do Luciano, Adriana e Andréia, primos e primas. A Tia Valdívia é mãe do Rogério, o mais velho dos meus primos, e também do Maurício e do Geovani. Além de mim, que sempre fui conhecido por Tainho, a Dona Valdete, minha mãe, também trouxe ao mundo minhas duas irmãs, Patrícia e Renata, mais novas que eu e com as quais sempre vivi em pé de guerra. A Tia Vilder nunca se casou, por isso não teve filhos, no entanto possuía lugar muito especial em meu coração de menino, principalmente quando fazia pães. Minha mãe teve ainda outras irmãs e irmãos, e eu muitos outros primos, todos eles ternos em minhas lembranças.
Além da barbosada toda (trato aqui apenas da minha família por parte materna, cujo sobrenome é Barbosa) havia em nossa rua, apenas em um trecho de cem metros, entre a Rua Vicente Ferreira e a Rio Grande do Sul, seguramente, mais umas dez crianças de todas as idades que se juntavam a nós nas algazarras e brincadeiras cotidianas. A essa turminha ainda se juntavam outros infantes, de outras ruas, paralelas e transversais à nossa, chegando facilmente ao número de trinta, o que era capaz de enlouquecer muitos vizinhos.
Hoje, distanciado no tempo, fico a buscar na memória se era mesmo o nosso terreno que era muito grande ou se eu é que era muito pequeno. Entretanto, uma coisa posso afirmar: nele cabiam todas as coisas que existiam no meu mundo. Cabia meus primos e os moleques da rua, cabia o Rex, também a Chimbica, cabia o Kiko, um pássaro preto muito esperto. Também cabia o meu galinho Garninsé, uma goiabeira, um mamoeiro, hortas e uma enorme mangueira, cujos frutos sempre eram ignorados, pois preferíamos as mangas do quintal do nosso vizinho dos fundos. Naquele quintal cabiam todos os sonhos: o sonho de ser o melhor empinador de pipa; de ser o melhor peladeiro e também o melhor a andar em apenas uma roda na bicicleta; o sonho de ser o maior jogador de bolinhas de gude de toda a vizinhança.
Como se percebe, eu era um tanto pretensioso. Cheguei mesmo a pensar que um dia poderia, após a aposentadoria do Zé Guimarães, envergar a camisa azul celeste, número sete, do meu time do coração, o MAC, o glorioso Marília Atlético Clube, apenas por morar a menos de trezentos metros do estádio municipal, onde o Tigrão manda seus jogos e por ter sido, por algum tempo, um dos seus gandulas oficiais.

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