sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um poema puxa outro - II


     Em “Desencanto”, famoso poema de Bandeira, datado de 1912 e escrito, provavelmente, por influência de uma doença que lhe atormentava os pulmões, o poeta canta Eu faço versos como quem morre. Mais de trinta anos depois, Jorge Medauar, ainda um jovem poeta e desconhecido, aqui da região cacaueira da Bahia, respondeu-lhe brilhantemente, cantando em “Esperança”: Eu faço versos como quem vive. Deu-se, então, segundo Hélio Pólvora, uma escaramuça cordial, com ampla repercussão nos meios literários do Rio de Janeiro, mas que José Lins do Rego havia interpretado como uma provocação de um jovem poeta iniciante a um mestre.
            Em uma de suas crônicas, Bandeira transcreveu os versos de Medauar e lhes deu resposta impressa no poema “A Jorge Medauar”, justificando a tréplica dizendo que em mim, pelo menos, verso puxa verso. Vamos, então aos poemas, na ordem dos acontecimentos.

Desencanto
Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai gota à gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Esperança
Jorge Medauar

Eu faço versos como que luta
De armas em punho... de armas nas mãos...
Forma ao meu lado, pois na labuta
Os companheiros são como irmãos.

Meu verso é aço. Fornalha ardente...
Peito ou bigorna... Braço ou trator...
Corre entre o povo. Salgado e quente,
Cai gota a gota, por que é suor.

E nestes versos de luta ousada
Deixo a esperança que sempre tive
Nas tintas rubras da madrugada.

- Eu faço versos como quem vive.

A Jorge Medauar
Manuel Bandeira

Há trint’anos (tanto corre
O tempo! escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.

Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:

“Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!”

Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva

Da alma e para outra alma corre.

Verso que dele se prive,
Ai dele! Quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso, com alma, vive.

Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns nobre poeta! Por acaso encotrei teu blog que a partir de agora seguirei com muito apreço.

É riquíssima essa postagem.

Te adicinei no Face também.

Abraços.

Antonio Costta.

Poeta Antonio Costta disse...

Provei da sua "Sopa de Poesia" ontem, gostei tanto que vim repetir o prato hoje. Parabéns! Continue com esse mesmo tempero.