sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Padre leva Prêmio Literário da BN


Com informações do PublishNews e Folha de São Paulo

Ontem, 15, a Fundação Biblioteca Nacional promoveu a entrega dos Prêmios Literários 2011, iniciativa que há 17 anos, em parceria com o Minc, premia os melhores escritores e trabalhos literários do país. Entre os premiados de 2011 está o teólogo pernambucano Daniel Lima, de 95 anos. Ele guardava seus poemas na gaveta. Um dia, uma de suas alunas descobriu os textos e levou-os, sem ele saber, para uma avaliação editorial. O resultado foi a obra Poemas (Companhia Editora de Pernambuco). Ao saber da premiação pelo telefone, da cama de um hospital recifense, Daniel Lima, apesar de lúcido e solar, parecia confuso, como quando foi informado pela reportagem da Folha, que acabara de receber um prêmio da Biblioteca Nacional pelo seu primeiro livro. "Não é uma brincadeira não?", perguntou. Não. Não era uma brincadeira.
Reunião de quatro livros, a obra foi inscrita pela "professora-ladra", Luzilá Gonçalves Ferreira ("roubei mesmo", diverte-se ela), no prêmio literário. Concorreu com outras 50 obras na categoria poesia. Padre Daniel, como é conhecido, bateu nomes como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant'Anna. Composto por Alexei Bueno, Antônio José Jardim e Frederico Gomes, o júri escolheu o livro por unanimidade.

Alguns poemas da obra premiada:

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
no tempo singular de tua vida.

Mas viveste o relógio, não teu tempo,
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste

***

Há misérias nos homens.
Os anjos cantam nas nuvens.

Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.

***

Eu sou a metáfora de mim.
Por isto, quando eu morrer
morrerá meu poema.

Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
cuja chave perdida para sempre
no silêncio de morte
ninguém encontrará.

***

Minha mãe era feita de incertezas.
Tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus sonhos,
nas mãos, nos gestos,
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.

E eu perguntava coisas.
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.

Minha mãe era feita de incertezas,
mas, por certo, sabia o que queria.

2 comentários:

Hilton Valeriano disse...

Belos poemas!

BAR DO BARDO disse...

Parece que às vezes o crime (furto) compensa.

Bons textos!
Melhoras ao pe. Daniel!