segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Pitada de Pitacos do Carlos Verçosa - Tomo III


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Pitada de pitacos
para a receita de Gustavo Felicissimo:
Dendê no haikai
 (Aspectos do Haikai na Bahia)
tese em andamento aumentativo
 [Tomo III]
Carlos Verçosa


“O haikai é um gênero difícil, não pela forma em si, mas por exigir um pouco daquele milagre da gota de água, que é o de, em sua exiguidade, refletir todo o universo.”
MANUEL BANDEIRA (1886-1968)

   
Vivo sozinho e escrevo 
para a minha alegria.


MATSUO BASHÔ (1644-1694),
diário de viagem “Saga Nikki”, 
epígrafe em “Folhas de Chá” (1940), 
de Oldegar Vieira (1915-2006)
  

Oldegar Vieira – I







O velho haijin Oldegar Vieira (1915-2006) curtindo a natureza inspiradora



          O jovem baiano Oldegar Vieira escreveu, ainda na juventude, dos 18 aos 22 anos, o quarto livro de haikai no Brasil (“Folhas de Chá”, concluído em 1937, mas que só veio a lume em 1940).
    Sua iniciação no haikai, juntamente com o colega de estudos ginasianos Gil Nunesmaia (1913-1993), deveu-se à leitura dos haikais de Afrânio Peixoto, publicados na Revista Exselsior (jan. 1928), mais tarde reeditados no livro “Missangas” (1931).
    [Estes mesmos haikais motivariam e inspirariam também outro ginasiano, paulista, Waldomiro Siqueira Jr., autor do segundo livro brasileiro de haikais, justamente assim denominado: “Haikais” (1933). Voltaremos a essa história em tomo adiante.]


No seu ensaio com um livro embutido, o bandeirante intelectual baiano Afrânio Peixoto buscava incentivar a produção brasileira de haikais:
“E não são alguns japões que os fazem, senão todos, com mais ou menos facilidade.”

“O haikai é uma sensação lírica que todos sentem e podem exprimir. Por isso do homem do povo mais humilde ao letrado mais culto, todos têm as suas trovas, ingênuas, sutis, simples ou profundas”, escrevia Afrânio Peixoto.
   E complementava, numa menção recorrente ao eufemismo “epigrama lírico”, que usara desde o ensaio pioneiro de 1919 ("O haikai japonês ou epigrama lírico"):

“Mas todos os que são poetas - e poeta é apenas, e é tudo, sentir intimamente e exprimir sinceramente. Todo o mundo, em suma, será capaz de epigramas líricos."

Ora, tais palavras incentivadoras logo motivariam os primeiros haikaistas brasileiros a meterem mãos à obra. 
A partir daquela leitura inicial provocadora, os jovens Oldegar Vieira e Gil Nunesmaia, estimulados também pelo latinista e professor de Português, Deraldo Dias de Moraes, do Instituto Bahiano de Ensino, começaram a escrever seus primeiros haikais.
Passaram a publicá-los no jornal A Tarde (a partir de 27 de outubro de 1932), denominando-os, ainda timidamente, como fora sugerido por Afrânio: “epigramas líricos”.

[Vale registrar: A Tarde, ao longo da sua história, ora teve suplementos literários, ora não; mas sempre procurou incentivar, em suas páginas, a literatura baiana e o surgimento de novos valores. Esse é um diferencial bacana desse jornal quase centenário.]

   Bem, nomes em letra impressa de jornal e a repercussão positiva daquelas primeiras publicações deram visibilidade e motivaram os dois ginasianos a continuarem produzindo haikais.
  O próprio Oldegar Vieira, em depoimento para o ensaio “Presença do haikai na poesia brasileira” (in “Oku”, p. 323-487; gravação em 28 de julho de 1995), contou-me como foi essa iniciação no haikai. Revelou que o professor Deraldo Dias entusiasmou-se ao ler os cada vez mais inspirados haikais dos dois alunos e propôs:

“Ah! muito bem, muito bem. Me dêem isso que eu vou mandar para o Afrânio Peixoto.”

    Na hora, Oldegar ficou meio preocupado:

“Ah, professor, espera aí: isso não é coisa para se mandar para o Afrânio [já célebre, àquela época, médico e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras].

    Mas o professor Deraldo foi categórico:

“Não se preocupem, tenham paciência, que eu vou mandar pra ele. E mandou, com nossos endereços”, lembra Oldegar.

   E qual não foi a surpresa, tamanha, pois, dias depois, recebia uma carta com o timbre da Academia Brasileira de Letras, de Afrânio Peixoto.
   
    O baiano famoso não apenas tinha se iluminado d’immenso com os haikais dos jovens poetas conterrâneos, mas ainda destacava aqueles que mais lhe impressionaram.

“Gostei da sua ousadia. Você o disse. Gostei ainda mais dos seus versos. Têm poesia,    o que é raro. Alguns são admiráveis”, escreveu Afrânio Peixoto.
“Você, num punhado de versinhos tem toda uma primavera!” prosseguia,
e, a seguir, transcrevia um haikai de Oldegar que muito o impressionara:

Apita o comboio:

um lenço vai se agitando

como uma asa cativa…

    Bashô ou Kikaku ficariam contentes de ter feito este. Eu, este e os outros”, complementava.

   Ao reler aquela carta, passados mais de 60 anos, Oldegar Vieira ainda se emocionava:


"Imagine você: um homem que já era célebre, figuraz, estrelar, no meio social e literário do Brasil, escrevendo a dois garotos. Nós ficamos abafados!”

     Mas o escritor ainda trazia um recado no final da carta:

“Escrevam mais, e vão mandando.”

    Aí, pronto: mãos à obra. Mandaram logo novos haikais escritos para Afrânio Peixoto.

    Novo estímulo:

   “Muito bem, muito bem! Olha, vocês continuem fazendo haikais e, quem sabe, daí não vai sair um livro?”, dizia já na segunda carta.

    Na terceira carta, Afrânio Peixoto propõe:

    “Olha, eu tive uma idéia: publicar os haikais de vocês na revista da Academia Brasileira de Letras. Eu ponho um prefaciozinho, se vocês permitirem...”

    Oldegar ri quando se lembra da expressão final que ele usou:

    “Imaginem, vocês jovens na velha revista dos velhos...”

    E prossegue:

   “Foi motivo de deslumbramento para nós. Diante disso, é claro, tivemos que concordar, né? Não podíamos discordar, seria uma falta de gentileza e até uma falta de vaidade, que não se podia permitir num jovem. Então, selecionamos os haikais que nos pareceram os melhores e logo mandamos.”

   Dito e feito. Na edição de maio de 1933 lá estavam os dois jovens poetas baianos, acontecendo nas páginas prestigiadas da Revista da ABL.

    “Foi um escândalo!” – me resumiu Oldegar Vieira. “Para nós, meninos que nem 20 anos tínhamos, era uma coisa espantosa.”

    Ele conta também que houve uma pequena confusão na paginação da revista:

    "Saíram uns haikais meus como sendo de Gil Nunesmaia, mas tudo bem. Nos jornais daqui saiu corrigido.”

    Aconteceu, porém, que o jornal A Tarde ‘furou’ a Revista da Academia, publicando antes os haikais e a carta. Oldegar conta como foi essa história:

    “Quando nós começamos a receber a correspondência do Afrânio, nós já estávamos publicando os haikais na página literária do jornal A Tarde, que era muito apreciada.

   "Então, quando recebemos aquele convite para publicar também na Revista, resolvemos mostrar para o jornalista Florêncio Santos, que era o editor.”

     Ele se entusiasmou e disse logo:

     “Ah, então vamos fazer um escândalo com esse negócio!”

    E assim, A Tarde saiu na frente, “publicando a notícia e transcrevendo a carta do Afrânio antes da Academia”, revela Oldegar Vieira.

   Ele comenta ainda o quanto ficaram “provincianamente orgulhosos” com aqueles acontecimentos:

    “Nós ficamos numa notoriedade fabulosa aqui na Bahia. Éramos tolos, né? Dois jovens publicados pela Revista da Academia e pelo jornal A Tarde...”

    A partir daí, ele passou a se interessar cada vez mais pelo haikai e pela literatura japonesa:

   “Depois disso, passei a importar livros estrangeiros e a ler tudo sobre o Japão”, conta. Passou também a publicar cada vez mais novos haikais, que - num total de 191 - iriam compor o seu primeiro livro, concluído em 1937.

     Foi baseado justamente numa frase de Afrânio Peixoto, em que ele comentava que os poemas japoneses eram “tão curtos que poderiam ser pintados numa folha de chá?” (talvez a considerar, acertadamente, que o japonês pinta, ao invés de escrever), que Oldegar Vieira se inspirou para dar nome ao seu livro.

    Mas o perfume das suas “Folhas de Chá” só foi realmente percebido a partir de 1940, quando finalmente o livro veio a lume numa edição caprichada dos Cadernos da Hora Presente.

Boa acolhida da crítica e muitas manifestações de apreço passaram a ser colecionadas pelo autor, mas nenhuma delas o sensibilizou tanto quanto o cartão que recebeu de Afrânio Peixoto.

“Emoldurei e tenho comigo até hoje esse cartão que o Afrânio me mandou depois da publicação do livro. Ele vinha com um ramo florido e folhas de chá coladas nele. Uma beleza de gesto!”, recorda Oldegar Vieira.

O cartão foi enviado de Petrópolis [30 jan. 1941], com esta dedicatória de Afrânio Peixoto:

“Caro conterrâneo e amigo. Saibará você que isso incluso são flor e folhas de chá. Tenho vários pés aqui na chácara, plantados pelo Visconde de Mauá, de quem foi a casa. São efêmeras. As suas Folhas de Chá durarão.”

     Tinha razão na sua profecia. O livro permanece referência até hoje na história do haikai no Brasil.

/// THE CHAPTER IS OVER ///


3 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Bom resgate. Brota amanhãs...

Anônimo disse...

Oi, Gustavo!

Parabéns pela pubicação de tão emocionante resgate. Esse tipo de publicação dá luz aos jovens, tão carentes de exemplos hoje.

Feliz Natal!
Benedita Azevedo

andréa.mascarenhas disse...

Olá, Gustvo. Bom saber das histórias que constróem a trama histórica das Literaturas baianas. Muito interessante esse episódio dos haikais!
Abç