terça-feira, 27 de abril de 2010

O mariliense grapiúna: a poesia viva de Felicíssimo

Entrevista concedida ao jornalista e escritor Ramon Barbosa Franco e publicada neste último domingo, 25, no Caderno 2 do Jornal da Manhã, de Marília, minha cidade natal.

Seu nome é Gustavo. Seu sobrenome Felicíssimo. Ele nasceu na rua Rio Claro, no bairro Cascata. Estudou no antigo colégio Tomás Antônio Gonzaga. Tomás Antônio Gonzaga não foi poeta? Não é o autor da época de Tiradentes, e assim como tal, inconfidente? Não escreveu ‘Marília de Dirceu’? Sim, Tomás era poeta e autor do poema que deu nome ao município de Marília, cidade natal de Gustavo Felicíssimo. Hoje ele anda feliz em outras terras, nas mesmas terras de cacau, de suor e da prosa de Jorge Amado: nas terras grapiúnas da Bahia, terras de todas as letras, poesia e romance.
Sua paixão pela leitura, pelos livros e pela poesia o levou a ser uma referência, uma mão-de-obra altamente qualificada para o mercado editorial e assim ele segue, trabalhando, estudando e escrevendo entre Ilhéus e Itabuna, percorrendo os locais que vivem nas obras de Amado, imortalizado pelas letras, pelo cinema e pela televisão.
“Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com ‘O País do Carnaval’, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira”, comentou Felicíssimo em entrevista que nasceu a partir de um homem cuja trajetória ligou Bahia e Marília: Osório Alves de Castro (1901-1978). Osório fez a migração Bahia-Marília, Gustavo Felicíssimo percorreu o inverso Marília-Bahia.
Ao deixar Marília, o poeta não deixou sua alma literária. Além de ser batizada por um poema, a cidade é um dos berços da imigração japonesa no país e um dos redutos do haikai. Não é à toda que bem no jardim da Prefeitura Municipal, além da estátua do dito benemérito Bento de Abreu, há um momento em homenagem aos imigrantes japoneses com o poema haikai de Tenson, um poeta imigrante de talento reconhecido no Japão. O poeta mariliense grapiúna vem ampliando a interpretação brasileira sobre o haikai, tudo graças aos seus estudos e textos sobre este micropoema japonês. Ainda neste ano Felicíssimo publicará ‘Dendê no Haikai’, ensaio sobre a evolução do haikai na Bahia. Outros projetos literários consistem na realização da Festa Literária de Ilhéus e o resgate da obra completa do alfaiate e romancista Osório. O projeto, encampado pela editora Via Litterarum, pretende publicar além das três obras do baiano que entre as décadas de 40 e 60 viveu em Marília (‘Porto Calendário’, ‘Maria Fecha Porta Prau Boi Não te Pegar’ e ‘Bahiano Tietê’), outras duas inéditas (‘Nhonhô Pedreira’ e ‘A cidade do velho’). Os manuscritos estão com a família e deverão ser cedidos para a editora.

Entrevista

1) Gustavo Felicíssimo, você é nascido em Marília e vive na Bahia. Conte um pouco da sua trajetória de vida na cidade e quando você passou a se interessar pela literatura?
GF
– Nasci na Rua Rio Claro, no bairro Cascata, onde passei toda a infância e adolescência. Estudei no Tomaz Antônio Gonzaga e fui interno do Educandário Bento de Abreu. Ali passei anos maravilhosos, dali trouxe para a vida princípios que são a base de todo ser humano e os utilizei quando me encontrava em risco social. Minha infância foi das mais ricas: empinava pipa, rodava pião, jogava bilboquê, tomava banho na represa da Fazenda Cascata, espantava bois e vivia como doido atrás de uma bola. Esse período sobrevive impresso na minha memória, por consequência, na minha poesia.
Meu interesse pela leitura vem dessa época, quando li obras como O menino do dedo verde, O sítio do pica-pau amarelo, O escaravelho do diabo. Entretanto, nada de poesia. Foi na Bahia que a descobri. Aqui minhas leituras foram ficando mais sofisticadas e mesmo sem nunca ter lido um único livro de poesia começava a rabiscar alguns versos, garatujas, como só assim poderiam ser naquele momento. Foi quando uma namorada presenteou-me um caderninho amarelo, de capa dura, que tenho até hoje guardado, sugerindo que ali anotasse meus escritos, pois desse modo, afirmava com razão, poderíamos perceber se haveria alguma evolução ao longo do tempo. Foi o que fiz. Depois daquele caderninho vieram outros, uns dez, todos conservados até hoje. No primeiro deles, nostalgicamente, leio os seguintes versos, inocentes versos, mas que dão conta exata da dimensão que a poesia assumiria em minha existência: “Pedaços da minha vida/ Parte do meu caminho/ Meu mundo/ Páginas onde sofro/ Páginas onde sonho.”

2) A produção literária brasileira contemporânea sofre com a pressão dos meios digitais e das novas mídias. Qual é o reflexo disso na concepção de projetos editoriais?
GF
– Não percebo as coisas dessa forma. Antes ela interage. Com a tecnologia, inúmeras editoras estão se especializando em livros com pequenas tiragens, e isso é muito bom para o autor. Veja o boom dos blogues, é estimulante, pois neles há muita coisa boa. Pipocam publicações digitais de obras que fazem parte do domínio público e que podemos baixar pela internet sem pagarmos um só centavo. Mesmo com isso, edições de obras como Espumas Flutuantes ou Dom Casmurro continuam sendo vendidas e cada vez mais lidas.
Quanto aos projetos editoriais, sem uma editora que encampe um projeto, o que nos resta é a busca pelo financiamento público ou privado. E olha, nunca houve tanto dinheiro para o financiamento do fazer literário e para publicação do livro no país. O que falta são pessoas melhor preparadas para irem buscar esses recursos.

3) Para quem admira a literatura brasileira Ilhéus e toda a produção grapiúna são associadas ao escritor Jorge Amado. Como é atualmente absorvida em Ilhéus a obra de Amado? E quais outros expoentes da prosa baiana representam Ilhéus na literatura brasileira?
GF
– Moro aqui na Bahia desde 1993. Primeiramente em Salvador, e a partir de 2007 entre Ilhéus e Itabuna. Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com “O País do Carnaval”, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira.
Costumo dizer que na literatura baiana, tanto na prosa como na poesia, o Século XX foi dos autores grapiúnas.

4) A atividade cultural brasileira carece de profissionalismo? Fale um pouco dos projetos culturais que você desenvolve na Bahia...
GF
– Carece sim, e está mais evidente pelo interior do Brasil. O Ministério da Cultura está fazendo um esforço para diminuir esse problema, mas a dificuldade ainda é grande. Entretanto, a pessoa que pretende viver daquilo que produz, em qualquer segmento, precisa ser profissional e empreendedor. Isso não difere no âmbito da cultura.
Quanto aos projetos culturais que desenvolvo aqui na Bahia, o que posso te dizer é que já fiz algumas coisas e continuo trabalhando. Fundei em Salvador e fui editor do tablóide literário SOPA. Promovi um encontro literário semanal, Soltando o Verbo, onde escritores palestraram sobre suas obras e questões fundamentais ligadas ao fazer literário. Também fui o editor da revista Poesia & Afins. Após essa fase comecei a escrever para sites e publicações especializadas em literatura. Recentemente promovi em Ilhéus o Rock & Poesia onde, durante quatro semanas consecutivas, um poeta se apresentou acompanhado por uma banda. Foi tão bom e inusitado que vamos reeditar por mais oito semanas entre os meses de Julho e Agosto.
Estudo a poesia feita por autores baianos no Século XX e o haikai na Bahia. Tenho o apoio da editora da nossa universidade e de uma editora privada aqui da região, a Via Litterarum, que costumam se envolver nos projetos que desenvolvo. Desse modo ajudei na recuperação e publicação da obra de diversos poetas que precisavam ser revistos e fiz publicar Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna. Atualmente sou um dos diretores da Fundação Cultural de Ilhéus.

5) Comente o seu processo criativo, por que você optou pela poesia e não pela prosa?
GF
– Não creio que uma pessoa opte por ser poeta. Nasce-se poeta. Além de estudar a obra de grandes teóricos, ainda fiz oficinas de versificação e estética com alguns mestres. Isso facilitou meu entendimento e prática. Hoje me dedico tanto à poesia dita universal, quando à Literatura de Cordel, pela qual sou totalmente apaixonado. Parece algo fora de lugar, mas em 2009, além de vencer o Prêmio Bahia de Todas as Letras na categoria Poesia, também venci na de Cordel. Minha prosa é o ensaio e o botequim.

6) Como você avalia o comportamento do poeta contemporâneo? Te incomoda o excesso de expressões de outros idiomas em versos de brasileiros?
GF
– Essa tal de pós-modernidade é uma coisa com a qual devemos ter cuidado. Na literatura, seus indícios mais violentos são as reverberações do modernismo, um movimento, a meu ver, fundamentalista. Os néscios falam da contribuição do modernismo, apontam o sentido de brasilidade, o verso livre e a linguagem coloquial. Eis uma grande falácia, um golpe apoiado pelas universidades, também repleta de néscios em suas cadeiras. Em verdade, essas mudanças já vinham sendo percebidas na literatura brasileira, na obra, por exemplo, de Manuel Bandeira, bem antes de 22. Aqui na Bahia desde a primeira década do século passado os poetas da revista Nova Cruzada já utilizavam tais elementos em seus poemas. Mas os modernistas, me parece, desconheciam esse fato. Esse processo veio da França, via Baudelaire, Rimbaud e Verlaine, já havia acontecido nos Estados Unidos a partir da obra de Walt Whitman, e em Portugal com Fernando Pessoa. Como disse, tais elementos já vinham sendo incorporados pelos poetas brasileiros. Grassar o todo seria uma questão de tempo, mas teria que ser feito com responsabilidade e de maneira gradual. 22 prestou um desserviço à poesia brasileira que, à partir da “liberdade”, muitas vezes caiu no vulgarismo e na permissividade.

7) Você é um amante da literatura de cordel. Em São Paulo, pelo menos na região de Marília, quase não há cordelistas. Onde está o foco principal da produção de cordel no país, no Nordeste? Fale um pouco sobre esta modalidade textual.
GF
– O Cordel é oriundo da península ibérica, chegou ao Brasil via Portugal, juntamente com a colonização. No Brasil se desenvolveu mais claramente aqui no nordeste, mas há focos por todo país.
O nome “cordel” está ligado à forma de comercialização dos folhetos, originalmente pendurados em cordões. Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de Gil Vicente, por exemplo. Hoje, inúmeros dramaturgos nordestinos escrevem nesse formato. Os temas incluem desde fatos do cotidiano, causos, lendas, religião, entre outros. A vida e as lendas sobre Lampião é o tema mais recorrente. Em verdade, todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
Particularmente, tenho a honra de ser amigo e discípulo de grandes cordelistas baianos, a exemplo de Franklin Maxado Nordestino e Jotacê Freitas. Tenho inúmeros folhetos escritos, mas ainda não publiquei nenhum. Um deles escrevi juntamente com um grande amigo, o poeta Lourival Pereira Júnior, o Piligra, trata-se de A Peleja Virtual Entre Dois Vates Arretados. Foi esse folheto que venceu o Prêmio Bahia de Todas as Letras.

8) O Estado brasileiro, de uma certa forma, vem incentivando a literatura, seja através de edital de fomento, seja através da compra direta de grandes quantidades de livro, uma vez que, segundo a Câmara Brasileira do Livro, o governo brasileiro é o principal cliente de livros do mundo. Como você vê este antagonismo: um Estado que compra uma enorme quantidade de livros, mas uma população que reconhece que não gosta de ler?
GF
– Não gosta de ler porque não há incentivo familiar. Quem nunca ouviu dizer que educação vem do berço? O gosto pela leitura também deve vir. E de que outro modo poderia ser? O pior é que a imensa maioria dos professores não possui o hábito da leitura. Tempo pobre, escola pobre, homem pobre de reais valores... Não é à toa que no poema Casa Vazia, o formidável Alberto da Cunha Melo grafou: escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos.

9) Gustavo, fale um pouco sobre seus projetos para 2010, incluindo o projeto que pretende resgatar a obra de Osório Alves de Castro.
GF
– Pela Fundação Cultural meu maior desafio é a realização em Agosto da Festa Literária de Ilhéus. No campo pessoal pretendo publicar Dendê no Haikai, um ensaio que escrevi sobre o haikai na Bahia. Também estou cuidando da publicação de um livro de poemas de minha autoria. Pretendo levar ambas as obras para Marília no segundo semestre. Já a Coleção Osório Alves de Castro é uma realidade. Mas esse não é um projeto meu, senão de um coletivo de apaixonados pela obra do “home”, entre eles você, meu caro Ramon. Aliás, se não fosse você o projeto não decolaria. Meu papel foi o de convencer uma editora a entrar no projeto. O processo está adiantado, acredito que em 2011 nosso anseio será alcançado.


BLUES PARA MARÍLIA


Penso todos os dias em Marília.
Sobretudo penso em tudo que deixei por lá:
os companheiros de infância, minha mãe,
o pão caseiro feito pela Tia Vilder,
as férias em Panorama.
Penso principalmente no cheiro do café;
café bom das lavras da Fazenda Cascata.
Marília são flashes na memória:
os passeios pela Praça São Bento,
as visitas ao Paço Municipal.
Por isso esse velho Blues,
esse reverso n’alma,
o silêncio que revolve a voz
e o olhar demorado para as coisas sem sentido.

Marília é tudo que ainda sangra.

Ilhéus
2009. X

4 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Boas falas.

Ramon Barbosa Franco disse...

Camarada Felicíssimo, como já disse em outra oportunidade: felicíssimo estou eu em poder conhecê-lo e mais ainda por conhecer a boa literatura baiana, brasileira, que você me apresenta.
Tenho certeza de que Marília orgulha do seu talento, reconhece em você um legítimo diamante. Para mim, sua amizade é mais forte que um diamante. Um abraço, de Marília.

Hilton disse...

Bela entrevista, meu amigo! Estou pensando em retomar no segundo semestre minha série de entrevistas em meu blog. Se você tiver interesse gostaria de entrevistá-lo. Seria uma honra. E parabéns pelo artigo sobre o haicai na Zunái. Um abraço.

Paula Laranjeira disse...

De tudo que você disse na entrevista, duas verdades se fazem: o gosto da leitura vem do incentivo da família e o fato de a maioria dos professores não possuírem o hábito da leitura. Por tal, cada vez lemos menos, escrevemos menos e conhecemos menos a literatura universal, nacional, regional e local.
Confesso que graças as novas tecnologias essa lacuna vem sendo preenchida na vida de alguns sujeitos. È bom conhecer cada vez mais seu trabalho.
parabéns pela entrevista...

Abraços