quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Do que será que ele não gostou?

Caríssimos, o poeta Edson Cruz, baiano de Ilhéus, mas radicado em São Paulo, fez uma entrevista comigo para um projeto seu, e como não a publicou, faço eu mesmo as vezes. Do que será que ele não gostou?

O que é poesia para você?
O conceito de poesia é muito amplo, o que se transformou em um problema, justamente pela falta de valores dos seres no tempo atual. Parodiando Pessoa eu poderia dizer que há poesia bastante no pôr-do-sol em Itapuã, da mesma forma que em um assassinato. Vejam “Morte do leiteiro”, do Drummond. Agora, transformar essas matérias em um poema é que são elas...

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
Eu acredito, como Mário de Andrade, que o poeta é um ser fatalizado. Ou seja: nasce-se poeta. E por mais que se leia, caso o leitor não seja um poeta, jamais chegará a sê-lo. No máximo ele poderá ser um grande leitor e, se insistir, um poeta irregular, como a maioria, aliás. Ao poeta, aquele que diz a si mesmo e acredita não poder viver sem poesia, como sugere Rilke, cabe ler de maneira atenta os grandes artesãos do verso de todos os tempos, escolas e nacionalidades. Também ao poeta se pede estudo e dedicação, conhecimento formal, inclusive de versificação. Isso vale, também, àqueles que se dizem vanguardistas ou iconoclastas, pois não se pode desconstruir o que não se sabe construir. Aos admiradores do modernismo paulista eu diria que o verso é livre, mas nunca fora frouxo.

Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?
Os poetas que mais gosto e admiro são: o pernambucano Alberto da Cunha Melo, sobre o qual já produzi diversos ensaios. Toda a sua obra é importante para mim, mas se tiver que escolher algum poema dele eu escolheria “Casa Vazia”, onde diz: “Poema nenhum, nunca mais,/ será um acontecimento:/ escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos”. Que porrada, hein! Outro poeta de minha admiração é o baiano Ildásio Tavares. Ildásio, além de excelente poeta, possui uma obra vastíssima e é um grande mestre. Muitos poetas aqui da Bahia marcham nos finais de semana para sua casa a fim de se instrumentalizarem. O “home” sabe muito e eu tenho o privilégio da sua amizade. Também escrevi sobre sua obra e de sua lavra eu destaco o poema “Canto do Homem Cotidiano”, do qual trago aqui um excerto: “(...) Por isso eu canto a luta sem memória/ Desse homem que perde, e não se ufana/ De no rosário de derrotas várias/ E de omissões, e condições precárias/ Poder contar com uma só vitória/ Que não se exprime nas mentiras tantas/ Espirradas sem medo das gargantas/ Mas sim no que ele vence sem saber/ E não se orgulha, campeão na história/ Da eterna luta de sobreviver.”
E o que dizer de Bruno Tolentino? Um fora de série total, como poeta e como intelectual. Seu poema que mais me agrada é “Nihil Obstat”, que corre assim:

É preciso que a música aparente
no vaso harmonizado pelo oleiro
seja perfeitamente consistente
com o gesto interior, seu companheiro
e fazedor. O vaso encerra o cheiro
e os ritmos da terra e da semente
porque antes de ser forma foi primeiro
humildade de barro paciente.
Deus, que concebe o cântaro e o separa
da argila lentamente, foi fazendo
do meu aprendizado o Seu compêndio
de opacidades cada vez mais claras,
e com silêncios sempre mais esplêndidos
foi limando, aguçando o que escutara.

Como sou chegado à exegese, também leio alguns críticos, pelos mais variados motivos. Um livro fundamental para se prevenir contra a falta de valores que se alastra pela nossa poesia é “Gênios”, de Harold Bloom. Outro texto imperdível é ”A Arte de Escrever”, do Schopenhauer (a L&PM o lançou em versão de bolso). Também presto muita atenção no que diz Affonso Romano de Sant’Anna. Acho que é o bastante.

3 comentários:

jorge disse...

Não será possível saber o que ele não gostou?
Andei escrevendo um breve texto após observar (não sei se foi paranóia)o resultado de minhas respostas para o amigo Fabrício Brandão na DA.
Como vc bem sabe, não sou crítico literário, sou apenas leitor, mas não é por isso que não tenho minhas verdades e convicções (não definitivas - felizmente).
São reflexões sobre o fazer poético atual as quais vou enviá-lo para seu email pessoal.
Eu pensava que médico é bicho complicado.
Agora que comecei a conviver com artistas é que ví que é aí que o "bicho pega pra valer".
Toda observação, crítica, resenha, deve ser analisada com um olhar mais amplo. Dele podemos tirar algo, de proveito ou não, é verdade.
Lembro-me bem de um de nossos primeiros contatos quando disse de minha receptividade as críticas.
Acho mesmo que devemos ser complacentes (naturalmente dentro de limites aceitáveis).
Mas penso que poucos são assim. Mas não o são, talvez, por que apenas assim suportam, se suportam, se mantém em pé, mantém de pé a estrutura que os sustenta.
Não digo isso como uma complementação ou resposta a questão do inicio do seu texto; digo por que é o que eu acredito que acontece com o homem.

Grande abraço,

Jorge

Gerana Damulakis disse...

Gostei bastante. E concordo totalmente no que toca a Ildásio, seus poemas são de primeira grandeza.

Rafael Noris disse...

Não vi nada de agressivo e também me pergunto agora sobre o porque de não ter sido publicado. Fora isso, fiquei maravilhado com os poetas que você citou que servem de referência, não os conhecia e, com certeza, perdia muito sem o saber. Abraço!