segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Micro entrevista com Cyro de Mattos

Que mais se pode dizer sobre a poesia de um autor a respeito da qual já se falou quase tudo e tão bem, uma poesia traduzida para diversos idiomas e premiada em importantes concursos nacionais e internacionais, senão exaltá-la? Por isso deixarei de falar sobre como a sua cidade, seu rio e sua gente emergem em sua poesia para que o próprio poeta (atual presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania) fale sobre tais aspectos nesta micro entrevista que é apenas um excerto de um diálogo maior que tive com o poeta e que fará parte do meu livro ensaístico sobre a obra de poetas do sul da Bahia, a ser lançado em breve. Espero que gostem!

Gustavo Felicíssimo – Poeta, de que modo você percebe a sua cidade, sua gente e seu rio emergirem na sua poesia?
Cyro de Mattos
– Com alma e sentimento do mundo. É como se o ontem fosse o hoje na transcendência de um instante. Contente do amor que tenho por minhas origens, é no espírito e coração que vai topar a indesejada quando me despojar em tudo que ela gosta.

GF – Qual o papel que as memórias da infância, esse seu “patrimônio imaterial”, exerce no seu processo criativo?
CM
– Vestem-me de sonho fazendo surgir o menino que está em mim por toda a extensão da pele. Sempre me ofertam pedaços de infância que os adultos trancaram na alma. Assim decepções e incompreensões cedem lugar à inocência na aventura da vida, através do milagre que só a poesia consegue fazer. “Veja aí o que digo no poema inédito “Uma Canção”: “Uma canção de Itabuna/ Ressoa nessa estrada,/ A essa altura comprida,/ Vem de dentro da infância,/ Nesses ventos da aventura.// Pelejando nos campinhos,/ Festejando nos quintais,/ São meninos como sonho,/ Cada um quer ser herói,/ Nesses ventos da esperança.// Todos eles um rio conhece/ Nos mergulhos do verão,/ Nos acenos da aurora/ Que desponta radiante/ Nesses ventos da ilusão.”

GF – Você já examinou os caminhos que o levam a escrever?
CM
– Para liberar angústias e perguntar sobre a vida. Para completar-me porque a vida é falha. É uma necessidade de ser solidário com aquele que me vai ler. De ser útil. Penso também que é uma missão que Deus me deu. Muita gente pensa que é fácil escrever quando se tem o dom. Não é bem assim. É ato de solidão na constante canção do viver, às vezes alegre porque também existem as flores. E depois que o livro está pronto publicá-lo é sempre complicado. O escritor é a única criatura neste mundo que pare o mesmo filho duas vezes. O primeiro parto acontece quando conclui o livro, o segundo, na sua publicação. Os dois caminhos que levam a cada parto sempre são marcados de apreensões, esperanças, desejos. Sei que a poesia não resolve os problemas econômicos, políticos, jurídicos, sociais e religiosos. Mas a gente cresce interiormente quando se emociona ao ler um poema verdadeiro. E a poesia não quer nada em troca, apenas a cumplicidade do outro, do leitor em busca das descobertas e sustos esplêndidos que a vida oferece. Viver sem a esperança de brotar como verso-semente do amor em cada um é mesmo impossível.

Dois poemas do autor

O menino e o mar

Era a primeira vez
Que tinha ido ver o mar.
Todo alegre, de calção,
Peito nu e pé no chão.

Quando viu tanta água
Fazendo barulho
Sem parar, disse:

- Pai, me dê sua mão.


Rio Cachoeira

Havia o fragor de espumas,
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.

Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.

Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.

Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.

O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.

3 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Maravilha encontrar algumas palavras de meu querido amigo Cyro. Poeta conhecedor do sentimento do mundo, contista de primeira, premiadíssimo, nosso Cyro é um orgulho para a Bahia.
Abraço forte, Cyro. Beije Mariza.

naynara disse...

Cyro fala o tempo todo poeticamente, sente tudo universalmente, quanta beleza! quanta simplicidade! Um abraço para ele!

Mai disse...

Aplausos e reverência.
Excelente entrevista.



Ainda estou por aqui.