A pedido de Gerana Damulakis
ao olhar do travesti
confesso
não resisti
sábado, 28 de novembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Dois haikais de Sérgio Marinho
Um dos principais cultores do haicai na Bahia é Sérgio Marinho, foi ele quem me falou pela primeira vez sobre essa forma poética. Sua obra anda dispersa e pouco publicada em nossos veículos especializados, pois ao que nos parece, o poeta é uma exceção. Avesso às publicações, sequer tem o cuidado de catalogar seus poemas que ficam guardados exclusivamente na memória. Também são raras as oportunidades de vê-lo recitar em público.
São de sua lavra os seguintes haikais:
todos os meus ais
cabem
num hai-kai
***
em matéria de vôo
tira de letra
a borboleta
São de sua lavra os seguintes haikais:
todos os meus ais
cabem
num hai-kai
***
em matéria de vôo
tira de letra
a borboleta
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Somos todos pós-modernos?
Escrito por Frei Betto
A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?
Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.
Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às "irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.
Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.
A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. O pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.
Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.
O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.
O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.
O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.
O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.
A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.
A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser e as nossas imagens que a existência real.
(*) Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.
A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?
Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.
Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às "irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.
Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.
A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. O pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.
Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.
O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.
O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.
O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.
O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.
A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.
A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser e as nossas imagens que a existência real.
(*) Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.
sábado, 21 de novembro de 2009
Fragmentos de entrevista sobre haikai que concedi a Jiddu Saldanha
3 - Você acha possível manter o foco no haikai tradicional, considerando a variedade de gêneros praticados no Brasil?
GF – Sim, sem dúvida, entretanto, para o leitor comum, o haikai com rima e mais próximo do senryu é muito convidativo. O Paulo Franchetti, ao comentar o haikai de Guilherme de Almeida, afirma que este parece fracassar por conta da inserção do título, pois ele muitas vezes é determinante para seu entendimento e nos faz “reencontrar os limites da nossa própria tradição”. Concordo plenamente com ele. De tudo que vi em haikai, o título me parece ser mesmo o único artifício inserido no ocidente que é condenável. Por outro lado, se queremos um haikai marcadamente brasileiro, precisamos escrever mais sobre temas como o sertão, o futebol, o carnaval, samba, são João, maracatu, etc.
Os mais tradicionalistas dizem ainda que Issa, Busson e Basho, condenariam hoje a metáfora e a aliteração. Quem pode garantir? Contudo, é evidente que há recursos dispensáveis, mas me parece que há um ganho considerável para quem sabe utilizá-los bem. Contrariando alguns, eu diria que o haikai é um só, assim como o soneto ou a redondilha é uma só. A questão escolástica apenas mostra como é rica e diversa a poesia em si.
4 – O que você considera um bom haikai?
GF – Para um crítico honesto é impossível estabelecer o que é um bom haikai, pois são tantas as variantes. Cada um poderá estabelecer parâmetros de acordo com a estética que mais valoriza ou gosta, mas isso ainda é pouco, é preciso olhar o todo. Prefiro buscar perceber se o autor em questão, no conjunto de sua obra, demonstra possuir maior ou menor grau de consciência literária. Se ele executa bem aquilo a que se propõe e tem o que dizer, então, teremos um bom haikai.
Assim como há bons e maus poetas, há bons e maus críticos, mas estes jamais conseguirão grassar o todo. Fico com Shelley, para quem “os poetas são os autênticos juízes dos poetas dentro do tempo”.
5 – Na tua percepção, quem são hoje os nomes que merecem destaque como bons criadores de haikais?
GF – Não entendo porque muita gente se nega a responder diretamente esse tipo de pergunta. Além de poetas de gerações passadas, como Oldegar Franco Vieira e Abel Pereira, gosto muito de Anibal Beça. Aliás, fico muito feliz que um texto que escrevi sobre “Folhas da selva” tenha levado alguns leitores a buscarem o livro diretamente com o autor ou na internet. Dele, destaco o seguinte haicai:
Quando o gongo bate
é hora que aflora a espora
do galo em combate.
Também gosto de Saulo Mendonça, um poeta paraibano de muito talento e discernimento lírico. Aliás, ele escreveu um “haigato” que eu gostaria de ter escrito:
Um gato dorme
sobre a balança:
sono pesado.
Saulo foi uma grande leitura que fiz neste ano de 2009. Também escrevi sobre sua poesia, o texto foi bastante publicado em sites especializados e publicações literárias. Ainda o José Marins e a Teruko Oda gozam da minha admiração. Na área ensaística é inegável a contribuição do Paulo Franchetti e do Carlos Verçosa para a firmação do haikai no Brasil.
Três haikai que compus recentemente
vivo a ordenhar
as pedras do meu jardim –
minerais poemas.
ardendo em desejos
se inflama a gatinha em chamas –
ásperos gracejos.
esforço tremendo –
uma gaivota insistente
vai vencendo o vento.
GF – Sim, sem dúvida, entretanto, para o leitor comum, o haikai com rima e mais próximo do senryu é muito convidativo. O Paulo Franchetti, ao comentar o haikai de Guilherme de Almeida, afirma que este parece fracassar por conta da inserção do título, pois ele muitas vezes é determinante para seu entendimento e nos faz “reencontrar os limites da nossa própria tradição”. Concordo plenamente com ele. De tudo que vi em haikai, o título me parece ser mesmo o único artifício inserido no ocidente que é condenável. Por outro lado, se queremos um haikai marcadamente brasileiro, precisamos escrever mais sobre temas como o sertão, o futebol, o carnaval, samba, são João, maracatu, etc.
Os mais tradicionalistas dizem ainda que Issa, Busson e Basho, condenariam hoje a metáfora e a aliteração. Quem pode garantir? Contudo, é evidente que há recursos dispensáveis, mas me parece que há um ganho considerável para quem sabe utilizá-los bem. Contrariando alguns, eu diria que o haikai é um só, assim como o soneto ou a redondilha é uma só. A questão escolástica apenas mostra como é rica e diversa a poesia em si.
4 – O que você considera um bom haikai?
GF – Para um crítico honesto é impossível estabelecer o que é um bom haikai, pois são tantas as variantes. Cada um poderá estabelecer parâmetros de acordo com a estética que mais valoriza ou gosta, mas isso ainda é pouco, é preciso olhar o todo. Prefiro buscar perceber se o autor em questão, no conjunto de sua obra, demonstra possuir maior ou menor grau de consciência literária. Se ele executa bem aquilo a que se propõe e tem o que dizer, então, teremos um bom haikai.
Assim como há bons e maus poetas, há bons e maus críticos, mas estes jamais conseguirão grassar o todo. Fico com Shelley, para quem “os poetas são os autênticos juízes dos poetas dentro do tempo”.
5 – Na tua percepção, quem são hoje os nomes que merecem destaque como bons criadores de haikais?
GF – Não entendo porque muita gente se nega a responder diretamente esse tipo de pergunta. Além de poetas de gerações passadas, como Oldegar Franco Vieira e Abel Pereira, gosto muito de Anibal Beça. Aliás, fico muito feliz que um texto que escrevi sobre “Folhas da selva” tenha levado alguns leitores a buscarem o livro diretamente com o autor ou na internet. Dele, destaco o seguinte haicai:
Quando o gongo bate
é hora que aflora a espora
do galo em combate.
Também gosto de Saulo Mendonça, um poeta paraibano de muito talento e discernimento lírico. Aliás, ele escreveu um “haigato” que eu gostaria de ter escrito:
Um gato dorme
sobre a balança:
sono pesado.
Saulo foi uma grande leitura que fiz neste ano de 2009. Também escrevi sobre sua poesia, o texto foi bastante publicado em sites especializados e publicações literárias. Ainda o José Marins e a Teruko Oda gozam da minha admiração. Na área ensaística é inegável a contribuição do Paulo Franchetti e do Carlos Verçosa para a firmação do haikai no Brasil.
Três haikai que compus recentemente
vivo a ordenhar
as pedras do meu jardim –
minerais poemas.
ardendo em desejos
se inflama a gatinha em chamas –
ásperos gracejos.
esforço tremendo –
uma gaivota insistente
vai vencendo o vento.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Micro entrevista com Maria da Conceição Paranhos
GF – Como a senhora conceitua a poesia e o poema em si?
MCP – Poesia é viver o mundo como se o inaugurasse, seria uma definição? Poesia é prazer de fonemas rolando na boca e criando sons, significações, expressão do mundo experienciado pela voz por detrás do eu poético. Poema é lua-de-mel com linguagem e língua nativa, os manes observando, intervindo e aconselhando num círculo de formas e significações de amores idos e vividos, digamos assim, para designar os poetas e artistas que nos cercaram desde sempre. Poema é também inauguração – da linguagem desta vez.
GF – Em que pese ter trazido maior liberdade e certo sentido de brasilidade à nossa poesia, o Modernismo, por outro lado, segundo alguns dos seus críticos, também nos prestou algum desserviço, propiciando justamente a partir dessa liberdade, que se caísse na permissividade e no vulgarismo. Como a senhora vê essa questão?
MCP – O Modernismo no Brasil foi um artefato de vanguarda de programação. Houve incalculáveis perdas e mal-entendidos que persistem, a exemplo do que se pensa ser poesia – verso livre, poema curto, poema-piada – que preexistiam, aliás, de modo não programático. Em verdade, o momento histórico de maior liberdade formal e inventividade na poesia – inclusive a brasileira – foi o Romantismo, como estilo de época, claro. O repúdio modernista ao Parnasianismo, ao Simbolismo e ao próprio Romantismo se foi benéfico no que diz respeito ao epigonismo, foi e é lamentável enquanto desfeiteia a face espaço-temporal da poesia e a faz ahistórica, distanciando-a, portanto, do pulsar expressional autenticamente brasileiro. Claro, o Modernismo de programação, em termos de avaliação crítica de suas três fases (conforme a historiografia brasileira divisou), não consegue abafar a voz dos verdadeiros poetas, mesmo daqueles como Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Jorge de Lima – que se forçaram a ser modernistas à la carte.
GF – A chamada pós-modernidade e a ditadura midiática chegam a te apavorar?
MCP – Por que o fariam? Vivemos mergulhados nesse caldo sócio-artístico-cultural e assim nos movemos – de modo crítico desejavelmente, sem que nossa percepção amorteça com os chavões já estratificados da pós-modernidade palradora ou a anestesia da mídia.
Dois poemas da autora
SEGUNDA-FEIRA
Em: Sonetos de uma Semana Perfeita (inédito)
A quem não foder bem cá neste mundo
há castigos previstos em triste averno,
e por salvar-te aqui do mal profundo
vai logo te afastando desse inferno.
Corre, ó Amado, deste mal imundo,
e entrai a salvo no meu paraíso,
pois foder é sinal de muito siso –
neste penar da vida, é bem jocundo.
Devêssemos guardar a castidade,
para que Deus nos daria o tesão,
se não para foder com liberdade?
Não duraremos para a eternidade:
se as horas do prazer só vêm e vão,
fodamos já, que é curta a nossa idade.
Quatro sonetos cardinais
(Poema Nº 4)
Teu dormir só suscita meu desejo,
pois eu, então, vejo tua chama insone –
corcel insano em desandado trote,
que me galope enquanto ainda sonho
com toda a lava que nos cobre e me arde
em fronha de cetim que se entreabre
ao corpo túrgido, encerrado, dentro,
rasgando a pele – em gana transformado,
rugindo rouquidão. Mucosa ávida,
escancarando-se a teu beijo álacre,
cortante gládio a lacerar-me o gáudio.
Com lassa boca, plena de alvoradas,
eu te derroto quando, exausto, tombas,
e eu te profano com meu terno afago.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Micro entrevista com Cyro de Mattos
Que mais se pode dizer sobre a poesia de um autor a respeito da qual já se falou quase tudo e tão bem, uma poesia traduzida para diversos idiomas e premiada em importantes concursos nacionais e internacionais, senão exaltá-la? Por isso deixarei de falar sobre como a sua cidade, seu rio e sua gente emergem em sua poesia para que o próprio poeta (atual presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania) fale sobre tais aspectos nesta micro entrevista que é apenas um excerto de um diálogo maior que tive com o poeta e que fará parte do meu livro ensaístico sobre a obra de poetas do sul da Bahia, a ser lançado em breve. Espero que gostem!Gustavo Felicíssimo – Poeta, de que modo você percebe a sua cidade, sua gente e seu rio emergirem na sua poesia?
Cyro de Mattos – Com alma e sentimento do mundo. É como se o ontem fosse o hoje na transcendência de um instante. Contente do amor que tenho por minhas origens, é no espírito e coração que vai topar a indesejada quando me despojar em tudo que ela gosta.
GF – Qual o papel que as memórias da infância, esse seu “patrimônio imaterial”, exerce no seu processo criativo?
CM – Vestem-me de sonho fazendo surgir o menino que está em mim por toda a extensão da pele. Sempre me ofertam pedaços de infância que os adultos trancaram na alma. Assim decepções e incompreensões cedem lugar à inocência na aventura da vida, através do milagre que só a poesia consegue fazer. “Veja aí o que digo no poema inédito “Uma Canção”: “Uma canção de Itabuna/ Ressoa nessa estrada,/ A essa altura comprida,/ Vem de dentro da infância,/ Nesses ventos da aventura.// Pelejando nos campinhos,/ Festejando nos quintais,/ São meninos como sonho,/ Cada um quer ser herói,/ Nesses ventos da esperança.// Todos eles um rio conhece/ Nos mergulhos do verão,/ Nos acenos da aurora/ Que desponta radiante/ Nesses ventos da ilusão.”
GF – Você já examinou os caminhos que o levam a escrever?
CM – Para liberar angústias e perguntar sobre a vida. Para completar-me porque a vida é falha. É uma necessidade de ser solidário com aquele que me vai ler. De ser útil. Penso também que é uma missão que Deus me deu. Muita gente pensa que é fácil escrever quando se tem o dom. Não é bem assim. É ato de solidão na constante canção do viver, às vezes alegre porque também existem as flores. E depois que o livro está pronto publicá-lo é sempre complicado. O escritor é a única criatura neste mundo que pare o mesmo filho duas vezes. O primeiro parto acontece quando conclui o livro, o segundo, na sua publicação. Os dois caminhos que levam a cada parto sempre são marcados de apreensões, esperanças, desejos. Sei que a poesia não resolve os problemas econômicos, políticos, jurídicos, sociais e religiosos. Mas a gente cresce interiormente quando se emociona ao ler um poema verdadeiro. E a poesia não quer nada em troca, apenas a cumplicidade do outro, do leitor em busca das descobertas e sustos esplêndidos que a vida oferece. Viver sem a esperança de brotar como verso-semente do amor em cada um é mesmo impossível.
Dois poemas do autor
O menino e o mar
Era a primeira vez
Que tinha ido ver o mar.
Todo alegre, de calção,
Peito nu e pé no chão.
Quando viu tanta água
Fazendo barulho
Sem parar, disse:
- Pai, me dê sua mão.
Rio Cachoeira
Havia o fragor de espumas,
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.
Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.
Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.
Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.
O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.
domingo, 15 de novembro de 2009
Cyro de Mattos tem obra publicada na Alemanha
A tradução é de Curt Meyer-Clason
O sul baiano, onde o autor nasceu e reside, serve de motivação aos poemas reunidos na coletânea.
Contista, novelista, poeta, cronista, ensaísta, autor de livros infanto-juvenis e organizador de antologias. Dono de uma vasta experiência no universo literário, Cyro de Mattos publica mais um título que brinda a literatura grapiúna e também leva riqueza cultural à Alemanha. “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, ou simplesmente “Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas”, é uma coletânea que foi publicada recentemente pela Projekte-Verlag, em Halle, Alemanha, com a tradução de Curt Meyer-Clason.
Na primeira parte do livro, intitulada Zwanzig Gedichte von Rio (Vinte Poemas do Rio), o poeta revisita e transfigura o rio Cachoeira, que divide sua cidade natal (Itabuna) em duas partes, quando então havia nele areeiros, pescadores, lavadeiras e aguadeiros. Assim, o seu discurso poético mergulha na infância de uma gente ribeirinha, usando para isso uma dicção líquida em uma espécie de recuperação do tempo perdido. Como ressaltou o crítico e poeta Fernando Py, Mattos é “conciso na expressão e claro nas imagens que respondem pela eficácia poética do conjunto”.
Já na segunda parte da coletânea, Gesang Auf Unsere Liebe Frau von Den Waldern, Canto a Nossa Senhora das Matas, percebe-se que vários poemas obedecem a um projeto ecopoético, no sentido primordial em que insere o leitor no centro do mundo, no qual o discurso do poeta está visceralmente relacionado com a natureza, cujos elementos vêm sendo gritantemente ofendidos pelo homem nos tempos atuais. Em sua terceira parte a coletânea em alemão inclui cinco poemas infantis, sob a denominação Kindergedichte, Poemas infantis. O livro também traz foto e biografia resumida do poeta que já obteve no Brasil e exterior alguns prêmios de relevo, como o Prêmio Nacional Ribeiro Couto (UBE/Rio), Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Finalista do Prêmio Jabuti (três vezes) e Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, além de estar presente em mais de 45 antologias importantes do conto e poesia, no Brasil, em Portugal, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos.
Talento mágico
Segundo Cyro de Mattos, ele enviou há seis anos para Curt Meyer Clason primeiramente seu livro “Vinte Poemas do Rio” e, a seguir, “Cancioneiro do Cacau”. Recebeu, então, do consagrado tradutor alemão não só a tradução de vários poemas bem como a opinião seguinte: “Li e reli seus poemas com os sentidos encantados e admirado pelo seu talento mágico.”
Sobre Cyro de Mattos Jorge Amado pronunciou-se dizendo: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Cyro de Mattos, tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”.
O sul baiano, onde o autor nasceu e reside, serve de motivação aos poemas reunidos na coletânea.Contista, novelista, poeta, cronista, ensaísta, autor de livros infanto-juvenis e organizador de antologias. Dono de uma vasta experiência no universo literário, Cyro de Mattos publica mais um título que brinda a literatura grapiúna e também leva riqueza cultural à Alemanha. “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, ou simplesmente “Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas”, é uma coletânea que foi publicada recentemente pela Projekte-Verlag, em Halle, Alemanha, com a tradução de Curt Meyer-Clason.
Na primeira parte do livro, intitulada Zwanzig Gedichte von Rio (Vinte Poemas do Rio), o poeta revisita e transfigura o rio Cachoeira, que divide sua cidade natal (Itabuna) em duas partes, quando então havia nele areeiros, pescadores, lavadeiras e aguadeiros. Assim, o seu discurso poético mergulha na infância de uma gente ribeirinha, usando para isso uma dicção líquida em uma espécie de recuperação do tempo perdido. Como ressaltou o crítico e poeta Fernando Py, Mattos é “conciso na expressão e claro nas imagens que respondem pela eficácia poética do conjunto”.
Já na segunda parte da coletânea, Gesang Auf Unsere Liebe Frau von Den Waldern, Canto a Nossa Senhora das Matas, percebe-se que vários poemas obedecem a um projeto ecopoético, no sentido primordial em que insere o leitor no centro do mundo, no qual o discurso do poeta está visceralmente relacionado com a natureza, cujos elementos vêm sendo gritantemente ofendidos pelo homem nos tempos atuais. Em sua terceira parte a coletânea em alemão inclui cinco poemas infantis, sob a denominação Kindergedichte, Poemas infantis. O livro também traz foto e biografia resumida do poeta que já obteve no Brasil e exterior alguns prêmios de relevo, como o Prêmio Nacional Ribeiro Couto (UBE/Rio), Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Finalista do Prêmio Jabuti (três vezes) e Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, além de estar presente em mais de 45 antologias importantes do conto e poesia, no Brasil, em Portugal, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos.
Talento mágico
Segundo Cyro de Mattos, ele enviou há seis anos para Curt Meyer Clason primeiramente seu livro “Vinte Poemas do Rio” e, a seguir, “Cancioneiro do Cacau”. Recebeu, então, do consagrado tradutor alemão não só a tradução de vários poemas bem como a opinião seguinte: “Li e reli seus poemas com os sentidos encantados e admirado pelo seu talento mágico.”
Sobre Cyro de Mattos Jorge Amado pronunciou-se dizendo: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Cyro de Mattos, tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”.
sábado, 14 de novembro de 2009
UMA BURCA PARA GEISY
a incrível história da moça que foi esculachada numa faculdade paulista por andar de mini saia. se fosse aqui na Bahia ela seria colocada num altar.
I
Quando Geisy apareceu
Balançando o mucumbu
Na Faculdade Uniban,
Foi o maior sururu:
Teve reza e ladainha;
Não sabia que uma calcinha
Causava tanto rebu.
II
Trajava um mini-vestido,
Arrochado e cor de rosa;
Perfumada de extrato,
Toda ancha e toda prosa,
Pensou que estava abafando
E ia ter rapaz gritando:
"Arrocha a tampa, gostosa!"
III
Mas Geisy se enganou,
O paulista é acanhado:
Quando vê lance de perna,
Fica logo indignado.
Os motivos eu não sei,
Mas pra passeata gay
Vai todo mundo animado!
IV
Ainda na escadaria,
Só se ouvia a estudantada
Dando urros, dando gritos,
Colérica e indignada
Como quem vai para a luta,
Chamando-a de prostituta
E de mulherzinha safada.
V
Geisy ficou acuada,
Num canto, triste a chorar,
Procurou um agasalho
Para cobrir o lugar,
Quando um rapaz inocente
Disse: "oh troço mais indecente,
Acho que vou desmaiar!"
VI
A Faculdade Uniban,
Que está em último lugar
Nas provas que o MEC faz,
Quis logo se destacar:
Decidiu no mesmo instante
Expulsar a estudante
Do seu quadro regular.
VII
Totalmente escorraçada,
Sem ter mais onde estudar,
Geisy precisa de ajuda
Para a vida retomar,
Mas na novela das oito
É um tal de molhar biscoito
E ninguém pra reclamar.
VIII
O fato repercutiu
De Paris até Omã.
Soube que Ahmadinejad
Festejou lá no Irã,
Foi uma festa de arromba
Com direito a carro-bomba
Da milícia Talibã.
IX
E o rico Osama Bin Laden,
Agradecendo a Alá,
Nas montanhas cazaquistãs
Onde foi se homiziar
Com uma cigana turca,
Mandou fazer uma burca
Para a brasileira usar.
X
Fica pra Geisy a lição
Desse poeta matuto:
Proteja seu bom guardado
Da cólera dos impolutos,
Guarde bem o tacacá
E só resolva mostrar
A quem gosta do produto.
Miguezim de Princesa
I
Quando Geisy apareceu
Balançando o mucumbu
Na Faculdade Uniban,
Foi o maior sururu:
Teve reza e ladainha;
Não sabia que uma calcinha
Causava tanto rebu.
II
Trajava um mini-vestido,
Arrochado e cor de rosa;
Perfumada de extrato,
Toda ancha e toda prosa,
Pensou que estava abafando
E ia ter rapaz gritando:
"Arrocha a tampa, gostosa!"
III
Mas Geisy se enganou,
O paulista é acanhado:
Quando vê lance de perna,
Fica logo indignado.
Os motivos eu não sei,
Mas pra passeata gay
Vai todo mundo animado!
IV
Ainda na escadaria,
Só se ouvia a estudantada
Dando urros, dando gritos,
Colérica e indignada
Como quem vai para a luta,
Chamando-a de prostituta
E de mulherzinha safada.
V
Geisy ficou acuada,
Num canto, triste a chorar,
Procurou um agasalho
Para cobrir o lugar,
Quando um rapaz inocente
Disse: "oh troço mais indecente,
Acho que vou desmaiar!"
VI
A Faculdade Uniban,
Que está em último lugar
Nas provas que o MEC faz,
Quis logo se destacar:
Decidiu no mesmo instante
Expulsar a estudante
Do seu quadro regular.
VII
Totalmente escorraçada,
Sem ter mais onde estudar,
Geisy precisa de ajuda
Para a vida retomar,
Mas na novela das oito
É um tal de molhar biscoito
E ninguém pra reclamar.
VIII
O fato repercutiu
De Paris até Omã.
Soube que Ahmadinejad
Festejou lá no Irã,
Foi uma festa de arromba
Com direito a carro-bomba
Da milícia Talibã.
IX
E o rico Osama Bin Laden,
Agradecendo a Alá,
Nas montanhas cazaquistãs
Onde foi se homiziar
Com uma cigana turca,
Mandou fazer uma burca
Para a brasileira usar.
X
Fica pra Geisy a lição
Desse poeta matuto:
Proteja seu bom guardado
Da cólera dos impolutos,
Guarde bem o tacacá
E só resolva mostrar
A quem gosta do produto.
Miguezim de Princesa
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Um belo poema para Ilhéus
A notícia ruim é que não encontro uma única referência sobre seu autor


Ilhéus
Melo Barreto Filho
Ilhéus é uma esperança permanente
Voltada para o azul sem fim dos mares.
É a Princesa do Sul, proclama, crente,
Quem lhe sabe a doçura dos seus lares.
Ilhéus é uma certeza que o Presente,
Sacerdote do tempo – em seus altares
Oferece ao futuro onipotente,
Visão maravilhosa dos palmares!
Ah! Quantas seduções Ilhéus encerra!
E o peregrino, seduzido, anseia.
Desvendar-lhe os encantos da cidade...
E antes que o peregrino alcance a terra,
Unhão... Pontal... A terra amiga o enleia
Num amplo abraço de hospitalidade!
Melo Barreto Filho
Ilhéus é uma esperança permanente
Voltada para o azul sem fim dos mares.
É a Princesa do Sul, proclama, crente,
Quem lhe sabe a doçura dos seus lares.
Ilhéus é uma certeza que o Presente,
Sacerdote do tempo – em seus altares
Oferece ao futuro onipotente,
Visão maravilhosa dos palmares!
Ah! Quantas seduções Ilhéus encerra!
E o peregrino, seduzido, anseia.
Desvendar-lhe os encantos da cidade...
E antes que o peregrino alcance a terra,
Unhão... Pontal... A terra amiga o enleia
Num amplo abraço de hospitalidade!
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