terça-feira, 27 de abril de 2010

O mariliense grapiúna: a poesia viva de Felicíssimo

Entrevista concedida ao jornalista e escritor Ramon Barbosa Franco e publicada neste último domingo, 25, no Caderno 2 do Jornal da Manhã, de Marília, minha cidade natal.

Seu nome é Gustavo. Seu sobrenome Felicíssimo. Ele nasceu na rua Rio Claro, no bairro Cascata. Estudou no antigo colégio Tomás Antônio Gonzaga. Tomás Antônio Gonzaga não foi poeta? Não é o autor da época de Tiradentes, e assim como tal, inconfidente? Não escreveu ‘Marília de Dirceu’? Sim, Tomás era poeta e autor do poema que deu nome ao município de Marília, cidade natal de Gustavo Felicíssimo. Hoje ele anda feliz em outras terras, nas mesmas terras de cacau, de suor e da prosa de Jorge Amado: nas terras grapiúnas da Bahia, terras de todas as letras, poesia e romance.
Sua paixão pela leitura, pelos livros e pela poesia o levou a ser uma referência, uma mão-de-obra altamente qualificada para o mercado editorial e assim ele segue, trabalhando, estudando e escrevendo entre Ilhéus e Itabuna, percorrendo os locais que vivem nas obras de Amado, imortalizado pelas letras, pelo cinema e pela televisão.
“Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com ‘O País do Carnaval’, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira”, comentou Felicíssimo em entrevista que nasceu a partir de um homem cuja trajetória ligou Bahia e Marília: Osório Alves de Castro (1901-1978). Osório fez a migração Bahia-Marília, Gustavo Felicíssimo percorreu o inverso Marília-Bahia.
Ao deixar Marília, o poeta não deixou sua alma literária. Além de ser batizada por um poema, a cidade é um dos berços da imigração japonesa no país e um dos redutos do haikai. Não é à toda que bem no jardim da Prefeitura Municipal, além da estátua do dito benemérito Bento de Abreu, há um momento em homenagem aos imigrantes japoneses com o poema haikai de Tenson, um poeta imigrante de talento reconhecido no Japão. O poeta mariliense grapiúna vem ampliando a interpretação brasileira sobre o haikai, tudo graças aos seus estudos e textos sobre este micropoema japonês. Ainda neste ano Felicíssimo publicará ‘Dendê no Haikai’, ensaio sobre a evolução do haikai na Bahia. Outros projetos literários consistem na realização da Festa Literária de Ilhéus e o resgate da obra completa do alfaiate e romancista Osório. O projeto, encampado pela editora Via Litterarum, pretende publicar além das três obras do baiano que entre as décadas de 40 e 60 viveu em Marília (‘Porto Calendário’, ‘Maria Fecha Porta Prau Boi Não te Pegar’ e ‘Bahiano Tietê’), outras duas inéditas (‘Nhonhô Pedreira’ e ‘A cidade do velho’). Os manuscritos estão com a família e deverão ser cedidos para a editora.

Entrevista

1) Gustavo Felicíssimo, você é nascido em Marília e vive na Bahia. Conte um pouco da sua trajetória de vida na cidade e quando você passou a se interessar pela literatura?
GF
– Nasci na Rua Rio Claro, no bairro Cascata, onde passei toda a infância e adolescência. Estudei no Tomaz Antônio Gonzaga e fui interno do Educandário Bento de Abreu. Ali passei anos maravilhosos, dali trouxe para a vida princípios que são a base de todo ser humano e os utilizei quando me encontrava em risco social. Minha infância foi das mais ricas: empinava pipa, rodava pião, jogava bilboquê, tomava banho na represa da Fazenda Cascata, espantava bois e vivia como doido atrás de uma bola. Esse período sobrevive impresso na minha memória, por consequência, na minha poesia.
Meu interesse pela leitura vem dessa época, quando li obras como O menino do dedo verde, O sítio do pica-pau amarelo, O escaravelho do diabo. Entretanto, nada de poesia. Foi na Bahia que a descobri. Aqui minhas leituras foram ficando mais sofisticadas e mesmo sem nunca ter lido um único livro de poesia começava a rabiscar alguns versos, garatujas, como só assim poderiam ser naquele momento. Foi quando uma namorada presenteou-me um caderninho amarelo, de capa dura, que tenho até hoje guardado, sugerindo que ali anotasse meus escritos, pois desse modo, afirmava com razão, poderíamos perceber se haveria alguma evolução ao longo do tempo. Foi o que fiz. Depois daquele caderninho vieram outros, uns dez, todos conservados até hoje. No primeiro deles, nostalgicamente, leio os seguintes versos, inocentes versos, mas que dão conta exata da dimensão que a poesia assumiria em minha existência: “Pedaços da minha vida/ Parte do meu caminho/ Meu mundo/ Páginas onde sofro/ Páginas onde sonho.”

2) A produção literária brasileira contemporânea sofre com a pressão dos meios digitais e das novas mídias. Qual é o reflexo disso na concepção de projetos editoriais?
GF
– Não percebo as coisas dessa forma. Antes ela interage. Com a tecnologia, inúmeras editoras estão se especializando em livros com pequenas tiragens, e isso é muito bom para o autor. Veja o boom dos blogues, é estimulante, pois neles há muita coisa boa. Pipocam publicações digitais de obras que fazem parte do domínio público e que podemos baixar pela internet sem pagarmos um só centavo. Mesmo com isso, edições de obras como Espumas Flutuantes ou Dom Casmurro continuam sendo vendidas e cada vez mais lidas.
Quanto aos projetos editoriais, sem uma editora que encampe um projeto, o que nos resta é a busca pelo financiamento público ou privado. E olha, nunca houve tanto dinheiro para o financiamento do fazer literário e para publicação do livro no país. O que falta são pessoas melhor preparadas para irem buscar esses recursos.

3) Para quem admira a literatura brasileira Ilhéus e toda a produção grapiúna são associadas ao escritor Jorge Amado. Como é atualmente absorvida em Ilhéus a obra de Amado? E quais outros expoentes da prosa baiana representam Ilhéus na literatura brasileira?
GF
– Moro aqui na Bahia desde 1993. Primeiramente em Salvador, e a partir de 2007 entre Ilhéus e Itabuna. Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com “O País do Carnaval”, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira.
Costumo dizer que na literatura baiana, tanto na prosa como na poesia, o Século XX foi dos autores grapiúnas.

4) A atividade cultural brasileira carece de profissionalismo? Fale um pouco dos projetos culturais que você desenvolve na Bahia...
GF
– Carece sim, e está mais evidente pelo interior do Brasil. O Ministério da Cultura está fazendo um esforço para diminuir esse problema, mas a dificuldade ainda é grande. Entretanto, a pessoa que pretende viver daquilo que produz, em qualquer segmento, precisa ser profissional e empreendedor. Isso não difere no âmbito da cultura.
Quanto aos projetos culturais que desenvolvo aqui na Bahia, o que posso te dizer é que já fiz algumas coisas e continuo trabalhando. Fundei em Salvador e fui editor do tablóide literário SOPA. Promovi um encontro literário semanal, Soltando o Verbo, onde escritores palestraram sobre suas obras e questões fundamentais ligadas ao fazer literário. Também fui o editor da revista Poesia & Afins. Após essa fase comecei a escrever para sites e publicações especializadas em literatura. Recentemente promovi em Ilhéus o Rock & Poesia onde, durante quatro semanas consecutivas, um poeta se apresentou acompanhado por uma banda. Foi tão bom e inusitado que vamos reeditar por mais oito semanas entre os meses de Julho e Agosto.
Estudo a poesia feita por autores baianos no Século XX e o haikai na Bahia. Tenho o apoio da editora da nossa universidade e de uma editora privada aqui da região, a Via Litterarum, que costumam se envolver nos projetos que desenvolvo. Desse modo ajudei na recuperação e publicação da obra de diversos poetas que precisavam ser revistos e fiz publicar Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna. Atualmente sou um dos diretores da Fundação Cultural de Ilhéus.

5) Comente o seu processo criativo, por que você optou pela poesia e não pela prosa?
GF
– Não creio que uma pessoa opte por ser poeta. Nasce-se poeta. Além de estudar a obra de grandes teóricos, ainda fiz oficinas de versificação e estética com alguns mestres. Isso facilitou meu entendimento e prática. Hoje me dedico tanto à poesia dita universal, quando à Literatura de Cordel, pela qual sou totalmente apaixonado. Parece algo fora de lugar, mas em 2009, além de vencer o Prêmio Bahia de Todas as Letras na categoria Poesia, também venci na de Cordel. Minha prosa é o ensaio e o botequim.

6) Como você avalia o comportamento do poeta contemporâneo? Te incomoda o excesso de expressões de outros idiomas em versos de brasileiros?
GF
– Essa tal de pós-modernidade é uma coisa com a qual devemos ter cuidado. Na literatura, seus indícios mais violentos são as reverberações do modernismo, um movimento, a meu ver, fundamentalista. Os néscios falam da contribuição do modernismo, apontam o sentido de brasilidade, o verso livre e a linguagem coloquial. Eis uma grande falácia, um golpe apoiado pelas universidades, também repleta de néscios em suas cadeiras. Em verdade, essas mudanças já vinham sendo percebidas na literatura brasileira, na obra, por exemplo, de Manuel Bandeira, bem antes de 22. Aqui na Bahia desde a primeira década do século passado os poetas da revista Nova Cruzada já utilizavam tais elementos em seus poemas. Mas os modernistas, me parece, desconheciam esse fato. Esse processo veio da França, via Baudelaire, Rimbaud e Verlaine, já havia acontecido nos Estados Unidos a partir da obra de Walt Whitman, e em Portugal com Fernando Pessoa. Como disse, tais elementos já vinham sendo incorporados pelos poetas brasileiros. Grassar o todo seria uma questão de tempo, mas teria que ser feito com responsabilidade e de maneira gradual. 22 prestou um desserviço à poesia brasileira que, à partir da “liberdade”, muitas vezes caiu no vulgarismo e na permissividade.

7) Você é um amante da literatura de cordel. Em São Paulo, pelo menos na região de Marília, quase não há cordelistas. Onde está o foco principal da produção de cordel no país, no Nordeste? Fale um pouco sobre esta modalidade textual.
GF
– O Cordel é oriundo da península ibérica, chegou ao Brasil via Portugal, juntamente com a colonização. No Brasil se desenvolveu mais claramente aqui no nordeste, mas há focos por todo país.
O nome “cordel” está ligado à forma de comercialização dos folhetos, originalmente pendurados em cordões. Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de Gil Vicente, por exemplo. Hoje, inúmeros dramaturgos nordestinos escrevem nesse formato. Os temas incluem desde fatos do cotidiano, causos, lendas, religião, entre outros. A vida e as lendas sobre Lampião é o tema mais recorrente. Em verdade, todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
Particularmente, tenho a honra de ser amigo e discípulo de grandes cordelistas baianos, a exemplo de Franklin Maxado Nordestino e Jotacê Freitas. Tenho inúmeros folhetos escritos, mas ainda não publiquei nenhum. Um deles escrevi juntamente com um grande amigo, o poeta Lourival Pereira Júnior, o Piligra, trata-se de A Peleja Virtual Entre Dois Vates Arretados. Foi esse folheto que venceu o Prêmio Bahia de Todas as Letras.

8) O Estado brasileiro, de uma certa forma, vem incentivando a literatura, seja através de edital de fomento, seja através da compra direta de grandes quantidades de livro, uma vez que, segundo a Câmara Brasileira do Livro, o governo brasileiro é o principal cliente de livros do mundo. Como você vê este antagonismo: um Estado que compra uma enorme quantidade de livros, mas uma população que reconhece que não gosta de ler?
GF
– Não gosta de ler porque não há incentivo familiar. Quem nunca ouviu dizer que educação vem do berço? O gosto pela leitura também deve vir. E de que outro modo poderia ser? O pior é que a imensa maioria dos professores não possui o hábito da leitura. Tempo pobre, escola pobre, homem pobre de reais valores... Não é à toa que no poema Casa Vazia, o formidável Alberto da Cunha Melo grafou: escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos.

9) Gustavo, fale um pouco sobre seus projetos para 2010, incluindo o projeto que pretende resgatar a obra de Osório Alves de Castro.
GF
– Pela Fundação Cultural meu maior desafio é a realização em Agosto da Festa Literária de Ilhéus. No campo pessoal pretendo publicar Dendê no Haikai, um ensaio que escrevi sobre o haikai na Bahia. Também estou cuidando da publicação de um livro de poemas de minha autoria. Pretendo levar ambas as obras para Marília no segundo semestre. Já a Coleção Osório Alves de Castro é uma realidade. Mas esse não é um projeto meu, senão de um coletivo de apaixonados pela obra do “home”, entre eles você, meu caro Ramon. Aliás, se não fosse você o projeto não decolaria. Meu papel foi o de convencer uma editora a entrar no projeto. O processo está adiantado, acredito que em 2011 nosso anseio será alcançado.


BLUES PARA MARÍLIA


Penso todos os dias em Marília.
Sobretudo penso em tudo que deixei por lá:
os companheiros de infância, minha mãe,
o pão caseiro feito pela Tia Vilder,
as férias em Panorama.
Penso principalmente no cheiro do café;
café bom das lavras da Fazenda Cascata.
Marília são flashes na memória:
os passeios pela Praça São Bento,
as visitas ao Paço Municipal.
Por isso esse velho Blues,
esse reverso n’alma,
o silêncio que revolve a voz
e o olhar demorado para as coisas sem sentido.

Marília é tudo que ainda sangra.

Ilhéus
2009. X

domingo, 25 de abril de 2010

Meu poema "Radiografia", por Ivan Maia

No poema “Radiografia”, muito mais por dentro do que aconteceu de significativo na história, o poeta ainda não estava no mundo e, no entanto, hoje habita a consciência histórica de seu tempo munido das informações mais relevantes ao seu pensamento crítico.
Os feitos de grandes personagens, ainda que às vezes mantidos sob olhar neutralizador de suas influências, tornam-se matéria de uma poesia que se apropria dos acontecimentos para extrair-lhes um questionamento decisivo para nossas vidas: onde estávamos enquanto grandes feitos eram realizados, o que fazíamos de nossas vidas então?
A repercussão das grandes realizações depende daqueles que são responsáveis pela difusão de notícias e informações tanto quanto dos que a recebem e têm a função de digeri-las. E é desse modo que temos acesso à mensagem de Gustavo Felicíssimo nesse poema, que se destina, por um lado, às gerações mais novas, que ainda não estavam aqui quando muita coisa importante aconteceu e aos quais cabe apropriarem-se de tais acontecimentos através do interesse pela história dos seres que marcaram a vida de nossa gente. Por outro lado, essa mensagem paradoxal (não meramente contraditória, ou ambígua) também se dirige às gerações mais velhas que já estavam “aqui”, mas que em muitos casos não “estava nem aí” para o que ocorria de importante. E poderíamos, do mesmo modo, considerar ainda um terceiro sentido presente nos dois últimos versos, nos quais o poeta aponta para uma liberação necessária em relação ao sentido histórico, que pode ser útil à vida em seu movimento de auto-superação, mas do qual precisamos nos desprender para não ficarmos sobrecarregados por ele. Isso é o que permite uma leveza de espírito isenta de ingenuidade, pois possibilita incorporar o que do passado foi e é importante para o presente enquanto se prepara o porvir, ou seja, ir além de seu tempo.


RADIOGRAFIA

É para você que escrevo, hipócrita
Ana Cristina César

Eu não vi Chico Landi correr
nem o homem pisar na lua
Candeia sambou em cadeira de roda
mas isso eu também não vi
Eu não vi os socos no ar de Pelé
nem o vôo de Castilho
Lupicínio cantar Vingança, eu não vi
nem João desafinando
Eu não vi os POETAS NA PRAÇA
ou Geraldo Maia recitando Geração de Março
Charles Chaplin no Grande Ditador eu não vi
Nem Glauber, Deus e o Diabo
Eu não estava aqui
Eu não estava nem aí...

Ivan Maia
é poeta e Mestre em filosofia.

sábado, 24 de abril de 2010

Três haikais para São Jorge

ontem, 23, foi o seu dia
Meia-noite em ponto,
O foguetório no morro -
Salve, Jorge!

Cláudio Pestana


dia de São Jorge -
choro e aplausos para
o santo guerreiro

Carlos Viegas


Oxóssi ou São Jorge?
não visto branco ou vou à missa,
mas tenho respeito.

Gustavo Felicíssimo

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os Haikais de Jorge Araújo

Jorge Araújo (1947) é baiano de Baixa Grande e Ilheense por adoção. Mestre e Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ é ensaísta premiado diversas vezes e possui vários livros publicados, principalmente na área do ensaio, como o recente “Floração de Imaginários: O romance baiano no Século XX[1]”, e na poesia, com “Os Becos do Homem[2]”, seu livro de estréia, onde transita com versatilidade por várias formas poéticas, inclusive o haikai, ao qual dedica um capítulo inteiro, Munição & Víveres, composto por trinta haikais alinhados ao modelo utilizado pelos poetas da contracultura, como só assim poderia ser, pois esse livro foi gestado durante todo um período de ditadura no Brasil (desde o início dos anos 1970) e publicado em 1982, onde o poeta nos oferece haikais densos e reflexivos:

pra quem confia
a espera
é vera luz do dia

Como afirma Antônio Houaiss no prefácio do livro, Os Becos do Homem “se funda em duas direções políticas, a da inutilidade de certa ordem e a da incapacidade dos homens dessa ordem”. É o que nos revela o seguinte haikai:

tempo, espaço, memória
o homem
será isca da história?

Jorge Araújo possui um dos instrumentos essenciais para o poeta na modernidade: dizer densamente aquilo que pretende trafegando pelo indizível, mas sabendo sempre o que dizer. E diz colocando o homem no centro do seu discurso:

A fome
antes do nome
é o homem

E diz mais:

o ponto final
do sonho final
é o sono final?

Fulgurante, seu verso é valioso, quase inesgotável, e convida o leitor a voltar inúmeras vezes, pois é feito de inquietação; poesia que consegue estabelecer uma ligação orgânica de suas vivências e crenças pessoais com os anseios coletivos de grande complexidade. Por isso não se pode pensá-la como destinada a ser lida apenas em silêncio. Os poemas de “Os Becos do Homem” foram feitos para serem ditos em voz alta, nas praças, a plenos pulmões, inclusive os haikais, para que todos possam conhecer uma obra que vai fundo no sentimento humano, pois como diz José Maurício Gomes de Almeida em um artigo publicado no jornal O GLOBO[3], a poesia de Jorge Araújo “assume integralmente esta marca suja da vida”:

cega esta certeza
que desarma o olho
da cama e da mesa

o sussurro
próximo do grito
arde na língua

E lá se vão quase 30 anos do fim da ditadura, durante esse tempo, Jorge Araújo acabou se tornando um ensaísta e crítico dos mais premiados do país, entretanto, “Os Becos do Homem”, por sua vez, não perde o frescor, pois se durante o tempo em que tal obra foi escrita, o poeta tinha, além das questões existencialistas, um inimigo em particular, declarado, hoje este inimigo está em toda parte, porém oculto; domina o capital, os grandes conglomerados empresariais e a informação, manipulando-a de acordo com as suas conveniências.
Mas o poeta não é apenas um escritor engajado, ele ri da hipocrisia reinante:

ai ai caralho
como viver
dá trabalho

Ele é irrequieto:

não desvenda, nem deslinda
o poeta
inquieta-se ainda

Jorge Araújo pensa a própria poesia a partir dos instrumentos que possui e através do haikai questiona a condição ontológica do ser em um espaço que privilegia cada vez mais o valor utilitário das coisas. “Os Becos do Homem” é um livro para se guardar e para voltar a ele com certa regularidade.

OBS:
1) Esse texto é um excerto de um ensaio a ser publicado em “Dendê no Haikai”, conjunto de ensaios que escrevi sobre o haikai na Bahia, obra a ser lançada em breve pela Via Litterarum.

2) Os Becos do Homem pode ser adquirido pelo site da Via Litterarum: http://www.vleditora.com.br/

[1] Via Litterarum, 2008. Prêmio Nacional O Romance Baiano no Século XX, promovido pela Academia de Letras da Bahia em parceria com a Braskem
[2] Via Litterarum, 2006, 2ª Edição.
[3] Edição de 24/10/1982, pág. 5, Domingo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Haikais de Mario Benedetti

Retornando de Sevilha um amigo presenteou-me com um livro de haikais do escritor uruguaio Mario Benedetti. Trata-se de “Nuevo rincón de haikus”, contendo 300 poemas, uma edição ampliada de “Rincón de kaikus” que, editado no ano 2000, trazia 224 deles.
O presente me causou grande surpresa, pois não imaginava que Benedetti, assim como Borges, também havia penetrado nos mistérios e fazeres haikaísticos. Rapidamente me pus a ler a obra e a perceber o que havia sob a sua tessitura.
Percebi um poeta pouco comprometido com o haikai tradicional, embora perseguindo a métrica, e, por outro lado, inocultavelmente inclinado a um modelo mais livre quanto ao tema, não perseguindo a captação de um instante da natureza ou qualquer ideia semelhante, como neste que segue e que possui caráter eminentemente existencialista:

cada crepúsculo
es tan solo um ensayo
del sueño eterno

Ainda percebemos nos haikais de Benedetti um toque de humor:

el caracol
es el especialista
de la paciencia

em outras oportunidades a ironia:

em carnaval
todos nos disfrazamos
de lo que somos

Outras não poderiam ser as inclinações do poeta, pois como ele mesmo diz: “com o perdão de Bashô, Busson, Issa e Shikki, considero o haikai com uma roupagem própria, mesmo que meu conteúdo seja latinoamericano".
Essas são apenas as minhas primeiras impressões sobre a obra. Em breve trarei a público um artigo mais completo, que ofereça um maior delineamento dos haikais de Benedetti. Não obstante deixo aqui outros dois desse bom poeta uruguaio que faleceu recentemente causando grande sentimento de perda na comunidade literária mundial.

los personajes
se evaden de mis libros
y me interrogan

la más cercana
de todas las fronteras
es con mi prójimo

terça-feira, 20 de abril de 2010

Prêmio OFF FLIP de Literatura

A inscrições para a quinta edição do Prêmio OFF FLIP de Literatura estarão abertas até 31 de maio. Criado em 2006 como parte da programação literária da OFF FLIP, o Prêmio oferecerá aos vencedores R$ 10 mil no total, além de estadia em Paraty e ingressos para mesas de debate da FLIP. Há também outras formas de premiação, como cota de livros de editoras parceiras e passeio de escuna pela baía de Paraty.
Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os 30 finalistas serão publicados em uma coletânea.
A premiação será durante a OFF FLIP, que acontecerá entre 4 e 8 de agosto paralelamente à Festa Literária Internacional de Paraty.
O regulamento pode ser lido no site do Prêmio: www.premio-offflip.net

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A POESIA VIVA DE JORGE MEDAUAR

Caríssimos, o pessoal do Cronópios vai fazer um curta sobre Jorge Medauar e estão utilizando uma resenha que fiz sobre sua obra como uma das suas fontes, o que muito nos alegra. Por isso convido-os a conhecerem o texto que vai publicado naquele ótimo portal da nossa literatura. Nele digo que a poesia de Jorge Medauar traz uma carga existencialista bastante ampla, onde reflete com vigor sobre a condição humana, o vazio, o absurdo do mundo em paralelo às temáticas sobre o silêncio e a solidão, vida e morte, oferecendo-nos uma lírica revestida por uma roupagem de extrato verdadeiro, invulgar (...)

Eis o link:
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4512

domingo, 18 de abril de 2010

Breve resenha sobre Medeia, de Eurípedes

Medeia, ao nosso ver, é uma das personagens mais terríveis e fascinantes da mitologia grega, pois envolve sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, sendo que o mais evidente é a paixão. No cerne dessa tragédia encontramos uma séria preocupação com o destino do homem, sua fragilidade e virtude, não apenas com os seus malogros no amor, nem com seus padecimentos por justiça, mas suas relações com a totalidade da conjuntura que o envolve, sua posição no meio em que se encontra.
Levando-se em consideração que na época as mulheres não eram tidas como membros da sociedade, parece-nos que em Medeia, Eurípedes, o último dos três grandes autores trágicos da Atenas clássica, questiona o lugar de um “negado” dentro de uma sociedade machista e conservadora, concedendo à personagem o poder de ter o destino de outras vidas em suas mãos. Nisso, é consenso geral, ele se diferencia dos seus predecessores, Ésquilo e Sófocles, que produziam tragédias mais harmônicas.
Para castigar a infidelidade do marido, Jasão, um argonauta, Medeia planeja matar os filhos, a nova esposa e matar-se também. Entretanto, o ato criminoso é o culminar de uma obra que se desenvolve dentro de um processo de extrema violência desde o princípio. E assim a psicologia trágica da personagem domina o drama desde que entra em cena, no primeiro episódio, após abandonada e traída pelo homem a quem tudo fez, até as últimas cenas quando obtém sucesso em seu plano de vingança, passando pelos monólogos em que sua alma nos aparece dilacerada, despedaçada, entre a vingança e o amor maternal, onde, embora convicta e certa de sua ação, demonstra remorso.
Mas o que entendemos por tragicidade, na obra é um sentimento de posse capaz de levar o ser às últimas consequências, talvez um sentimento quase patológico, em que a personagem se realiza com o mal que causa, potencialmente evidenciado em uma singular passagem, quando após admirar e tocar os filhos, envia-os ao encontro da amante, Creúsa, filha do rei Creonte com um presente mortal, e diz: “mais potente do que a minha vontade, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais”.
Embora no entendimento atual, as paixões não sejam boas ou más em si mesmas, sendo boas quando contribuem para a elevação humana; e más, no caso contrário, elas podem ser assumidas, guiadas e ordenadas pelas virtudes ou pervertidas e desorientadas pelos vícios ou pelo desequilíbrio do ser, como é o caso evidenciado em Medeia, de Eurípedes.

Ilustração:
Medeia, de Eugène Delacroix

sábado, 17 de abril de 2010

BECO DO FUXICO

Ao modo de Manuel Bandeira

Vou agora lá pro Beco,
aquele é o meu lugar!
Lá tem batidas do Cabôco
e moça bonita pra gente olhar.
Lá tem muita gente boa.
Tem comunista e carlista se abraçando
feito antigos aliados;
tem pescadores, caçadores e mentirosos
pra tudo quanto é lado.
O Beco é feito de lendas
e gente comum,
é feito de poetas, jornalistas
e outros calhordas.
O Beco é feito de magia!
Vou agora lá pro Beco,
dito Beco do Fuxico.
Vou beber o meu café no Manuel,
depois fazer a barba no Seo Jonas;
se o tempo esfriar
eu tomo uma no Whiskytório;
lá tem batatinha e cebolinha na conserva.
Lá tem a bodega do Eduardo,
onde não falta cerveja gelada
e uma turma disposta a prosear.
Vou agora lá pro Beco,
não vou a qualquer lugar.

NOTA:
O Beco do Fuxico é um ponto tradicional da boemia na cidade de Itabuna. Alguém vem comigo?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Novo site da Via Litterarum

Pessoal, já está no ar o site da Via Litterarum, uma das principais editoras aqui da Bahia. O site estréia em um momento de efervescência, com o lançamento de diversas obras de relevo, como o ensaio de Jorge Araújo sobre a crítica de Machado de Assis. Chamo a atenção para o fato de que, finalmente, quem quiser adquirir o nosso “Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna”, não precisará mais recorrer a este autor, pois a obra, juntamente com outras, agora está disponível para venda on line.
Confiram: http://www.vleditora.com.br/

DIÁLOGOS - PANORAMA DA NOVA POESIA GRAPIÚNA

Editora: Via Litterarum
Autor: Gustavo Felicissimo (Org.)
Ano: 2009
Páginas: 106
Formato: 14x21cm
ISBN: 978-85-98493-53-4
Preço: R$ 20,00

Link para aquisição da obra:
http://www.vleditora.com.br/livrodetalhes-livroID_58.html