domingo, 5 de setembro de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Maria da Conceição Paranhos

É natural, devido à qualidade da sua obra, exposição crítica e midiática recebida, que ao pensarmos em alguma voz feminina na poesia brasileira, nos lembremos logo de Cecilia Meirelles. Não é o que acontece comigo, pois antes penso em Hilda Hilst, Orides Fontela, Myriam Fraga e Maria da Conceição Paranhos, com quem aprendi muito em largas horas de estudos literários.
Mas o que se pode dizer sobre a obra de Maria da Conceição Paranhos, uma poeta que possui tão profundo entendimento da arte? Qualquer coisa será o mesmo que se valer de uma mola desgastada pelo tempo, pois Conceição é a essência da poesia em esmero, artesania, conhecimento, dedicação e paciência.
Meu primeiro contato com a sua obra foi o mais impactante. Seus primeiros poemas a chegar às minhas mãos foram os luxuriosos “Quatro Sonetos Cardinais”, uma pérola do erotismo em língua portuguesa, deles emergem metáforas e imagens tão bem elaboradas e consistentes quanto aquelas dos maiores cultores do gênero. Outras leituras vieram até me deparar com “Delírio do Ver”, escritos que correm trinta anos de poesia, sobre os quais Ildásio Tavares se manifestou dizendo que “poucas pessoas estarão fazendo poesia tão pacientemente construída, tão inteligentemente elaborada neste país de poemas em rascunho”. Não há como discordar.
Em janeiro de 2008, novamente, a poesia erótica de Conceição Paranhos volta a me arrebatar, desta vez através dos “Sonetos de uma Semana Perfeita”. São oito poemas inéditos a serem inseridos no livro que por enquanto traz o título de “Coita de Amor”. Vejamos um desses poemas:

1. SEGUNDA-FEIRA

A quem não foder bem cá neste mundo
há castigos previstos em triste averno,
e por salvar-te aqui do mal profundo
vai logo te afastando desse inferno.

Corre, ó Amado, deste mal imundo,
e entrai a salvo no meu paraíso,
pois foder é sinal de muito siso –
neste penar da vida, é bem jocundo.

Devêssemos guardar a castidade,
para que Deus nos daria o tesão,
se não para foder com liberdade?

Não duraremos para a eternidade:
se as horas do prazer só vêm e vão,
fodamos já, que é curta a nossa idade.

Penso que se faz urgente a publicação de uma nova coletânea de poemas seus. E se fosse seu editor, começaria pela reunião de toda a sua poesia erótica, édita e inédita, pois tenho certeza, seria capaz de se converter em um marco do gênero em língua portuguesa.

Aqui, os Quatro Sonetos Cardinais e sua biografia:
http://www.revista.agulha.nom.br/mconceicao.html#quatro

3 comentários:

xico_skywalker disse...

Olá,
Adorei seu blog
muito inspirador
favoritei ele ...
achu que nao encontra problemas, não é mesmo?


abraço ....

Gerana Damulakis disse...

Conceição é completa e tem uma erudição ímpar.

Fátima Santiago disse...

Se na Segunda-feira, a amante faz esse convite tão convincente, imagina o que acontecerá no sábado! kkkkkkkk. Belo soneto erótico. Parabéns, Conceição Paranhos.