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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Blues para Marília

          Gustavo Felicíssimo

Penso todos os dias em Marília.
Sobretudo penso em tudo que deixei por lá:
os companheiros de infância, minha mãe,
o pão caseiro feito pela Tia Vilder,
as férias em Panorama.
Penso principalmente no cheiro do café;
café bom das lavras da Fazenda Cascata.
Marília são flashes na memória:
os passeios pela Praça São Bento,
as visitas ao Paço Municipal.
Por isso esse velho Blues,
            esse reverso n’alma,
            o silêncio que revolve a voz
e o olhar demorado para as coisas sem sentido.
Marília é tudo que ainda sangra.

sábado, 6 de agosto de 2011

O Mapa

          Mário Quintana

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Volta a São Luís

          Ferreira Gullar

Mal cheguei e já te ouvi
gritar pra mim: bem te vi!

E a brisa é festa nas folhas
Ah, que saudade de mim!

O tempo eterno é presente
no teu canto, bem te vi

(vindo do fundo da vida
como no passado ouvi)

E logo os outros repetem:
bem te vi, te vi, te vi

Como outrora, como agora,
como no passado ouvi

(vindo do fundo da vida)

Meu coração diz pra si:
as aves que lá gorjeiam
não gorjeiam como aqui

São Luis, abril, 1996

Em: Muitas Vozes. Editora José Olympio, 
9ª edição. Pág. 60.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Evocação do Recife

          Manuel Bandeira

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada 
          com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia 
          ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta 
          das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Canção de Itabira

À Zoraida Diniz

Mesmo a essa altura do tempo,
um tempo que já se estira,
continua em mim ressoando
uma canção de Itabira.

Ouvi-a na voz materna
que de noite me embalava,
ecoando ainda no sono,
sem que faltasse uma oitava.

No bambuzal bem no extremo
da casa da minha infância,
parecia que o som vinha
da mais distante distância.

No sino maior da igreja,
a dez passos do sobrado,
a infiltrada melodia
emoldurava o passado.

Por entre as pedras da Penha.
os lábios das lavadeiras
o mesmo verso entoavam
ao longo da tarde inteira.

Pelos caminhos em torno
da cidade, a qualquer hora,
ciciava cada coqueiro
essa música de outrora.

Subindo ao alto da serra
(serra que hoje é lembrança),
na ventania chegava-me
essa canção de bonança.

Canção que este nome encerra
e em volta do nome gira.
Mesmo que o silêncio a repete,
doce canção de Itabira.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os poetas e as cidades


Cidade natal de todo escritor, mais dia, menos dia, sempre aparece influenciando a escrita através da memória afetiva. Às vezes as referências são diretas, às vezes sutis. Certo mesmo é que tais alusões surgem de modos distintos e a depender de como é - ou foi - a convivência e a aceitação do autor em seu chão. Essa relação se torna direta na medida em que se aceita ou se nega a cidade e o que ela, na visão do autor, tem a oferecer ou não.
No Brasil, os melhores exemplos são Drummond, que cantou Itabira; Bandeira, que cantou o Recife, Gullar que cantou São Luiz do Maranhão, entre outros que agora não me lembro. Octávio Mora – apesar de ser carioca – em Ausência Viva cantou inúmeras cidades mineiras, de onde descende sua mãe. Com ele inauguro uma série de postagens que farei durante esta semana com poetas que cantaram suas cidades natais ou afetivas.
O leitor, caso queira me enviar algum poema sobre a sua cidade, à medida do possível, poderei publicá-lo. Eis o e-mail para corrspondência: gfpoeta2@hotmail.com

OURO PRETO – 3
Octávio Mora
I
Esta ciudad, que, periclitante,
ha tantos siglos que se viene abajo.
(Gôngora)

Aqui, dirão, foi Ouro Preto.
Sobe e desce a sua sombra
a procurar-se no tempo,
mas nada resta. E é tudo.
Suas íngremes ladeiras
imóveis, fora do tempo,
bateiam a água da chuva
para o fundo mais pesado.
E as casa desbam, podres.
Igrejas, quantas igrejas
restam ainda? Nenhuma
pode sair do seu adro.
As igrejas estão presas
nesta Ouro Preto vazia.
Seus santos de faces fundas,
de olhos fitos no invisível
contemplam-se mortos, mudos.
A palidez de seus Santos
escorre pelas paredes
e tudo é chuva. Nublado,
o céu de Ouro Preto pesa
e tudo se desconjunta.
As casas e os homens, tudo.
A própria luz desmorona
com as casas de Ouro Preto.
E um dia será mais nada.
Escombros, e sob a terra
profetas, deuses e santos
apodrecendo-se mútuos.
O círculo das montanhas
cada vez mais apertado
envolve Ouro Preto morta.

*Para conhecer melhor Octávio Mora clique AQUI.