quinta-feira, 14 de maio de 2009

Flor disforme

Daniela Galdino

Você, que mal cabe em si mesmo,
pariu um filho prematuro.

Parto anormal!
seus gritos trovejavam no ar...

Mas as cercas
e paredes de concreto
prestavam serviço à displicência.


Em: Vinte Poemas Caleidorcópicos, Via Litterarum


DANIELA GALDINO é baiana, natural de Itabuna. Nasceu em 23 de novembro de 1975 sob o signo de sagitário. Graduou-se em Letras pela UESC, concluiu o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. Atualmente é professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Tem publicada a obra “Vinte Poemas Caleidorcópicos” (Via Litterarum, 2004). Organizou os livros “Levando a raça a sério” (DP&A), 2005, e “Tessitura azeviche: diálogos entre as literaturas africanas e afro-brasileira” (Editus, 2008).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Mirantes dos Astros

Espetáculo baseado no documentário "Estamira", de Marcos Prado, Reestréia em Salvador

Nos dias 15 e 22 de maio, no Teatro Molière, Aliança Francesa, em Salvador, acontece curta-temporada do espetáculo "Mirante dos Astros", uma transposição para o teatro do premiado documentário "Estamira" do diretor Marcos Prado.
O monólogo conta a vida de uma mulher que trabalhou por mais de 20 anos no lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Diagnosticada como doente mental, Estamira através de uma rica narrativa particular, mescla fluxos de consciência e inconsciência desafiando nossa capacidade de discernimento sobre a moral, a religião, os tratamentos psiquiátricos e os limites da realidade humana.
Em tom crítico e profético, o espetáculo imprime as dores de uma mulher marcada pela exclusão social. A encenação realizada pela atriz Inaê Sodré utiliza fragmentos do texto original trazendo a presença de Estamira ao palco. O cenário e a iluminação identificam a personagem ao seu mundo – o lixão.
A direção é de Valdíria Souza. O texto, o roteiro, a interpretação e o figurino ficam por conta de Inaê Sodré. O cenário nasce de uma ideia coletiva, unindo os signos trazidos pelo texto, interagindo com a iluminação de Marcos Fernandes. A produção é de Helder Maia e Daniela Fernandes.

Teatro Molière, Aliança Francesa – Avenida Sete de Setembro, 401 – Ladeira da Barra - fone: (0XX71) 3336-7599 – sextas-feras às 20h – nos dias 15 e 22 de maio.

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada) - Duração: aproximadamente 50 minutos.

Festa de Arromba

gente, o mensalão continua dando o que falar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

MEU BARCO PODE PARTIR

Ponho a mesa,
sobre a mesa toalha rendada
e um vaso com pimenteiras.

Posto frente ao mar
o silêncio se impõe
revelando a lua nova.

Por companhia
uma garrafa de Cabernet
e a outra metade de mim.

Velas içadas,
meu barco pode partir.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caríssimos leitores,

A Revista Cultural Diversos Afins, editada pelo nosso amigo e poeta Fabrício Brandão, está aberta a conhecer novos autores e expressões no vasto terreno da arte e da literatura. Em razão disso, convida a todos a colaborarem nas seguintes categorias:

- prosa (conto e crônica) e verso
- resenhas de livros e de cinema
- textos sobre teatro
- artistas plásticos e fotógrafos

Contato em:
http://www.diversos-afins.blogspot.com/

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Ultima Crônica - Fernando Sabino


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Micro entrevista com José Marins

Caríssimos leitores, nessa oportunidade nossa micro entrevista é com José Marins, escritor, poeta, haicaísta paranaense, grande incentivador dos iniciantes. Publicou “Fazendo o dia” (poemas), “Poezen” (haicais), “Pinha Pinhão” (haicais encadeados). Escreveu “O Dia Do Porco”, e “Quiçaça” (romances inéditos). Reside em Curitiba.

Gustavo Felicíssimo - De que modo se deu sua aproximação com o haicai?
José Marins
– Tive a alegria de freqüentar a Feira do Poeta em Curitiba, um ponto de encontro de aprendizes de poetas, aos domingos. Paulo Leminski era dos mais assíduos. Aprendi com ele os primeiros rascunhos do haicai-livre. O haicai mexeu com todo mundo. Eram os anos 80, os leminskianos. Juntei 88 deles e fiz o livro Poezen, em 1985. Não tínhamos onde ler ou pesquisar. (Ainda não havia Internet!) Então, na mesma época surgiu o pequeno livro do Paulo, “Basho, a lágrima do peixe”; e, Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, em tradução da Olga Savary, que muito me ajudaram. E havia os haicais da Helena Kolody, que nos ensinava leveza.

GF – O segredo do haicai estaria em dizer com profundidade e simplicidade aquilo que não está dito?
JM
- Gosto muito da defição do Prof. Paulo Franchetti: “Haikai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente”. Para mim é revelar um sentido, o haimi, em três versos, com leveza poética, sem afetações de linguagem ou do intelecto. O bom haicai apenas sugere, mostra, aponta um detalhe na paisagem do mundo da natureza visto pelo poeta.

GF – Uma provocação. Há quem diga que um poema não seria exatamente literatura, mas uma coisa diversa, embora tenha sido acolhida como tal. Considerando tal hipótese, te pergunto: o haicai estaria para a poesia assim como a poesia estaria para a literatura?
JM
– Todas as formas já produzidas não dão conta da poesia. O haicai é mais uma delas, ele tem o seu próprio lugar. Assim como os gêneros literários não dão conta da literatura, pois esta retrata a vida, a condição humana. Jakobson quando demonstrou a função poética da linguagem, matou a charada. Então, há que se falar de uma poética que perpassa a literatura.
A poesia é uma estratégia da língua para se manter viva e se renovar. Logo, ela é parte da literatura, como o haicai é uma forma de poema que contribui para a poesia. Tudo está num mesmo campo: existe a função literária da vida!

Conheça os haicais encadeados de José Marins e Sérgio Pichorim em:
http://fieiradehaicais.blogspot.com/

domingo, 3 de maio de 2009

Os haicais de Capinan

venho convidar os amigos a conhecerem um pequeno texto de nossa autoria sobre os haicais de Capinan publicado no excelente site de literatura Cronópios.

acessem:

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um Haibun de Anibal Beça

O haibun é um texto curto em prosa, seguido por um ou mais haicai. A prosa que antecede o haicai geralmente se refere a uma experiência vivida pelo escritor. O objetivo do haicai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, voz ou tempo, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente. Ainda de acordo com a definição da Haiku Society of America, além de brevidade, um haibun pode conter até 300 palavras e haicais entremeados.
Fonte: http://www.sumauma.net/index.php

Os rios da Amazônia estão subindo e inundando pequenas vilas e já ameaçando deixar submersas cidades do porte de Manaus e Belém. Além do kigô de nossa estação, outono, há também fenômenos interessantes para serem objeto do haiku: a desova de peixes, as aves de arribação, patos e marrecos se acasalam em torno de arrozais silvestres e outras manifestação da natureza para a contemplação de muitos olhares.

***

The rivers of the Amazônia are going up and flooding small villages and already threatening to leave submerged cities of the size of Manaus and Belém. Beyond the "kigo" of our station, autumn, we have also interesting phenomena to be object of Haiku: the spawning of
fishes, the birds of migration, like ducks and other birds that mate inside wild rice fields and other manifestation of the nature for the contemplation of eager eyes.

leitura prática
um olho nas lolitas
outro no romance

practical reading
one look for lolitas
another for romances

*

na subida dos rios
as garças sem pernas
palafitas alagadas

rise of the rivers
and herons without legs
stilts flooded

*

na enchente dos rios
o comércio informal
aluga-se canoas

in flooding of rivers
the informal trade -
rents canoes

*

depois do cooper
no inverno ou verão
sorvete de açaí

after jogging
in winter or summer
açaí ice-cream

*

na enchente
bronzeado só na calçada -
praia da Ponta-Negra.

In the flooding
bronzed only in sidewalk --
Ponta Negra beach.

Mais sobre o autor em:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/abeca.html

Convite para leitura

Convido a todos para conhecerem uma entrevista que concedi ainda em 2008 para o escritor Jorge Augusto e que Soares Feitosa publicou no Jornal de Poesia sob o título “Gustavo Felicíssimo conversa com o poeta Jorge Augusto”
Confiram: