quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

PAPEL HIGIÊNICO COM POESIA

Agora sim, ficaram sem argumento aqueles que dizem que poesia não serve pra nada, pois a empresa brasileira "Seu Cuca" lançou o Papel Higiênico com Poesia. O produto, acreditem, tem ganhado adesão do público em geral que encontra agora uma forma de tornar mais culto, didático e descontraído momentos de puro ócio (mas nem tanto) necessário no banheiro, com leitura de poemas.
Algumas empresas vêm utilizando o produto como brinde e surpreendendo seus cliente.
Aos interessados, a Seu Cuca se encarrega de selecionar os poemas para eventos e festas temáticas, casamentos, coletânea de poesias. Bastante inspirador, até ilustrações de posições do Kama Sutra estão sendo impressas em Papel Higiênico.

O produto é vendido através do site: http://www.seucuca.net/

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Somos todos pós-modernos?

Por Frei Beto

A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?
Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.
Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às "irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.
Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.
A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. O pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.
Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.
O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.
O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.
O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.
O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.
A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.
A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser e as nossas imagens que a existência real.

Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.

RODA DE POESIA PRÉ-CARNAVALESCA

EM SALVADOR, NA PRAÇA THOMÉ DE SOUZA
Dia 12 de fevereiro, às 16h30min


Poetas, poetisas, atrizes, cordelistas, crianças e adolescentes estarão, no próximo dia 12 (quinta-feira), esquentando as turbinas para o Carnaval 2009 de Salvador, quando o bloco O BOCA DE BRASA estará relembrando os 30 Anos do Surgimento do Movimento Poetas na Praça e homenageando quatro dos seus integrantes já falecidos - Antonio Short, Agenor Campos, Dorival Limoeiro e Zeca de Magalhães.

A Folia Literária vai acontecer às 16h30min na Praça Thomé de Souza, em frente ao Elevador Lacerda. Entre poemas de diversos autores que serão apresentados, destaque para a poesia dos quatro poetas citados, que será apresentada em forma de jogral.

A interferência lítero-cultural do O BOCA DE BRASA no Carnaval de Salvador será no dia 21 (sábado) no Pelourinho (17 às 20h) e no dia 23 (segunda-feira) na Mudança do Garcia (11 às 15h). Como sempre, estandartes poéticos e fantoches, recital de poemas e distribuição de folhetins.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

CONFISSÕES DE UM DISCÍPULO E ADMIRADOR DA POESIA DE MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS

Confesso que passei meses a fio na tentativa de escrever algo significativo sobre a poesia de Maria da Conceição Paranhos, mestra. Mas o que se pode dizer sobre a obra de alguém que possui, como Borges, tão profundo entendimento da arte? Qualquer coisa que se diga resvalará no que já foi tantas vezes enunciado sobre sua genialidade, será o mesmo que se valer de uma mola desgastada pelo tempo, pois Conceição é a essência da poesia em esmero, artesania, conhecimento, dedicação e paciência.
Foi através de suas mãos que eu e tantos outros, postulantes a poeta, adquirimos instrumental suficiente para continuarmos nossa caminhada com as musas. Fora ali, na varanda de sua casa, no Rio Vermelho, em Salvador, que muitas das minhas sextas-feiras, sempre no pôr-do-sol, se transformavam em delírio, ouvindo-a discorrer elegantemente sobre versificação, declamando poemas em pelo menos meia dúzia de idiomas, para que notássemos, mesmo às vezes sem perceber o que estava sendo dito, que existem elementos em um poema que são universais. Só agora entendo. Sempre rigorosa, nenhuma aresta ficaria por aparar, o que não se resolvia na oficina era tratado como dever de casa, e na semana seguinte cobrava-se. Assim fomos apurando nosso verso.
Quantas e quantas foram as vezes que nos estendíamos para além do horário regular do transporte coletivo, e no meu caso, como morava longe, às vezes dormia na casa de algum colega, em outras ficava na casa da mestra, estirado pelos sofás da sala, indo embora com o raiar do dia. Trata-se de um tempo que jamais esquecerei.
Meu primeiro contato com a poesia de Maria da Conceição Paranhos, antes mesmo de iniciarmos a oficina, foi o mais impactante. Seus primeiros poemas a chegar às minhas mãos foram os luxuriosos “Quatro Sonetos Cardinais”, uma pérola do erotismo em língua portuguesa, deles emergem metáforas e imagens tão bem elaboradas e consistentes quanto aquelas dos maiores cultores do gênero. Outras leituras vieram até me deparar com “Delírio do Ver”, escritos que correm trinta anos de poesia, sobre os quais seu contemporâneo, e também mestre, Ildásio Tavares se manifestou dizendo que poucas pessoas estarão fazendo poesia tão pacientemente construída, tão inteligentemente elaborada neste país de poemas em rascunho. Não há como discordar.
Em janeiro de 2008, novamente, a poesia erótica de Conceição Paranhos volta a me arrebatar, desta vez através dos “Sonetos de uma Semana Perfeita”. São oito poemas inéditos a serem inseridos no livro que por enquanto traz o título de “Coita de Amor”. Vejamos um desses poemas:

1. SEGUNDA-FEIRA

A quem não foder bem cá neste mundo
há castigos previstos em triste averno,
e por salvar-te aqui do mal profundo
vai logo te afastando desse inferno.

Corre, ó Amado, deste mal imundo,
e entrai a salvo no meu paraíso,
pois foder é sinal de muito siso –
neste penar da vida, é bem jocundo.

Devêssemos guardar a castidade,
para que Deus nos daria o tesão,
se não para foder com liberdade?

Não duraremos para a eternidade:
se as horas do prazer só vêm e vão,
fodamos já, que é curta a nossa idade.

Posto ser sempre muito difícil e temerário falarmos elogiosamente sobre a obra daqueles a quem queremos bem e admiramos, por não dispormos da isenção necessária para a emissão de uma opinião imune a essa influência, é que esse “não dizer nada” desta crônica sobre a poesia de Maria da Conceição Paranhos, não é, senão, mostrar a quem de direito como se faz urgente a publicação de mais livros seus, pois possui, a mestra, hoje, um arsenal de boa poesia para se imprimir em qualquer compêndio. Sobretudo, penso ser urgente e necessária a publicação de toda a sua poesia erótica, édita e inédita, capaz de se converter em um marco do gênero em língua portuguesa.


ENTREVISTA COM MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS

Gustavo Felicíssimo – Professora, poetisa e crítica literária, contista, romancista, cronista e pesquisadora, fluente em diversos idiomas, inúmeros livros publicados. Figura de ponta da poesia baiana desde a década de 60. Quando vão te chamar para a Academia de Letras da Bahia?
Maria da Conceição Paranhos
– Ninguém chama ninguém para as Academias... Provavelmente algumas conversas prévias, alguns interesses políticos guiam a escolha do futuro acadêmico. Por votação, claro, pelo que ouvi contar. Particularmente, creio não fazer o perfil de acadêmica de academias de letras - de malhação, talvez. Meu personal trainer sempre me solicita muito trabalho de corpo, e trabalhar é via de acesso à vida e à vida social. Quanto ao que você se refere ter eu incorporado à minha pessoa, trata-se de ora destinação, desígnio (ficcionista / narradora, poeta, outras artes), ora genética combinada com algum esforço (várias línguas), ora contingências profissionais enquanto professora. De ponta? Sou de ponta esquerda para sempre. A favor, portanto, das forças processuais irrestritas da paridade de condição existencial dos seres humanos em sociedade.

GF – Como a senhora conceitua a poesia e o poema em si?
MCP
– Poesia é viver o mundo como se o inaugurasse, seria uma definição? Poesia é prazer de fonemas rolando na boca e criando sons, significações, expressão do mundo experienciado pela voz por detrás do eu poético. Poema é lua-de-mel com linguagem e língua nativa, os manes observando, intervindo e aconselhando num círculo de formas e significações de amores idos e vividos, digamos assim, para designar os poetas e artistas que nos cercaram desde sempre. Poema é também inauguração – da linguagem desta vez.

GF – Em que pese ter trazido maior liberdade e certo sentido de brasilidade à nossa poesia, o Modernismo, por outro lado, segundo algum dos seus críticos, também nos prestou algum desserviço, propiciando justamente a partir dessa liberdade, que se caísse na permissividade e no vulgarismo. Como a senhora vê essa questão?
MCP
– O Modernismo no Brasil foi um artefato de vanguarda de programação. Houve incalculáveis perdas e mal-entendidos que persistem, a exemplo do que se pensa ser poesia – verso livre, poema curto, poema-piada – que preexistiam, aliás, de modo não programático. Em verdade, o momento histórico de maior liberdade formal e inventividade na poesia – inclusive a brasileira – foi o Romantismo, como estilo de época, claro. O repúdio modernista ao Parnasianismo, ao Simbolismo e ao próprio Romantismo se foi benéfico no que diz respeito ao epigonismo, foi e é lamentável enquanto desfeiteia a face espaço-temporal da poesia e a faz ahistórica, distanciando-a, portanto, do pulsar expressional autenticamente brasileiro. Claro, o Modernismo de programação, em termos de avaliação crítica de suas três fases (conforme a historiografia brasileira divisou), não consegue abafar a voz dos verdadeiros poetas, mesmo daqueles como Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Jorge de Lima – que se forçaram a ser modernistas à la carte.

GF – A chamada pós-modernidade e a ditadura midiática chegam a te apavorar?
MCP
– Por que o fariam? Vivemos mergulhados nesse caldo sócio-artístico-cultural e assim nos movemos – de modo crítico desejavelmente, sem que nossa percepção amorteça com os chavões já estratificados da pós-modernidade palradora ou o anestesia da mídia.

GF – Como a senhora viu a bienal do vazio, em São Paulo? Quem merece mais a cadeia, a tal pichadora ou os seus curadores?
MCP
– Olhe, não tomo partido não. Não porque tenha receio de me posicionar, mas porque gato e rato são pares inseparáveis e volta e meia começa esse minueto macabro.
A pichadora é ex-cêntrica, não é mesmo? Bem maluca. Se pensou em contribuir para com o estado mórbido de nossa cultura contemporânea, conseguiu... Os curadores, como você diz, transitam em todas as instâncias da cultura com sua armadura viciada de vícios seculares. Preferirei sempre o homem anônimo que presencia e repudia esses tristes espetáculos de uma sociedade melancólica e agonizante, geradora de subprodutos culturais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

CENTENÁRIO DE CARMEN MIRANDA

A jornalista Dulce Damasceno de Brito (1926-2008) foi, na década de 1950, correspondente brasileira em Hollywood, onde tornou-se amiga e confidente de Carmen Miranda, cujo centenário se comemora hoje, 09/02. Ela conheceu tão intimamente a personalidade da "pequena notável" que, por sugestão de uma amiga, resolveu escrever “O abc de Carmen”, que se pode conferir no seguinte link: http://carmen.miranda.nom.br/cm_frases.htm

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Literatura feminina?


Literatura feminina existe? O que isso representaria? Se existe, então também existe a literatura masculina, indígena, negra, homossexual? Antecipo que essa coisa de gêneros é uma bobagem, e das grossas, pois o que existe é a literatura em si. E não adianta ficarem inventando esses estudos, visto que é perda de tempo, é malhar em ferro frio. Nada mais.
Também não adianta dizer que, geralmente, a poesia feita por mulheres possui acentuada característica ligada às questões existenciais femininas, sua relação com filhos, marido, a visão de mundo, deveras mais sensível que a masculina, pois se a literatura se serve das vivências do autor, nada mais natural que tais questões estejam expressas e impressas no fazer de cada um.
Vale então dizer, novamente, que o texto literário existe e firma-se porque é bom e ponto. Como os poemas de Adélia Prado, Cecília Meireles ou Maria da Conceição Paranhos.
Do mesmo modo, com cuidado no apuro dos seus versos, três meninas, poetas, daqui da região cacaueira da Bahia estão traçando seus caminhos dentro da literatura, vivendo e vivenciando a poesia como coisa “de mesmo”, pra valer, com lirismo, atentas à linguagem e à síntese, marcando o fazer poético de cada uma. São elas Brisa Dalilla, Milena Palladino e Diva Brito que, no nosso entender, poderiam em breve, como a chuva do verão, trazer a público um apanhado do que produziram até o momento em uma antologia a seis mãos, o que seria muitíssimo bom.
Abaixo, um poema de cada uma delas.


CONFISSÃO
Brisa Dalilla

Parem! Eu confesso.
Sou LOUCA!

Não controlo as palavras
Que saem de minha boca!

Me permito, vivo,
Luto, realizo.

Não posso ficar parada
Vendo a vida escorrer
Pelos dedos...



S I N E R G I A
Milena Palladino

Gozo com gosto de travesseiro
Em movimentos sinérgicos.
Tremor desprovido de ar.
Nudez no meu peito,
Mordidas no teu beijo,
Tudo dito e tudo feito.

Eterna dança sobre lençóis
Deixo-me doce e tua...
E quando já não cabe em mim
Te entrego a carne crua.
Me vejo sedenta
E sem pedir licença
Eis que bebo teu líquido
Até embriagar-me de tua presença.


O FÔLEGO
Diva Brito

Que o meu fôlego
Te procure no escuro
Não te permita dormir,
E te prenda sempre em mim.
E que não penses em imaginar
Realidade fora do meu corpo,
Ou amor fora de minha'lma.
Que a chama eterna dos teus olhos
Nunca desapareça
Que nesse teu íntimo
Nunca pereça,
A esperança de me ter.
Que o meu nome eternamente
Ressoe como um eco em tua mente
E quando o vento tocar-te o rosto,
Te lembres das minhas mãos
Que te vasculham sem pudor.
Que a chuva que te molha,
Exale assim o cheiro do meu corpo
Que tua sede te guieAos meus lábios.
Que saudoso agora estejas,
Da minha leviandade
Da minha aparente ingenuidade,
Da minha língua na sua vontade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Carnaval no Beco do Fuxico

Hoje começa o carnaval na minha cidade, Itabuna. Trata-se de um carnaval antecipado, posto que é impossível, na Bahia, fazer carnaval concomitante ao de Salvador, devido ao esvaziamento de atrações da festa, que estão todas na capital. Daí os carnavais antecipados e as micaretas.
Nesse primeiro dia, longe do circuito trioeletrizado, ocorre a Lavagem do Beco do Fuxico, uma festa de rua, sem blocos de corda, onde revivemos alegremente os antigos carnavais.
Nessa festa está ocorrendo algo que muito me orgulha, pois um de meus poemas, justamente aquele que leva o nome do lugar, está sendo apropriado pela gente da cidade, principalmente pelos freqüentadores do Beco. Fizeram 30 banners de lona, com aproximadamente meio metro, onde está impresso o poema para serem afixados nos bares e lojas. Um outro, bem maior, será afixado no local onde se dá o ponto auge da festa, em frente ao Bar do Manuel, onde religiosamente, todos os dias, sento para conversar com amigos e tomar meu cafezinho. É a apropriação da minha obra pela gente da minha cidade. Isso, é claro, me deixa muito feliz. Vamos ao poema!


BECO DO FUXICO

Vou agora lá pro Beco,
aquele é o meu lugar!
Lá tem batidas do Cabôco
e moça bonita pra gente olhar.
Lá tem muita gente boa.
Tem comunista e carlista se abraçando
feito antigos aliados;
tem pescadores, caçadores e mentirosos
pra tudo quanto é lado.
O Beco é feito de lendas
e gente comum,
é feito de poetas, jornalistas
e outros calhordas.
O Beco é feito de magia!
Vou agora lá pro Beco,
dito Beco do Fuxico.
Vou beber o meu café no Manuel,
depois fazer a barba no Seo Jonas;
se o tempo esfriar
eu tomo uma no Whiskytório;
lá tem batatinha e cebolinha na conserva.
Lá tem a bodega do Eduardo,
onde não falta cerveja gelada
e uma turma disposta a prosear.
Vou agora lá pro Beco,
não vou a qualquer lugar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Nos passos de Eva Garrido

EVA GARRIDO é nascida em 1970, na Alemanha, e criada em Granada, terra natal dos seus pais. Dançarina, iniciou sua carreira profissional aos 15 anos e aos 28 criou seu próprio grupo, com o qual realiza turnês nacionais e mundiais, apresentando-se em alguns dos principais palcos do mundo. É considerada como um dos principais nomes das novas gerações da Dança Flamenca, mantendo a tradição sem deixar de inserir elementos contemporâneos e conquistando diversos prêmios. Fiquei encanto após ver uma de suas apresentações do Teatro Castro Alves, em Salvador, e após fiz o seguinte poema que segue com link para um vídeo dela que me foi apresentado pela poeta paranaense Neuza Pinheiro.

Prefiro a arquitetura das palavras
como forma de navegação.
Versos cruzando mares
onde eu possa me ater.
Pois se navego entre signos
de mim serei sempre o próprio signo.
Quero os pássaros como pares
e a palavra na sua função.
Se expressões de minha lavra
serão fogo, feitiço e sentido.
Virão nos passos de Eva Garrido.

Confiram vídeo em:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

foi um pássaro profundo...

neuza pinheiro

grafo o próximo passo
beirando a lucidez do abismo

nenhum movimento em falso

eu soul eu soo

espirais do meu espírito
no spirituals do orvalho

Em: Pele & Osso
(livro vencedor do Prêmio Lúcio Lins)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

IGNOMÍNIA

Treze haicais do Rio Cachoeira

O Cachoeira no trecho em que corta a cidade de Itabuna

Amigos, o Rio Cachoeira é o mais importante da região onde moro, a região cacaueira da Bahia. E como todos os rios que cortam médias e grandes cidades, ele também se encontra em estado alarmante devido à poluição e ao desmatamento da sua mata ciliar.
Um rio tão importante para uma região onde habitam mais de um milhão de pessoas deveria receber especial atenção do poder público. Mas não é isso que acontece e o descaso, com o passar do tempo, aumenta em igual proporção à ignorância e à falta de compromisso dos nossos governantes com causas ambientais.

A mim restam apenas esses haicais, pois não trago comigo a esperança de ainda vê-lo pujante como outrora. Infelizmente!
I
madruguei chorando:
silenciou-se o grande rio
ao me ver nascer.

II
e seguiu seu curso,
infinito em suas curvas,
terno em meu olhar.

III
silente e calado
ele desfez os mistérios:
canções ao luar.

IV
puro em sua nascente
desce o rio cortando o campo,
espalhando vida.

V
e vai todo em brasa,
dentro da noite ferida,
onde os sonhos erram.

VI
vai feroz e louco
abrindo as portas do peito,
galopando a dor.

VII
não é o rio da aldeia,
mas o rio de todos nós:
Cachoeira o seu nome.

VIII
eu sigo o seu curso
sem lume, sem remo ou âncora,
triste e indignado.

IX
pois rio sem carinho
quando avista arranha-céus
vê-se a fenecer.

X
não morre de vez
porque é valente esse rio,
tinhoso e audaz.

XI
ele dorme agora
pousado em sua fortuna,
com febre e com frio.

XII
lá vai o Cachoeira
faminto pelo caminho,
descendo pro mar.

XIII
se querem um rio
para chamá-lo de seu
que venham salvá-lo.