
Foi através de suas mãos que eu e tantos outros, postulantes a poeta, adquirimos instrumental suficiente para continuarmos nossa caminhada com as musas. Fora ali, na varanda de sua casa, no Rio Vermelho, em Salvador, que muitas das minhas sextas-feiras, sempre no pôr-do-sol, se transformavam em delírio, ouvindo-a discorrer elegantemente sobre versificação, declamando poemas em pelo menos meia dúzia de idiomas, para que notássemos, mesmo às vezes sem perceber o que estava sendo dito, que existem elementos em um poema que são universais. Só agora entendo. Sempre rigorosa, nenhuma aresta ficaria por aparar, o que não se resolvia na oficina era tratado como dever de casa, e na semana seguinte cobrava-se. Assim fomos apurando nosso verso.
Quantas e quantas foram as vezes que nos estendíamos para além do horário regular do transporte coletivo, e no meu caso, como morava longe, às vezes dormia na casa de algum colega, em outras ficava na casa da mestra, estirado pelos sofás da sala, indo embora com o raiar do dia. Trata-se de um tempo que jamais esquecerei.
Meu prim

Em janeiro de 2008, novamente, a poesia erótica de Conceição Paranhos volta a me arrebatar, desta vez através dos “Sonetos de uma Semana Perfeita”. São oito poemas inéditos a serem inseridos no livro que por enquanto traz o título de “Coita de Amor”. Vejamos um desses poemas:
1. SEGUNDA-FEIRA
A quem não foder bem cá neste mundo
há castigos previstos em triste averno,
e por salvar-te aqui do mal profundo
vai logo te afastando desse inferno.
Corre, ó Amado, deste mal imundo,
e entrai a salvo no meu paraíso,
pois foder é sinal de muito siso –
neste penar da vida, é bem jocundo.
Devêssemos guardar a castidade,
para que Deus nos daria o tesão,
se não para foder com liberdade?
Não duraremos para a eternidade:
se as horas do prazer só vêm e vão,
fodamos já, que é curta a nossa idade.
Posto ser sempre muito difícil e temerário falarmos elogiosamente sobre a obra daqueles a quem queremos bem e admiramos, por não dispormos da isenção necessária para a emissão de uma opinião imune a essa influência, é que esse “não dizer nada” desta crônica sobre a poesia de Maria da Conceição Paranhos, não é, senão, mostrar a quem de direito como se faz urgente a publicação de mais livros seus, pois possui, a mestra, hoje, um arsenal de boa poesia para se imprimir em qualquer compêndio. Sobretudo, penso ser urgente e necessária a publicação de toda a sua poesia erótica, édita e inédita, capaz de se converter em um marco do gênero em língua portuguesa.
ENTREVISTA COM MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS
Gustavo Felicíssimo – Professora, poetisa e crítica literária, contista, romancista, cronista e pesquisadora, fluente em diversos idiomas, inúmeros livros publicados. Figura de ponta da poesia baiana desde a década de 60. Quando vão te chamar para a Academia de Letras da Bahia?
Maria da Conceição Paranhos – Ninguém chama ninguém para as Academias... Provavelmente algumas conversas prévias, alguns interesses políticos guiam a escolha do futuro acadêmico. Por votação, claro, pelo que ouvi contar. Particularmente, creio não fazer o perfil de acadêmica de academias de letras - de malhação, talvez. Meu personal trainer sempre me solicita muito trabalho de corpo, e trabalhar é via de acesso à vida e à vida social. Quanto ao que você se refere ter eu incorporado à minha pessoa, trata-se de ora destinação, desígnio (ficcionista / narradora, poeta, outras artes), ora genética combinada com algum esforço (várias línguas), ora contingências profissionais enquanto professora. De ponta? Sou de ponta esquerda para sempre. A favor, portanto, das forças processuais irrestritas da paridade de condição existencial dos seres humanos em sociedade.
GF – Como a senhora conceitua a poesia e o poema em si?
MCP – Poesia é viver o mundo como se o inaugurasse, seria uma definição? Poesia é prazer de fonemas rolando na boca e criando sons, significações, expressão do mundo experienciado pela voz por detrás do eu poético. Poema é lua-de-mel com linguagem e língua nativa, os manes observando, intervindo e aconselhando num círculo de formas e significações de amores idos e vividos, digamos assim, para designar os poetas e artistas que nos cercaram desde sempre. Poema é também inauguração – da linguagem desta vez.
GF – Em que pese ter trazido maior liberdade e certo sentido de brasilidade à nossa poesia, o Modernismo, por outro lado, segundo algum dos seus críticos, também nos prestou algum desserviço, propiciando justamente a partir dessa liberdade, que se caísse na permissividade e no vulgarismo. Como a senhora vê essa questão?
MCP – O Modernismo no Brasil foi um artefato de vanguarda de programação. Houve incalculáveis perdas e mal-entendidos que persistem, a exemplo do que se pensa ser poesia – verso livre, poema curto, poema-piada – que preexistiam, aliás, de modo não programático. Em verdade, o momento histórico de maior liberdade formal e inventividade na poesia – inclusive a brasileira – foi o Romantismo, como estilo de época, claro. O repúdio modernista ao Parnasianismo, ao Simbolismo e ao próprio Romantismo se foi benéfico no que diz respeito ao epigonismo, foi e é lamentável enquanto desfeiteia a face espaço-temporal da poesia e a faz ahistórica, distanciando-a, portanto, do pulsar expressional autenticamente brasileiro. Claro, o Modernismo de programação, em termos de avaliação crítica de suas três fases (conforme a historiografia brasileira divisou), não consegue abafar a voz dos verdadeiros poetas, mesmo daqueles como Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Jorge de Lima – que se forçaram a ser modernistas à la carte.
GF – A chamada pós-modernidade e a ditadura midiática chegam a te apavorar?
MCP – Por que o fariam? Vivemos mergulhados nesse caldo sócio-artístico-cultural e assim nos movemos – de modo crítico desejavelmente, sem que nossa percepção amorteça com os chavões já estratificados da pós-modernidade palradora ou o anestesia da mídia.
GF – Como a senhora viu a bienal do vazio, em São Paulo? Quem merece mais a cadeia, a tal pichadora ou os seus curadores?
MCP – Olhe, não tomo partido não. Não porque tenha receio de me posicionar, mas porque gato e rato são pares inseparáveis e volta e meia começa esse minueto macabro.
A pichadora é ex-cêntrica, não é mesmo? Bem maluca. Se pensou em contribuir para com o estado mórbido de nossa cultura contemporânea, conseguiu... Os curadores, como você diz, transitam em todas as instâncias da cultura com sua armadura viciada de vícios seculares. Preferirei sempre o homem anônimo que presencia e repudia esses tristes espetáculos de uma sociedade melancólica e agonizante, geradora de subprodutos culturais.
Um comentário:
Gustavo
cheguei a estralar a língua lendo -
quase ouvindo - a fala certeira, encorpada e sinuosa de Maria Conceição Paranhos. E bebe-se com gosto, o poema licoroso.
E brinquem aí, saltando, cantando e rindo, no carnaval da cidade, nesses lugares que vc relata no seu poema, como se fosse irreal tanta naturalidade.
Vida longa para sua Sopa!!!
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