quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Drummond e Paulo Diniz

Estava vindo ao trabalho, cd de Paulo Diniz tocando, até que entra a faixa cinco, o poema José, de Drummond, numa interpretação formidável. Sei que todos conhecem tanto o poema quanto a canção. Nenhuma novidade, portanto. Entretanto, a canção me deixou nostálgico pra dedel. Pois bem. Creio que vale muito, parar três minutinhos para ouvir o poema, ler a canção. Evohé!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Frente às nuvens,
dois pássaros selvagens,
olham-se uma última vez.

Dizem-se adeus.


Pedro Montalvão
Fotógrafo português e projeto de poeta
Está radicado em Ilhéus

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Orkut: uma crônica sobre a vida moderna

Por André Rosa

Descasei pela terceira vez. Soube-se pela internet. Um amigo em comum sentenciou: “olha, no Orkut dela consta a mudança de relacionamento”. Solteira dizia lá. Me senti anacronicamente desinformado sobre a minha própria vida, midiaticamente escancarada na rede. Um ultrapassado filho de outro milênio em meio às modernidades. Constrangido pela notícia inesperada, olhei alternadamente para os amigos cabisbaixos em volta da mesa de bar e aliança de ouro barato que ainda usava na mão esquerda. Disfarcei o mal-estar trazido pela contemporaneidade. De certa forma, refleti, havia talvez inaugurado uma nova forma de separação entre casais: simples, direta, asséptica, pública e irremediável. Entre tapinhas nas costas e frases feitas a rapaziada se mostrou solidária e a noite terminou como sempre: garrafas vazias, “valeu aí, depois se vê” e a certeza das ressacas: a etílica e a moral.
Logo encontraria a dona do fatídico Orkut. Reunião com pauta surreal, tratando de sonhos infalíveis. Cheguei mais cedo disfarçando a ansiedade que antecede as nossas próprias tempestades. Me recebe como sempre outro amigo, sócio de noites e casas abertas: “e aí brouzer?” Dessa maneira denominava os mais chegados. Pergunto por todos e inicio a retirada dos meus pertences que ainda teimavam no lugar. Olhando os objetos comentei um pouco melancólico: “fica apenas o inevitável”. Eram de uma exposição falando de sons e linguagens: um rádio cinqüentão, capas velhas de vinis, alguns instrumentos musicais há muito em desuso e uma radiola quebrada de data imprecisa. A sensação era o de ser o mais velho da coleção.
O amigo, solícito senhor das brejas, imperava no balcão do barzinho no andar térreo. Ali discutia-se muito de tudo. Cabeças rolavam e abriam-se. Ouvido atento ele anunciou: “chegaram os outros sonhadores”. Bebida quente, noite fria e ela com um chalé colorido sobre os ombros. O vestido e a sandália eram brancos. Aberta a pauta, os sonhos desfilaram na boca de quase todos. Mais uma vez estaríamos em campos opostos. Eu, em meu papel tão clichê de sustentar a racionalidade. Ela, ameaçando rasgar os papéis em que diligentemente anotava o futuro, me mandou embora. Agora dispensaria a benção eletrônica dos computadores. Os demais sonhadores olharam-se mudos, pareciam aprovar a decisão. Me dirigi ao balcão onde o senhor das brejas atendia um desavisado: “aí man, dessa vez o para sempre é chegado”. Era janeiro de 2010 e acabava-se um roteiro desproporcional mesclado de afetos e raivas, de abortos e orgasmos. Caminhei rápido para a saída sem olhar os outros sonhadores e a dona do Orkut. Ainda ouvi alguém se despedir, não reconheci a voz, pareceu-me distante, absurdamente distante.
A noite ameaçava desabar dentro de mim.

André Rosa
é historiador e professor universitário. tem mestrado e doutorado pela UFBA

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sugestão de leitura:

Com periodicidade mensal, 40 páginas, circulando sempre no último domingo do mês, sob a edição do poeta Antônio Mariano, o Correio das Artes, a mais antiga publicação do gênero em circulação no país, tem formato de revista e é um suplemento cultural do jornal paraibano A União, produto do governo do estado da Paraíba.
A edição eletrônica pode ser acessada em PDF mantendo o formato original da edição impressa para ler, baixar ou imprimir:
http://www.auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=58&Itemid=67

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Café com blues em Ilhéus

Neste sábado, 09 de janeiro, tem Café com Blues no Tetatro Municipal de Ilhéus. Programaço. A banda trás em seu show uma mistura de música nordestina em especial da Caatinga da Bahia, mesclando modas de viola, chulas, reisados, e outros ritmos com o Blues. O trabalho musical extremamente diferenciado que vem ganhando espaço em todo o Brasil, pela primeira será apresentado em Ilhéus, no palco do Teatro Municipal, no dia 09 de Janeiro (Sábado), às 21:00h.
A Banda oriunda da ‘Cidade do Café’, Vitória da Conquista-Ba, é composta pelos músicos Diro Oliveira (vocal, flautas e gaitas), Júlio Caldas (vocal, guitarras e violas), Thomaz Oliveira (Bateria e vocal), Lúcio Ferraz (guitarras e violões), Luciano PP (Baixo) e Horton Macedo (sax e flautas).

O show “O mar vai virar sertão” foi contemplado por edital de circulação de Música da FUNCEB em 2009 e trás músicas de autoria da própria banda.

Serviço:

O quê? Show da Banda ‘Café com Blues’
Quando? 09 de Janeiro (sábado), 21h
Onde? Teatro Municipal de Ilhéus
Entrada? R$ 20,00 (Inteira) R$ 10,00 (MEIA)
Telefone do TMI: (73) 3231.7264
Site da banda: http://www.cafecomblues.com.br/

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Orides Fontela fez uma poesia enigmática, cortante, que prima pela concisão, pela economia de recursos e densidade. A ela bastava dizer apenas o suficiente, deter-se no que é essencial. Difere muito da poesia minimalista ou do haikai, por exemplo, mas não raro leio seus versos como se lesse um koan.

ELEGIA (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que

o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.


MÉDIA

Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?

Poemas do livro Transposição (1969)

Primeiros haikais do ano


outra vez florida
a minha enorme alegria –
pomar de cajueiros

***

não importa o sol
tampouco o azul do céu –
mas sentir a vida

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

1° de janeiro

Jorge Elias Neto

Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.

No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos dos champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.

De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.


Em: Rascunhos do absurdo (lançamento em breve)

Confira também:
breve texto, entrevista e micro seleção de poemas do Jorge Elias Neto: http://sopadepoesia.blogspot.com/2009/07/poesia-transcendental-de-jorge-elias.html

sábado, 2 de janeiro de 2010

Um poema de Jesse Waters

A tradução é do mestre Ildásio Tavares

Uma maçã de Dachau

Décimo oitavo dia de Nissan,
Primeiro mês do ano judeu, 21 de abril
Terceiro dia de Páscoa. Estou numa rua de trás,
[calçada de pedras.

“Liebling” uma vendedora de maçãs me diz
Mas não falo alemão. Ela sorri e balança a cabeça
Ao ver moedas de euro na palma da minha mão.

É uma bela maçã. Brilhando para mim
No meio da minha mão. E ainda
Não tenho a menor idéia de como ser sagrado.

Qualquer fruta, mesmo apenas o miolo
Ou somente descascada é santa
[quando você está solitário.

Ao crepúsculo, com uma xícara de chá
[pingado com rum, eu espreito
Por minha janela o lugar onde os vendedores
[ficam fora dos carrinhos
Até que a luz morre. comendo salmão branco,
Que vem num invólucro encerado, e meia laranja.

Algo tão belo tanto quanto desistir da semente
É solitário e descascar a fruta com fome é santo.
Se você planta uma semente de maçã num

[campo longe da cidade
Onde a neve nunca permanece, mesmo no inverno
E aquela semente vive, isto é uma coisa sagrada.

Não feito o peixe Gelfite. Agora mesmo
treze horas do leste, minha mãe
está no Brooklin, comprando duas libras
de salmão branco, carpa e agulhão.
É possível que o peixeiro
A conheça. A gente nunca acha espinhas no peixe,
É por isso que meus parentes sempre passam
A Páscoa na casa dos meus pais.
Fique com a pele, minha mãe dirá ao peixeiro
Mas ela fica com a cabeça, a semente

[e o miolo. A primeira
Primavera em que me lembro do cheiro

[daquelas espinhas
Frescas de peixe, eu tinha cinco anos.

[Era o cheiro de sal
E de carne da minha fome jovem. Minha mãe moerá
O peixe junto com água efervescente, noz moscada,
Vinho branco e cubos cuidadosos de aipo,
Enquanto pensa em algo sagrado.

Qualquer coisa como abrir mão da fome
Pela santidade, pelo sagrado coração da criança
Ainda não é bastante, não me mostrará como é amar.
[Não há nada
Comestível neste poema. Nada santo.
Somente uma maçã, com gosto de maçã, com cheiro
De maçã. Que mais poderia uma
Maçã significar aqui, em qualquer outro lugar santo
[é a mesma fruta doce. –
Mas nesta rua de pedra
Em Dachau onde minha avó
Conta-se que foi espancada até morrer
E ninguém disse Kaddish até minutos atrás,

[eu comeria
Seis milhões de maçãs perfeitas feito a que tenho
[na palma da mão sem senti-la cheia.
Eu abraçaria centenas de alemães, coreanos,
[católicos, taoistas, mulheres
E homens reais que amam ou odeiam, faria qualquer
[coisa para me livrar do antigo boxeador
[de sombra em mim que arrota nação
Em cada jab e largo gancho – semente
Que nunca comheceu um inimigo
Além de sua própria e escura imaginação

Não posso começar minha vida de novo. Os marcos
Que conheço estão todos nos poemas,
[não no coração do povo.
Não há marcos claros neste poema.
Quando vôo de volta para Troy, sobre o Atlântico,
Nova Iorque – casa – sua mó de máquinas de pedra
E fábricas de biscoito ardiam como números,
Para o quê minha própria juventude não tinha tempo
[ – dentro do ventre
Americano da abundância acima de nosso

[mundo sagrado.
Comerei desta maçã. A dividirei com minha mãe

[e irmãs junto a um halvah e quindins

Itapuã. 31
VII. 2009


An Apple from Dachau

It's the eighteenth day of Nissan,
the first month of the Jewish year, April 21st –
Passover's third day. I’m on a backways
[cobblestone street.

"Liebling" a woman selling apples says to me
but I don't speak German. She smiles, and nods
to the euro coins in my palm.

It's one fine apple, shining up at me
from the center of my hand. And still
I have no idea how to be sacred.

Any fruit, even just the core
or shed skin, is holy when you’re lonely.

At dusk, with a cup of rum-laced tea, I watch
out my window to where the vendors stay
[out at their carts
until the light goes dead, eating whitefish
from wax paper, and one half of an orange.

Something so beautiful as to give up seed
is lonely, and to shed its skin for hunger is holy.
If you plant an apple seed in the far town field
where snow never stays, even in winter,
and that seed lives, it’s a holy, holy thing.

Not like Gefilte fish. Right now
thirteen hours east, my mother
is in Brooklyn buying two pounds
of Whitefish, Carp and Pike flesh,
chances are the fishmonger
knows her: You'll never find bones,
it's why my relatives always have
Passover at my parent's house.
Keep the shed skin, my mother will
[tell the Fishmonger
but she's keeping the head, seed and core. The first
spring I remember smelling those fresh
fish bones, I was five. It was the salt smell
fleshwork of my young hunger. My mother will grind
the fish together with seltzer water, nutmeg,
white wine and finely diced celery ribs
while thinking about something sacred.

Anything so beautiful as to give up its hunger
for holiness, and shed its skin for the sacred childheart
is still not enough, won’t show me how to love.
[And there's nothing
edible in this poem. Nothing holy.
Only an apple, which tastes like apple, smells
like an apple. What else can an
apple mean here, in any other holy place it's
[the same, sweet fruit –
but on this cobblestone street
in Dachau where my grandmother
is said to have been beaten to death
and no one said Kaddish until a few minutes ago,
[I would eat
six million perfect apples as the one here in
[my palm and never feel full.
I’d embrace hundreds of loving and hating
Germans, Koreans, Catholics, Laotians, real women
and men, anything to let go of the ancient shadowboxer
in me who snorts nation
with each jab and wide hook – the one
seed who's never known an enemy
besides his own, dark imagination.

I can't start my life over. The landmarks
I know are all in poems, not in people's hearts.
There are no clear landmarks in this poem.
When I cross back over the Atlantic to Troy,
New York – home -- her milling ball quarry machines
and cookie factories burned like figures
my own youth had no time for – inside the American
womb of plenty up above our sacred, holy world
I'll eat this apple, I'll split it with my mother and
[sisters over halvah, macaroons.

Nota:
Recentemente o poeta estadunidense Jesse Waters passou um mês em Salvador, na UFBA, participando de um programa de intercâmbio através da Partners of Américas Organização.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

3º Poema da Infância

Eu sempre preferi raspar panelas
e roubar mangas nos quintais vizinhos,
sempre joguei pedras em passarinhos
e quebrei vidros de muitas janelas.
Nos telhados, velhas telhas partidas,
subindo e descendo atrás de uma pipa,
e atrás da bola moleque Chulipa,
cantando as peladas sempre vencidas.
E qual peixinho eu nadava no rio,
eu brincava até debaixo do frio.
Lá, naquele tempo, tudo era lúdico.
Minha vida era um doce de bananas,
doce de leite e duelos com as manas,
com as vizinhas brincava de médico.