sábado, 31 de outubro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Do que será que ele não gostou?
O que é poesia para você?
O conceito de poesia é muito amplo, o que se transformou em um problema, justamente pela falta de valores dos seres no tempo atual. Parodiando Pessoa eu poderia dizer que há poesia bastante no pôr-do-sol em Itapuã, da mesma forma que em um assassinato. Vejam “Morte do leiteiro”, do Drummond. Agora, transformar essas matérias em um poema é que são elas...
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
Eu acredito, como Mário de Andrade, que o poeta é um ser fatalizado. Ou seja: nasce-se poeta. E por mais que se leia, caso o leitor não seja um poeta, jamais chegará a sê-lo. No máximo ele poderá ser um grande leitor e, se insistir, um poeta irregular, como a maioria, aliás. Ao poeta, aquele que diz a si mesmo e acredita não poder viver sem poesia, como sugere Rilke, cabe ler de maneira atenta os grandes artesãos do verso de todos os tempos, escolas e nacionalidades. Também ao poeta se pede estudo e dedicação, conhecimento formal, inclusive de versificação. Isso vale, também, àqueles que se dizem vanguardistas ou iconoclastas, pois não se pode desconstruir o que não se sabe construir. Aos admiradores do modernismo paulista eu diria que o verso é livre, mas nunca fora frouxo.
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?
Os poetas que mais gosto e admiro são: o pernambucano Alberto da Cunha Melo, sobre o qual já produzi diversos ensaios. Toda a sua obra é importante para mim, mas se tiver que escolher algum poema dele eu escolheria “Casa Vazia”, onde diz: “Poema nenhum, nunca mais,/ será um acontecimento:/ escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos”. Que porrada, hein! Outro poeta de minha admiração é o baiano Ildásio Tavares. Ildásio, além de excelente poeta, possui uma obra vastíssima e é um grande mestre. Muitos poetas aqui da Bahia marcham nos finais de semana para sua casa a fim de se instrumentalizarem. O “home” sabe muito e eu tenho o privilégio da sua amizade. Também escrevi sobre sua obra e de sua lavra eu destaco o poema “Canto do Homem Cotidiano”, do qual trago aqui um excerto: “(...) Por isso eu canto a luta sem memória/ Desse homem que perde, e não se ufana/ De no rosário de derrotas várias/ E de omissões, e condições precárias/ Poder contar com uma só vitória/ Que não se exprime nas mentiras tantas/ Espirradas sem medo das gargantas/ Mas sim no que ele vence sem saber/ E não se orgulha, campeão na história/ Da eterna luta de sobreviver.”
E o que dizer de Bruno Tolentino? Um fora de série total, como poeta e como intelectual. Seu poema que mais me agrada é “Nihil Obstat”, que corre assim:
É preciso que a música aparente
foi limando, aguçando o que escutara.
Como sou chegado à exegese, também leio alguns críticos, pelos mais variados motivos. Um livro fundamental para se prevenir contra a falta de valores que se alastra pela nossa poesia é “Gênios”, de Harold Bloom. Outro texto imperdível é ”A Arte de Escrever”, do Schopenhauer (a L&PM o lançou em versão de bolso). Também presto muita atenção no que diz Affonso Romano de Sant’Anna. Acho que é o bastante.
domingo, 25 de outubro de 2009
Villa-Lobos x Eurico Alves
Ontem à tardinha, por uma dessas grandes coincidências, ouvia “Bachianas brasileiras”, do Villa-Lobos, ao passo em que lia confortavelmente um livro de Eurico Alves, baiano de Feira de Santana, brasileiríssimo, quando, ao começar a leitura de um poema intitulado “Asa Negra”, a toccata “O trenzinho caipira” me faz parar a leitura e mergulhar no mar das minhas lembranças, quando ia de Marília para Panorama, sempre de trem, passar parte das minhas férias, na casa de minha Tia Preta. Ao retomar a leitura, voltando os olhos para o livro, qual não foi meu espanto, ao perceber que o poema também versa sobre o mesmo tema do nosso grande músico erudito. Espanto!
Saudade, reminiscências... Tudo isso me fez preparar essa postagem. Espero que gostem, que ouçam o poema, que leiam a música...
ASA NEGRA
Eurico Alves
No côncavo azul da tarde morna,
um sopro cansado, cansado...
E a preguiça sem fim dos lustrosos trilhos luminosos,
flabelando luzentes e lentamente lambendo , lânguidos,
a limpa língua longa da larga lista de limosa lama...
Sob o crespo céu onduloso, a locomotiva que arfa,
que arfa e arfa, suflando e ruflando fogosa o
(fôlego de fogo da fornalha
furiosa, aflando fanhosa e fina...
Rodam rascantes rodas raivosas roendo ruidosamente a terra...
E, depois,
velozes, velozes,
vertiginosas, vertiginosas, vertiginosas,
como largo vôo negro de um pedaço da noite
(que tivesse baixado...
Ah! os meus sentidos mordidos de volúpia!
E os meus nervos e os meus gestos bêbedos, bêbedos de infinito!...
Estas rodas que giravolteiam, estas alavancas
(velocíssimas que alucinam,
são pedaços dos meus músculos, dos meus nervos!...
este vôo doido, um grito de fogo do meu cérebro cantando
e esta vertigem e esta loucura e esta alegria, o ardor
(do meu sangue,
do meu pensamento!
Rolam flácidos fumos fugazes flamulando fartamente
(pelo ar escampo
– estrelas negras, sonoras, imponderáveis –
coroando o misticismo e a melancolia desta tarde minha,
neste fecundo êxtase do meu delíirio, dos meus sentidos, do meu sonho!
E essa grinalda morena de chispas histéricas, no ar,
que desce para a glória moça da minha fronte jovem,
para o tormento super-humano da alucinação
(de não poder voar!...
Como sinto nos meus nervos e nos meus sentidos
(o sonho desta máquina!
Como sinto no meu cérebro a volúpia deste vôo!
(Contorce-se toda no mórbido espasmo metálico desta vertigem
(esta máquina humanizada.)
E, no côncavo roxo da tarde que entorpece,
morre no horizonte broslado de sangue e fogo,
esta volúpia metálica de locomotiva divinamente imensa!
Ligação externa: Artigo do poeta e ensaísta Silvério Duque sobre a obra de Eurico Alves: http://poetasilverioduque.blogspot.com/2009/07/centenario-de-eurico-alves-boaventura.html
Convite para leitura
sábado, 24 de outubro de 2009
O Enigma da Poesia (Trecho)
Penso que a primeira leitura de um poema é a verdadeira, e depois disso que nos iludimos acreditando que a sensação, a impressão, se repete. Mas, como disse, pode ser mera fidelidade, mero truque da memória, mera confusão entre nossa paixão e a paixão que sentimos uma vez. Portanto, pode-se dizer que a poesia é uma experiência nova a cada vez. Cada vez que leio um poema, a experiência acaba ocorrendo. E isso é poesia. (...) Uma vez escrito, esse verso não me serve mais, porque, como já disse, esse verso me veio do Espírito Santo, do subconsciente, ou talvez de algum outro escritor. Muitas vezes descubro que estou apenas citando algo que li tempos atrás, e isto se torna uma redescoberta. Melhor seria, talvez, que os poetas fossem anônimos. (...) Para concluir, trago uma citação de Santo Agostinho que, a meu ver, vem bem a calhar. Disse ele; “O que é o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei. Se me perguntam o que é, então não sei”. Sinto o mesmo em relação à poesia.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Oficina de Cordel
Prestigiem: http://oficinadecordel.blogspot.com/
domingo, 18 de outubro de 2009
Histórias da Guerra, de Charles Bernstein
Hoje, a poesia não encontra mais ressonância entre leitores. Essa frase e inúmeras variantes similares tornaram-se lugar comum. Raramente [nunca?] vemos livros de poesias figurando nas listas de mais vendidos. Não os vemos nas vitrines de livrarias, nem entre as indicações de leitura. Nos cadernos culturais, há resenhas de livros de culinária, mas não de poesias. Até nas listas de “livros para o vestibular” a poesia está se esvaindo. Por onde ela anda? Quem a lê? Quem as escreve?Charles Bernstein, americano nascido em Nova York há 58 anos, é um dos autores que lê, escreve e pensa a poesia. “Poetas não fazem parte da cultura de massa e, portanto, não têm a platéia de um filme, de um programa de TV ou de um músico pop. Esta é a natureza do gênero de poesia em nosso tempo: é uma pequena escala, da não-cultura de massa. E talvez esta é a grande vantagem da poesia.”, disse Bernstein em entrevista.
E o caminho trilhado por Bernstein é repleto de inventividade e provocação. Histórias da Guerra (Martins Editora) é o primeiro título do autor no Brasil. A obra é uma compilação de poemas originalmente publicados nos EUA, extraídos dos livros Parsing [Asylum's Press, 1976], The Sophist [Sun & Moon Press, 1987], With Strings [University of Chicago Press, 2001] e, sobretudo, Girly Man [University of Chicago Press, 2006]. O título traz ainda três ensaios de Bernstein, uma breve biografia do autor e uma excelente entrevista concedida, em 2002, para a revista Sibila.
A edição bilíngüe, além de privilegiar os leitores com fluência em inglês, desnuda o processo de tradução do também poeta Régis Bonvicino, responsável pela seleção dos poemas e pelo prefácio da obra.
Apesar do título, a poesia de Bernstein, não é feita de panfletagem política ou proselitismo doutrinário. Seus poemas são instigantes, desafiadores, extremamente articulados com as tendências estéticas modernas da literatura americana do pós-guerra. Desde a preocupação com a forma à escolha meticulosa das palavras, suas construções são cerebrais, mas não perdem o charme. Carregam um lirismo ora truncado, ora escondido, disfarçado em camadas, como uma flor aparentemente bruta que se revela cada vez mais bela e delicada quando apreciada com cautela.
Mesmo que a aparente aspereza de versos em alguns poemas possa denotar formas cifradas e econômicas, o autor refuta o rótulo de hermético. “Eles [os poemas] não possuem significados ocultos ou segredos que você precise decifrá-los. Eu diria que as outras camadas não são tão ‘escondidas’. É como se estivéssemos em um passeio na floresta, se formos devagar, percebemos mais coisas. Eu tento criar poemas que restaurem na linguagem algo dessa selvageria, dessa imensidão. O processo de leitura pode se tornar tanto uma descoberta como um ato de transmissão de conteúdos. Creio que os poemas incentivem – talvez até provoquem – a criação mais do que apenas o consumo imediato. É mais pensamento ativo, em vez de recepção passiva. Pelo menos assim espero”.
Além de poeta, Bernstein é ensaísta e estudioso do assunto. Hoje é professor na Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, mas já lecionou poesia e literatura em outras instituições norte-americana. Em 1978, Bernstein e Bruce Andrews lançaram a revista e o movimento L=A=N=G=U=A=G=E, que se propunha a discutir e disseminar novas estéticas e formas de poesia. Para o autor, tanto a cena mainstream como a cena alternativa estavam carentes de discussões e reflexões.
Como poeta e professor, Bernstein conhece e admira outras vertentes da poesia americana, [aqui no sentido continental da palavra]. Considera o movimento concretista brasileiro como uma influência e paradigma para aqueles interessados na inovação da poesia do século 20. Constatação que, dita por um norte-americano, surpreende. Da mesma maneira que nos surpreendemos ao depararmos, logo no início do livro, com uma tradução de Bernstein para o poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Para quem não conhecia o instigante trabalho de Bernstein, saber que ele lê, estuda e traduz poesia brasileira é reconfortante – nada há de mais prepotente que um gringo escrevendo do alto de uma torre, ignorando a tudo abaixo da linha do equador.
E ao ler a orelha do livro Histórias da Guerra, notamos que a prepotência pode ser coisa nossa, tão tupiniquim quanto uma jabuticaba. “A poesia de Bernstein acaba por ser vítima, aqui, da resistência ideológica que há contra os ‘ianques’, embora, por ser inovadora, acrescente e abra perspectivas para a poesia brasileira contemporânea”.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Meira Delmar: a lírica feminina da Colômbia
Dentre os valores mais substanciosos da lírica feminina colombiana encontramos os versos de Meira Delmar, poetisa do amor e da morte, sempre orientada por um ponto de vista feminino sobre estes temas, imprimindo em seus versos certo aspecto nostálgico, algo que não pode ser. Diz Meira Delmar que o amor em sua poesia possui tons medidos, que não é um amor que grita ou exige, antes é um amor que está sempre indo, em busca.A poetisa colombiana, grande amiga de Garcia Marquez, confessa que desde muito jovem foi leitora de outras autoras Sulamericanas como Mistral, Storni e Augustini, e que elas podem ter lhe influenciado. Entretanto, percebemos mesmo, que sua lírica possui um acento reconhecidamente próprio, alcançado em silêncio, no próprio fazer poético, que tonifica e modula a sua voz, sem que esta seja devedora a nenhuma outra.
No Brasil, ao que nos parece, apenas o livro “Mundo Mágico: Colômbia”, Edições Bagaço, Pernambuco, 2007, uma antologia da lírica daquele país, organizado e prefaciado por Lucila Nogueira e Floriano Martins, possui poemas de Meira Delmar, o que é extremamente lamentável e prova a quase completa ignorância brasileira sobre a obra de poetas e poetisas da América do Sul.
Morte minha
Tradução de Gustavo Felicíssimo
A morte não é ficar
com as mãos ancoradas
como barcos inúteis
em minhas próprias margens,
nem ter nos olhos,
a sombra da pálpebra
a última paisagem
naufragada em si mesmo.
A morte não é sentir-me
filha na terra obscura
enquanto move a noite
seu gomo de luzeiros,
e move o mar profundo
as naus e os peixes,
e o vento move estios,
outonos e primaveras.
Outra coisa é a morte!
Dizer teu nome uma
e outra vez entre a neblina
sem que tornes o rosto
a meu rosto, é a morte.
E estar de ti distante
quando dizes “A tarde
volta sobre as rosas
como uma asa de ouro”.
A morte é ir apagando
caminhos de regresso
e chegar com minhas lágrimas
a um país sem nós
e é saber que pergunta
meu coração em vão
por tua melancolia.
Outra coisa é a morte.
Muerte mía
La muerte no es quedarme
con las manos ancladas
como barcos inútiles
a mis propias orillas,
ni tener en los ojos,
tras la sombra del párpado
el último paisaje
hundiéndose en sí mismo.
La muerte no es sentirme
fija en la tierra oscura
mientras mueve la noche
su gajo de luceros,
y mueve el mar profundo
las naves y los peces,
y el viento mueve estíos,
otoños, primaveras.
¡Otra cosa es la muerte!
Decir tu nombre una
y otra vez en la niebla
sin que tornes el rostro
a mi rostro, es la muerte.
Y estar de ti lejana
cuando dices "La tarde
vuela sobre las rosas
como un ala de oro".
La muerte es ir borrando
caminos de regreso
y llegar con mis lágrimas
a un país sin nosotros
y es saber qué pregunta
mi corazón en vano
por tu melancolía
Otra cosa es la muerte.
Relação externa: aqui encontra-se uma breve colçetânea da poesia de Meira Delmar
http://www.los-poetas.com/f/delmar1.htm
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Delmira Agustini, a voz feminina do Uruguai
Delmira Agustini (24.10.1886 – 06.07. 1914), nasceu em Montevidéu. Filha de Italianos imigrantes, Agustini foi uma criança precoce. Consta em sua biografia que além de começar a escrever poemas quando ainda tinha 10 anos, estudou francês, música e pintura. Apesar de ter falecido muito cedo, assassinada sobre sua própria cama, com apenas 28 anos, ainda é considerada como uma das maiores poetas latino-americanos do sexo feminino. Faz parte da geração de 1900, juntamente com Julio Herrera y Reissig, Leopoldo Lugones e o grande Rubén Darío, a quem ela considerava seu professor. Naquele período, Darío, referindo-se à Agustini, afirma ter sido ela a única escritora mulher, desde Santa Teresa D’avila, a expressar-se como uma mulher, o que era mesmo um grande diferencial devido toda uma conjuntura machista existente.Ela se especializou no tema da sexualidade feminina em uma época em que o mundo literário era dominado pelos homens. Seu estilo de escrita é considerado o melhor da primeira fase modernita, com temas baseados em fantasia e exotismos.
Eros, deus do amor, simboliza o erotismo e é a inspiração para os poemas Agustinianos sobre prazeres carnais. Ele é o protagonista de muitas das suas obras literárias. Seu terceiro livro, “Los Calices Vacíos” (Cálices vazios), em 1913, foi aclamado como a sua entrada para um novo movimento literário, "La Vanguardia" (A Vanguarda).
Agustini tinha olhos azuis, pele clara e uma figura esguia. Alguns amigos testemunharam que ela parecia um anjo inocente.
O amor incondicional e arrogante levou-a a temas de submissão e de charme, assim como imagens eróticas altamente espiritualizadas.
Delmira Agustini publicou as seguintes obras: El Libro Blanco (1907), Cantos de la Mañana (1910), Los Cálices Vacíos (1913), El Rosario de Eros (1913), Los Astros del Abismo (1924). No Brasil tem publicado “Líricas”, edição bilíngüe, Desterro, SC, Edições Nephelibata, 2005. Tradução de Gleiton Lentz
O INTRUSO
Traduzido por Anderson Braga Horta
Amor, naquela noite trágica e soluçante
Cantou tua chave de ouro em minha fechadura;
E logo, a porta aberta sobre a sombra arrepiante,
Te vi como uma mancha de luz e de brancura.
Tudo me iluminaram teus olhos de diamante;
Beberam-me na taça teus lábios de frescura,
Na almofada pousaste-me a cabeça fragrante;
Amei-te o atrevimento e adorei-te a loucura.
E hoje rio se ris e canto se tu cantas;
Se dormes, durmo como um cão a tuas plantas!
Na própria sombra levo a tua recendente
Primavera; e, se a mão tocas na fechadura,
Tremo e bendigo a noite que -soluçante e escura-
Floriu na minha vida tua boca amanhecente.
EL INTRUSO
Amor, la noche estaba trágica y sollozante
Cuando tu llave de oro cantó en mi cerradura;
Luego, la puerta abierta sobre la sombra helante,
Tu forma fue una mancha de luz y de blancura.
Todo aquí lo alumbraron tus ojos de diamante;
Bebieron en mi copa tus labios de frescura,
Y descansó en mi almohada tu cabeza fragante;
Me encantó tu descaro y adoré tu locura.
Y hoy río si tú ríes y canto si tú cantas;
Y si tú duermes duermo como un perro a tus plantas!
Hoy llevo hasta en mi sombra tu olor de primavera.
Y tiemblo si tu mano toca la cerradura,
Y bendigo la noche sollozante y oscura
Que floreció en mi vida tu boca tempranera!
O INEFÁVEL
Tradução de Henriqueta Lisboa
Morro de estranho mal. Não, não me mata a vida
a morte não me mata e nem me mata o amor.
Morro de um pensamento mudo como ferida.
Não sentiste jamais aquela estranha dor
de um pensamento imenso enraizado à vida
devorando alma e carne e não alcança a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
por inteiro a abrasar-vos sem nenhum fulgor?
Cúmulo dos martírios! Levar eternamente
desgarradora e seca a trágica semente
como um dente feroz que as entranhas corroeu.
Mas arrancá-la em flor que amanhecera um dia
milagrosa e ideal — ah! maior não seria
do que ter entre as mãos a cabeça de Deus.
Yo muero extrañamente... No me mata la Vida,
no me mata la Muerte, no me mata el Amor;
muero de un pensamiento mudo como una herida,
¿No hábeis sentido nunca el extraño dolor
de un pensamiento inmenso que se arraiga en la vida,
devorando alma y carne, y no alcanza a dar flor?
¿Nunca llevasteis dentro una estrella dornida
que os abrasaba enteros y no daba un fulgor?
İCumbre de los Martirios! ... İLlevar eternamente,
desgarradora y árida, la trágica simiente
clavada en las entrãna como un diente feroz!
Pero arrancarla un día en una flor que abriera
milagrosa, inviolable... İAh, más grande no fuera
tener entre las manos la cabeza de Dios!
Ligação externa:
http://www.patriagrande.net/uruguay/delmira.agustini/index.html

