terça-feira, 31 de março de 2009

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domingo, 29 de março de 2009

Antecipando o dia mundial da mentira...

Um país de mentiras
Marcelo Torres(*)

O Brasil está tão impregnado de falácias e engodos que até mesmo o dia mundialmente dedicado à mentira - o 1º de abril - por aqui tem passado despercebido nos últimos tempos. Convivendo cotidianamente com toda ordem de golpes, fraudes e falcatruas, ouvindo coisas como "ausência do Estado" e "crime organizado", o brasileiro já nem se lembra de criar mentirinhas lúdicas nesta data específica.
O que é, afinal, o sistema político brasileiro senão uma grandessíssima mentira? E os partidos políticos, esses sacos de secos e molhados, o que são senão legendas de aluguel, de compra, de venda e de troca? E os cargos de vices (prefeito, governador e presidente), o que são senão falácias? Aqui, suplentes anônimos viram senadores da República sem nunca terem recebido um voto sequer.
O que parecem os nomes e a retórica dos partidos, senão mentiras? Todos, na retórica, defendem bandeiras aparentemente corretas, mas vivem se enlameando em coisas erradas, a prática desmentindo o discurso. Uma das ironias do sistema partidário é que a legenda que abriga antigos apoiadores da ditadura, filhos do PFL e netos do PDS tem nome oficial Partido dos Democratas; e a imprensa os trata como "o deputado democrata", "o senador democrata".
A maior e mais velha agremiação partidária brasileira - o PMDB - é uma grande mentira; aliás, é um antro de corrupção, segundo testemunho de um dos seus senadores, Jarbas Vasconcelos, que não foi desmentido por ninguém, nem mesmo pela direção do partido, o que nos leva a acreditar que ele falou a verdade nua e crua.
O Congresso Nacional é presidido pela terceira vez por um senador cujo mandato é uma aberração, para não dizer que é uma mentira. Só num país de mentiras para um cacique político de um estado, o Maranhão, se eleger - e diversas vezes! - por outro, o Amapá, sem domicílio eleitoral anterior, sem ter propriedades lá, sem qualquer ligação com o estado.
O que são, afinal, as corregedorias e comissões de ética da Câmara e do Senado, senão umas mentirinhas (ou grandes mentiras)? O que são as quase seis mil câmaras de vereadores deste país senão legislativos fictícios? Para a vida prática da população, para os interesses da coletividade num município, para que servem, na prática, os cerca de 70 mil vereadores?
No Brasil, em todos os níveis e esferas, as eleições são tidas e havidas como 'as vozes das urnas', 'a vontade livre e soberana do povo' e 'a festa da democracia', mas, na verdade, elas quase sempre são disputas vencidas pelo abuso do poder econômico, pelo uso e abuso da máquina administrativa, sem falar na compra direta e indireta de votos.
Em cada município, em cada estado e no âmbito federal, as alianças, os conchavos, os acordos, as composições, as contas, os financiamentos, as promessas, os programas, as propagandas e até mesmo algumas pesquisas estão mais próximas de mentiras nebulosas que de verdades transparentes.
O que é a representação política neste país senão uma mentira deslavada? O eleito recebe uma procuração coletiva (votos) e passa a exercer o mandato como quer e bem entende, como se este fosse de sua propriedade privada, atuando a seu bel prazer, muitas vezes para gozar benefícios pessoais não republicanos e satisfazer interesses próprios escusos.
Que brasileiro pode acreditar que vivemos num "Estado Democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos", como está escrito nas primeiras linhas da chamada Constituição Cidadã?
Ao ler a Constituição, quando lê, o brasileiro tem a sensação de estar lendo um texto de ficção e fica sonhando: "Ah, se isso tudo fosse verdade!" Você vê que o primeiro artigo, a primeira alínea estabelece a soberania como princípio fundamental da República Federativa do Brasil, e lembra que semanas atrás o príncipe Charles veio ao país dizer o que se deve fazer com a Amazônia.
A independência entre os poderes da República é uma mentira, aliás, é produto de um ato clandestino, um enxerto, pois foi incluído às escondidas, sem ter sido votado. E quem confessou isso foi o próprio autor, o ex-deputado constituinte Nelson Jobim, em entrevista a O Globo, em outubro de 2003, quando ainda era ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Se vivêssemos num país sério, sob um Estado Democrático que tem a Justiça como um de seus “valores supremos”, Jobim seria punido. Mas, ao contrário, ele acabou foi promovido, elevado a presidente da maior corte de justiça do país; depois virou ministro da Defesa e tem pretensões de ser presidente da República.
Está no papel, ou melhor, está fixado na Constituição que para ser ministro do STF a pessoa deve possuir "notável saber jurídico e reputação ilibada". Isto é cumprido? Você acredita? Aliás, a Constituição também prevê que só deve ser editada medida provisória em casos de relevância e urgência, o que é outra grande pública e notória mentira nacional.
No país das mentiras prontas, medida provisória há muito tempo virou coisa permanente. Outra mentira foi a CPMF: dizia-se que o dinheiro era para custear a saúde, mas todo mundo sabe que a grana era sempre desviada. A “contribuição” seria provisória, mas durou década e meia, foi morta, porém pode ser ressuscitada em forma de CSS ou outro nome de mentirinha.
Quando o prazo de validade do imposto se expirou, os defensores e os contrários inverteram os papéis: os que antes eram favoráveis mudaram de opinião e ficaram contra; e os que antes eram contrários agora viraram a favor da CPMF desde criancinha. Conclui-se que, antes ou depois, os dois lados não falavam a verdade - para não dizer que falavam mentiras.
Um político hoje governador, quando senador, foi acusado de violar o sigilo de votação do painel do Senado federal. Então, foi à tribuna, chorou, discursou, jurou inocência, mostrou um catatau de papéis e, no fim das contas, o país descobriu que era tudo um teatro, uma mentira - provas forjadas, testemunhas arranjadas.
A gente vê o slogan do governo - “Brasil, um país de todos” – e pensa “Quem dera fosse verdade!” O parágrafo único do artigo primeiro da nossa Carta Magna diz que “todo poder emana do povo”, vírgula, “que o exerce por meio de representantes eleitos”. Ah!, se fosse verdade! E tem mais: “todos são iguais perante as leis”. Bem, vamos parar por aqui. Hoje é 1º de abril, mas chega de mentiras!

Marcelo Torres, baiano, formado em Jornalismo (Universidade Federal da Bahia), pós-graduado em Jornalismo Literário (Academia Brasileira de Jornalismo Literário) e em Gestão da Comunicação nas Organizações (Universidade Católica de Brasília).
Blog do Marcelo Torres: http://marcelotorres.zip.net/

quinta-feira, 26 de março de 2009

Distribuição gratuita de obras de arte?

Em São Paulo. Vale conferir.
Free Art Fest é um evento que expõe e distribui obras de arte de artistas do mundo todo, gratuitamente! Os locais das exposições são públicos, privados, legais ou ilegais. Criada pelo artista Gejo, foi lançada pela primeira vez no Brasil em 2008, com organização da Revista Elementos e Cidade Escola Aprendiz.
No primeiro evento da América do Sul, o tema foi a exposiçao mundial de Free Art "It's Yours Take It!" e foi realizado no Beco da Vila, local tradicional do Graffiti paulistano e artistas em geral na Vila Madalena.
Nesta segunda edição com o tema "Dia do Graffiti", sai da Vila Madalena e sobe para os jardins, de espaço público entra para dentro da galeria de arte, mas com o mesmo propósito, ARTE PARA TODOS!

Datas:
27 de março (sexta) - das 18h às 21h - (exposição até as 20h, em seguida distribuição de senhas e entrega das obras até às 21h)
28 de março (sábado) - das 11h às 15h - (exposição até às 14h, em seguida distribuição de senhas e entrega das obras até às 15h)

Local:
Mônica Filgueiras Galeria de Arte
Rua Bela Cintra, 1.533 - Jardins

sábado, 21 de março de 2009

INFÂNCIA RECONTADA - PARTE IV

A SEGUNDA PARTIDA

A segunda partida aconteceu em um ensolarado dia de domingo, pela tarde, e como estava em casa, de lá mesmo fui ao estádio que fica a menos de trezentos metros de onde morávamos. Durante a semana, a expectativa havia sido grande, tanto para mim quanto para meus colegas, pois seria a primeira vez que jogaríamos no Bento de Abreu, um campo enorme para aqueles que não estavam acostumados aos padrões oficiais, apenas aos campinhos do educandário e alguns outros do bairro. Seria uma barra.
Peguei meus apetrechos, chuteira, caneleira e meião, os coloquei na sacola, me despedi da minha mãe, do garninsé, e peguei meu rumo. Logo de cara encontrei com Flávio, também conhecido como Astromar, contei sobre o jogo e ele, claro, não acreditou. O deixei no portão de sua casa e segui, ganhei a Rua Vicente Ferreira, passei em frente a uma casa que vendia frango assado naqueles cineminhas de cachorro e em frente ao Karica, cuja calçada, àquela hora, já estava cheia de homens tomando a sua cerveja e beliscando uns petiscos. Parei no bar do pai do Hideo, japonês bom de bola, para comprar chicletes. Foi o próprio Hideo que me atendeu. Contei ao meu amigo sobre o jogo daquela tarde, mas ele, do mesmo modo que Flávio, também duvidou de mim. Nem liguei. Peguei meus chicletes e em instantes me encontrei com a turma toda e nossos educadores em frente ao estádio. Todos estavam apreensivos.
Qualquer boleiro gostaria de estar no meu lugar, por isso ninguém acreditou que jogaria uma partida no mesmo local onde já pisaram craques como Sócrates e Ademir da Guia, Dario Pereira ou Dicá, o tapete consagrado do Abreuzão, o mesmo local onde Zé Guimarães desfilava semanalmente o seu charme desengonçado e que naquela tarde, além dos meus dribles, receberia a trupe do Cilinho: Silas, Muller, Sidney, Raí e Cia. Acho que nem minha mãe acreditou muito em mim.
Entramos por um dos portões laterais e nos trocamos atrás do muro onde antigamente funcionava o placar do estádio. Dali podia ouvir o burburinho da torcida chegando. Tive calafrios. Cruzamos a pista de atletismo, a caixa de salto a distância, os poucos metros que nos separavam da linha de fundo e pisamos o campo com o pé direito, que é pra não dar zica. O juiz chamou todos ao círculo central e explicou: “esse é um jogo comemorativo, não quero ver ninguém dar pancada”, “entendido?”. Colocou a bola no centro, chamou os capitães, tirou par ou ímpar e deu início à peleja.
Daquela vez, além de colocar um lateral para me marcar, o técnico adversário também havia providenciado outro jogador para ficar na sobra, o que veio a dificultar muito as minhas ações. Até quando eu vinha procurar jogo na intermediária um deles estava no meu calcanhar, me perseguindo, segurando minha camisa mesmo quando estava longe da jogada. Um horror! E como se não bastasse, eles ainda abriram o placar no finalzinho do primeiro tempo.
Um a zero pra eles. Será que sofreríamos a primeira derrota para a filantrópica logo naquele dia? Eu não podia acreditar! Veio o intervalo e Genaro queria me substituir, mas Seo Adão o convenceu a me colocar para jogar no lado oposto, na ponta esquerda, dessa vez, “caindo pelo meio”, dizia ele.
Faltava menos de uma hora para iniciar o jogo do Marília contra o São Paulo e o estádio estava bem cheio. Sol a pino, havia chegado a hora de dar um pouco mais. Chamei Edvane, o nosso centro-avante, e recomendei que chegasse mais junto de mim, que ficasse por perto para fazermos umas tabelinhas como fazíamos no time do campeonato interno do educandário.
Não deu outra. Logo na primeira jogada deixamos o marcador a ver navios e ganhamos um escanteio. Como não conseguíamos centrar a bola do local original, na junção da linha lateral com a linha de fundo, como fazem os profissionais, o juiz a pôs na marca de grande área. Fui para a cobrança, pois era, no meu time, o menino que tinha mais força nas pernas. Ajeitei a bola com carinho, reuni todas as minhas energias e dei um chutão que saiu rasteiro, no meio do bolo, ao invés de ir por cima, na cabeça, como desejava. Por sorte, a bola passou por todo mundo, mas não passou pelo Edvane, que concluiu de chapa, empatando o jogo.
Participei do jogo todo com entusiasmo, me esforcei, mas, pelo que podem ver, não foi o suficiente para levarmos a vitória pra casa. O jogo terminou mesmo empatado. Eu queria muito ganhar aquela partida e também fazer um gol, mas talvez não fosse bom o bastante quanto o Fernando Sabino que, diz ele, em seu “O menino no espelho”, teria entrado com bola e tudo na meta adversária, jogando entre os adultos. Isso, depois de driblar um e outro, deixando para traz a defesa adversária, passando debaixo das pernas do goleiro para marcar o gol da vitória do seu time. Exatamente como eu gostaria de fazer.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A liberdade está morta

Sosígenes Costa

A liberdade está morta
com seus cabelos tão longos,
com seus cabelos boiando
no mar em que se afogou.

A liberdade está morta
com seus cabelos desnastros.
Caiu, coitada, dos astros
no mar em que se afogou.

A liberdade está morta
com seus cabelos compridos
que eu desejava beijar.

A liberdade está morta.
Lá vão os homens buscá-la
naqueles barcos de vela,
naqueles barcos com asas.

Lá vão os cisnes marinhos
na água azul e sonora.

Lá vão os cisnes no mar
buscar a deusa da aurora.

Lá vão as aves buscá-la
para guardá-la em seus ninhos.

A liberdade está morta
e coroada de espinho.

A poesia de Sosígenes Costa nos arrebata pela pungência dos seus versos, pela espiritualização da carne e pela carnalização do espírito. Nela, reflete-se viva a adequação ao jeito barroco, sem dúvida parte efetiva e afetiva na formação desse poeta que, pela sensibilidade e originalidade, tornou-se, seguramente, um dos mais potentes poetas baianos de todos os tempos e, sem sombra de dúvidas, tornar-se-á, caso o cabotinismo dos cariocas e paulistas lhe permita, um dos mais expressivos e populares poetas brasileiros.

terça-feira, 17 de março de 2009

BLUES PARA MARÍLIA

(confissões de um mariliense)

Para Carlos Drummond de Andrade


Penso todos os dias em Marília.
Sobretudo penso em tudo que deixei por lá:
os companheiros de infância, minha mãe,
o pão caseiro feito pela Tia Vilder,
as férias em Panorama.
Penso principalmente no cheiro do café
(tenho cem por cento de café no sangue),
café bom das lavras da Fazenda Cascata
que já não existe mais.
Marília são flashes na memória:
os passeios pela Praça São Bento,
as visitas ao Paço Municipal.
Por isso esse velho Blues,
esse reverso n’alma,
o silêncio que revolve a voz
e o olhar demorado para as coisas sem sentido.
Marília é tudo que ainda sangra.


Ilhéus
2009. IX

sábado, 14 de março de 2009

NO DIA NACIONAL DA POESIA

Reproduzimos um artigo de Bruno Tolentino sobre a poesia de Castro Alves

Castro Alves Contemporâneo

Castro Alves não envelheceu, antes redimiu o tempo. E não o seu tempo, nem o nosso, mas a noção mesma do tempo como inimigo do belo e carrasco do ser. Sua obra, que acabei de reler a par com o melhor de Wordsworth e Byron, desafia galhardamente aquela noção e sai-se bem dos dois confrontos. O século e quebrados que nos separa daquela assombrosa produção de apenas sete anos de ofício na curta vida de um jovem vai-se ele mesmo encurtando a cada página relida. Relê-las é humilhar o tempo que acreditávamos o dono de tudo; a esse roedor só de nossas pobres certezas e categorias assumidas, assistimos ao poeta i-lo despindo de seu poder de parálise pela tensão viva de cada estrofe, não raro de cada verso num inteiro poema. Vamos voltando assim à "Cachoeira de Paulo Afonso" como retomamos, por exemplo, com Wordsworth a "Tintern Abbey"; nada mudou porque tudo foi transfigurado de uma vez por todas. Se em "Child Harold" pareceu-me notar-lhe algo de uma neve senil nas têmporas e nas cadências, em "Mocidade e Morte" a mesma voz nos chega da dolorosa paixão de um jovem que ouvia e ecoava na mais fina música da mente os passos da morte certa. O que repõe a questão do poder "atemporal" — dito de transfiguração — da linguagem de poesia. E no que consiste isso, que significa essa não temporalidade? Distinto daquela derrapante dimensão "intemporal" incompatível com o dizer poético (o qual supõe a busca de uma concreção do pensamento longe de todo idealismo abstrato), esse poder de manter em vida aquilo de que o mero tempo das cronologias faz carniça, paradoxalmente reside numa só capacidade a conquistar pela poesia: a de arraigar-se num dado momento com toda a força das sutilezas do espírito. Quem diria! Elevar um discurso para fora do alcance do poder letal do tempo significa, justamente, temporalizar ao mais alto grau as coisas e as linguagens da mente... Estou dizendo que o poeta máximo é aquele cujo dizer, fundado nas coisas deste mundo, num presente vivido, tende de modo natural àquelas alturas do pensamento a que convergem o universal, os mistérios da sensibilidade de um povo e as sutilezas de seu idioma. A partir de então este pode "mudar" o quanto seja — e nosso léxico preferencial e até nossa sintaxe mudaram muito desde a composição de "Vozes d'África" — mas não lhe será mais possível furtar nada ao impacto emotivo-verbal que a um dado ponto na história nele encarnou-se perfeitamente.
Estou arriscando sugerir que só a emoção bruta ("gut emotion") tornada linguagem ao seu mais puro grau salva das garras de abutre do tempo a fragilidade do ser, a realidade. A arte (e não só a da palavra, esse nosso "lugar no tempo") consegue ser nossa única perenidade revisitada; mas apenas quando se queira um antídoto — o único de que dispomos, contra as tentações da "intemporalidade", vale dizer, da abstração. Esta última, ainda quando tenha parecido esplêndida, envelhece. Hugo envelheceu, se pouco; Vigny, que lhe prefiro, algo menos; mas tenho que, onde ambos lograram driblar até certo ponto a "lenda dos séculos", foi onde arrancaram à fala do dia-a-dia as coisas e as crenças de um momento e as limparam de toda banalidade corriqueira, tornando-as noções antes de elevá-las a cumes de uma impensável grandeza. Já Samuel Johnson é hoje quase risível, uma ponderosa irrelevância. Browning temo que empalideça a cada nova leitura, seu olhar ocluso e empostado parece suportar mal as ferrugens combinadas do tempo e da Idéia... A pretensa poesia de Voltaire morreu como o aborto de uma retórica abolida. Os exemplos são inúmeros. A abstração e a poesia jamais se entenderam.

Dito isto, noto que, como em Wordsworth, o que apaixona em Castro Alves não é sua paixão pelas idéias, ou mesmo pela vida ou pelo mundo que a continha em suas contingências; é a radical "tradução" que ele faz destas minúcias nos termos de uma linguagem exaltada, mas paralela ao coloquial e limpa de maneirismos, e que por isso mesmo nos chega trazendo tudo aquilo intacto mais de cem anos depois. Arrisco portanto deduzir que a sua, como a do vate inglês da natureza, foi uma arte do aqui-e-agora, a visão do fotógrafo ancorado no imediato; mas, transfigurados no poema pela linguagem nobre a que ambos souberam transpor os ângulos do cotidiano, esses "instantâneos" no contingente deixam ipso facto de pertencer apenas a uma época, a um específico "lugar no tempo". E concluo que esse roedor, o tempo que data e destrói, concede direitos de soberania a todo triunfo do espírito fundado no particular. Triunfo esse dependente, por sua parte, da renovação de um certo imprescindível fio transmissor a que chamarei agora (por empréstimo a Antônio Paulo Graça) de sensibilidade. É um conceito que venho testando contra as instâncias da melhor arte do passado, e com Castro Alves obtive um dos melhores resultados.
Em certo Byron cheguei a suspeitar que a linguagem, em que pese a mestria incontestável, se tivesse em certa medida adelgaçado com o adensamento progressivo da língua inglesa desde seus tempos. Ora, nosso idioma não padeceu menos esse processo, seja com a noção suicida de "ruptura" entre os excessos de 22, seja com as adiposidades e modismos acumulados desde então. Sente-se e escreve-se cada vez mais crassamente o que se fala mal. E, no entanto, em Castro Alves não percebo um emagrecimento da substância, nem um enfraquecimento da pujança verbal. Sua leveza de tom continua segura e firme, sua pungência modulada e convincente. Essas espumas flutuam sem medo nas corredeiras do tempo, foram de contingência em contingência e a todas lhes sobreviveram. Restaria perguntar-se por quê. Talvez seja que, ao oposto daquele outro genial capenga, seu verso continha todas as impurezas do real, somadas a uma aderência algo mais estrita àquelas "coisas da mente" que, ditas com a transparente singeleza e a famosa paixão que o tornaram ilustre e amado, via assegurar que aquela voz tão sua, tão temporal, cruzasse, negasse o tempo e viesse inteira até nós, aos justos festejos deste sesquicentenário. Se não é algo assim o cristalino segredo da perenidade de Antonio Castro Alves, não sei o que seja.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Lula Côrtes, genial!

capa do LP Paêbiru

Assisti a Lula Côrtes e banda Má Companhia faz poucos dias na Tv Cultura, no programa do Roge de Renor, o fenomenal Som na Rural e fiquei espantado com a qualidade e a pegada do Rock’n Roll. Na apresentação Lula mistura o mais autêntico rock com versos de Zé Limeira e mostra canções que fez com Alceu Valença e Zé Ramalho. Aliás, um de seus discos, Paêbiru, foi feito em parceria com Zé Ramalho, na Pedra do Ingá, um sítio arqueológico com aproximadamente seis mil anos, sendo considerado o disco mais caro do mundo, vale cerca de seis mil reais.

Ouçam Versos perversos:
http://www.youtube.com/watch?v=ktMCkGHyPRk

terça-feira, 10 de março de 2009

Ilustrações para O Amor Natural de Drummond


O Pouso da Palavra, casa de cultura do nosso amigo e poeta Damário Dacruz (sic), situada em Cachoeira, abrirá seu espaço de arte, cultura e comunicação para receber, neste sábado, 14 de março, dia nacional da poesia, a partir das 21h, a exposição “Ilustrações para O Amor Natural de Drummond”, do artista baiano Gabriel Ferreira. A mostra tem caráter erótico, entretanto, sem agressão e coberta de uma boa sintonia entre os corpos ali expostos.
Essa mostra abrirá um ciclo de várias outras. Não houve data melhor que o 14 de março – já que é o dia nacional da poesia – para a abertura de uma exposição que retrata O Amor Natural do grande poeta Carlos Drummond de Andrade.
Estarei lá, prestigiando os amigos. Vá você também! Cachoeira possui uma rede hoteleira de boa qualidade e com preços acessíveis.

Pouso da Palavra – Praça da Aclamação, n° 08. Cachoeira-Ba.
ENTRADA: Franca
Obs.: a exposição se estenderá até o dia 29 de março de 2009.

Blog do Gabriel: http://www.sougabrielferreira.blogspot.com/

O Cordel na Bahia I

Rodolfo Coelho Cavalcanti
Por Maria do Rosário Pinto
Rodolfo não era baiano, mas residindo na Bahia foi que escreveu e publicou a maior parte da sua obra, hoje comparada em importância com a de grandes poetas como Leandro Gomes de Barros, precursor do cordel. (Nota e seleção de Gustavo Felicíssimo)

Rodolfo Coelho Cavalcanti nasceu em Rio Largo (AL) em 1919. Entretanto, consta do registro de nascimento a data de 1917. Filho de Arthur de Holanda Cavalcante e Maria Coelho Cavalcante, foi criado pelos avós maternos até os 8 anos, quando retorna à casa dos pais. As constantes mudanças entre Maceió e Rio Largo o obrigaram a trabalhar para ajudar no sustento familiar.
Adolescente, percorre parte do Norte e Nordeste, atuando como camelô, palhaço de circo, dentre outras atividades. Desde essa fase, já se faz notar como bom versejador, participando de pastoris, cheganças e reisados.

Defensor dos poetas

Em Parnaíba (PI), adquire folhetos do poeta e editor João Martins de Ataíde para revender, começando assim sua vida de folheteiro. Instala-se em Salvador (BA), em 1945, firmando-se como defensor e líder da classe de poetas. Publica folheto dedicado ao governador Otávio Mangabeira, que libera poetas, cantadores e folheteiros da proibição de comercializarem seus produtos em praças públicas. Publicou principalmente em Salvador e Jequié; formou uma vasta rede de agentes distribuidores em todo o Nordeste, editou também na Prelúdio (SP).
Realizou na Bahia, em 1955, o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros. Como jornalista, fundou alguns periódicos, como A Voz do Trovador, O Trovador e Brasil Poético.
Percorreu vários temas da literatura de cordel, os mais recorrentes foram os abecês, biografias, cantorias e fatos do cotidiano. Foi também tema de vários poetas e pesquisadores da literatura de cordel.

Folhetos artesanais

Seus folhetos, em sua maioria, de oito páginas, com capas em xilogravuras ou clichês, eram confeccionados artesanalmente, com a ajuda dos filhos. Somente a impressão era feita em tipografias.
Publica o primeiro folheto, Os clamores dos incêndios em Teresina. Publica o ABC de Otávio Mangabeira, em 1949; ABC da praça Cayrú, [19--]; ABC de Getúlio Vargas, [19--]. Seu primeiro grande sucesso de vendas foi A volta de Getúlio, de 1950. Na Prelúdio (SP), os folhetos ABC dos namorados, do Amor, do Beijo e da Dança e A Chegada de Lampião no Céu, ambos em 1959.
Morreu em 1986. Pouco antes, enviou trova para o II Concurso de Trovas de Belém do Pará: “Quando este mundo eu deixar / A ninguém direi adeus / Dos poetas quero levar / Suas trovas para Deus.

A Chegada de Lampeão no Céu
(estrofes I a VI)

Lampeão foi no inferno
Ao depois no céu chegou
São Pedro estava na porta
Lampeão então falou:
- Meu velho não tenha medo
Me diga quem é São Pedro.

E logo o rifle puxou
São Pedro desconfiado
Perguntou ao valentão
Quem é você meu amigo
Que anda com este rojão?
Virgulino respondeu:
- Se não sabe quem sou eu
Vou dizer: Sou Lampeão.

São Pedro se estremeceu
Quase que perdeu o tino
Sabendo que Lampeão
Era um terrível assassino
Respondeu balbuciando
O senhor...está...falando
Com...São Pedro...Virgulino!

Lampeão disse está bem
Procure que quero ver
Se acaso não tem aí
O meu nome pode crer
Quero saber o motivo
Pois não sou filho adotivo
Pra que fizeram-me nascer?

A Editora Hedra publicou uma antologia da obra do autor. Veja no link:
http://hedra.com.br/home/index.php?PHPSESSION_HEDRA=sess&id=7&livro_id=48&area%5B%5D=catalogo&area%5B%5D=detalhes