Três poetas grapiúnas contemporâneos
George Pelegrini
CHEGADA
Preciso de ajuda
aberto meu coração
se vier, não fuja
FESTA
Noite tropical:
Encontro tupiniquim
Pinga aí, na moral.
TÍTULO
Escrito na tarde
procuro aquela palavra
o teu nome arde
Lourival Pereira Júnior (Piligra)
http://kartei.blogspot.com/
A borboleta
Para Rita de Cássia (minha irmã)
uma borboleta
pousou suas asas azuis
na minha caneta
Sol - útero de luz
Para Jana – Janaína
o que me seduz
é este sol sobre as árvores
- útero de luz!
A lagarta e a lua
Para Lina Frazão
a lagarta nua
contempla de uma varanda
o brilho da lua
Mither Amorim
http://alvorecimentos.blogspot.com/
farfalho de folhas,
cosquinha no vento,
sorriso no ar.
***
chuva de verão:
lá do céu vem desabando
sol pra todo lado.
***
trêmulo e com frio,
nas águas mais profundas,
nado em lágrimas
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
CONVITE PARA LEITURA

Convido a todos os leitores deste blog a conhecerem um artigo de nossa autoria sobre o Haicai no Brasil e o pioneirismo de autores baianos. Esse texto foi publicado originalmente na renomada revista O ESCRITOR, da UBE (União Brasileira dos Escritores), agora, o artigo está disponível no CRONÓPIOS, importante site literário do nosso país.
LINK: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=3781
LINK: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=3781
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
A poesia direta e corajosa de Elói Martins
Faz poucos dias estive conversando com o amigo João Filho (há um link para o blog dele aí ao lado) sobre algumas coisas que marcaram para nós o ano de 2006, quando ele fundou, em Salvador, o Sebo Diadorim. Ali nos reuníamos todos os sábados, juntamente com outros amigos para trocar idéias sobre literatura, para lermos alguns poemas e jogar algum papo fora. Um dos poetas daquela turma cuja poética nos surpreendeu foi a de Elói Martins, tanto que seus poemas seriam inseridos na segunda edição da revista POESIA & AFINS, que, infelizmente, não foi à frente. O texto de apresentação dos seus poemas, escrito pelo poeta Raimundo Bernardes, seria este: Elói Alexandre Dias Martins é o jovem escritor baiano, formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Livre dos formalismos da lírica tradicional, a escrita poética de Elói oscila entre a ausência de métrica e a espacialização geométrica com que seus versos são organizados a fim de simbolizar, o que mais nos assusta, a consciente soberba de Bazarov diante do legado de seu pai. Poesia direta e corajosa, a pouquíssimos passos da prosa, cada palavra aí contida se nos encaminha com a eloqüência de um chamado que se pretende livre dos catálogos dos doutos, afinal, o que são os livros senão o fechar os olhos, uma muralha e um deserto?
EPITÁFIO PARA CECÍLIA
Ao findar o último arco do sol,
um negro foragido grafou
em árabe à falecida ama portuguesa;
vê-se na lápide as letras encarvoadas:
“Em louvor ao inevitável desvaneceu
Cecília; nascida a mais miúda de
estatura, nunca foi miúda no desejar.
Corcunda, sim, pitava igual às negras.
Os admiradores, se os têm, que rezem louvores,
em lembranças dos humanos feitos seus,
pois dada a zelos de filhos alheios, forasteiros,
ela o merece com efeito.
Avoadores, suspiros e sonhos
desprezou como alimento consolador,
e aos sessenta e nove anos abandonara a vida,
legando ao seu negro o desamparo.”
SOBERBA DE BAZAROV
"Meu pai organizou nossa fazenda
EPITÁFIO PARA CECÍLIA
Ao findar o último arco do sol,
um negro foragido grafou
em árabe à falecida ama portuguesa;
vê-se na lápide as letras encarvoadas:
“Em louvor ao inevitável desvaneceu
Cecília; nascida a mais miúda de
estatura, nunca foi miúda no desejar.
Corcunda, sim, pitava igual às negras.
Os admiradores, se os têm, que rezem louvores,
em lembranças dos humanos feitos seus,
pois dada a zelos de filhos alheios, forasteiros,
ela o merece com efeito.
Avoadores, suspiros e sonhos
desprezou como alimento consolador,
e aos sessenta e nove anos abandonara a vida,
legando ao seu negro o desamparo.”
SOBERBA DE BAZAROV
"Meu pai organizou nossa fazenda
com alguma habilidade no cultivo.
Construiu o estábulo, preparou o pasto,
protegeu a cultura do pastar dos brutos,
domesticando, cercando como lhe era possível,
na proporção da pouca ciência do seu tempo.
Reconheço que aos poucos entregou os seus dias
numa luta contra pragas.
Filho único, herdei a fazenda,
predestinado agora a experimentar meu engenho:
deixei o pó ocupar os poros das folhas,
o esterco entupir as cocheiras,
o capim crescer ao léu rarefeito.
Esse ano semeei aos pássaros
sementes guardadas por meus ancestrais,
porque aprendi que a beleza pertence à desordem,
assim como o útil, às herdades abandonadas.
Educado pelos atuais doutos,
legarei um campo tomado de ervas daninhas."
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
SENDA

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;
sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo
a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta;
trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;
sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo
a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta;
trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.
A POESIA DE PLÍNIO DE ALMEIDA:
Sofrendo as contingências do desenvolvimento humano e histórico, parte da poesia de Plínio de Almeida, tardiamente publicada em dois volumes (o segundo ainda a ser publicado), o primeiro, pela família quando do seu centenário, em 2004, sob o título de “Fragmentos”, o segundo, editado pela FICC – Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, na gestão do antropólogo Flávio Simões, em parceria com a Editus, a editora da UESC, cujos primeiros escritos datam de 1930, possuem linguagem que em alguns aspectos tornou-se arcaica, mas não o suficiente para torná-la hermética ou ultrapassada, haja vista, também, certa coloquialidade e desenvoltura com a qual o poeta trata seus poemas.Sua poesia transita claramente por certo grau filosófico, existencialista quando sua devoção religiosa emerge e, finalmente, amorosa, romântica, cuja ansiedade essencial é a paixão, de onde surge um “eu lírico” angustiado e torturado pela não materialização dos seus mais profundos anseios, retomando, curiosamente, os temas centrais do Romantismo brasileiro: o sofrimento e a dor do homem, também o escapismo e fuga da realidade.
Desse modo, esse “eu lírico” nos poemas de Plínio de Almeida nos transporta para a realidade de um “eu” psicologicamente projetado, um personagem que frente à aterradora impossibilidade do amor, do intento não alcançado, não consegue senão resignar-se, aceitando seu destino. Assim, é também a amada um ser projetado, como no poema “Mistério”, um soneto que possui flexibilidade surpreendente, onde o autor conserva a cesura, mas com acentuação deslocada, conseguindo ótimos efeitos, cuja estrutura, nele, cede ao impulso da emoção, reproduzindo de modo musical os movimentos mais sutis, mesclando em um decassílabo, três diferentes metros: o heróico, o sáfico e o ibérico.
Pois devo ocultar teu nome completo,
Dos meus versos talvez o melhor tema,
A cujo amparo escreverei, sem custo,
Com o estro em fogo, divinal poema.
Não direi da beleza do teu busto,
Pois farei do silêncio o meu sistema;
Mas se de Fídias1 és paros2 venusto3,
Se és da perfeição jóia suprema,
Como fazer calar do verso a rima
Que te conhece e, séria, te retrata
Entre as mulheres fúlgida obra prima?
Basta na dor que lesta me consome,
Neste simples poema que te exalta,
A falta horrenda de ocultar teu nome...
O texto acima é um fragmento do prefácio que escrevemos para o livro que contém toda a obra encontrada de Plínio de Almeida, sobre a qual nos debruçamos durantes meses fazendo a preparação dos textos, muitos deles com a grafia anterior à reforma ortográfica de 1945, para que a mesma possa vir a publico em breve, através de uma parceria entre a FICC (Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania) e a Uesc (Universidade Estadual Santa Cruz).
[1] Escultor e Arquiteto Grego, considerado o maior escultor grego do período clássico, criador do Parthenon e das estátuas dos deuses gregos.
[2] Referente ao Mármore de Paros. É um material altamente apreciado pela brancura, fineza e semitransparência. Foi explorado em pedreiras na ilha grega de Paros.
[3] Relativo à Vênus, deusa do panteão romano, equivalente a Afrodite, no panteão grego.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
2009, ano nacional Euclides da Cunha
2008 foi, em nossas letras, o ano dedicado a Machado de Machado de Assis. 2009 é o ano para o Brasil lembrar os 100 anos da morte de Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”.Figurando entre os mais importantes escritores da literatura brasileira, Euclides da Cunha morreu em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade, assassinado pelo militar Dilermando de Assis, amante de sua mulher, Ana. Nascido em 1866, na então província do Rio de Janeiro, cursou a Escola Politécnica e tornou-se engenheiro militar. Mas sua vocação sempre foi a escrita. Em 1897, como sabemos, viajou para Canudos, no sertão da Bahia, como correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo”. Foi designado como correspondente do jornal para cobrir a Guerra de Canudos, quando o Exército Brasileiro enfrentou e derrotou a resistência popular liderada por Antônio Conselheiro. As reportagens que escreveu para o jornal paulista transformaram-se no livro “Os Sertões”, ícone da literatura brasileira, parcialmente escrito em São José do Rio Pardo, cidade onde o escritor-engenheiro residiu entre 1898 e 1900, incumbido da reconstrução da ponte sobre o rio Pardo, que desabara.
Nas três famosas partes em que se divide - “A terra”, “O homem” e “A luta” - Euclides pôs o Brasil inteiro, as peculiaridades do nosso povo e a complexidade da nossa história. “Sua obra teve uma repercussão que o tempo só tem feito crescer”, afirmou o crítico literário Tristão de Athayde.
Engenheiro, jornalista, escritor e professor, Euclides da Cunha pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico e à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1903. Além do clássico “Os Sertões”, publicou também “Contrastes e Confrontos”, “Peru versus Bolívia” e “À Margem da História”, editado após sua morte. Oito anos após matar Euclides, Dilermando de Assis também assassinou o jovem Quidinho – Euclides da Cunha Filho –, que tentava vingar a morte do pai.
Cem anos depois do seu trágico desaparecimento, Euclides da Cunha continua vivo na admiração e no respeito dos seus milhões de leitores, pela admirável obra, entretanto, pouca gente sabe que Euclides da Cunha também fora poeta, de talento parco, é verdade, mas que à luz da historicidade não pode ser ignorado, como prova o poema a seguir, escrito aos 13 anos de idade.
EU QUERO
Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...
Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!
Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.
Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásperas cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da solidão...
[1883]
Outros poemas de Euclides da Cunha em:
http://www.culturabrasil.pro.br/ondas.htm
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
40 ANOS DE LED ZEPPELIN
Lembro-me de que em certa feita, creio que há uns dez anos atrás, em uma das minhas idas à Lençóis, região da Chapada Diamantina, vi Robert Plant em um bar que, se não me engano, tinha como alcunha Veneno. O guitarrista que sempre me enlouqueceu com suas performances estava ali, bem à minha frente, tomando uma coca, ou quem sabe uma Cuba-libre, não sei. Olhei pro cara, balancei a cabeça em um gesto de cumprimento, no que fui retribuído. Já havia ganho o passeio. Mais tarde fiquei sabendo que ele morava em Lençóis com sua esposa, uma argentina, habitue do local. A população da cidade o protegia, pois sabendo que se houvesse muita exploração da sua imagem no local o cara poderia “saltar de banda”. E me parece que foi o que aconteceu.Daí que agora em Janeiro, o Led Zeppelin comemora os 40 anos do seu primeiro disco, homônimo ao nome da banda. “Led Zeppelin” foi gravado em Outubro de 1968, pouco tempo depois de Jimmy Page ter recrutado John Paul Jones, Robert Plant e John Bonham para tocar com ele sob o epíteto The New Yardbirds e cumprir obrigações contratuais do seu anterior projeto The Yardbirds (por onde passaram nomes como Jeff Beck e Eric Clapton). Depois de uma parada na Escandinávia, o quarteto regressou a Londres e Page mudou o nome da banda para Led Zeppelin, no momento em que entraram em estú
dio para gravar o disco. O título evoca a expressão usada para caracterizar a pretensão de Page de formar um super-grupo com membros dos Who, lead zeppelin, ou seja, um balão cheio de chumbo cujo destino era despenhar-se (ver capa do disco).O registro de estréia destes quatro virtuosos, com formação entre o jazz e o blues, recebeu críticas negativas quando do seu lançamento, mas foi um sucesso comercial. É hoje considerado um dos maiores discos de todos os tempos e um dos percussores do que mais tarde viriam a chamar de heavy metal. Pelas suas nove faixas passam clássicos como 'Good Times Bad Times', 'Dazed and Confused' e 'Communication Breakdown', pontos incontornáveis da carreira dos Led Zeppelin, terminada de forma trágica em 1980 (quando eu ainda era um menino), depois da morte de John Bonham. Ainda hoje a Led Zeppelin é um dos mais desejados regressos à ativa de uma banda de rock and roll.
DOIS POEMAS SOBRE O PÔR-DO-SOL NA ILHA DE ITAPARICA
ITAPARICABernardo Linhares
Para Florisvaldo Mattos
O ocaso bronzeia o lilás que lança
e tinge de vinho a cinta da ilha.
Em volta o silêncio entorna o laranja,
sereia desenha o seu arco-íris.
A fragata branca acolhe o amarelo,
gaivota de prata sopra na brisa,
a vela florida versa no tempo
revela no vento o verde da vida.
Molhada no ventre, côncava concha,
rosa dos ventos colore o coral
e anima na tarde o anil da paisagem.
Pintada de mel nos raios do sol
a estrela do mar delira profunda,
é lírio que fulge o azul de Netuno.
ILHA DE ITAPARICA
Gustavo Felicíssimo
Para Bernardo Linhares
(cidadão itaparicano)
A noite nos mostra as estrelas,
a lua crescente e divina
ancorada no mar da ilha
onde é musa que a todos cala.
Por sobre a maré uma luz,
o lume dos barcos ao longe,
um pássaro azul transluzente
e a vida vestida de organza.
Não há lugar de leite e mel,
apenas tu, Itaparica,
em teu compasso natural.
Nada mais singelo, senhores:
nem canções falando de amor,
nem amores feitos ao mar.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
BARACK DÁ BARATO
Por Geraldo Maia


Depois do sucesso do ecstasy entre os jovens descolados, da cocaína entre os deslumbrados yuppies, da maconha entre hippies e alternativos e do crack entre os excluídos e banidos, a droga "top" do verão de 2009 é a cerimônia de entronização do novo manda-chuva global, o Barack Obama, primeiro presidente "negro" dos americanos.
A posse de Obama tem desviado os olhares para longe do fracasso mundial do capitalismo neoliberal e para o fato de que Barack, excetuando a sua condição de afro americano, não fará mudança significativa alguma simplesmente porque está no lugar errado.
Podia até ter tido uma chance nas mãos de mudar alguma coisa em seu país e fora dele, mas a perdeu ao eleger-se. As grandes mutações que irá imprimir, é bem provável que ficarão no patamar do anunciado pela nova secretária de estado, Hilary Clinton, que assegurou a "novidade" de procurar o equilíbrio entre força militar e diplomacia, algo como convidar alguém para conversar num jantar sob a mira de elegantes tanques blindados e vôos rasantes de poéticos caças nucleares. Sem falar na presença dos fiéis e onipresentes "anjos" da guarda da CIA com seus inocentes e sofisticados armamentos. Ah, o vinho é naturalmente tinto, frio e encorpado.
Nenhum presidente americano irá produzir mudança alguma na trajetória americana de dominar e explorar o planeta apenas em seu benefício. Qualquer mínimo desvio terá sempre um marionete tipo Lee Oswald para colocar as coisas nos eixos. E para o seu quintal preferido, a América Latina, aí é que não muda mesmo, a não ser para pior, afinal com tantos países pobres e indefesos é um palco propício para o "big brother" mostrar o poderio de sua força militar.
Nem o fato de ser negro significa realmente uma mudança. Barack tem a pele negra, é real, mas o seu branqueamento é integral: coração, mente, alma, espírito, atitude. Está completamente integrado ao "way of life" dos seus eleitores brancos e ricos, a maioria votante responsável por sua bela vitória.
Também depois das trapalhadas da "bruxa" do Bush que jogou tanta porcaria no ventilador e só ganhou de volta uma sapatada sem pontaria só restava mesmo mudar alguma coisa, mas só na superfície, na maquiagem, na aparência. E o povo americano (e o americanizado) espera que com a bela jogada de marketing que foi a eleição de um "negro" para a Casa Branca, melhore um pouco a imagem de fracasso que ficou no mundo depois dos atentados de 11 de setembro e dos fiascos repetidos no Iraque e no Afeganistão. Sem falar na falência de Wall Street, o maior golpe financeiro jamais aplicado na história da civilização planetária.
No mais é se prostrar diante da TV e se empapuçar da droga Obama que pode dar o maior barato, mas se depender do holocausto que Israel promove contra os palestinos, vai sair um tanto caro para uma "bad trip". E haja sapato para jogar nessa galera.
A posse de Obama tem desviado os olhares para longe do fracasso mundial do capitalismo neoliberal e para o fato de que Barack, excetuando a sua condição de afro americano, não fará mudança significativa alguma simplesmente porque está no lugar errado.
Podia até ter tido uma chance nas mãos de mudar alguma coisa em seu país e fora dele, mas a perdeu ao eleger-se. As grandes mutações que irá imprimir, é bem provável que ficarão no patamar do anunciado pela nova secretária de estado, Hilary Clinton, que assegurou a "novidade" de procurar o equilíbrio entre força militar e diplomacia, algo como convidar alguém para conversar num jantar sob a mira de elegantes tanques blindados e vôos rasantes de poéticos caças nucleares. Sem falar na presença dos fiéis e onipresentes "anjos" da guarda da CIA com seus inocentes e sofisticados armamentos. Ah, o vinho é naturalmente tinto, frio e encorpado.
Nenhum presidente americano irá produzir mudança alguma na trajetória americana de dominar e explorar o planeta apenas em seu benefício. Qualquer mínimo desvio terá sempre um marionete tipo Lee Oswald para colocar as coisas nos eixos. E para o seu quintal preferido, a América Latina, aí é que não muda mesmo, a não ser para pior, afinal com tantos países pobres e indefesos é um palco propício para o "big brother" mostrar o poderio de sua força militar.
Nem o fato de ser negro significa realmente uma mudança. Barack tem a pele negra, é real, mas o seu branqueamento é integral: coração, mente, alma, espírito, atitude. Está completamente integrado ao "way of life" dos seus eleitores brancos e ricos, a maioria votante responsável por sua bela vitória.
Também depois das trapalhadas da "bruxa" do Bush que jogou tanta porcaria no ventilador e só ganhou de volta uma sapatada sem pontaria só restava mesmo mudar alguma coisa, mas só na superfície, na maquiagem, na aparência. E o povo americano (e o americanizado) espera que com a bela jogada de marketing que foi a eleição de um "negro" para a Casa Branca, melhore um pouco a imagem de fracasso que ficou no mundo depois dos atentados de 11 de setembro e dos fiascos repetidos no Iraque e no Afeganistão. Sem falar na falência de Wall Street, o maior golpe financeiro jamais aplicado na história da civilização planetária.
No mais é se prostrar diante da TV e se empapuçar da droga Obama que pode dar o maior barato, mas se depender do holocausto que Israel promove contra os palestinos, vai sair um tanto caro para uma "bad trip". E haja sapato para jogar nessa galera.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
Thiago de Mello

A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964

A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
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