quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

01 de janeiro de 2008

Jorge Elias Neto


Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.

No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos dos champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.

De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.

do inédito "Rascunhos do Absurdo"
blog do Jorge:
http://www.jeliasneto.blogspot.com/

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O POETA FLORISVALDO MATTOS

O poeta baiano Florisvaldo Mattos (1932), Grapiúna natural de Água Preta do Mocambo, hoje Uruçuca, integrou juntamente com outros jovens e talentosos escritores a conhecida “Geração Mapa”, cujo nome tem origem em um ontológico poema de Murilo Mendes. Liderados por Glauber Rocha, tal grupo ficou assim conhecido por publicarem entre 1957 e 1959, três números de uma revista (MAPA) que permanece até hoje como referência para a historiografia da literatura baiana. Toda a sua poesia possui coloração universal, onde estão inseridos grandes temas da poesia em todos os tempos, entretanto, Florisvaldo pinta de maneira incomparável a aldeia grapiúna, com grande sentimento de mundo, onde as questões sociais adquirem relevo e tonicidade, quer cantando a saga do cacau, sua natureza, costumes ou personagens, e até mesmo seus poetas, como é o caso de “A Hora da Rua”, um poema todo em redondilha maior, dedicado ao inesquecível Firmino Rocha, poeta com quem teve contato durante os anos 1950, onde observamos uma refinada intertextualidade com o célebre poema “Deram um Fuzil ao Menino”. Conheçam os poemas.

A Hora da Rua
Florisvaldo Mattos

Com seus cavalos de lata
a aurora cresce na rua.
- Que é do canto esperado?
- Que é da rosa da rua?

A aurora cresce no mar
nascem mil lírios na rua.

Faz-se um menino soldado
para levar a bandeira
ao campo de rosas negras.
Ergo o olhar: vejo um fuzil.
Um menino fez-se soldado
para salvar a esperança
no mar no campo na rua.

Vai chegando o branco barco.
Abaixo as rosas de lava!

Venham ver a cor dos lírios.
Os pássaros virão à festa.
Eu ouço o canto esperado.


Deram um Fuzil ao Menino
Firmino Rocha

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte rufando
nos campos negros.
Agora são os pés violentos ferindo
a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números o verso
ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
Deram um fuzil ao menino.

Mais em: www.jornaldepoesia.jor.br/floris.html

domingo, 28 de dezembro de 2008

Hodierno


Aqui, onde bárbaros viram heróis,
onde por vergonha ou medo
todas as vozes se calam
num delito coletivo e contraditório,
todas as solidões se proliferam
e os remorsos frutificam
silêncios cada vez mais vastos.
Os sons do vazio se expandem,
mordaças são distribuídas gratuitamente
e na mente do incauto
a aparente sensação de felicidade
enquanto o amanhã, por mais remoto que pareça,
ri da hipocrisia reinante
e abrolha nos comerciais de televisão.
Ah, já não faço mais planos,
meu futuro é o tempo presente
gasto com tudo o que não possui serventia,
sou guardião do pretérito,
o anfitrião das coisas vãs
e vivo porque em viver não há mistério,
apenas uma perene solidão e seu perfume.
Existo pela palavra, resisto pela fé,
ouço a voz de Deus a me abraçar
como se abraça uma criança;
deixei minha sombra na primeira esquina
e me demiti desse tempo baço:
aprendi a cantar a desimportância das horas
e a viver eternamente feito um infante.


26.12.2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

ESPANTALHO


Um pássaro pousado em minha tromba
fez seu pequeno ninho onde queria,
estendeu suas garras pelas vias
onde navios passavam feito pombas.

Acordei com arrulhos de rolinhas
namorando nas minhas dobradiças,
ensujeirando as belas historinhas
de mágicos, palhaços e preguiças.

Olhei-me pelos olhos das estrelas
que despontavam nuas pelas ruas,
mas não reconheci-me, pois as suas
garatujas estavam bem magrelas.

Toquei-me e percebi algo bem falho:
eu tinha me tornado um espantalho.

Drummond, novamente

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um poema de Mário Quintana

LEMBRETE
A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa


Quando se vê, já são seis horas...
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...

Quando se vê, passaram-se 50 anos
Quando se vê, não sabemos mais
por onde andam nossos amigos.
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Agora, é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia,
uma oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando,
pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Seguraria todos os meus amigos,
que já não sei onde e como estão, e diria:
Vocês são extremamente importantes para mim.

Seguraria o meu amor, que está, há muito,
à minha frente, e diria:
Eu te amo.
Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo
que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter alguém ao seu lado,
ou de fazer algo, por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá, será desse tempo
que infelizmente...não voltará mais.
You Tube:

AMORAS


Fiz uns arranjos nas palavras,
elas ficaram meio tortas,
meio tontas de tanto gozo,
mais elegantes, menos portas,

contrárias às estultices
dos gentis que se acham artífices,

argutos e outras coisas mais;
na verdade eu pintei de amoras
algumas palavras normais,

dei-lhes uma porção da arte
de Wolfgang Amadeus Mozart.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Disse tudo: Como negar essa afirmação de Affonso Romano de Sant'anna?

Existe realmente uma tendência na atualidade para a superficialidade, a fragmentação, a aparência, a pressa, a negação dos valores. Isso tudo são características da pós-modernidade. Tem muita gente que endossa e gosta disso. Eu não, pois tenho uma posição crítica em relação a isso. Acho que o intelectual, o ficcionista, o teórico que endossa as coisas da pós-modernidade é um desastre. Ele está assumindo uma ideologia, enquanto que a função do intelectual é justamente contestar as ideologias porque atrás delas existe uma coisa mais visceral e mais autêntica.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Aqui morava um rei

Ariano Suassuna

Suassuna retratado por W. J. Solha

"Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensangüentado."

POEMA DE NATAL

Dezembro é o cruel mês do natal,
hoje é sua véspera
e, além disso, faz um calor insuportável.
Há grande descontentamento no país,
enormes congestionamentos nas cidades
e as pessoas parecem felizes.
A miséria continua no seu galope
e as pessoas parecem felizes,
inclusive os miseráveis.
Esses se abundam nas calçadas
e mendigam com seus filhos
e com os filhos de outros desgraçados.

Negócio promissor é esse...
Vou sair pra ver o mar!


24.12.2007