segunda-feira, 20 de julho de 2009
Os dezessete haicais de Jorge Luis Borges
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A poesia transcendental de Jorge Elias Neto:
Jorge Elias Neto, desde “Verdes Versos”, seguindo seu próprio dictum, chega a “Rascunhos do Absurdo” com uma poesia extremamente madura. Sua busca se inicia com a questão ontológica basilar: o sentido do ser. Sua obra poética é marcadamente filosófica, metafísica e existencialista, partindo da realidade vivida para a apreensão de um sentido maior, através da poesia.
Nesse contexto, pautado nas questões essenciais que afligem o homem moderno: a ausência de deidades, a morte, a angústia, o ser e a existência, o poeta se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentido da vida, pulsante na concretude do mundo em que se enquadra “Rascunhos do Absurdo”, refletindo o espasmo do homem frente a esse mesmo mundo, por ele criado, e sua busca na ressignificação da vida.
Abaixo, alguns poemas do inédito “Rascunhos do Absurdo”.
A prazo
Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!
Já destaquei a etiqueta.
Tomei posse do indivíduo.
Será que não vêem
no meu ante-braço
o carimbo de “pago”?
O possível
Eu te daria meus vícios
se isso não me fizesse órfão.
Já o aconchego da pedra,
o travesseiro de folhas,
esses não são meus;
deles se serve qualquer poeta.
Balada da carne
Já que o dia é par: falemos de amor.
Já que à frente sempre restará o horizonte:
não me enterrarei além dos olhos.
Já que é no vazio insalubre da cura
que se percebe a alma evanescendo:
tragam-me uma taça.
Já que eu disse sim:
limitem os convidados
presentes à minha embriaguez.
Já que a palavra é uma puta:
rasguem o poema.
Já que a rima é farta e o poeta um estorvo:
que se recompense o primeiro idiota
a me cortar a carne.
Um pouco antes
Um pouco antes do desespero
entregarei as cartas;
não estas falsas memórias
principiadas em momentos de luxúria.
Somente a coragem de um moribundo
permite alguma crueza nas letras.
Talvez eu comece a entender Rimbaud
diante de meu cadafalso.
Por enquanto, tudo é entretenimento;
só cuspe e falsidade.
As cores são vivas e fortes
em meu semblante de camaleão.
Ao menos não me persigno;
não faço falsas preces.
Micro entrevista com JORGE ELIAS NETO
Gustavo Felicíssimo – Jorge, o exercício da cardiologia, uma área tão delicada da medicina, foi que te trouxe esse arsenal existencialista impresso na sua poesia, ou isso é algo inerente ao seu ser?
Jorge Elias Neto - Quando pequeno, muito me chamou a atenção a estória de David Copperfield que desde a mais tenra idade teve que lidar com a idéia de morte e de perda. De alguma forma, ficou em mim incutida a impressão que eu deveria ser uma pessoa forte a lidar com a morte e que, em algum momento, me confrontaria com a “inesperada das gentes”. Percebi, com o tempo, que essa tarefa não me seria assim tão fácil...
Tornei-me médico, lidei com inúmeros casos graves, presenciei, ao longo dos últimos 25 anos, as diversas formas como o homem, à beira da morte, bem como os seus convivas, enfrentavam esse momento único e, para mim, definitivo (a verdade básica da vida).
E esse enfrentamento tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva que “sempre chega pontualmente na hora incerta”. Passei a entender a relevância desse entendimento na minha formação como homem. Li as reflexões nos Ensaios de Montaigne, n’O sofrimento do jovem Werther, de Goethe, Nietsche, Kant, Camus e fui fazendo meu percurso.
Hoje, tenho a tendência a crer que a morte é branca, que é o nosso retorno à irracionalidade e à nossa perfeita integração ao caos universal. Entendi que esse absurdo – a coexistência entre o homem e o universo –, só vale a pena se repisarmos cada segundo e que, para mim, já não é mais permitido o alento da religião. É difícil, eu sei, mas esse é o meu caminho.
Daí minha poesia ser carregada de questões metafísicas, existencialistas. Nela busco expressar minhas meias-verdades.
"Ninguém deixou de sentir alguma vez que o destino é poderoso e estúpido, que é inocente e também inumano. Para essa convicção, que pode ser passageira ou contínua, mas que ninguém evita, podemos escrever nossos versos"
Jorge Luis Borges
GF- Em que medida você vê o poeta marcado pelos elementos do mito de Sísifo?
JEN - Por que viver? Em um poema onde retrato o suicida, eu narro um fato real. Um amigo “comum”, trabalhador, bem situado profissionalmente, do tipo “família”, após realizar sua grande obra profissional – suicidou-se. Retirei seu corpo do mar juntamente com dois amigos: um ascético extremo e um espírita. Naquele momento, olhei meu amigo morto e observei a reação de meus outros amigos. No meu caso, me pareceu clara a decisão dele: cansou-se da rotina de rolar a vida e, ao constatar o absurdo de viver, decidiu dar o salto para o nada.
Como disse Nietsche: “Cada um tem a verdade que é capaz de suportar”.
Quanto ao poeta?... Bem, o poeta, como todo ser humano, é marcado pelos elementos do mito de Sísifo.
O poeta é o protótipo do herói absurdo, tal qual Sísifo. A poesia se faz da vida do poeta, dos seus “guardados”. Respondo esta questão à partir do meu entendimento: optei pela vida e tento levá-la da forma mais intensa possível – tento insistentemente entendê-la.
Rolo as pedras, e coloco em minha poesia meu processo de aprendizado. Quanto a ser um médico ou um poeta, para ambos é necessário o fazer diário, mas com o prazer comedido do eterno aprendiz.
Acho que o poeta é um felizardo ao conseguir, nos momentos em que se encontra no limiar da melancolia, ter a possibilidade de externar seus pensamentos na forma de poema.
Desculpem-me os que vêem a poesia de uma forma mecanicista, mas creio na poesia que parte de uma emoção (com consciência e sem pieguices, é claro).
GF - Não te pedirei escolhas entre a poesia e a medicina. Mas, pegando uma carona em Rilke, eu te pergunto: serias capaz de viver sem uma ou outra atividade?
JEN - Não. Na minha adolescência iniciei uma pausa de 25 anos em relação ao fazer poético, período este totalmente dedicado a minha formação profissional, durante o qual tudo que escrevi foram textos médicos.
Certo dia, retomei a poesia e sinto que ela também passou a ser essencial no meu sentido de estar vivo. É óbvio que, apesar dos avanços na medicina cada vez aumentarem minha possibilidade de manter-me ativo profissionalmente, tornar-me-ei um profissional ultrapassado, mas isso é algo natural.
Quanto ao poeta, este ainda é muito jovem e pleno de incertezas e imperfeições. Espero que meus conhecimentos como médico, apesar das idiossincrasias cometidas, permitam-me uma terceira idade madura na poesia.
Penso que ambas, a poesia e a medicina, me permitirão um legado sem tragédia.
Sobre o mito de Sísifo
A labuta não respeita o portal das casas.
Dentro e fora – rolam-se pedras.
– Avisem-me
quem joga o bilboquê de pedra
dos dias.
E segue o homem-bastão
entre romper o barbante
ou deixar que lhe caia sobre a cabeça
o peso da tomada de consciência.
O homem é um ser interrompido.
Seja no curtume das horas
ou nas contas do terço,
ele sempre se agasalha
com a tênue esperança.
“roda peão,
bambeia peão...”
No absurdo de agora
e à espera da vida eterna,
Amém!
Blog do Jorge Elias Neto:
http://jeliasneto.blogspot.com/
domingo, 12 de julho de 2009
SENRYU
O Senryu, de acordo com a tradição da poesia japonesa, é uma variação do haicai clássico. Ambos possuem a mesma forma, três versos, mas tratam de temáticas diferentes. Enquanto o haicai tem como berço a natureza, o senryu trata de questões unicamente humanas, em tom irônico ou satírico.Apontamos tal diferença apenas por haver autores (mesmo entre os japoneses) que não diferenciam um de outro. Millôr Fernandes e Paulo Leminski, no Brasil, são bons exemplos para este exemplo. Abaixo, senryus da nossa lavra.
1.
da fruta que eu gosto
a namoradinha dela
chupa até o caroço.
2.
poesia concreta –
quem não tem o que dizer
se anima com pouco.
3.
quando chega a noite
muitos clamam pelo sol –
perderam luz própria.
4.
lemos mal o mundo –
temos sempre a impressão
de um sofrer profundo.
5.
no campo inimigo
o perigo tem um nome –
luís fabiano.
6.
transar com você –
apagar a luz do quarto
e acender o sol.
7.
um homem vaidoso
viu-se na lâmina d’água –
encontrou Narciso.
8.
vivo a ordenhar
as pedras do meu jardim –
minerais poemas.
9.
no ventre da noite
a morte, a morte encontra –
e se faz mais forte.
10.
eu sonho acordado
com o próximo poema –
mas ele não vem.
sábado, 11 de julho de 2009
Micro entrevista com Carlos Pronzato

Na Bahia, a melhor poesia de cunho político foi feita por Capinan em "Inquisitorial". No cinema, talvez Glauber Rocha seja o melhor exemplo. Entretanto vale lembrar que em toda arte engajada é necessário isolarmos os vícios e as virtudes. Mas esse é um outro papo.
Neste link http://www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com/ encontramos a produção audiovisual de Carlos Pronzato com sua respectiva sinopse, onde poderá também ser adquirida.
Entrevista
Gustavo Felicíssmo – Meu caro Pronzato, como o cinema influi na sua poesia, ou, se preferir, como ambos se unem, se conectam, em sua obra?
Carlos Pronzato - Há inúmeros filmes que com o seu instrumental técnico e narrativo específico se aprofundam em universos poéticos imagéticos, com maior ou menor sucesso, segundo as expectativas do diretor. Penso em Bergman, em Fellini, em Tarkovski, em Resnais, por exemplo, cujas explorações da subjetividade criaram mundos cinematográficos imaginários, poéticos. Esses universos criados a partir da sensibilidade do artista cinematográfico estariam em condições de influenciar, de aceder, ou, melhor dizendo, de ocupar – já que uma ação involuntária – o território do poeta? Acho que sim, no meu caso, já que, por força do meu trabalho diário nos dois suportes, a criação constante de pontes entre Terpsícore e a criação póstuma de Dionisios, é inevitável. Apesar de o documentário ter preeminência na minha obra, se essa conexão existe, penso que a influência se dá num percurso de ida e volta, de retroalimentação, fragmentário e anárquico que consegue construir um diálogo na sua inerente incompletude. Assim, imagens registradas pelo nosso olhar num filme, articuladas no seu discurso de conjunção de elementos técnicos, cenográficos, interpretativos e musicais, podem disparar novas imagens no seu caminho ao papel impresso e retornar ao filme acrescido de poesia. É um processo complexo, como a própria criação poética, nunca definitiva, cujos mecanismos de elaboração – ainda bem - ignoramos, e por tanto de infinitas possibilidades.
GF - Hoje, a poesia no cinema estaria mais na atitude do cineasta frente ao seu próprio tempo ou não?
CP - Sempre tomando como base o cinema de compromisso social, com toda certeza sim. Hoje e sempre. Se houver apenas uma única pessoa que enxergue emoção movilizadora nas imagens de uma rebelião – e isto se estende a todo tipo de luta travada pela emancipação humana, individual ou coletiva -, de um ato de coragem e valentia frente aos poderosos e saqueadores de sempre, ou inclusive, num estágio posterior, num processo de construção social igualitária, haverá poesia, haverá algo além de uma feliz combinação de palavras num papel. E, levando em conta a penetração massiva que o cinema – e os seus derivados televisivos e internéticos - tem no mundo contemporâneo, quem assume esta atitude de inscrever sua leitura do mundo - e no mundo -, além da sua particular transcendência como indivíduo, estará muito além da criação de um espaço íntimo e individualista, forjando poesia coletiva.
Também podemos encontrar a atitude do cineasta com propostas de transformação social, que por profundas discordâncias com os processos políticos contemporâneos conhecidos assume um relato mais pessoal para se expressar politicamente, e não por isso menos comprometido.
E parafraseando o poeta: tudo vale à pena, quando a atitude não é pequena.
GF - Se o cinema é a indústria dos sonhos, a poesia seria o próprio sonho, a utopia maior?
CP - Há um cinema, após sua fase de entretenimento de feira, em paralelo à fase de implantação do capitalismo, que impôs seus sonhos industriais de consumo e de perpetuação desse modelo econômico norte-americano, trasladado depois a outras cinematografias do mundo que repetiram esse modelo de acumulação econômica. Sonhos todos, técnica e industrialmente primorosos, que alimentavam – e alimentam - o imobilismo, a contemplação pura e simples de um modelo único de consumo, de uma realidade de eternos e inatingíveis oásis – visão hoje relegada aos subprodutos noveleiros. Felizmente, há outros cinemas que souberam explorar outras inúmeras possibilidades estéticas e aquelas geralmente denominadas políticas. Nestas últimas, há o objetivo de trasladar o sonho libertário da tela para a realidade numa tentativa migratória tão utópica quanto necessária.
Mas em fim, a utopia, o não lugar, é o espaço da poesia. Cabe à realidade e ao cinema – às suas diferentes linhas e gêneros – se aproximarem dela.
Confira aqui uma outra entrevista,
mais genérica, concedida por Pronzato:
http://cazzoentrevista.blogspot.com/2009/06/carlos-pronzato-sorri.html
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Relato de Prócula
Este romance inova com essa sua teoria e com a reprodução vívida da até então ignorada vida cultural do interior nordestino, realidade muito distante do universo retratado por obras como Vidas Secas, Fogo Morto ou Grande Sertão: Veredas. Assumindo o desafio de enfrentar ficcionalmente a complexidade dos temas abordados, W. J. Solha apresentou o projeto do romance à Funarte e foi um dos dez que receberam a Bolsa de Estímulo à Criação Literária em 2007, obra publicada agora pela Editora A Girafa.
W. J. Solha obteve o Prêmio Graciliano Ramos da UBE Rio, 2006, com “História Universal da Angústia” (Bertrand Brasil, 2005), obra que ficou entre os finalistas do Jabuti do mesmo ano. Seu poema-livro “Trigal com Corvos” (Palimage, Portugal, 2004) foi premiado com o João Cabral de Melo Neto, 2005, da mesma União Brasileira de Escritores. Os originais de “A Batalha de Oliveiros” (Itatiaia, 1989) ganharam o INL de 1988 e “Israel Rêmora” (Record, 1975), o Fernando Chinaglia de 1974. O autor é de Sorocaba, SP, mas radicado na Paraíba desde 1962.
208 Páginas
Preço sugerido: R$ 38,00
Onde comprar: http://www.travessa.com.br/
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Alguns Toureiros
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
Três concursos literários com boa premiação em dinheiro
Prêmio Cidade de Belo Horizonte
A Prefeitura da capital mineira lança o Concurso Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”, que este ano contempla três categorias: Ensaio, Poesia – Autor Estreante, Dramaturgia e o prêmio “João-de-Barro”, destinado à literatura infantil. As inscrições estão abertas até o dia 07 de agosto de 2009. Os regulamentos e fichas de inscrição dos prêmios podem ser encontrados no endereço: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/noticia.do?evento=portlet&pAc=not&idConteudo=30147&pIdPlc=&app=salanoticias
Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody
Concurso Nacional de Contos Newton Campos
A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, até 31 de julho de 2009, informa que estarão abertas as inscrições para o Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody 2009 e Concurso Nacional de Contos Newton Campos. Podem participar do Concurso candidatos que apresentem poemas inéditos, que não tenham sido objeto de qualquer tipo de apresentação, veiculação ou publicação antes da inscrição no concurso e até a divulgação do resultado e entrega dos prêmios aos vencedores. Mais informações: http://www.cultura.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=410
Boa sorte a todos.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Três poemas de Arménio Vieira
Vencedor do Prêmio Camões 2009, Vieira nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de janeiro de 1941. Além de escritor, é jornalista, com colaborações em publicações como o “Boletim de Cabo Verde”, a revista “Vértice”, de Coimbra (Portugal), “Raízes”, “Ponto & Vírgula”, “Fragmentos” e “Sopinha de Alfabeto”. Algumas de suas obras são: “Poemas” (1981), “O Eleito do Sol” (1989) e “No Inferno” (1999).CONSTRUÇÃO NA VERTICAL
Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.
Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.
Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!
Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.
Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.
QUIPROCÓ
Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto.
Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta.
Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.
LISBOA – 1971
A Ovídio Martins e Oswaldo Osório
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela
Em verdade éramos o gado mais pobre
d’África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d’inverno.
Saudando O Cão dos Olhos Amarelos
Cunhava um latido ao formão
o cão anêmico amarelo
arranhando a lata de lixo:
sobradas sobras da favela.
É cão marceneiro de ogivas
cantor de tripas laxativas.
Sabe a mangues e a caranguejos,
mas jamais saiu do mocambo.
No entanto, uiva acordes e arpejos.
Na alegria o seu rabo rege
os maloqueiros em seu frege.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Sonetos gêmeos de Jorge Luis Borges
1.
Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.
2.
Rei tênue, torto bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
por sobre o negro e o branco do caminho
buscam e libram a batalha armada.
Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.
Também o jogador é prisioneiro
(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.
Deus move o jogador, e este a peleja.
Que deus por trás de Deus a trama enseja
de poeira e tempo e sonho e agonias?
