sexta-feira, 6 de março de 2009

POIS É, ZICO!

Pela passagem do seu 56º aniversário

No último dia 3, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, comemorou seu 56º aniversário. Principal ídolo da história do Flamengo e um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, Zico tem uma carreira marcada por gols, títulos e um comportamento elogiado até pelos adversários.
Para marcar a data resolvi escrever um poema para o “galinho”. E nada melhor que escrevê-lo dentro de uma forma, a Retranca, que foi criada por Alberto da Cunha Melo a partir das observações da formação de um time de futebol, com onze versos e um esquema rímico e estrófico bem definido, aparentando-se a um esquema tático.
O próprio Alberto da Cunha Melo já havia homenageado outras duas feras dos gramados com seus versos, Garrincha e Romário, com dois belíssimos poemas que reproduzimos na seqüência.


ZICO
Gustavo Felicíssimo

De pé em pé corre a pelota
com seu destino mal traçado,
até que encontra no caminho
quem bem lhe trate com cuidado,

toda a platéia se levanta
e o galinho se agiganta

e vai em frente, passo forte,
dribla um zagueiro, depois outro,
no pobre arqueiro dá um corte,

balança a rede sem afã:
festejos no maracanã!

Inédito: escrito em 06 de Março


ROMÁRIO
Alberto da Cunha Melo

Até parece estar no banco
Romário, o perigo parado
do réptil, no chão do inimigo,
para algum bote inesperado,

com toda uma ética malandra
vai calando toda Cassandra

que anuncia fogo no sonho
menor de um povo abandonado,
povo adiado, povo estranho,

que troca a inútil liberdade
pelo mais belo gol da tarde.

em: Meditação sob os lajedos (2002)


GARRINCHA
Alberto da Cunha Melo

A fama, Fúria, esmaga aqueles
que só buscavam seu lugar,
que chegaram antes do tempo
ou demoraram a chegar;

feita de louros radioativos,
essa coroa de cativos

da luz calcina o calendário
menor, o da vida em neblinas
de Deus, em contas de Rosário,

é o fim dos astros, estertores:
que só engorda os bastidores.

em: Meditação sob os lajedos (2002)

quinta-feira, 5 de março de 2009

DANDO A CARA A TAPA

Chico Buarque lança no final deste mês seu novo livro "Leite Derramado"

A Companhia das Letras, editora atual de Chico Buarque, anunciou que ainda neste mês será lançado “Leite Derramado”, novo romance do autor com aproximadamente 200 páginas.
O livro anterior de Chico, "Budapeste" (2003), também foi lançado pela mesma editora. O romance ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de 2003. "Budapeste" está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Walter Carvalho. A Cia. das Letras lançou também os livros "Estorvo" (1991) e "Benjamin" (1995).

Notícia dada, devo dizer que nunca morri de amores por Chico Buarque, nem pelo compositor, tampouco pelo romancista, mas reconheço ser ele um artista diferenciado. Entretanto, nunca entendi os motivos que levam muita gente a tratá-lo como poeta, o que é uma grande idiotice, pois o próprio Chico, certa feita, ao ser chamado de poeta por um repórter o repreendeu afirmando: “não sou poeta, mas apenas um compositor popular”.
Preferências à parte, aos que teimam em tratar letrista de música popular como poeta, dizemos que até podemos afirmar, sem medo algum, que há poesia na letra de música, mas uma poesia que atende a estética da música, não a estética da literatura. Um poema, por exemplo, quando é musicado jamais deixará de ser o que é para se transformar na letra de uma música. Já uma letra de música jamais se converterá em um poema em si.
A bem da verdade, o conceito de “poesia” ao longo do tempo se tornou algo tão amplo que isso acabou se transformando em um problema de entendimento, pois, se há poesia bastante em um pôr-do-sol ou em um assassinato, converter tais elementos em um poema requer artifícios e conhecimentos específicos de um poeta. Por outro lado, empregnar-se de poesia, principalmente com um pôr-do-sol, é uma dádiva recebida por todos.


quarta-feira, 4 de março de 2009

INFÂNCIA RECONTADA - PARTE III

A PRIMEIRA PARTIDA

Ansioso, naquele dia acordei muito antes do horário habitual, despertado talvez pelos galos “tecendo a manhã”, como no antológico poema de João Cabral, e fiquei rolando na cama, de um lado para outro, ensaiando mentalmente os dribles que daria na zagueirada, antevendo as jogadas, a bola na rede adversária, afinal, é disso que vive o atacante.
Seria a primeira vez que adentraria em local tão luxuoso, que pisaria em um gramado que mais parecia um tapete. A cal delimitando detalhadamente o campo de jogo, o círculo central, a grande e a pequena área, locais com os quais possuía grande intimidade. Havia até uma pequena arquibancada para os espectadores, um prelúdio ao que encontraria na semana seguinte.
Enfim, chegou a hora de esticar os ossos, de tomar banho, arrumar a cama e descer para o café. Como sempre, lá estava Odenir servindo nossa fração matinal de creme dental, pacientemente organizando a entrada no banho. Enquanto alguns escovavam os dentes, outros caíam na água fria. Em seguida, cada menino receberia a sua toalha, vestiria o fardamento escolar e desceria ao refeitório, onde o único assunto vigente seria a partida de futebol que disputaríamos naquela tarde. Antes, uma oração coletiva, após, uma caneca de leite e pão com manteiga.
Na sala de aula, pouco adiantou a professora chamar minha atenção seguidas vezes, “sai do mundo da lua, menino”. Eu não estava ali, mas vivendo o tempo, contando cada fração de minuto, cada instante, habitando o vazio entre o anúncio do fim das aulas e a ida ao Tênis Clube, onde, finalmente, estaria vivendo o ápice da minha vida até o momento.
Nunca fora tão demorada a conclusão do trajeto entre o Educandário e um campo de jogo. Me lembro bem: percorremos a Nove de Julho até a Sampaio Vidal, passamos em frente à prefeitura, daí entramos na Rio Branco, a rua mais bonita de Marília, avistamos a biblioteca pública e o teatro municipal, cruzamos vários semáforos que para minha aflição sempre estavam fechados para nós. Em seguida, o Colégio Monsenhor Bicudo, contra o qual já havíamos jogado, e chegamos, ansiosos, mas confiantes, certos de que aquela seria uma tarde inesquecível.
Antes do jogo, a preleção. Genaro, com sua perna coxa, distribuiu as camisas, chamou todo mundo e não disse nada mais, nada menos, que aquilo que esperávamos ouvir: “vão lá e façam o que vocês sabem fazer”, “façam tudo conforme ensaiamos que nada vai dar errado”. Batata! Joguei sem a necessidade de marcar o lateral ou algum defensor.
Não demorou muito para o técnico adversário colocar um jogador na minha cola, pois logo no início do jogo já tinha feito das minhas; além de dar uns olés no lateral, havia centrado uma bola na cabeça do centro-avante. Foi quando, para minha surpresa, observei atônito que, assistindo ao jogo estavam, lado a lado, simplesmente, Pedro Pavão, Presidente do Mac, e Zé Guimarães, o grande ídolo da cidade naquele momento. Aliás, devo dizer que além de Ayrton Senna, o atleta que mais admirei em toda minha vida foi o Zé Guimarães, ponta direita, como eu. Ágil e veloz, batia com as duas e cobrava falta como ninguém. Chegou a ser vice-artilheiro de uma das edições do paulistão, não logrando a artilharia apenas por motivo de contusão. Olha eu mudando o rumo da prosa.
O time da filantrópica também havia se preparado bem e o primeiro tempo terminou com um mísero zero a zero no placar. Mas isso não duraria muito. No intervalo vieram Pedro Pavão e Zé Guimarães falar com a gente. Eu cheguei perto deles, tímido, e o Padre Agenor me perguntou: “não vai apertar a mão do seu ídolo, rapaz?”. Cumprimentei acanhadamente o artilheiro e logo voltei ao campo para o reinicio do jogo, disposto a vencer.
Genaro me tirou da ponta direita e, dada a minha estatura, mandou que jogasse no meio dos beques, enfiado. Foi o que fiz. E logo na primeira bola centrada na área deixei minha marca, recebi e testei firme. Um sonho. O goleiro nem saiu na foto e eu saí comemorando feito um louco.
Fui recompensado com inúmeras congratulações e passei a semana toda falando naquele gol. Cheguei mesmo a sonhar inúmeras vezes com ele, pois havíamos ganho a partida por causa daquele golzinho, o gol mais importante de toda a minha vida, o que pude constatar após o término da segunda partida.

terça-feira, 3 de março de 2009

ESPANTALHO

Um pássaro pousado em minha tromba
fez seu pequeno ninho onde queria,
estendeu suas garras pelas vias
onde navios passavam feito pombas.

Acordei com arrulhos de rolinhas
namorando nas minhas dobradiças,
ensujeirando as belas historinhas
de mágicos, palhaços e preguiças.

Olhei-me pelos olhos das estrelas
que despontavam nuas pelas ruas,
mas não reconheci-me, pois as suas
garatujas estavam bem magrelas.

Toquei-me e percebi algo bem falho:
eu tinha me tornado um espantalho.

9º CONCURSO DE POESIAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI – UFSJ

A Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ, através da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, promove o 9º Concurso de Poesias, para o qual solicita a sua preciosa colaboração na divulgação.

Art. 01 – Poderão participar deste concurso poetas, escritores, professores e estudantes com idade mínima de 15 anos.

Art. 02 – O participante poderá inscrever 01 (hum) poema inédito, com tema livre, remetendo-o em disquete ou cd que será usado para a publicação dos poemas selecionados e em 05 (cinco) vias impressas em papel A4, digitadas com espaço um e meio, fonte Arial, corpo 12 (doze), de preferência apresentado devidamente corrigido.

Art. 03 – O poema deverá ser enviado dentro de envelope contendo, externamente, apenas o seguinte endereço:
9º Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários
Praça Dr. Augusto das Chagas Viegas, 17 – Largo do Carmo
CEP: 36.300-088 – São João del-Rei / MG

Art. 04 – Todas as folhas deverão conter apenas o pseudônimo no rodapé, sem assinatura ou qualquer tipo de identificação.

Art. 05 – Um envelope menor (25 x 18.5) anexo, rigorosamente fechado, deverá conter as seguintes informações: Título da obra, pseudônimo do autor, nome completo, breve currículo, endereço completo e cópia do comprovante da data de nascimento, com indicação na parte externa apenas do título da obra e do pseudônimo do autor. Esse envelope será enviado junto com o poema e só será aberto após o julgamento de todos os trabalhos pela Comissão de Seleção.

Art. 06 – Será considerado inscrito para o concurso o poema enviado até o dia 23 de março de 2009, valendo a data do carimbo postal.

Art. 07 – Será conferida a seguinte premiação, em valores brutos, aos trabalhos classificados:
1º colocado – um cheque nominal no valor de R$ 1.000,00 (mil reais);
2º colocado – um cheque nominal no valor de R$ 600,00 (seiscentos reais);
3º colocado – um cheque nominal no valor de R$ 400,00 (quatrocentos reais) e do
1º ao 30º colocados: publicação de 01 (um) poema, em livro impresso pela Gráfica da Universidade, tendo o autor o direito a 10 (dez) exemplares.

Art. 08 – Os trabalhos serão selecionados por uma Comissão indicada pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, composta por 03 (três) professores da Universidade e 02 (dois) convidados da comunidade.

Art. 09 – O resultado será divulgado nas dependências da Universidade, pela internet e pela imprensa até a data de 5 de maio de 2009.

Art. 10 – A premiação e o lançamento da edição do livro que reúne os trabalhos selecionados, realizar-se-ão no mês de julho de 2009, durante a 22ª edição do Inverno Cultural, no Centro Cultural da UFSJ.

Art. 11 – Os poemas enviados não serão devolvidos.

Art. 12 – As decisões da Comissão de Seleção serão irrecorríveis, cabendo à mesma as decisões sobre os casos omissos.

Site da UFSJ:
http://www.ufsj.edu.br/

EDITAIS DE CULTURA 2009 (BAHIA)

Estão abertas as inscrições para os primeiros editais da Secretaria de Cultura lançados em 2009 através da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB. São cinco editais nas áreas de Artes Visuais, Dança, Teatro e Música, que irão selecionar artistas para apresentações e exposições em espaços culturais da FUNCEB, na capital e no interior.

Para os artistas visuais, o “Portas Abertas para as Artes Visuais” irá selecionar 24 propostas de exposições, individuais ou coletivas, para ocuparem galerias em Salvador e centros culturais dos municípios de Alagoinhas, Feira de Santana, Jequié, Juazeiro, Porto Seguro, Valença e Vitória da Conquista. Serão escolhidas duas propostas por espaço, com duração de trinta dias cada uma, a serem realizadas entre julho de 2009 a junho de 2010 com verba de apoio no valor líquido de R$ 1,5 mil.

Já o Edital “Salões Regionais de Artes Visuais da Bahia” abre inscrição para trabalhos de temática livre em diversas modalidades, entre elas arte e tecnologia, cerâmica, colagem, escultura, fotografia, grafitti, instalação e pintura. Os Salões 2009 terão três edições com exposições abertas à visitação pública nos centros de cultura de Valença, Juazeiro e Porto Seguro. Ao todo, serão premiados nove artistas, três em cada salão, sendo dois prêmios de R$ 6 mil e um prêmio estímulo de R$ 3 mil, exclusivo para artistas do território de identidade onde o Salão será realizado, somando R$ 45 mil em premiação.

Com seleção prevista de 17 propostas (sete a mais com relação ao ano passado) de shows de cantores, instrumentistas e grupos, o “Segundas Musicais” retorna em 2009 com premiação no valor de R$ 5 mil para cada apresentação, sendo o valor total do investimento de R$ 85 mil. No Edital “Quarta que Dança”, serão eleitas 19 propostas entre espetáculos, intervenções urbanas, dança de rua e trabalhos em processo de criação de companhias ou artistas independentes. Todos concorrem a prêmios que variam de R$ 3 mil a R$ 5 mil.

Os selecionados de música e dança farão uma apresentação única, a preços populares, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Os grupos e artistas teatrais, profissionais e amadores, por sua vez, podem participar da seleção para o “Quintas do Teatro” que este ano seleciona 20 espetáculos, o dobro com relação à edição de estréia, totalizando R$ R$ 100 mil em premiação. Também a preços populares, o projeto prevê a realização de apresentações no Cine-Teatro Solar Boa Vista e no Espaço Xisto Bahia.

INSCRIÇÕES
O manual de elaboração de projetos culturais e prazos encontram-se disponíveis no site http://www.funceb.ba.gov.br

Seu Bomfim no Teatro Vila Velha (Salvador)

divulgação
Seu Bomfim é uma encenação teatral inspirada livremente no conto "A Terceira Margem do Rio", de Guimarães Rosa. Apresenta um contador de histórias que trata sobre o "caso do homem do rio": que decide construir uma canoa onde permanece a vida inteira, no meio do rio. Um trabalho que mistura elementos cômicos e trágicos e que trata de assuntos variados como amor, morte, vida, família, alegria, saudade, tempo, misticismo, religião, medo, solidão, loucura e ódio. Seu Bomfim é um projeto que traz à cena um personagem que reflete a cultura nordestina numa trama voltada para adultos de faixas sociais e etárias diversas, pois trata de temas atuais e eternos.

Contatos do TVV:

Tel – (71) -3083 4600
Site - http://www.teatrovilavelha.com.br/

segunda-feira, 2 de março de 2009

Ode ao Rio de Janeiro

Pablo Neruda

Rio de Janeiro, a água
é a tua bandeira,
agita as suas cores,
sopra e retine no vento,
cidade,
negra náiade,
de claridade sem fim,
de abrasadora sombra,
de pedra com espuma
é o teu tecido,
o cadenciado balanço
da tua rede marinha,
o azul movimento
dos teus pés areentos,
o aceso ramo
dos teus olhos.

Rio, Rio de Janeiro,
os gigantes
salpicam a tua estátua
com pontos de pimenta,
deixaram
na tua boca
dorsos do mar, barbatanas
perturbadoramente mornas,
promontórios
da fertilidade, tetas da água,
declives de granito,
lábios de ouro,
e entre as pedras quebradas
o sol marinho
iluminando
rutilantes espumas.

Ó Beleza,
ó cidadela
de pele fosforescente,
romã
de carne azul, ó deusa
tatuada em sucessivas
ondas de ágata negra,
da tua nua estátua
um aroma de jasmim molhado
se desprende, vem no suor, um ácido
pegajoso
de cafezais e de frutarias
e pouco a pouco sob o teu diadema,
entre a dupla maravilha
dos teus seios,
entre cúpula e cúpula
da tua natureza
aparece o dente da desgraça,
a cancerosa cauda
da miséria humana,
nos montes leprosos
o cacho inclemente
das vidas,
pirilampo terrível,
esmeralda
extraída
do sangue,
o teu povo estende-se
até aos confins da selva
num rumor abafado,
passos e surdas vozes,
migrações de esfomeados,
escuros pés com sangue,
o teu povo,
para lá dos rios,
na densa
amazônia,
esquecido,
no Norte
de espinhos,
esquecido,
com sede nos planaltos,
esquecido,
nos portos mordido
pela febre,
esquecido,
à porta
da casa de onde o expulsaram,
pedindo-te
apenas um olhar,
esquecido.
Noutras terras,
reinos, nações,
ilhas,
a cidade capital,
a coroada,
foi colméia
de trabalhos humanos,
amostra do azar
e do acerto,
fígado da pobre monarquia,
cozinha da pálida república.

Tu és a espelhante
montra
de uma sombria noite,
a garganta
coberta
de águas marinhas
e ouro
de um corpo
abandonado,
és a porta
delirante
de uma casa vazia,
és
o antigo pecado,
a salamandra
cruel,
intacta
na fogueira
das longas dores do teu povo,
és
Sodoma,
Sim,
Sodoma
deslumbrante,
com um fundo sombrio
de veludo verde,
rodeada
de crespa sombra, de águas
ilimitadas, dormes
nos braços
da desconhecida
Primavera
dum planeta selvagem.
Rio, Rio de Janeiro,
quantas coisas tenho
para te dizer. Nomes
que nunca esquecerei,
amores
que amadurecem o seu perfume,
encontros contigo, quando
do teu povo
uma onda
agregue ao teu diadema
a ternura,
quando
à tua bandeira de águas
subam as estrelas
do homem,
não do mar,
não do céu,
quando
no esplendor
da tua auréola
eu veja
o negro, o branco, o filho
da tua terra e do teu sangue,
elevados
até à dignidade da tua formosura,
iguais na luz resplandecente,
proprietários
humildes e orgulhosos
do espaço e da alegria,
então, Rio de Janeiro,
quando
alguma vez
para todos os teus filhos,
e não somente para alguns,
abrires o teu sorriso, espuma
de morena náiade,
então
eu serei o teu poeta,
chegarei com a minha lira
para cantar em teu aroma
e na tua cintura de platina
dormirei,
na tua areia
incomparável,
na frescura azul do leque
que tu abrirás no meu sono
como as asas de uma
gigantesca
borboleta marinha.


Pablo Neruda, 1956
Nota:
Poema extraído do livro : "Odas Elementales" de Pablo Neruda, traduzido para o português por Luis Pignatelli (Publicações Dom Quixote) Lisboa / 1999.

domingo, 1 de março de 2009

CLARO ENIGMA

Obra clássica, o livro “Claro Enigma”, de Drummond, é um dos pontos mais altos da obra deste que é um dos maiores poetas da língua portuguesa. Neste que é o seu oitavo livro, Drummond retorna às formas mais clássicas da poesia, como o soneto e a redondilha, após um período ligado ao modernismo paulista, atitude que foi muito criticada pelos imbecis.
Apesar de ser “A Rosa do Povo” o seu livro mais conhecido, é em “Claro Enigma” que muitos (inclusive este blogueiro) vêem o poeta em sua totalidade com relação à arquitetura e consciência verbal, bem como no emprego metafórico, sem nunca perder um lirismo impulsionado pela linguagem empregada bem ao nível da fala comum, característica marcante em sua obra.
São de “Claro Enigma” os dois poemas abaixo:

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.


SER

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.