domingo, 16 de outubro de 2011

Sonetos gêmeos de Jorge Luis Borges


XADREZ
    
1.  
Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
   
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
    
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
    
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.

2.
Rei tênue, torto bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
por sobre o negro e o branco do caminho
buscam e vibram a batalha armada.

Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este a peleja.
Que deus por trás de Deus a trama enseja
de poeira e tempo e sonho e agonias?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Festa literária na Bahia


A partir de hoje na histórica cidade de Cachoeira

A primeira edição da Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira -, vai até o dia 16 de outubro e terá discussões sobre literatura brasileira, paradidáticos e sua importância para a educação, autores baianos, história e negritude, o samba na realidade e na ficção, contexto racial nas Américas, o romance e a grande literatura, o livro em papel e o meio digital, poesia baiana contemporânea e a literatura underground, entre outros. Além disso, uma programação musical vai animar a festa diariamente. Nomes como Fernando Moraes, Leandro Narloch, o poeta português Pedro Mexia e o americano Bob Stein, especialista em livros digitais, já marcaram presença no evento, além de outros 29 escritores.
Estarei lá sábado e domingo. Para conferir a programação completa da Flica é só clicar AQUI.

sábado, 8 de outubro de 2011

Haikais de Tomas Tranströmer, o Nobel de Literatura 2011


Caríssimos, se não me engano, os únicos poemas de Tomas Tranströmer, escritor sueco vencedor do prêmio Nobel de Literatura 2011, traduzidos para o português, são haikais. Trata-se de uma rara oportunidade para o leitor brasileiro entrar em contato com a sua obra e uma grande alegria pra mim, cultor desse gênero há cerca de dez anos.


Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
ao norte de toda música

***

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte

***

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Confira AQUI mais haikais de Tomas Tranströmer e outras informações osbre o autor.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Claraboia - Inédito de Saramago em e-book


Livro escrito por José Saramago na juventude e nunca publicado, Claraboia ganha edição virtual, em e-book, antes da versão impressa, que a Editorial Caminho manda para as livrarias portuguesas em 17 de outubro. Do autor sobre o livro: “Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingênuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.”

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Affonso Romano de Sant’Anna volta à poesia


Affonso Romano de Sant’Anna lança Sísifo desce a montanha (Rocco, 136 pp., R$ 19,50), livro que marca sua volta à poesia. Na obra, existencialista por natureza, o autor reflete sobre a passagem do tempo e a finitude, mas também sobre a vida que o rodeia.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Teatro Popular de Ilhéus lança a Editora Mondrongo


A primeira obra publicada será a reunião dos textos das peças “Teodorico Majestade” e “O inspetor geral”, de Romualdo Lisboa. O lançamento está marcado para este sábado.
clique na imagem para aumentar

A publicação de “Teodorico Majestade - as últimas horas de um prefeito” e “O inspetor geral - sai o prefeito, entra o vice”, marca não apenas a estreia de Romualdo Lisboa em livro, como também a fundação, em Ilhéus, do selo editorial Mondrongo, vinculado ao Teatro Popular de Ilhéus, grupo que mantém viva na cidade a Casa dos Artistas.
“Já era tempo disso acontecer”, diz o escritor Gustavo Felicíssimo, que estará à frente do projeto, pois, segundo ele, “os autores ilheenses para publicarem suas obras sempre recorrem a empresas de fora da cidade. Agora teremos uma editora caseira, que oferecerá ao escritor local serviços compatíveis com os das melhores editoras do estado”. Além disso, garante Felicíssimo, os livros serão comercializados no site da editora e distribuídos nas livrarias da região.
Além de auxiliar e prestar serviços aos escritores locais que pretendam publicar em livro as suas obras, a Mondrongo também terá a função de dinamizar a atividade literária local, promovendo encontros com escritores, debates, cursos e concursos.
“Todos estão muito confiantes no sucesso dessa nova empreitada do Teatro Popular de Ilhéus”, diz Romualdo Lisboa, “pois se o cacau foi por muitas décadas a maior riqueza da região, foram seus escritores que fizeram a fama do lugar, retratando de maneira ficcional a rica cultura, a sociedade e seu modo de vida em obras que extrapolaram as nossas fronteiras”.
Para o diretor teatral e ex-secretário estadual da cultural, Márcio Meirelles, que faz um dos prefácios à obra, “a importância do trabalho de Romualdo e do Teatro Popular de Ilhéus não está somente no que fazem no palco. Como quem faz teatro de fato, o jeito como eles encaram seu ofício, para além da dramaturgia ou da cena, e a reverberação do que fazem importa tanto ou mais do que elas”.
Todos estão convidados para festa de lançamento que acontecerá sábado, a partir das 19:30h, na Casa dos Artistas. A programação será a seguinte:
19:30 – Recepção
20:00 – Apresentação da peça Teodorico Majestade – as últimas horas de um prefeito
21:00 – Lançamento do livro e sessão de autógrafos

Casa dos Artistas - Rua Jorge Amado, 39 – Ilhéus
Maiores informações com Gustavo Felicíssimo: 8842.2793

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Oração pelo poema - Poema Nº 1


Alberto da Cunha Melo

Escrevo de cabeça baixa
por que levantá-la depois?
Não o faça para ser visto
pelos que passarem na estrada.

Viver na mesma posição
mas deixando a alma sair
pelos olhos e pela boca,
como água a jorrar de uma estátua.

Este é o tempo em que Deus regressa
pelos quatro cantos da casa.
Vem desenterrar o poema
do meu corpo e gritar comigo.

Recebe-o diante do espanto
dos amigos que não o vêem,
tenho gestos incompreensíveis
e digo coisas já remotas:

Senhor, protege meu poema
e obscurece com tua sombra
os versos mortos, as palavras
que sobram, o tempo perdido.

Relação externa:
Poema único, dividido em 30 partes, é um dos mais belos da obra de Alberto da Cunha Melo. Foi escrito no verão de 1967 e publicado originalmente em 1969, em separata da revista Estudos Universitários, da Universidade Federal de Pernambuco. Está disponível, AQUI

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Carlos Falck, exímio e sofrido poeta


A literatura brasileira está repleta de ótimos poetas que não tiveram o prestígio de outros com menor talento. Esse é o caso de Carlos Falck. A produção poética de Falck estende-se por dez anos, de 1954 a 1964, quando comete o suicídio. Seus sonetos, segundo o saudoso Ildásio, são lapidares e suas redondilhas revestem de inovação a medida medieval construindo versos com um grande sabor de atualidade, mesmo quarenta anos após ter feito seu último poema. Sua poesia é basicamente existencialista. Percebam que o poema abaixo trata de uma carta suicida deste que foi um exímio e sofrido poeta.

Bilhete à Ilha

Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.

Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo. 
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.

Pois vou ao porto como se não fosse. 
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.

E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.

Em: Ofício de Cancioneiro e Outros Poemas, organizado por Ildásio Tavares e publicado pela Imago dentro da coleção Bahia: Prosa & Poesia.

Outros poemas do autor em:

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CBL revela os finalistas do Jabuti


Os finalistas das 29 categorias do Prêmio Jabuti foram anunciados nesta quarta-feira, dia 21 de setembro, em São Paulo. Para chegar a essa lista, o júri avaliou um total de 2.619 obras. Os vencedores serão conhecidos no dia 18 de outubro. Vai ficar para 30 de novembro o anúncio do Livro do Ano em Ficção e Livro do Ano em Não-Ficção. Os autores das duas obras levam para casa R$ 30 mil.
          Na categoria Poesia, no meu modo de ver, os mais forte concorrentes são Ferreira Gullar, com Em alguma parte alguma e Manoel de Barros, com a sua Poesia completa. É concordar, discordar e aguardar.  Veja aqui arelação dos finalistas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Beleza de entrevista de Carlos Fuentes para O Estado de S. Paulo


O escritor mexicano Carlos Fuentes tem uma receita pessoal para manter o intelecto equilibrado: ler, ao menos uma vez por ano, o clássico D. Quixote, de Miguel de Cervantes. "Ele abriu todos os caminhos do romance moderno e sua obra mantém um frescor intacto: poucos livros, como D. Quixote, conseguem a proeza de mostrar que a primeira leitura é insuficiente para o leitor absorver toda sua riqueza", disse. Ele acabara de voltar de um périplo europeu de lançamento de La Gran Novela Latinoamericana (Alfaguara Espanha, 400 pp., R$ 58,60), em que oferece uma visão pessoal da história do romance escrito na América Latina. A tradução do livro já está assegurada pela Rocco. No ensaio, Fuentes exalta a importância de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, como o melhor romance latino do século 19.