quinta-feira, 30 de junho de 2011

Rubem Fonseca em dose dupla



Rubem Fonseca, além de um novo livro de contos, “Axilas e outras histórias indecorosas”, publicará pela Nova Fronteira a novela “José”, cujo protagonista lembra muito o próprio autor, comenta Ancelmo Gois n’O Globo de 28/06. José aprendeu a ler sozinho, apaixonou-se por literatura (sobretudo, os romances policiais), formou-se em Direito e começou a escrever numa velha máquina Underwood. Parece mesmo uma autobiografia. Os dois livros serão lançados na Flip.

Uma temporada no inferno - Trecho


Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.
Levantei-me em armas contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Consegui extirpar de meu espírito toda esperança humana. Pulei sobre toda alegria, para estrangulá-la, com o salto silencioso da fera.
Chamei os carrascos para, ao morrer, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para afogar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu deus. Chafurdei na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.
Recentemente, quando me encontrava nas últimas, pensei procurar a chave do antigo festim, onde talvez eu recobraria o apetite.
A caridade é a chave. Esta inspiração prova que eu sonhava!
“Continuarás sendo hiena, etc...”, exclama o demônio que me coroou com tão amáveis papoulas. “Recebe a morte com todos seus apetites, e teu egoísmo e todos os pecados capitais”.
Ah! foi o que fiz, e em excesso: — Mas, caro Satã, eu te conjuro; um olhar menos irritado! e, na espera de algumas pequenas infâmias em atraso, para ti que preferes no escritor a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas, eu destaco algumas folhas horrendas de meu caderno de condenado.

Arthur Rimbaud. Tradução de Janer Cristaldo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O amor do soldado


O jornal O Globo de hoje, 29/06, noticiou que a Companhia das Letras acaba de lançar a única obra para teatro que Jorge Amado escreveu. Em verdade, se trata de um relançamento. Falamos de O amor do soldado (168 pp., R$ 39), escrito em 1944, por encomenda da formidável atriz e diretora teatral Bibi Ferreira, e lançado em 1947, quando do centenário de Castro Alves.
A trama é centrada na última parte da breve vida de Castro Alves (1847-1871), e em seu atormentado romance com a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Com cenas e diálogos inflamados, o texto sugere uma encenação com atores misturados à plateia, inclui peças dentro da peça e um narrador que fala diretamente ao público.
A iniciativa da publicação é elogiável, afinal, a partir de agosto deste ano e durante 2012, Jorge Amado estará no centro do debate literário brasileiro, quiçá mundial, pela passagem do seu centenário. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

No Inferno (excertos)


Mergulhando a imaginação nos vermelhos Reinos feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e sanguíneo cactos aberto, encontrei um dia Baudelaire, profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza, deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e chamejar uma paixão. (...)
A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar, sofregamente, anelantemente, intensos desejos dispersos e insaciáveis. (...)
Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que o encerrava transcendentemente no Mistério.
E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo:
— Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara, escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d'ouro e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu nababescamente possuíste, onde estão agora? (...)
Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte, das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião, talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do Sonho...

Cruz e Souza, em Evocações (Edição póstuma - 1898).

Clique AQUI para baixar a edição completa de Evocações, belíssimo livro de poesia em prosa que não pode deixar de ser lido.

domingo, 26 de junho de 2011

Gitanjali - Poema 58

Deixa que todos os acordes da alegria misturem-se no meu último canto – o júbilo que faz a terra transbordar no excesso violento da relva; o júbilo que dispõe  a vida e a morte – irmãs gêmeas – dançando juntas pelo mundo imenso; o júbilo que arrebata como a tempestade, sacudindo e despertando a vida numa gargalhada; o júbilo que repousa silencioso como as suas lágrimas dentro   do lótus entreaberto e vermelho da dor; o júbilo que atira ao pó tudo quanto possui e que não se traduz em palavras.

Rabindranath Tagore, em Gitanjali (3ª Edição). Poema 58. Coordenada – Editora de Brasília. Tradução de Gasparino Damata.

Obs: Conheça melhor esse magnífico poeta indiano clicando AQUI.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Embriaguem-se


É preciso estarem sempre embriagados. Aí é que tudo está: esta é a única questão. Para não sentirem o horrível  fardo do Tempo que lhes quebra os ombros e recurva  o dorso, precisam embriagar-se sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à sua guisa. Mas embriaguem-se.
E se, de vez em quando, vocês acordarem na escada de um palácio, na relva verde de uma vala ou na morna solidão do seu quarto, tendo a embriaguez já diminuído ou desaparecido, perguntem ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são, e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-lhe-ão: “É hora de embriagar-se! Para não serem escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,  à sua guisa”.

Charles Baudelaire, O Esplim de Paris: Pequenos poemas em prosa. Ed. Martim Claret. Tradução de Oleg Almeida.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meus poemas nascem sangrando


                                Sentir, sinta quem lê
                         Fernando Pessoa


          Como pode descer dos céus um poema assim mesmo feito um raio? Seria presente dos deuses ou condenação sumária? Viver permanentemente atado aos desejos de outrem...
          Não, senhores, o poema não é um dom divino. Antes ele é uma conquista, fruto da imaginação e da destreza do poeta. O poema também não é o sentir, antes ele é o sentido. Mas quem quiser que sinta! Eu transpiro enquanto escrevo.
          Meus poemas nascem sangrando.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

E por falar em Ferreira Gullar...


Em outubro do ano passado, logo após lançar “Em alguma parte alguma”, Gullar concedeu uma entrevista ao jornalista Marcos Dias, do jornal A Tarde, diário aqui da Bahia, oportunidade em que foi indagado sobre a métrica na poesia. Disse-lhe o jornalista que por aqui “ainda há quem acredite que um soneto é a prova dos nove para alguém ser considerado poeta”, e pergunta-lhe o que pensa a respeito. O jornalista estava fazendo referência há poetas que sempre condenaram a preguiça mórbida de escritores que teimam em desconhecer o que pulsa por dentro das formas fixas, e que por isso mesmo não conseguem avançar um único passo em suas obras, o que acabou resultando em tensões entre um e outro grupo.
Particularmente penso que conhecer sobre versificação e métrica é fundamental, sobretudo nos dias de hoje em que a poesia está engessada, o que pode parecer contraditório, mas não é, pois com a banalização do verso livre – que de livre só tem o nome – ganha muito quem possui passagem pelas formas fixas justamente porque elas nos dão maior intimidade com o andamento do poema e mais consistência na composição das imagens, aquilo que Pound chamou de melopéia e fanopéia, elementos que carregam de energia a linguagem poética que, combinados o conteúdo do poema, se extrai uma obra sublimada pela beleza estética.
Mas vejamos o que Gullar respondeu ao jornalista: você pode fazer um soneto e ser uma poesia de alta qualidade e pode fazer sonetos e ser uma bobagem. Uma das coisas que poesia rimada e metrificada provocava era a ilusão de que se está rimada e metrificada direitinho é poesia. E não era. Não basta estar dentro do tamanho e da medida para ser poesia. Grande parte de poesia parnasiana brasileira não presta e, no entanto, está tudo bem rimado e metrificado. Poesia não é isso. Agora, você pode fazer poesia rimada e metrificada de alta qualidade. João Cabral de Melo Neto é um exemplo disso.
Nada do que o poeta disse é novo, mas vale para todos o velho alerta de que se não são quatorze versos rimados e metrificados que fazem um soneto, tampouco será um poema qualquer amontoado de versos livres que não observem aquelas simples considerações do velho Pound.
Mas vamos ao que realmente interessa nessa postagem de hoje, um belíssimo poema metrificado, uma redondilha menor cheia de ritmo. Um poema de Ferreira Gullar ao melhor estilo Bossa Nova, que a meu ver poderia muito bem ser atribuído ao Vinícius de Morais.

Definição da Moça

Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda 
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?

Como possuí-la
quando está desnuda
se ela toda é chuva?
se ela toda é vulva?

Em Muitas Vozes, 1999. Ed. José Olympio, pág. 73.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Exposição "Gullar 8 & 80" será itinerante


Entre 17 de dezembro e 13 de março esteve em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, a exposição Gullar "8 & 80" para festejar os 80 anos do maior poeta brasileiro vivo, onde foram exibidas fotos originais inéditas, objetos pessoais como a sua máquina de escrever, a primeira página manuscrita de Poema Sujo, uma de suas obras mais conhecidas, além de algumas pinturas e aquarelas de sua autoria.
Essa exposição, segundo informa Ancelmo Gois n’O Globo de ontem, no segundo semestre percorrerá o Brasil, começando por São Paulo. No Rio, a exposição, com curadoria de Carlos Dimuro, reuniu 50 mil pessoas.
Estou na torcida para que também venha para a Bahia.

O baú do Drummond

Fonte: O Estado de S. Paulo - 18/06/2011

São três cadernos da antiga marca De Luxe, com páginas sem pauta e uma etiqueta em cada capa: "Versos de Circunstância". Neles, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) registrou dedicatórias e anotou versos, muitos versos, exatos 295, dos quais 229 inéditos. Cuidadosamente guardados, os objetos foram reproduzidos e transformados em livro com o mesmo título, Versos de circunstância (Instituto Moreira Salles, 290 pp., R$ 55). São textos que traduzem a fugacidade e reproduzem brincadeiras com amigos, a quem também são dirigidas palavras de afeto.

Para que se tenha melhor entendimento do que são feitos os tais versos de circunstância sugiro CLICAR AQUI e fazer a leitura do Boletim nº 255 do poesia.net, cuidadosamente  editado durante anos pelo poeta Carlos Machado.