sexta-feira, 29 de abril de 2011

A Poeta Cubana Fina García Marruz ganha o Prêmio Rainha Sofia de Poesia


A estupenda poeta cubana Fina García Marruz obteve nesta quinta-feira (28.04) a vigéssima edição do Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. Ela é uma das vozes mais representativas da poesia cubana e o Prêmio, um dos mais importantes e prestigiosos do gênero no mundo.

O Belo Menino
Tradução de Gustavo Felicíssimo

Você apenas, belo menino, pode entrar em um parque.
Eu entro em certos campos, certas folhas ou aves.

Você apenas, belo menino, pode levar a roupa
ausente do defunto, distraída e remota.

A roupa ilustrada, o chapéu de ave.
Você apenas nesse reino indissolúvel e grave

tocou a magia do exterior, as coisas
indizíveis. Eu levo a roupa maliciosa

que sabe da morte e de amarga inocência.
Você não sabe que tem toda a possível ciência.

Mas ai, quando souber, o parque terá desaparecido,
conhecerás a estranha lucidez do adormecido,

e por que o sol que alumbra seus álamos dourados
hoje os doura com palavras e dias melancólicos. 


El Bello Niño
Fina García Marruz

Tú sólo, bello niño, puedes entrar a un parque.
Yo entro a ciertos verdes, ciertas hojas o aves.

Tú sólo, bello niño, puedes llevar la ropa
ausente del difunto, distraída y remota.

La ropa dibujada, el sombrero del ave.
Tú sólo en ese reino indisoluble y grave

has  tocado la magia de lo exterior, las cosas
indecibles. Yo llevo la rapa maliciosa

del que de muerte sabe y de amarga inocencia.
Tú no sabes que tienes toda posible ciencia.

Mas ay, cuando lo sepas, el parque se habrá ido,
conocerás la extraña lucidez del dormido,

y por qué el sol que alumbra tus álamos de oro
los dora hoy con palabras y días melancólicos. 

Em: Las miradas perdidas, 1951.

Mais sobre a poeta AQUI.

Tom Jobim & Dorival Caymmi - Imperdível

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Desenho com Luz


Nívia Maria Vasconcellos
Foto: Nívia Maria Vasconcellos
 Voltou pensando em Benjamim. Alternava tal pensamento com alguns versos de Barros e alguns trechos de uma música do Jobim. Estava confuso. O corredor parecia infinito, o que o felicitava. Aura; Difícil fotografar o silêncio; Eu, você, nós dois... Não sabia em verdade o que queria fazer, entrou na sala. A professora o olhou enviesado. Devia ser por causa do horário, havia já uma hora em que a aula começara e ele, com passos morosos, entrou parecendo querer continuar a chegar à sala. Boa noite! Disse a todos de forma quase inaudível. Não pediu desculpas, tirou apenas um fone do ouvido e ainda pensava e sussurrava trechos de versos de poemas e letras de músicas ao mesmo tempo em que algumas preocupações filosóficas tomavam o seu corpo. Abriu o caderno. Olhou com disfarçado desdém o quadro, fingiu dar importância àqueles rabiscos. Anotou algo. Desistiu. Sua mão coçava, queria pegar o Ensaios Fotográficos que trouxera na mochila. Lembrou dos fones, retirou-os. Não pegara o livro. Deu outra chance a professora, as suas palavras e a seus rabiscos. Mas, em seu caderno, pensamentos soltos pareciam nada ter a ver com a aula de Introdução à Fotografia à qual, naquele instante, submetia seu tempo. Adorava fotografia. Não pretendia ser um Sebastião Salgado. Apenas queria flagrar os seus cotidianos, não os dos outros. Certo dia, ao passar pela cozinha da casa de uma muy amiga, deparou-se com uma cena instigante: um pedestal sustentava um ferro de passar roupas antigo, ambos desgastados pelo tempo, mas ali como se tivessem ainda alguma utilidade. Imperceptível aos olhos de muitos, até mesmo de seus próprios donos. Decidiu dar-lhes, então, uma serventia. Pegou a sua Fujifilm semi-profissional e danou a tirar fotos dos mais diversos ângulos e distâncias. Queria eternizar a sua descoberta. Mas o que Walter Benjamin, Manoel de Barros e Tom Jobim têm a ver com um ferro de passar roupa sobre um pedestal? A professora cansou do seu abandono. Chamou-lhe atenção com tom severo. Queria integrá-lo à aula. Caro William, você poderia nos dizer quais são os elementos básicos da fotografia. Ele poderia. Claro que poderia. Olhou para todos os colegas de soslaio. Eles sabiam que ele poderia. Abriu a mochila. Afastou alguns objetos que lá estavam. Pegou tacitamente o exemplar de Pequena história da fotografia. Abriu-o, tirou dele e mostrou, antes de sair, a quem lá estava uma foto: uma parede envelhecida com canos e fios à mostra, um pedestal enferrujado à sua frente a suportar, não se sabe por quanto tempo, um ferro de passar roupas empoeirado e destituído para sempre da sua função de ferro...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Morre o poeta chileno Gonzalo Rojas


Quem acompanhou as notícias sobre o estado de saúde do poeta chileno Gonzalo Rojas sabia que suas condições de saúde não eram as melhores. Por isso não chegou a me chocar a notícia do seu falecimento, embora tenha me causado certa consternação. Ele estava com 93 anos e tinha sofrido um derrame em fevereiro deste ano. Desde então estava internado, em coma.
Nascido em porto de Lebu, uma província pobre no sul do país, Rojas se transformou em um dos escritores mais conhecidos e admirados da América Latina. Os livros “La miseria del hombre”, “Qué se ama cuando se ama” e “Contra la muerte” marcaram a trajetória literária do poeta, merecedor dos principais prêmios da literatura de língua espanhola, como o Rainha Sofia, em 1992, e o Cervantes, em 2003.
Até onde sei, no Brasil apenas alguns poemas de Rojas foram publicados em livro, em edição conjunta com poemas de João Cabral de Melo Neto, e co-participativa entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia Chilena da Língua, com esmerada seleção de poemas em edição bilíngue.

O sol e a morte
tradução de Gustavo Felicíssimo

Como o cego que chora contra um sol implacável,
me obstino em ver a luz por meus olhos vazios,
queimados para sempre.

De que me serve o raio
que escreve por minha mão? De que o fogo
se tenho perdido meus olhos?

De que me serve o mundo?

De que me serve o corpo que me obriga a comer,
e a dormir, e a gozar, se tudo se reduz
a apalpar os prazeres na sombra,
a dilacerar nos peitos e nos lábios
a formas da morte?

Me pariram de ventres distintos, fui atirado
ao mundo por duas mães, e em dois fui concebido,
e foi duplo o mistério, mas um só o fruto
daquele monstruoso parto.

Há duas línguas em minha boca,
há duas cabeças dentro do meu crânio:
dois homens em meu corpo se devoram sem cessar,
dois esqueletos lutam para serem uma coluna.

Não tenho outra palavra que minha boca
para falar de mim mesmo,
minha língua gaguejante
que nomeia a metade de minhas visões
sob a lucidez
de minha própria tortura, como o cego que chora
contra um sol implacável.

El sol y la muerte
Gonzalo Rojas

Como el ciego que llora contra un sol implacable,
me obstino en ver la luz por mis ojos vacíos,
quemados para siempre.

¿De qué me sirve el rayo
que escribe por mi mano? ¿De qué el fuego,
si he perdido mis ojos?

¿De qué me sirve el mundo?

¿De qué me sirve el cuerpo que me obliga a comer,
y a dormir, y a gozar, si todo se reduce
a palpar los placeres en la sombra,
a morder en los pechos y en los labios
las formas de la muerte?

Me parieron dos vientres distintos, fui arrojado
al mundo por dos madres, y en dos fui concebido,
y fue doble el misterio, pero uno solo el fruto
de aquel monstruoso parto.

Hay dos lenguas adentro de mi boca,
hay dos cabezas dentro de mi cráneo:
dos hombres en mi cuerpo sin cesar se devoran,
dos esqueletos luchan por ser una columna.

No tengo otra palabra que mi boca
para hablar de mí mismo,
mi lengua tartamuda
que nombra la mitad de mis visiones
bajo la lucidez
de mi propia tortura, como el ciego que llora
contra un sol implacable.

Em: La miseria del hombre, 1948.

Visite o belíssimo site do autor clicando AQUI.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um belíssimo poema de Jorge Elias Neto


Singelo e repleto de sentidos, o poema “Uma carteira e seus sentidos”, de Jorge Elias Neto, uma criação emocionada e dedicada às vítimas da chacina de Realengo, no Rio de Janeiro, nos mostra que um poema pode ser engajado sem ser panfletário, que nele pode haver um criticismo em relação aos valores humanos, às leis e aos limites a partir da reflexão ponderada do poeta, onde a paixão está substituída pelo equilíbrio. E mais, o poema traz em si uma forma modelar, comprovando que o poeta que pretende fazer um bom papel jamais poderá perder de vista que de livre o verso tem apenas o nome.

Uma carteira e seus sentidos
 às crianças de Realengo

Observe essa carteira vazia
– ociosa –
desocupada.
Entre na dimensão do absurdo
– no que se contorce –
e resvala,
e desperta,
e nos cala.

Observe essa carteira vazia
–ruidosa–
maculada.
Ventre da omissão confusa
– que nos paralisa –
e enoja,
e perpassa ,
e retalha.

Observe essa carteira vazia
– poderosa –
enfeitada.
Lembre da profusão do sangue              
– que se dispersa –
e tinge,
e respinga,
e nos entala.

Observe essa carteira vazia
– fervorosa –
devotada.
Sente a celebração da loucura
– que consente –
e trucida,
e cega,
e nos abala.

Observe essa carteira vazia
– tenebrosa –
mal fadada.
Sente a emanação do ódio
– que se alastra –
e devora,
e abraça,
e nos transpassa.

Observe essa carteira vazia
– silenciosa –
abandonada.
Crente na devassidão do mundo
– que surpreende –
e ignora,
e reproduz,
e nos arrasa.

Observe essa carteira vazia
– deliciosa –
delicada.
Prenhe de ilusão confusa
– que consente –
e insinua,
e seduz,
e nos agarra.

Observe essa carteira vazia
– espaçosa –
desejada.
Crente na criação do sonho
– que compreende –
e ama,
e perdoa,
e nos concede a graça.

Blog do Jorge Elias Neto:

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Estreia o Imperdível Sangue Latino


A partir da próxima segunda-feira, dia 25, e pelas próximas 18 semanas, na TV Cultura e Canal Brasil, às 20h45, poderemos assistir ao programa Sangue Latino, uma série de entrevistas conduzidas pelo jornalista, escritor e tradutor Eric Nepomuceno com nomes marcantes das artes. A ideia é construir um prisma de pontos de vista a respeito do Brasil e seus vizinhos latino-americanos. O programa de estréia terá como entrevistado o compositor e escritor Chico Buarque, que fala sobre o encontro de gerações, ditadura militar, socialismo e sua ligação com os países da América Latina, sobretudo Cuba.
Sugiro uma visita ao site do programa, clicando AQUI.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Um Rio que Corre


            Antônio Brasileiro

Um rio que corre é a melhor imagem:
ser como o rio é não ser mesmo nada.
Desemboca-se no mar, no mar, no mar
            de todas as águas.
Hei de mudar minha vida. Hei de ser
elementar como um grito
de alegria –
                        ou um filho
que retorna e traz nas mãos o orvalho
das jornadas:
            são teus, meu pai, os frutos
            duramente
            não colhidos.

Outros poemas do autor: AQUI.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

55ª Edição da Diversos Afins


A revista eletrônica Diversos Afins está no ar com a sua 55ª Edição. Já dei uma bisbilhotada em tudo e sugiro, sobretudo, atenção especial às fotografias de Cristina Carriconde e à ótima entrevista com  o cantor e compositor, Sérgio Britto, ainda nos Titãs.
Mas há muito mais por lá, como por exemplo:
- Poemas de Hilton Valeriano, Cyro de Mattos, Débora Tavares, Edson Bueno de Camargo, Josely Bittencourt, Silvia Favaretto e Nicolau Saião.
- A prosa de Wesley Peres, Gerusa Leal e Nilto Maciel.

Eis o link AQUI.