quinta-feira, 31 de março de 2011

Vinícius, poeta do encontro

Por Otto Lara Resende


Homem de bem com a vida, a favor da vida. A quem a vida nada se nega. Criador de um lirismo em prosa e verso, falado e cantado, e sempre de exaltação a vida.
A canção em Vinícius nasce de um encontro, não vem de um conflito. Encontro consigo mesmo, com o outro, com sua cidade. Com o menino livre e feliz que foi, com o tempo da infância, fonte inesgotável quando tudo era indizivelmente bom. Menino de beira de mar, os carinhos de vento no rosto e as frescas mãos de maré nos seus dedos de água.
Encontro com o próximo, com aquele que se dá à vida. O que não se defende, o que não se fecha, o que não se recusa participar do espetáculo fascinante da grande e da pequena ventura de viver.
Encontro com os amigos, parceiros da vida em comum, amigos da arte em comum. Encontro com a mulher amada, amiga infinitamente amiga. Encontro com a mulher do povo entre moringas e cenouras emolduradas de vassouras. Com o operário em construção, dono de uma nova dimensão, a dimensão da poesia.
Encontro de sensibilidade pessoal com o sentimento popular da inspiração e da técnica pessoal com o ritmo e inspiração geral. Encontro da mulher com o homem, do amor. Das palavras com a música, da poesia com a canção. Poesia de aliança com a vida e canção de aliança com a multidão. Voz pessoal, mas compreendendo muitas vozes. Encontro com uma voz com todas as vozes.
Poeta do encontro, cantor de vida. Vinicius tomou partido do sentimento contra o ressentimento. Por isso, ele não semeia pedras como aquele que não ama. Semeia canções, poesia.
Vinicius canta o povo.
O povo canta Vinicius.
A bênção, Vinicius de Moraes.

A HORA ÍNTIMA
Vinícius de Morais

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

terça-feira, 29 de março de 2011

Livro de Jorge Amado completa 80 anos


O País do Carnaval, primeiro romance de Jorge Amado, completa 80 anos de publicação em 2011. O livro foi escrito quando Jorge tinha apenas 18 anos e sua primeira edição foi publicada em 1931, no Brasil. Mais tarde, foi traduzido para três línguas diferentes: espanhol, francês e italiano, além de ter sido editado em Portugal. O livro foi considerado “revolucionário” pelo Estado Novo e, junto a outros títulos de Jorge, foi queimado em praça pública, em Salvador, em 1937. O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, um brasileiro que não se identifica com o país. É um relato sobre a formação e a situação dos intelectuais brasileiros nos momentos que antecedem a Revolução de 1930. 
        O que pouca gente sabe é que antes disso, em 1929, Jorge escreveu uma novela com Dias da Costa e Edison Carneiro e a publicou em “O Jornal”, onde trabalhava. Trata-se de Lenita, de fato sua primeira obra publicada, mas que ele renegou. No ano seguinte, 1930, portanto, um ano antes de O País do Carnaval, a obra é editada em livro por A. Coelho Branco Filho, no Rio de Janeiro. 


Mais sobre o autor no site da Fundação Casa de Jorge Amado CLICANDO AQUI.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Belíssima entrevista com Silvério Duque


Eu comecei muito cedo a ler poesia; escrever, no entanto, foi algo que veio depois, bem depois e eu, sinceramente, não conseguiria dizer, com certeza, quando ou como foi verdadeiramente. Sei que apareceu, sei que Fernando Pessoa, Drummmond, Camões, Shakespeare, Dante, e, logo depois, Eurico Alves Boaventura, Manuel Bandeira, João Cabral, Rilke, Tolentino, começaram a fazer parte de minha vida... mas, hoje, prefiro acreditar, ou me limitar a responder, na seguinte idéia: Poeta nascitur, orator fit, como diria Sêneca. LEIA MAIS...

O luto da arte


A discussão sobre a morte da arte teve um lugar essencial nas Lições de Estética, de Hegel, no século 19. Não se pode perder de vista que a morte da arte à qual Hegel se referia era a da arte bela e não da arte de modo geral. Se Hegel tem razão, em havendo uma morte da arte que não deve ser generalizada, trata-se de entender que tipo de arte, para além da arte bela, sobreviveu. Em um século de genocídios, ditaduras e violências de toda sorte, a arte é a memória da sua própria morte. LEIA MAIS...    

domingo, 27 de março de 2011

Rogério Ceni, Cem Vezes


Maior ídolo em atividade no futebol brasileiro e verdadeiro exemplo a ser seguido pelos jogadores mais jovens, Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, como todo mundo sabe, fez seu centésimo gol (aliás, um golaço) cobrando magistralmente uma falta contra o nosso maior rival, o Corinthians, o que tornou a comemoração ainda mais saborosa. Por isso (e por toda a sua contribuição) não me canso de aplaudi-lo e de publicar aqui esse poema.

SÃO PAULO F.C.

Para Rogério Ceni, ídolo

Sabe-se lá o que é torcer,
cantar, vibrar com esse time,
essa nação de tricolores
cuja memória é sublime,

que no presente honra o passado
e no gramado é respeitado,

é destemido e vencedor,
tão imponente quanto o sol
e tão valente até na dor?

Sabe-se lá o que é torcer,
ser são-paulino até morrer? 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Adendo ao Poema Procura da Poesia


             Para Carlos Drummond de Andrade

Não estamos acima da poesia
para justificar nossa imperícia frente ao verso:
à sua frente, somos a fração do imponderável
entre existência e linguagem.
Tua biografia não é a tua obra,
o que dela dizem não é a melhor imagem.
Deixa o teu leitor à vontade,
oferta-lhe a poltrona mais confortável,
um gole de água fresca
e o convide ao mergulho nas tuas vivências.
Não perguntes sobre os teus poemas,
observa primeiro se possuem raízes,
se oferecem frutos saudáveis.
Cuida que a palavra,
esse instrumento que tens às mãos,
não seja mais importante que os sentidos,
mas a memória, dela tirarás teus versos.
Preserve-a na imutável companhia das coisas
que te são caras.
Na memória reside a chave que decifra
a inadvertida presença da poesia entre nós.
Sua morada é escura
e espera que acendas as lâmpadas,
após todas as coisas se revelarão.  

Sugestão:
Releia o poema Procura da Poesia. CLIQUE AQUI.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Meio pão e um livro


Federico García Lorca, em livre tradução de Frei Betto

Quando alguém vai ao teatro, a um concerto ou a uma festa, se lhe agrada, lamenta que as pessoas de quem gosta não estejam ali. “Como minha irmã, meu pai iriam apreciar”, pensa, e desfruta tomado por leve melancolia.
Esta é a melancolia que sinto, não pela minha família, e sim por todas as criaturas que, por falta de meios e por desgraça, não gozam do supremo bem da beleza, que é a vida com bondade, serenidade e paixão.
Por isso nunca tenho livro, pois presenteio todos os que compro, que são muitíssimos, e portanto estou aqui honrado e contente por inaugurar esta biblioteca do povo, a primeira na região de Granada.
Não só de pão vive o homem. Eu, se tivesse fome e estivesse abandonado na rua, não pediria um pão, pediria meio pão e um livro. Critico violentamente os que falam apenas de reivindicações econômicas, sem jamais ressaltar as culturais, que os povos pedem aos gritos.
Ótimo que todos os homens comam; melhor que todos tenham saber. Que gozem todos os frutos do espírito humano, porque o contrário é serem transformados em máquinas a serviço do Estado, convertidos em escravos de uma terrível organização social.
Lamento muito mais por um homem que deseja saber e não pode, do que por um faminto. Este aplaca a fome com um pedaço de pão ou algumas frutas. Mas um homem que tem ânsia de saber e não possui os meios, sofre uma profunda agonia, porque são livros, livros, muitos livros, de que necessita. E onde estão esses livros?
Livros! Livros! Palavra mágica que equivale a dizer: “amor, amor”, e que os povos deviam pedir como pedem pão ou anseiam por chuva após semearem.
Quando Dostoiévski, pai da revolução russa muito mais que Lenin, se encontrava prisioneiro na Sibéria, isolado do mundo, retido entre quatro paredes e cercado de desoladas extensões de neve infinita, em carta à sua família pedia que o socorressem: “Enviem-me livros, livros, muitos livros, para que minha alma não morra!”
Tinha frio e não pedia fogo; sede e não pedia água; pedia livros, ou seja, horizontes, escadas para subir ao ápice do espírito e do coração. Porque a agonia física, biológica, natural de um corpo faminto, provocada pela fome, sede ou frio, dura pouco, muito pouco, mas a da alma insatisfeita dura toda a vida.
Disse o grande Menéndez Pidal, um dos sábios mais autênticos da Europa, que o lema da República deveria ser: “Cultura”. Porque só através dela é possível solucionar as dificuldades que hoje enfrenta o povo cheio de fé, mas carente de luz.

Em: Caros Amigos, Edição de Março de 2011.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Polêmica na Premiação de Chico Buarque provoca mudança nas regras para o Prêmio Jabuti


          A edição do ano passado do Prêmio Jabuti foi marcada por muita polêmica, pois não se sabe a partir de quais critérios Chico Buarque se tornara o vencedor do Livro do Ano de Ficção, com a obra Leite Derramado, mesmo tendo ficado apenas em segundo lugar na categoria Romance (o primeiro foi Se eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre).
            A Record, editora de Edney, protestou de maneira enfática, e publicamente, ameaçando não inscrever seus autores nas próximas premiações, forçando para que as mudanças acontecessem, até que ontem a Câmara Brasileira do Livro as anunciou. A principal delas é que agora apenas o primeiro colocado em cada categoria levará o prêmio para casa. Sendo assim, apenas o vencedor das categorias concorre ao famigerado prêmio de Livro do Ano de Ficção.

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BAIANICES, BAIANADAS & BAIANIDADES

Jotacê Freitas em ação,
se não me engano, na
Feira de São Joaquim,
em Salvador.
Caríssimos, o mestre Jotacê Freitas, um dos maiores cordelistas da Bahia, premiado em nível estadual e nacional, através da Editora AG Book, está lançando parte significativa da sua extensa produção em e-book. Trata-se dos três volumes da Coleção BAIANICES, BAIANADAS & BAIANIDADES.
A obra é altamente recomendada para quem é iniciado em Cordel, mas também para quem anseia travar contato com essa forma literária apaixonante, de onde emergem personagens sensacionais, caricatura e crítica social, bem como retrata as mais profundas tradições nordestinas, sempre com um olhar bem diferente daquele que é impresso em revistas e jornais.
Mas isso não é tudo! Devo dizer que a obra de Jotacê é altamente contagiante, tanto pelo domínio estético que ele possui, quanto pelo seu humor escrachado e finíssima ironia.

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segunda-feira, 21 de março de 2011

Entrevista com o poeta árabe Adonis


Adonis, aos 80 anos, apontam os especialistas, talvez seja hoje a mais importante figura poética do mundo árabe. Seu nome próprio é Ali Ahmad Said Esber, e seu pseudônimo refere-se ao deus de origem fenícia, símbolo da renovação cíclica. Sua poesia defendeu, com muito êxito, a renovação da poesia árabe.
É autor de vasta obra poética e ensaística, traduzida para diversos idiomas, embora no Brasil esteja publicado apenas em revistas de literatura e arte. Também é tradutor, tendo vertido para o árabe obras de autores importantes da literatura ocidental, como a de Ovídio, Saint-John Perse e Yves Bonnefoy. Atualmente mora em Paris e nos últimos anos seu nome tem sido fortemente esperado para o Nobel de Literatura.
            A entrevista foi feita pelo jornalista Guilherme Freitas e publicada n’O Globo de 19 de março. Nela, Adonis explica sua leitura da tradição poética árabe, certa linhagem de pensadores iconoclastas e antirreligiosos e aponta a promiscuidade entre política e religião nas sociedades árabes contemporâneas. Crítico radical do monoteísmo, ele fala também sobre os impasses no diálogo entre Ocidente e Oriente. LEIA AQUI.