sábado, 19 de março de 2011

A Prisão do Leiteiro


Ainda de madrugada, um homem ordenha as poucas vaquinhas que possui e vai às ruas da cidade interiorana, montado em sua carroça, vender leite in natura para uma clientela fiel que prefere tomá-lo assim, purinho e morno, oriundo de grandes tetas, ao invés de produtos embalados, processados por máquinas, cuja origem o cidadão matreiro desconhece e desconfia. Em muitos lugares a coisa funciona assim até hoje.
Na minha infância, quando o leiteiro anunciava a sua chegada em nossa rua, sempre aos sábados bem cedinho, minha mãe que já o esperava na calçada mesmo em dias de muito frio, nem precisava lhe pedir que completasse o vasilhame de cerca de dois litros, mais ou menos. O homem, com sua jarra enorme, atendendo-a prontamente, fazia questão de despejar o leite de uma altura generosa até ele ficar espumante, o que nos parecia uma prova inconteste do seu frescor.
Após, quem aparecia na rua atrás da freguesia certa era o vendedor de pães caseiros com seu imenso balaio. Macios e cheirosos, além de recém saídos do forno, não demoravam muito a serem comercializados e imediatamente devorados com manteiga fresquinha, também caseira, e um bom café comprado na mercearia que o torrava e moía na hora.
Esse assunto, admito, me deixou saudoso pra dedel e com a mesma água na boca que você, meu caro leitor, também deve estar. Entretanto, não são essas lembranças que me motivam a escrever nesta tarde renitente, mas um fato curioso ocorrido na cidade baiana de Riachão do Jacuípe, terra do meu querido amigo, poeta e contista, Miguel Carneiro. Lá um lavrador de 58 anos, leiteiro por necessidade, foi preso na última sexta-feira, 11 de março, por vender leite de porta em porta, hoje uma prática proibida pela Vigilância Sanitária.
A prisão, como não poderia deixar de ser, revoltou os moradores do município, que fizeram uma série de manifestações. O protesto da população foi ouvido e o leiteiro solto após cinco dias trancafiado na cadeia, fato que não minimiza a injustiça que a justiça acabou por promover, pois em situações como essa o estado precisa proteger e instruir, não prender o cidadão.
Ao fim, o infeliz episódio de Riachão do Jacuípe me levou a revisitar imediatamente o poema Morte do Leiteiro, do nosso querido Carlos Drummond de Andrade. Nele, se me faço entender, dois versos lembram a ação da Vigilância Sanitária e da justiça. Diz o poeta: E há sempre um senhor que acorda,/ resmunga e torna a dormir.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Um blog para Maria Bethânia


A jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo de ontem, 16 de março, informa que Maria Bethânia conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão para a criação de um blog. A ideia é que "O Mundo Precisa de Poesia", nome dado ao site, seja dedicado inteiramente aos versos e traga diariamente um vídeo (com direção de Andrucha Waddington) da cantora interpretando grandes obras.
Há três anos Bethânia se envolveu numa polêmica ao ter um pedido de captação, de R$ 1,8 milhão para uma turnê, rejeitado pela área técnica do ministério, o que deveria acontecer com esse projeto também, afinal, o valor arrecadado é abatido de impostos que as empresas “patrocinadoras” deveriam pagar e que, ao contrário do que se diz, não é para todos, pois deve ser voltado prioritariamente para o incentivo e fomento da arte, sobretudo, quando envolve artistas que não possuem apelo mercadológico ou que sua arte esteja à margem da indústria cultural, o que, a meu ver, não é o caso de Maria Bethânia.
Acho que a coisa vai feder!

O mito de Don Juan


Existem livros que nos embevecem, ora pelo rol de conhecimentos que nos proporcionam, ora pela mestria com que o autor conduz o texto, embora nem sempre se consiga unir estilo e conhecimento sem alguma perda. No caso de Do Penhor à Pena: estudos do mito de Don Juan, desdobramentos e equivalências, de Jorge de Souza Araújo, Editus, 2005, as duas situações ocorrem simultaneamente. Nessa que deve ser a maior obra de análise do tema e obras donjuanescas relacionadas, Jorge dá um show em relação à estilística e profundidade na análise a partir, naturalmente, do Don Juan Tenório, de Tirso de Molina, e sua peça trágica El burlador de Sevilla y el convidado de piedra, publicado originalmente por volta de 1630.
Sob o ponto de vista mítico donjuanesco, Jorge de Souza Araújo estuda o seu percurso no teatro, poesia, ficção e ensaio, perpassando por Molière e Guerra Junqueiro, tão díspares entre si, até seu equivalente Casanova. Para tanto, não poupa elogios a Byron ou Baudelaire e seu “Don Juan no Inferno”, nem ao Pushkin em “O Convidado de Pedra”, como também não se conteve frente ao “120 dias de Sodoma”, afirmando que nenhuma qualidade literária possui o livro de Sade.
Além das análises, Jorge também nos brinda, ao final do livro, com um anexo exclusivamente de poemas donjuanescos de autores de língua portuguesa, entre os quais destaco Sombra de Don Juan, do Álvares de Azevedo e o Don Juan de Manuel Bandeira.

Don Juan
(Manuel Bandeira)

Ser de eleição em cujo olhar a natureza
Acendeu a fagulha altiva que fascina,
Tu trazias aquela aspiração divina
De realizar na vida a perfeita beleza.

Creste achá-la no amor, na indizível surpresa
Da posse - o sonho mau que desvaira e ilumina.
Vencido, escarneceste a virtude mofina...
Tua moral não foi a da massa burguesa.

Morreste incontentado, e cada seduzida
Foi um ludíbrio à tua essência. Em tais amores
Não encontraste nunca o sentido da vida.

Tua alma era do céu e perdeu-se no inferno...
Para os poetas e para os graves pensadores
Da imortal ânsia humana és o símbolo eterno.


Don Juan no Inferno
(Charles Baudelaire)

Quando ao mundo da treva desceu Don Juan,
Assim que a Caronte o óbolo pagou,
Um mendigo sombrio, mirada malsã
E braço vingador, cada remo tomou.

Com as roupas abertas e os seios de fora,
Um bando de mulheres, na negra manhã,
Rebanho sensual que matadouro implora,
Mugia atrás do herói num lânguido cancã.

Leporelo, a zombar, o salário cobrava.
O velho Don Luís, totalmente tantã,
Apontava a um morto, que ali passava,
O filho que jogou na lama o seu clã.

Histérica de dor, a casta e magra Elvira,
Ao marido traidor que era o seu afã,
Suplicava um último olhar sem mentira,
Um sorriso com a velha pose de galã.

O gigante de pedra, visão imponente,
Assomava à proa tal Leviatã,
Mas o calmo herói, a tudo indiferente,
Olhava sem temor o reino de Satã.

Tradução: Jorge Pontual

quarta-feira, 16 de março de 2011

Fotografias de Laurent Lavender impressionam


Laurent Laveder é fotógrafo profissional (um dos melhores do mundo) e jornalista científico. Ele criou uma série fotográfica a qual intitulou Moon Games, composta por diversas imagens que mostram pessoas interagindo com a Lua. Trata-se de algo impactante e sinestésico, por isso convido a todos a uma visita às imagens CLICANDO AQUI.
Da série, a imagem que prefiro é essa aí abaixo.


Octávio Mora: Um Grande Poeta Injustiçado


Tenho todos os livros (hoje raridades) de Octávio Mora, poeta que, segundo Pedro Sette Câmara, é um dos grandes injustiçados da nossa língua. Concordo com o Pedro, sobretudo quando penso na capacidade do poeta de nos oferecer poemas carregados de significados vários, pois impregnados de uma multiplicidade de sentidos poucas vezes vista em nossa poesia. Mais à frente voltarei ao assunto. Por enquanto, fiquem com dois bons exemplos para o que digo. Boa leitura!

EM SAQUAREMA

(i.m. Walmir Ayala)

Cemitérios onde os rastos
não são os de humanos pés
mas os de humanas marés
de ressecas e ombros gastos

Os cemitérios tão junto
do mar que do céu defronte
ao deitar-se no horizonte
são do próprio sol defunto

Cemitérios do convívio
com os elementos soltos
os mortos no chão revoltos
mediterrâneos de alívio

Os cemitérios que banham
o mar sem mármores rente
de costas todas de frente
numa encosta de montanha

Cemitérios ou são arcos
de círculos que recordam
os horizontes e abordam
a terra a bordo de barcos

 Os cemitérios que olham
para o mar cujo azul frio
cujas ondas só um vazio
preenchem e não o molham

Cemitérios sob os astros
sobre as ondas oscilantes
cujas campas flutuantes
cujas cruzes foram mastros

Os cemitérios que o sul
contemplam em vez do norte
as águas secas da morte
separando o céu do azul

 Cemitérios hoje portos
para onde afinal desterram
morrendo os que em vida erram
errantes depois de mortos

Os cemitérios que o vento
atravessa entre destroços
já nus descarnados ossos
sem fôlego ou comprimento

Cemitérios com veleiros
em vez de túmulos Velas
de barcos não de capelas
cemitérios marinheiros.


SEMPRE EVA

Mordendo, ao modo de quem come,
a polpa escura das maçãs,
as noites, tardes e manhãs
umas nas outras, como a fome.

Partes as frutas com os dentes
e encontras, sob a casca, a cor
verdadeira  de seu sabor
íntimo. Açúcar som sementes.

         Pelas sementes, mais
ou seu sabor ácido, a planta
cresce-te dentro da garganta
até os pés.Dizes-te: escuto.

         Inseparável das raízes
faz-se o silêncio sem escolha
que reproduz, folha por folha,
árvore audível, o que dizes.

Macias, as palavras, dentro
das frases, ásperas, mastigas
e a tua própria voz obrigas,
maçã, ao silêncio de seu centro.

Calas? Para que não transbordes
do teu silêncio e se descubra
o quanto és doce, a polpa rubra,
sempre, do próprio lábio mordes.

Octávio Mora estreou em poesia com o livro Ausência viva (1956). Depois publicou Terra imóvel (1959). A esses se seguiram Corpo habitável (1967), Pulso horário (1968), Saldo prévio (1968), Exiliurbano (1975) e Oda amarga y otros poemas (1985). Diplomado em Medicina (1956), Sociologia (1967), Comunicação (1971), também atuou como roteirista. Exerceu durante alguns anos a profissão de médico e aposentou-se como professor titular de Literatura na UFRJ.

Obs: Os poemas acima foram  extraídos de 41 POETAS DO RIO, org. Moacyr Félix.  Rio de Janeiro: FUNARTE, 1998.  514 p.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Bandido Negro


Ao contrário do que imaginamos, em Castro Alves: Um Poeta Sempre Jovem, Alberto da Costa e Silva afirma que não há na poesia do poeta da liberdade nenhum indício de que ele tenha, algum dia, se demorado em conversas com um escravo africano sobre sua história e condição. Os exemplos de maus tratos, humilhações e perversidades que figuram em seus versos seriam pertencentes a um repertório de histórias que alimentavam a pregação abolicionista. Repertório esse que Castro Alves aproveitou como ninguém.
Poemas como “Bandido Negro” eram considerados como incitação ao crime, pois louvavam os grupos de africanos e crioulos que, armas na mão, atacavam as fazendas. Imagino que um poema como esse devia enfurecer os escravocratas. Acompanhe.

Bandido Negro
(Castro Alves)

Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
porque o negro bandido bradou:

Cai orvalho de sangue do escravo,
cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
cresce, cresce, vingança feroz.

(...)

E o senhor que na festa descanta
pare o braço que a taça alevanta,
coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
"Que demônios são estes medonhos,
que lá passam famintos e nus"?

(...)

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
nós quebramos as nossas algemas
para pedir-te as esposas e mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este - irmão da mulher que manchaste...
Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

(...)

São teus cães, que tem frios e tem fome,
que há dez séculos a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra.
Fez-se o manto de sangue para nós.

(...)

Meus leões africanos, alerta!
Vela a noite... a campina é deserta.
Quando a lua esconder seu clarão
seja o bramo da vida arrancado
no banquete da morte lançado
junto ao corvo, seu lúgubre irmão.

(...)

Trema o vale, o rochedo escarpado,
trema o céu de trovoes carregado,
ao passar da rajada de heróis,
que nas éguas fatais desgrenhadas
vão brandindo essas brancas espadas,
que se amolam nas campas de avós.

Cai orvalho de sangue do escravo,
cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
cresce, cresce, vingança feroz.

Ao Poeta Castro Alves - No Dia Nacional da Poesia



Morto com apenas 24 anos, em 1871, Castro Alves já era muito famoso em Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, onde Machado de Assis e José de Alencar se apressaram em conhecê-lo mal ele pôs os pés na cidade. Sua fama se estendia além dos círculos letrados. Nos teatros, nas tavernas e nas repúblicas estudantis, audiências entusiasmadas se reuniam para ouvi-lo declamar seus versos exaltadamente românticos, que logo centenas de admiradores sabiam de cor.
            Ele se preparava com meticulosidade para essas ocasiões, maquiando-se e pintando os lábios. O que o movia, como disse, era o “borbulhar do gênio”. E, também, a causa abolicionista, que o poeta defendeu e popularizou, levando-a a entrar cada vez mais na consciência nacional, mesmo depois da morte dele, como uma aberração.
          Mais que o “poeta dos escravos”, como se tornou conhecido, Castro Alves foi poeta público – um artista que enfrentou esteticamente o problema central da sua época e o transformou em poesia.

Texto de Alberto da Costa e Silva. Em: Castro Alves: Um Poeta Sempre Jovem. Coleção Perfis Brasileiros, Companhia das Letras

Ao Poeta Castro Alves
(Gustavo Felicíssimo)

Por que vieste assim, tão frágil,
sua vida beijando a morte,
se bebeu do leite da escrava
e se podia melhor sorte;

por que partiste muito jovem
se teus versos é que nos movem,

se teu canto é que nos conduz
sobre o éter dos novos dias,
caminho ao encontro da luz,

e por que não, sopro de vida
em meio à plêiade perdida?

Castro Alves por Manuel Bandeira e Afrânio Peixoto:

domingo, 13 de março de 2011

O Perigo tem um Nome


no campo inimigo
o perigo tem um nome –
Senryu inserido na página 33 
do meu livro Silêncios

quinta-feira, 10 de março de 2011

Prêmio OFF FLIP abre inscrições


A sexta edição do Prêmio OFF FLIP de Literatura está com as inscrições abertas até o dia 30 de abril. O Prêmio, criado em 2006 como parte da programação literária da OFF FLIP, oferecerá aos poetas e contistas vencedores R$ 12 mil no total, além de estadia em Paraty e ingressos para mesas de debate da Festa Literária Internacional de Paraty. Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os 30 finalistas serão publicados em uma coletânea pelo Selo OFF FLIP. A premiação acontecerá entre 6 e 10 de julho paralelamente à Flip. O regulamento pode ser lido no site do prêmio.

Elisabeth Bishop em Ouro Preto


O 7º Fórum das Letras de Ouro Preto acontecerá entre os dias 9 e 15 de novembro em conjunto com um colóquio internacional em homenagem ao centenário de Elizabeth Bishop (1911-1979). A poeta americana, que morou algum tempo na cidade mineira, terá a obra discutida por especialistas de várias universidades. "Será de altíssimo nível. Esperamos afluência de muitos pesquisadores de outros países", diz Guiomar de Grammont, idealizadora do Fórum.