quarta-feira, 9 de março de 2011

Antífona: da Liturgia Católica à Poesia


Antífona é uma resposta ou a outra parte da liturgia católica. Esta função deu origem ao Canto Antifonal, onde uma peça musical é executada por dois coros que interagem entre si, às vezes cantando frases alternadas. Na poesia essas duas vozes também podem ser ouvidas, como no poema abaixo que, apesar de ter sido estruturado em quadras, bem poderiam ser dispostos em dísticos.
Apesar da Antífona de Cruz e Souza ser mais famosa, essa, do poeta baiano Fernando Joaquim Pereira Caldas (1884-1922), além de ser um poema melhor, me parece muito mais adequado à estrutura original do canto.

ANTÍFONA
Fernando Caldas

A existência como a entendo,
firme executo:
entre o prazer e os males, vou vivendo
o meu minuto.

De meu credo a alma me instiga
a atos diversos:
amo com amor, trabalho a terra amiga
e faço versos.

É a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!

Na alegria e em meio ao pego
ficar sereno!
Com a grandeza vil do sábio grego
ante o veneno.

Laborar, vencendo as dores
é o meu tesouro:
ver a terra, por mim, aberta em flores
e frutos de ouro.

E com anseio insatisfeito,
como num cofre,
depor o verso lúcido e perfeito
n’alma que sofre.

Que é a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!

sábado, 5 de março de 2011

O Som dos Cavalos Selvagens


Conta Ferreira Gullar que durante a ditadura militar no Brasil foi convidado a fazer parte do MR-8 e pegar em armas na Guerrilha do Araguaia. Sabiamente não entrou naquela furada, pois a sua trincheira estava onde melhor poderia colaborar, na poesia. Caso a escolha fosse outra, provavelmente não teríamos uma obra pulsante e vigorosa como é, por exemplo, Poema Sujo.
Do mesmo modo que Gullar, muitos poetas ficaram para contar, cada um à sua maneira, a história e expor as marcas desse período que permaneceram no tecido inconsciente da nação, uma vez que o discurso poético naquele momento estava permeado por uma natureza de essência política e humanitária que procurava combater as iniquidades.
  Entretanto, foram poucos os poetas que conseguiram aliar o discurso social à estética literária, um deles foi o baiano Adelmo Oliveira, pois não justificou seus pressupostos com finalidades alheias ao que é decisivo e inalienável em uma obra de arte, o seu plano estético.
Os poemas criados por Adelmo nessa época estão reunidos em “O Som dos Cavalos Selvagens”, cujo título tomo emprestado para essa crônica. São poemas que trazem aquela ideia de Bandeira sobre o poeta sórdido, que é aquele cuja poesia traz a marca suja da vida (Nova Poética).
Pois bem. Relendo aleatoriamente, e pela enésima vez, alguns poemas da sua obra reunida (e muito mal editada pela Escrituras) em “Canto Mínimo & Poemas da Vertigem”, tive aquela impressão benfazeja que apenas o grande poeta consegue nos proporcionar, justamente por ter a consciência de que para impressionar nossa percepção, a mensagem, a ideia, que pretende exprimir em sua obra deve estar inseparável do código em que está envolta. Ou seja: forma e conteúdo constituem uma unidade, uma construção com estrutura e significado, que potencializa a comunicação com o leitor.
É justamente por essas qualidades que o poeta e crítico Izacyl Guimarães Ferreira, ao se referir à obra de Adelmo Oliveira, com muita propriedade afirma que chega a ser deplorável que um poeta deste porte, não tenha o reconhecimento (nacional) da sua arte.

O Som dos Cavalos Selvagens
(Adelmo Oliveira)

Dentro da noite
e pelo dia
um eco surdo
de ventania

Sobe a montanha
transpõe o vale
– A fúria avança
– A sombra invade

Marca no tempo
finas esporas
– Um cata-vento
no fio das horas

Patas de ferro
porta fuzis
deixa no vento
a cicatriz

Dentes de faca
olhos de fogo
cuspindo raiva
do próprio rosto

Destrói cidades
e espanca a luz
por onde passa
finca uma cruz

Tempo de guerra,
este é meu tempo
– Cavalos de ódio
no pensamento

Clicando AQUI poderá baixar o livro na íntegra.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ferreira Gullar não é candidato à vaga de Moacyr Scliar na ABL


Com informações de O Globo - 03/03/2011

O escritor Antônio Torres e o jornalista Merval Pereira são os candidatos à vaga deixada por Moacyr Scliar. Citado como possível candidato, o poeta Ferreira Gullar afirmou que nunca quis entrar na ABL. Disse ele que “sempre que há uma vaga, me convidam, e eu digo não. Desta vez, perguntaram se eu aceitaria me candidatar desde que a maioria, quase totalidade, dos imortais assinasse um documento pedindo a candidatura. Diante dessa proposta, achei que seria arrogante recusar. São meus amigos, fiquei inibido e aceitei. Mas já no dia seguinte me arrependi”.

Quem Poderá nos Socorrer?


Nunca me senti tão inseguro. A violência que campeia a Bahia é fruto de grande descaso não apenas com a segurança, mas, sobretudo, com a educação.
Tenho a convicção de que a péssima situação encontrada em nossas escolas e a falta de apoio, sobretudo aos professores, que são obrigados a conviver cotidianamente com pressões políticas que facilitam a vida do alunado por conta dos índices do famigerado IDEB que precisam, a todo custo, serem elevados ano após ano, ainda que à custa do analfabetismo funcional da população, está na raiz do problema.
Para ser mais claro: as escolas estão aprovando alunos que não possuem a menor condição de avançar. O resultado prático reside no fato de que, sabendo de tal postura, parte dos jovens quando comparecem à escola, nem sempre participam das aulas e não se dedicam ao estudo.
Isso porque, quanto menos repetências e desistências a escola registrar, melhor será a sua classificação, numa escala de zero a dez. Sendo assim, se a escola passar seus alunos de ano sem que reúnam condições, ela estará colaborando para que o estado alcance suas metas e receba mais recursos.
            Desse modo, nossas salas de aula estão sendo habitadas por marginais mirins que desafiam o ambiente educacional, não colaborando com os professores, e o que é pior, levando armas e drogas para um espaço que deveria ser sagrado, mais sagrado que qualquer templo religioso.
Prova inconteste do que afirmo é o fato ocorrido com uma amiga, onde um aluno, insatisfeito por ter sido colocado para fora da sala por azucrinar o ambiente, atirou nela uma grande cesta repleta de lixo e dejetos de alimentos, fato que foi contemporizado pela direção escolar que, por sua vez, precisa aprovar o aluno ao final do ano, transformando-o em número saudável para o FUNDEB.
Por isso, e por outros motivos que não cabem nessa crônica, a notícia de que nos últimos dez anos a Bahia passou de décimo para o quarto estado mais violento do país, não me espanta.

terça-feira, 1 de março de 2011

Entrevista com João Ubaldo Ribeiro


João Ubaldo Ribeiro, agora um setentão, confirmou sua presença na próxima edição da FLIP em uma entrevista descontraída concedida a jornalistas da Folha de São Paulo, oportunidade em que comentou sobre a carreira, o Prêmio Camões e os dois Jabutis que já recebeu. 
O homi é bom de papo mesmo. Leia aqui.

Renga do Rio Cachoeira


Quem adquiriu Silêncios travou contato com uma série de haikais que escrevi em um momento em que estava triste e comovido com a situação de descaso por que passa há décadas um dos principais rios aqui da zona cacaueira da Bahia, o Cachoeira. Esses haikais, como só poderiam ser, revelam o que sabemos estar acontecendo com inúmeros rios mundo afora: o desmatamento da mata ciliar, o despejo de esgoto e dejetos em seu leito, a diminuição da vida etc.
Para cada um desses haikais o poeta George Pellegrini escreveu um dístico, o que acabou por transformá-los em uma renga. E como se não bastasse me passou às mãos vinte haikais que também havia escrito sobre o mesmo tema para que eu fizesse o mesmo.
Desse nosso entrosamento surgiu a “Renga do Rio Cachoeira” que, seguindo a tradição japonesa firmada por Bashô, possui 36 estrofes, cada uma delas em homenagem a um dos poetas imortais do Japão. As estrofes, de três e dois versos, segundo Rosa Clement realçam a arte da transição ao encadear, respectivamente, estrofes sazonais, em que o dístico, muito suavemente, apenas alude ao terceto, proporcionando uma mudança de perspectiva.
Essa renga estará em meu próximo livro, Sendas, e, da qual, a pedido do mestre e amigo Carlos Verçosa, publico a seguir seis estrofes. Nas três primeiras o terceto foi feito por mim e o dístico, evidentemente, pelo George Pellegrini. Nas três últimas os papéis se invertem. Espero que gostem!

Renga do Rio Cachoeira

madruguei chorando –
silenciou-se o grande rio
ao me ver nascer

o lusco-fusco da aurora
descortinou as estradas

puro em sua nascente
desce o rio cortando o campo –
espalhando vida

e na calma dos remansos
a morte sobe fecunda

não é o rio da aldeia
mas o rio de todos nós
Cachoeira seu nome

não diz mais que o nobre salto
no abismo de suas pedras

questão de menino
o rio devia pagar
por seu desatino

na carona da corrente,
errante, uma baronesa

brincando de estátua
nas cachoeiras do rio --
martim pescador

refletida pelas águas
a cidade acinzentada

o cheiro da morte --
estendido sobre as pedras
o rio apodrece

ouço, canta uma graúna
a sabiá não replica

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Soneto da Musa Distante


Onde estavas, ó musa, na tarde
em que o meu coração sucumbiu
vendo a lua se pôr sem alarde
no horizonte esquecido de abril?

Porque estavas, ó musa, em silêncio
vendo as horas da noite passar
entre as brumas enquanto era intenso
o dilema que vinha do mar?

Onde estavas, ó musa, querida
nesse outono em que vai nossa vida
caminhando ao abraço do fim?

Porque estavas, ó musa, distante
quando mais precisei de um instante
entre os seios que anseio pra mim? 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Antipoema x Paródia


Inúmeros escritores, por falta de conhecimento, confundem “antipoema” com “paródia”. O primeiro consiste em imitar, cômica ou satiricamente, uma obra séria. O segundo, em exprimir em versos uma idéia afirmando, com sentido inverso, o que está contido em outro poema.
Em uma das aulas que me deu, o mestre Ildásio Tavares propôs que fizesse um antipoema a um poema seu ainda inédito, um eneassílabo trímetro (verso de nove sílabas poéticas com cesuras na 3ª, 6ª e 9ª) intitulado Clara Sombra. Com o espírito de “um verso puxando outro” acabei superando o desafio compondo o meu Claro Entardecer. Espero que gostem.

CLARA SOMBRA
Ildásio Tavares

Passeavas azul em silêncio
sobre nuvens acima do mar:
tua sombra no mar ia clara,
sutilmente no seu navegar.

Nuvens turvas cobriram o céu,
passeavas no azul a brilhar:
tua sombra no mar ia clara
contra o escuro do céu e do mar.

Pouco importa se o vento do norte
de repente soprou a gelar.
Pouco importa se as trevas da morte
o horizonte vieram tragar.

Tua sombra no mar ia clara.
Minha vida só fez clarear.


CLARO ENTARDECER
Gustavo Felicíssimo

Passeavas, mas não em silêncio,
nesta rua, bem próxima ao mar:
tua sombra no muro escondida
escondia o teu caminhar.

Nenhum pássaro ia no céu,
nem as nuvens te viram passar:
tua sombra no muro escondida
escondeu-se também do luar.

Era triste, tão triste o crepúsculo,
sem o vento primevo a cantar.
Sem a lira dos teus vinte anos
já não fazes o céu desabar.

Tua sombra no muro escondida
escondeu-me do teu caminhar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Solilóquio a Jim Morrison

Estava relendo esse poema que escrevi em meio ao caos, num momento de grande fúria, angústia e solidão. Ouvia Roadhouse Blues, canção da minha banda preferida, The Doors. O poema, em princípio, dialoga com o momento que estava passando, mas logo percebi que era o mesmo diálogo que Jim Morrison sempre manteve consigo mesmo. Por esse motivo o título do poema e o prenome do ídolo no primeiro verso.

  
Solilóquio a Jim Morrison

Entre um drink e outro, Jim,
revisito os meus demônios.

Verdadeiros e constantes,
me ampararam às portas do inferno.

Com eles me vi, muitas vezes,
marchando sob o sol do Saara.

Nenhum herói na linha de frente
ou escudos a me proteger.

Anjos decaídos apenas,
estendiam as mãos sobre o fim.

Eram quais os meus medos,
se não fossem os meus medos.

Eram quais os meus tormentos,
se não fossem os meus tormentos.

Estava acompanhado e só,
imerso em minha própria loucura.

Assista ao vídeo de Roadhouse Blues:

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Melhor Definição de Poesia

Sempre que estou aqui em Salvador, na agradável companhia do meu amigo e poeta Bernardo Linhares, conversamos insistentemente, madrugada à dentro, sobre Vinícius de Morais. Ontem, falamos dos artigos do poetinha a respeito da poesia e, inevitavelmente, não pudemos deixar de fazer algumas leituras. Ao longo da minha vida ouvi e li muitas definições, ou tentativas, de se fixar o sentido do que é poesia. Algumas, apaixonadas, outras, ponderadas, embora quase todas não passem de arroubos infantis. De todas elas, a que mais me agrada e sensibiliza é o texto “Sobre Poesia”, belíssima e equilibrada tentativa de Vinícius de Morais de apreender e examinar a natureza do poema e a função do poeta no mundo. Texto esse que se pode acessar por aqui.

Contudo, desconfiamos que o melhor mesmo de Vinícius esteve reservado às mulheres. Vejam só como o sacana, mesmo depois que virou estátua na praça que leva seu nome, em Salvador, continua um sedutor incorrigível.