Volto a esse tema tão polêmico aqui no blog, após me certificar que
estudantes em fase de conclusão do curso de Letras na universidade onde estudo
produziram e publicaram, sob os auspícios da universidade, um texto sobre literatura,
baseados na letra de música de um compositor local, o que para mim não é um bom
sintoma. Apesar disso, preservarei nomes para não gerar incômodos maiores.
Apesar de muita letra de música ser altamente poética, como as de
Vinicius de Morais, por exemplo, elas não podem ser consideradas um poema em si,
pois a letra de música, embora possua literariedade, está sempre associada
automaticamente a uma melodia para a qual é escrita, por isso não possui um
corpo autônomo. Já os poemas são entidades verbais inteiras e completas que,
mesmo quando musicados, não deixam de ser poema para tornarem-se letra de
música.
Em países como a França e a Inglaterra, para citar apenas dois exemplos,
robustas tradições da forma musical, de um lado, e da poesia, de outro, fazem
com que tal discussão, ou inexista, ou careça de qualquer relevância. Já no
Brasil surpreende que um compositor como Chico Buarque, quando referido por um jornalista
como “poeta”, o interrompa para corrigi-lo: “Não sou poeta, sou um compositor
popular”. Tal intervenção se dá por conta da consciência estética literária e
musical que tem o autor.
Uma
das principais razões dessa discussão ter alguma relevância no Brasil é o fato
de que, por vários motivos que não cabe aqui adentrar (um deles é o histórico
analfabetismo da população e o não menos histórico beletrismo das elites), a
canção popular adquiriu um status que
não tem em muitos países, nos quais outras artes, como a própria poesia, mas
também a música erudita e o teatro ocupam posição histórica e cultural
proeminente.
Mas se a canção popular
é “a grande expressão” nacional, e se é a poesia o nome que carrega, em função
da tradição ocidental, a aura da “grande arte”, dar à canção a chancela de ser
poesia é dar-lhe o status maior que poderia ter, e, em contrapartida, negar-lhe
o “título” é ser, então, antipopular, antimoderno, preconceituoso, elitista,
conservador. Tudo isso e muito mais.
No
entanto, não se discute aqui o fato de um gênero ser superior a outro, apenas
de defender a idéia de que letra de música e poesia, apesar de se utilizarem da
mesma matéria, a palavra, são elementos distintos, pois, um serve à estética
literária, o outro à musical, portanto diferentes. Ademais, são muito diversos
os elementos que compõem um e outro estilo; enquanto ao poema pede-se um texto
espirálico, circular, metafórico, à letra de música pede-se, hoje mais que
nunca, um texto linear, onde a seleção lexical é completamente diferente. A
poesia é muito mais flexível em relação às palavras diferentes das de uso comum
no nível da fala; a letra raramente exige um léxico que seja fruto de uma
escolarização além do primário, e até mesmo os melhores letristas pouco se
arriscam em levar o ouvinte ao dicionário, coisa sobre a qual o poeta não tem o
menos pudor.
Polemista,
e não sem razão, o poeta Bruno Tolentino, único escritor a vencer três vezes o
Jabuti, prêmio mais importante da literatura brasileira, em 1996, depois de
morar 30 anos fora do Brasil, manifestou em entrevista à revista Veja sua
preocupação por ver o filho mais novo estudando em escolas que ensinavam as
obras de letristas da MPB - como Caetano Veloso - ao lado de Machado de Assis,
Camões e Fernando Pessoa. Já o poeta e compositor Ildásio Tavares, disse-nos
que “ao se interpor letras de música toma-se o lugar já diminuto da verdadeira
poesia tradicional do país. Isso é um absurdo porque a música popular é
obsessiva e onipresente. Trata-se da hipertrofia de um gênero usurpando o lugar
do outro”.
Todavia, nesses tempos de arrocha e pagode,
pisadinha, dança da bundinha e outros demônios, onde a indústria do
entretenimento dita as regras da atividade cultural, onde a universidade vem
perdendo cada vez mais a sua função
crítica e o homem, pobre de reais valores, já não sabe a importância de ser e
estar no mundo, é perfeitamente entendível que em muitos casos se faça tal
confusão.
Mas por sorte, temos em nossa tradição um conjunto
de autores que além de letristas populares geniais são também poetas
completamente diferenciados (vide os já citados Vinícius de Morais e Ildásio
Tavares, como também o Paulo César Pinheiro, Capinan, Bernardo Vilhena, Antônio
Cícero, Chico César, entre outros) que nos salvam de uma pobreza maior.