quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Seara das Perguntas - Poema nº 1


Ao poeta Bruno Tolentino




Se mais um ano se anuncia
renovando nossa esperança,
faremos planos, orações,
acreditando na mudança,

no milagre que se declama,
que se propaga e se proclama,

nos sorrisos em nossa face,
se não convertemos por dentro
este ser, um mero disfarce,

simples imagem da ilusão,
quimera da nova estação?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Homenagem a Leminski



Era um poeta iconoclasta
beijando modernos umbrais,
um samurai à brasileira
medindo o vôo dos pardais;
                                  
era como se não bastasse
e como se em si não coubesse:

hoje canta e vive na praça,
na plenitude da palavra,
nos bares, nos becos da raça,

na luta de classes, nos livros:
anjo louco, poeta vivo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dendê no Haikai: mais uma ótima notícia em 2010


O ano 2010 termina com uma grande notícia para mim, pois o Márcio Meirelles, Secretário de Cultura aqui da Bahia, deferiu a viabilização do projeto Dendê no Haikai, de minha autoria. Trata-se de um estudo crítico e historiográfico que fiz sobre o haikai no estado, de onde saíram alguns dos precursores do haikai no Brasil. Sim, os pioneiros do haikai no Brasil são baianos! E não poderia deixar de ser, pois como diz a canção do Gil: Deus inventou de dar a primazia/ pro bem/ pro mal/ primeira vez na Bahia.
Esse é um projeto apoiado pelo edital de Edição de Coleção de livros de Autores Baianos e a publicação no Diário Oficial do Estado saiu em 20 de dezembro, coroando um ano formidável. De quebra, além do meu ensaio, ainda levo para publicação um livro inédito, de haikais infantis, do mestre Carlos Verçosa e o livro As quatro estações, do Piligra.

Como se não bastasse, Silêncios, meu livro de estreia, está com a 2ª edição esgotada e uma 3ª a caminho para lançamento em São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, uma edição bilingue está sendo preparada por uma editora da Argentina.

É isso aí! Vamos quebrando as barreiras com conhecimento, algum talento, sem grupelhos, empurrões, compadrio e, sobretudo, sem aplaudir qualquer tipo de mediocridade.

           Que venha 2011!!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Haicais de Wandi Doratiotto


Integrante do grupo musical paulistano Premeditando o Breque estreia em haicais.
Com informações de Caqui – Revista Brasileira de Haicai

Do texto da orelha: “Geminiano, penso que todas as manifestações artísticas podem andar juntas. Não acredito em especialização (talvez por não ser muito bom em nada). Em 1976, na Escola de Comunicações e Artes da USP, nasceu o grupo Premeditando o Breque, o Premê, que, entre outros sucessos, gravou: Fim de semana (Domingão), Marcha da Kombi e São Paulo São Paulo. No cinema, participei de Sábado, longa-metragem de Ugo Giorgetti; Ed Mort, de Alain Fresnot; e Sob o signo da cidade, de Bruna Lombardi e Cados Alberto Riccelli. ‘Não é assim uma Brastemp’ foi meu comercial de maior sucesso. Há 15 anos apresento o programa Bem Brasil na TV Cultura. E … resolvi escrever haicais porque gosto de acender fósforos”.

Amostras:

Digo e não sofismo:
até pra morte dá-se um jeito
depois do espiritismo.

***

No meio do terreiro,
belo e imponente,
o grande abacateiro.

***

A modelo aconteceu.
Sempre emagrecendo,
desapareceu.           

***

O celular
abriu a tampa
do particular.

Obs: Coletânea contendo 143 haicais. Projeto gráfico e ilustrações de Guto Lacaz. Editora Papagaio, São Paulo, 2006. 160 páginas.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Entre os gaviões


A manhã está azul e entremeada por nuvens. O vento leste irrompe rio adentro e por um momento estremece os galhos das árvores mais altas.
Sigo na direção do vento e a todo o momento gaviões me acompanham sem preocupações fatais ou medo. Eu os contemplo e fraternalmente admiro a liberdade que possuem.
Do modo como se oferecem, talvez pressintam que passa um poeta. Emudecido, paro para admirá-los, como tantas vezes fiz durante o ocaso. Um deles pousa a poucos metros de mim.

sobre meu haikai
a sombra de um gavião –
velho samurai
gavião, também conhecido como carcará

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desmantelo verde


                 Para Carlos Pena Filho

É verde a cor dos vales que de verde vai pintando as encostas que se transmutam em verde onírico em seu desmantelo. Verdes sobreposições e mutações misteriosas que fazem brilhar o verde que pelo horizonte se alastra.
O verde vai e vem. Minha alegria, a poesia das primeiras descobertas quando percebi que os cacauais, como o arroio cortando a planície, continuam cumprindo seu verde papel, dando abrigo aos pássaros cantores, feito a flor verdadeira, esperança que prevalece necessária.

do rio à montanha
serpenteia uma estradinha –
solitário esplendor

***

cavalos mordiscam
o capim que o vale oferta –
seguimos ao sul
tons e entretons verdes abundam na paisagem belmontina

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Pôr-do-sol em Belmonte

O sol agora dança no infinito para essa pobre alma enquanto lágrimas escorrem tal qual chuva torrencial. Meus olhos não abarcam todo o céu, mas isso não importa, como não importa o vento soprando e os golpes das ondinas no cais.
            A natureza flui e o poente une leste e oeste. Entretons de azul e laranja firmam o ocaso que outro poeta chamou de a magnificência da tarde[i]. Com vinho tinto brindo a cálida torrente que brota em meu coração e faz desvanecer tudo mais.

displicentemente
lanço alguns versos ao léu –
replica um sabiá

[i] Sosígenes Costa, Obra Poética. Rio de Janeiro, 1959. Leitura, Pág. 15. 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

À beira do Jequitinhonha

Me encontro só nesta manhã, enquanto observo as águas do Jequitinhonha correrem para o mar. Do outro lado, a mata nativa e o intenso manguezal, de onde surgem barquinhos lutando contra a corrente.
As garças golpeiam suas asas contra o céu. Os pássaros se rivalizam no desfrute da liberdade. Nesta imensidão, intimamente absorto, faço uma pergunta ao infinito: quem controla a natureza?

longa foi a noite –
agora cantam os pássaros
e eu vou me deitar
amanhecer em Belmonte, às margens do Jequitinhonha

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sendas de Belmonte


Céu claro, brancas nuvens se esvaem no ar como se quisessem nos acompanhar até Belmonte para a contemplação do ocaso. Estava na companhia de outro poeta, Cyro de Mattos.
            Atravessamos as quase quatro horas de viagem como se em instantes, seguindo nosso curso, feito as águas dos rios e arroios.
Admirado com a sabedoria do velho vate, ousei fazer-lhe uma pergunta que não se faz. Interroguei-o sobre a natureza da poesia e a resposta veio cifrada em uma só palavra: Mistério.

as horas passando
como o fluir da existência –
enigma divino
Pôr-do-sol em Belmonte

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Centenário de Lezama Lima


Belíssimo texto de Carlos Granés para o caderno Sabático, do Estadão, sobre Paradiso, obra magma do poeta cubano Lezama Lima, cujo centenário correu neste domingo. Nessa obra de estética barroca o autor cria um mundo onde o que importa são apenas as imagens poéticas.

Para Granés, o esforço titânico de Lezama Lima resultou num dos romances mais pessoais e audaciosos da literatura hispano-americana, onde o centro do mundo é Cuba e toda a história e a cultura universal se convertem num ornamento para transformar a existência em poesia