quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os 40 anos da pedra no meio do caminho


Para marcar os 40 anos do poema “No meio do caminho”, Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1967, o livro “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema”, no qual reuniu uma ampla seleção com o que foi dito sobre os famosos versos. O Instituto Moreira Salles lança hoje (24), às 19h30, uma nova edição do livro concebido pelo próprio Drummond, ampliada pelo também poeta Eucanaã Ferraz.

Uma pedra no meio do caminho – Uma biografia de um poema
(Instituto Moreira Salles, 344 pp., R$ 50)

Ariano Suassuna no Correio das Artes


Recebi hoje, do Astier Basílio, a versão impressa da edição de outubro do Correio da Artes, publicação da qual é o editor. Especialíssima edição, pois tem como entrevistado e, ao mesmo tempo homenageado, uma das montanhas do nosso tempo: Ariano Suassuna. Imperdível!
A edição ainda traz o prosseguimento do ensaio de Hildeberto Barbosa Filho sobre as relações do escritor contemporâneo com o regionalismo; um texto de João Batista de Brito sobre o filme “Testemunha de acusação”, do ótimo Billy Wilder; a coluna Cybercultura, do  antenadíssimo Edson Cruz e muitíssimo mais.

Inóspita Claridade


Eu faço versos por viver na poesia
todo universo do real e do abstrato,
feito um menino que contempla a fantasia
enquanto bárbaros renegam seu retrato.

Eu faço versos porque vejo a claridade
do novo tempo que está prestes a nascer,
quando irmanados e distante a falsidade
a humanidade poderá se conhecer.

Verá sua face no sorriso da criança,
em cada gesto de modéstia ou de virtude:
no seu semblante verá toda plenitude.

Verá que a luz se faz presente e a esperança,
palavra viva, vem somar-se à liberdade,
reconduzida ao seu lugar, junto à verdade. 


Gustavo Felicíssimo

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O centenário de morte de Tolstói


O centenário de morte de Liev Tolstói (1828- 1910) tem mobilizado o mundo em 2010. Jay Parini e Rubens Figueiredo, trabalhando na reconstituição da vida e da obra do rormidável escritor russo, autor, por exemplo, de Guerra e Paz (Cosac & Naif), concluíram que Tolstói não foi aquele escritor que os biógrafos chamam de "doutrinário". Foi, sim, um reformista que, por condenar o materialismo, os governantes e a Igreja Ortodoxa Russa, sofreu a censura czarista e do clero.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pitada de Pitacos do Carlos Verçosa



Pitada de pitacos
para a receita de Gustavo Felicissimo:“Dendê no haikai – Aspectos do Haikai na Bahia”, tese em andamento aumentativo
 [Tomo I]

Gustavo, meu irmão:

    Foi muito bacana o contato que tivemos na festa de lançamento do seu livro “Silêncios” (que me surpreendeu pela bela edição e alta qualidade do acabamento gráfico oferecido pela itabunense Via Litterarum).
    [Alegria em dobro: pelo seu livro e pela boa surpresa que foi a estreia na poesia impressa (“Flores do ocaso”) do nosso amigo Bernardo Linhares, sábado último, lá no sebo Praia dos Livros.]
    [Pena que você não pudesse ficar mais um dia em Salvador para jogarmos conversa fora (molhando as palavras, of course) a respeito de poesia e, principalmente, sobre haikai.]
    Estou contente com sua decisão de pesquisar e documentar os haikaistas baianos em tese de graduação e coloco-me à sua disposição para trocarmos ideias, figurinhas e debatermos este assunto sempre que for possível.
    Conforme você me solicitou, passo adiante alguns apontamentos e observações a respeito do tema, listando alguns dos haikaistas baianos (nascidos na Bahia) & ‘baianos’ (por opção, como nós) para colaborar no desenvolvimento da sua tese “Dendê no Haikai – Aspectos do haikai na Bahia”. [Além de algumas informações complementares importantes para o melhor entendimento da baianização do haikai.]

São apontamentos, informações catadas aqui e ali e excertos comentados da primeira edição (sendo revista) do meu livro  “Oku – Viajando com Bashô” (1ª edição, 1995), que passo a você para melhor aproveitamento.
Sobre aquela 1ª edição de “Oku”: devo dizer que ela me proporcionou grandes alegrias, desde o recebimento do Prêmio Cecília Meireles de Melhor obra de Antologia, Ensaio, Pesquisa e Tradução de Poesia de 1996 até as manifestações encorajadoras de escritores, críticos, jornalistas e intelectuais brasileiros, haikaistas ou não, que muito me sensibilizaram.
    [Inclusive porque várias dessas pessoas são da minha muita admiração desde os tempos do gumex nos cabelos longos.

E parece-me que o cunho didático-simplificado que tentei dar à obra tem alcançado resultados razoáveis no sentido de incentivar mais e novas viagens pela estrada haikai da poesia. O que, cá entre nós, é ótimo.]
[Hoje sinto necessidade de ampliar aquela primeira edição e atualizá-la, até porque ela foi escrita antes das facilidades da internet, verdadeiro país das maravilhas para pesquisa e descobertas para as alices anacrônicas como as da nossa geração.
    O melhor de tudo é que a internet possibilita uma comunicação ágil, como esta, agora, em que estou simplesmente digitando e enviando-lhe este texto via e-mail. Vapt vupt. Simples assim.]
    Acredito ainda que, colaborando para exposição destes apontamentos no seu blog Sopa de Poesia, conforme você me disponibilizou, creio que eles poderão ser úteis também para os seus leitores internautas, que poderão enriquecê-los com mais e novas informações, contribuindo sobremaneira para a divulgação do haikai.

    Tomo a liberdade de lhe encaminhar, também, este logotítulo, com o qual assinei meus haikais por bom tempo em A Tarde (em caderno literário editado por Tasso Franco), Tribuna da Bahia (em caderno editado por Raimundo Lima) e outras publicações.
Este logotítulo foi desenhado pelo diretor de arte Adalberto Vasconcelos para a capa do meu primeiro livro de haikais, “Sashimi” (1987, Edições Espaço Bleff, de legendária e saudosa memória, dos poetas Aninha Franco e Claudius Portugal).

    [A propósito do plural de haikai, do jeito que escrevo, haikais: você bem sabe que deveríamos escrever em português como o faz o japonês, assim mesmo, haikai, no singular (que lá, em qualquer uma das quatro formas escritas – nas ideogramáticas hiragana, katakana e kanji e até mesmo na escrita em letras romanas, roomaji – é singular e plural ao mesmo tempo, sendo diferenciado conforme o sentido da frase), daí que o correto seria mesmo os haikai.]
[Mas, como diziam os antigos, o uso do cachimbo faz a boca torta, pessoalmente, prefiro sempre a imperfeição dessa nossa mania de escrever como a gente fala e que faz a riqueza da nossa língua e nossa gramatiquinha (como dizia Mário de Andrade). Daí, a opção por haikais.]
Voltando ao logotítulo: ele servirá para identificar minhas colaborações no seu blog, conforme combinamos (um haikai a cada semana, após esta primeira colaboração).
E tome-lhe Control C / Control V, também, de várias ilustrações e fotos que pesquei, aqui e ali para amenizar a aridez deste texto. Pirataria internauta.
    [A respeito dessas ilustrações: destaco aqui, pelo menos, duas delas. A de abertura do próximo tomo, por exemplo, que eu acho muito boa.

Ela conta com o fino traço do Flávio Luiz e foi publicada há uns dez anos numa reportagem assinada pela jornalista Cyntia Nogueira, no Correio da Bahia.
[Gostei tanto que ainda vou pedir a ele licença para usar como capa de um livro meu de haikais (“Baixou Bashô”) anunciado desde os anos 1980, mas ainda não publicado.]
Flavinho traduz, nos traços rápidos – mas delicados – do seu cartum, a presença do haikai na Bahia, com o poeta samurai descendo a ladeira do Pelô entre emblemáticas folhas de chá (isso aí: Baixou Bashô no Pelô… provavelmente ao som do Olodum tocando taikô, aquele bumbão japonês).

Também devidamente pirateada, uma outra ilustração – com a qual você vai se deparar em tomo a seguir – é a que meu bom amigo mineirinho Cau Gomez, hoje oficialmente ‘cidadão baiano’ e o mais premiado dos nossos ilustres ilustradores, fez sobre outro insigne cidadão baiano, Afrânio Peixoto. É muito boa.]
Ainda com a sua licença – e a fim de possibilitar que o leque de contribuições para a sua tese de mestrado se amplie – estou encaminhando este e-mail também para as pessoas que forem citadas no texto e alguns praticantes e admiradores do haikai – para as necessárias críticas, correções, freios de arrumação e novas contribuições.
Ao final de cada tomo, encerro com o box “Haikai” prometido e que, neste primeiro momento, segue acompanhado desta míssil-missiva via e-mail.
   Passo, então, para sua apreciação, diversos apontamentos coligidos aqui e ali para colaborarem com a sua tese Dendê no haikai – Aspectos do haikai na Bahia.
Vamos em frente [que atrás vem gente, muita gente], nessa longa estrada do haikai que passou e que passa pela Bahia…

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

ATÉ SEMPRE, OLIVENÇA!


Cercado de água e silêncio
caminho na direção de Olivença
como se fosse ainda criança.

O céu, um afresco de Rafael,
não mostra onde começa ou finda o azul:
se no mar ou no firmamento.

Resvalo no vento e no sal,
na sombra de um pássaro passando,
na coloração do coqueiral.

Junto às ondas e seminuas,
sereias se fazem de estrelas,
dançam na finura das areias.

Reluto ao ter que partir
embora meus olhos alumbrados digam:
ATÉ SEMPRE, OLIVENÇA!

*esse poema faz parte do inédito Cantata para Ilhéus, uma obra que almejo ver publicada brevemente.