quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Da assessoria de imprensa de Oswaldo Montenegro


A respeito da publicação da nota na coluna de Ancelmo Goes (O Globo - 03/11/10) afirmando que Oswaldo Montenegro teria plagiado Ferreira Gullar, segue, abaixo, e-mail da editora deste último, Editora José Olympio, com as datas das publicações do poema "Traduzir-se".
Com isso, deixamos claro, e em caráter oficial, que "Metade", de Oswaldo Montenegro, não é plágio do "Traduzir-se", de Ferreira Gullar, pois o poema de Gullar foi publicado pela primeira vez em 1980 no livro Vertigens do Dia, portanto cinco anos após a publicação do "Metade", de Montenegro.

Esperamos, assim, esclarecer em definitivo essa desagradável e constrangedora confusão.

Att,
Kamila Pistori
Assessoria de Imprensa - Oswaldo Montenegro

***

Olá, Kamila.
Fizemos a pesquisa e a 1ª edição de Na vertigem do dia, foi publicada em 1980, pela Civilização Brasileira. A 1ª edição de Toda poesia, também foi publicada pela Civilização Brasileira, em 1980. Na vertigem do dia faz parte de Toda poesia a partir de 1987, já pela José Olympio.

Espero ter ajudado.

Cordialmente,
Soraya Araujo
Editora José Olympio

Ferreira Gullar X Oswaldo Montenegro

O jornalista Ancelmo Góis, em O Globo do último dia 03, levanta uma questão sobre plágio que é muito interessante e relativamente pouco conhecida. O entrevero se dá entre Ferreira Gullar e Oswaldo Montenegro. Segundo Ancelmo, Oswaldo Montenegro rebate acusação de Ferreira Gullar, de que a letra de sua música “Metade” é um plágio de “Traduzir-se”, poema que ficou nacionalmente conhecido após ser musicado por Fagner. “Esta confusão acontece há tempos. As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana”, diz Montenegro. Gullar, como se sabe, não pensa assim.
Abaixo, poema e letra da música. Que acha o leitor?

Traduzir-se
Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?



Metade
Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.


Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.


Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.


E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Cinema e poesia nas terras de Adonias Filho

Com apoio do Minc, o Cineclube Afai, de Itajuípe, nesta sexta-feira e sábado apresenta a Mostra Especial Edgard Navarro, no Casarão da Praça, onde residiu o incomparável Adonias Filho. Na programação, a filmografia completa do autor de "Eu me Lembro", obra autobiográfica que assisti algumas vezes e recomendo.

Para Navarro, que é baiano de Salvador, fazer cinema “é algo quase religioso, uma necessidade visceral de sobrevivência”. Nascido em 1949, iniciou no cinema em 1976, com o curta “Alice no país das mil novilhas”, realizado no formato super-8, com o qual faz mais quatro filmes até 1981. Valendo-se da paródia explicitada nos títulos de algumas obras, os filmes dessa época caracterizam-se pela irreverência e por um humor iconoclasta, cáustico e provocativo.

No momento Navarro está finalizando o seu segundo longa, “O Homem Que Não Dormia”, gravado na cidade de Igatu, interior do estado da Bahia. E o Canal Brasil prepara um filme sobre sua vida e obra com direção de André Luiz Oliveira, diretor de "Meteorango Kid".

A organização do evento também está preparando um sarau que acontecerá no sábado, às 16 horas, do qual participarei lançando Silêncios e fazendo parte de um bate-papo com Rita Santana e George Pellegrini.

Veja a programação completa:

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Chico Buarque leva o Prêmio Portugal Telecom

Chico Buarque ganhou seu segundo prêmio literário em menos de uma semana. E, mais uma vez, foi recebê-lo. “Leite derramado” foi escolhido pelo júri como o melhor livro em língua portuguesa lançado em 2009. Nesta segunda-feira (8), durante o anúncio dos vencedores em São Paulo, ele disse que mesmo 20 anos depois de ter lançado seu primeiro livro, e com três dos quatro premiados, muitos ainda o consideram amador. Para ele, isso é natural. “As pessoas, muitas vezes, leem um livro de ficção sem dissociar o narrador da pessoa pública. Tem essa coisa que contamina a leitura e fica uma certa prevenção contra o escritor que não é escritor em tempo integral porque ele faz isso como um hobby”, comentou. Rodrigo Lacerda, autor de “Outra vida”, foi o segundo colocado, e Armando Freitas Filho, com “Lar”, ficou em terceiro.

Fonte:
PublishNews - 09/11/2010

Uma postagem puxa outra

Agora o poeta e blogueiro Henrique Pimenta, de Campo Grande (MS), me envia mensagem mostrando um seu haikai escrito há algum tempo com o mesmo motivo:

Os pássaros sabem
de cor, ou eles inventam
essa partitura?

Enfim, são poetas e músicos de lugares e tempos distintos inspirados pelo mesmo tema, ou seria partitura?

Blog do Henrique Pimenta:

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pássaros nos fios inspiram haikai e música


O amigo e mestre Carlos Verçosa, comprometido e juramentado (em mesa de bar) a colaborar com este blog uma vez por semana, me envia o vídeo abaixo se dizendo desconfiando de que eu gostaria dele. Ele também adianta que o haikaísta Oldegar Vieira havia se antecipado em pelo menos 70 anos ao músico, cunhando o seguinte haikai:

Pentagrama vivo:
cantam passarinhos
nos fios telegráficos
      
Este haikai foi publicado no livro "Folhas de Chá" (1940). Oldegar Vieira viria refazê-lo na segunda edição, 36 anos depois:
      
Semifusas, fusas...
Andorinhas eletrônicas
nas pautas dos fios

Assistam ao vídeo

Henrique Wagner leva o Prêmio Walter da Silveira de Crítica Cinematográfica

Respeitado por escritores e dramaturgos por ser um crítico lúcido, embora sem papas na língua, o grande polemista Henrique Wagner abocanha agora o 1º lugar no Prêmio Walter da Silveira de Crítica Cinematográfica. Causou-me espanto (mas nem tanto) o silêncio da imprensa baiana com o fato.

Vamos em frente. O tempo não manda recados, mas é duro com a mediocridade reinante.

Eis o link dos textos:

sábado, 6 de novembro de 2010

Está de volta o Rock & Poesia

Na canção popular, a história da transformação da letra em um item tão importante quanto a própria música tem origem no blues, entretanto, coube ao bastardo rock’n roll transformá-la em uma arte independente, quase autônoma e digna de estudo comparativo e apreciação.
Essa é a onda do Rock & Poesia 2 ao apresentar bandas com letras altamente poéticas e poetas com o rock na veia. Essa é a tônica e a essência do projeto concebido por mim e pelo meu amigo, o músico Elielton Cabeça. Dessa vez serão seis semanas consecutivas, contra quatro da primeira edição.
O intuito do Rock & Poesia será sempre o de valorizar a obra de poetas e bandas locais, procurando sensibilizar a platéia para a importância que essas linguagens artísticas possuem dentro do contexto histórico da cultura local, ao mesmo tempo em que incentiva a relação do público para com os artistas convidados.
A estreia do Rock & Poesia 2 é hoje, sábado, dia 06 de novembro, em Ilhéus, na Casa dos Artistas, oportunidade em que me apresentarei com a banda itabunense Mendigos Blues. No set list da banda canções autorais bastante conhecidas do público local, como: “Jeep” e “Subterrâneo do Blues”, bem como alguns covers de Cazuza, Lobão e Mutantes. Da minha parte o destaque vai para a inédita “Elegia para Rimbaud”, uma longa composição, que venho escrevendo a três anos, inspirada na vida e na obra do poeta francês Arthur Rimbaud. Esperamos todos lá.

Veja a programação completa

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Virada Cultural de Ilhéus

A Virada Cultural, realizada com grande sucesso nas principais capitais do País, reunindo artistas de diferentes segmentos, serve de referência para Ilhéus, que hoje, 04 de novembro, a partir das 18 horas, em frente ao Teatro Municipal, até as 22 horas de amanhã, 05, Dia Nacional da Cultura, realizará também a sua. Serão 30 horas de atividades ininterruptas de atividades culturais.

Na cidade, a programação terá a participação de cantores e bandas de estilos variados. Do rock à MPB, passando pelos grupos afros, reggae e rap. Haverá também visitas abertas às casas de cultura, galerias e museus, além de atividades literárias, teatrais e cinema nacional.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Meu amigo Ildásio - João Ubaldo Ribeiro lembra Ildásio Tavares

Depois dos quarenta, mais ou menos, a gente dificilmente faz amigos. Faz companheiros, aliados, cúmplices, sócios, correligionários, o que lá for, mas amigos mesmo, desses que conhecem a alma da gente, desses com quem às vezes a gente conversa sem precisar falar, desses que, mesmo sem nos dar razão, ficam do nosso lado, desses que carregam com eles lances fundamentais de nossa história, amigos que se abraçam com calor depois de uma longa ausência, amigos com quem se quer partilhar todas as alegrias, nossas e deles, amigos de raiz, esses amigos se fazem ainda cedo. A vida afasta alguns, talvez muitos, mas os que permanecem são suficientes para provar o valor supremo da amizade, o sentimento mais nobre que podemos abrigar.

Quanto mais velhos ficamos, menos desses amigos fazemos e mais nos reaproximamos dos antigos. Com a idade se vão as ilusões que nos arrebatavam na juventude, juntam-se os desenganos, brota um certo cinismo tido na conta de sabedoria, cresce talvez o ceticismo quanto à natureza humana. E fazer uma nova amizade dá muito trabalho, não é uma empresa simples, enquanto os dois candidatos a amigos passam um ao outro o seu perfil e a biografia que querem ter, se familiarizam com a personalidade de cada um, decidem sobre concessões mútuas e, enfim, se entregam a um período de sintonia que frequentemente não se completa, dá mesmo muito trabalho.

Também quanto mais velhos ficamos, vamos compreendendo com maior vividez como os amigos são importantes, muito mais importantes do que imaginávamos antes. Os amigos compõem a nossa identidade, quem entende nossos amigos nos entende um pouco, quem conhece nossos amigos nos conhece um pouco. Somos vistos e avaliados não apenas pelo que temos de individual, mas também pelo que nossos amigos nos acrescentam, até porque aprendemos com eles, e eles conosco. E, a par disso, como é bom contar com um interlocutor que nos ouve e quer genuinamente o nosso bem, que desperta em nós o que de melhor temos, que nos traz lembranças alegres e cuja convivência nos deixa um pouco mais em paz com a vida, e nos torna a existência menos solitária. Como, por tudo isso, são raros e preciosos os amigos, mais raros e mais preciosos a cada instante.

Quando morre um amigo assim, morremos também um pouco. Por ser lugar-comum, não deixa de ser verdade. Acabo de morrer um pouco, acabo de morrer bastante, porque morreu meu amigo Ildásio Marques Tavares, de quem jamais vou deixar de sentir grande saudade e cuja memória procurarei sempre honrar. As amizades não se explicam, acontecem espontaneamente e amadurecem com o convívio. Minha amizade com Ildásio veio de afinidades descobertas desde a adolescência e se fortaleceu ao longo dos anos, culminando em compadragem, porque ele me convidou para batizar seu filho Gil Vicente. Lemos juntos, escrevemos juntos, fizemos farras juntos, viramos noites estudando juntos, aprontamos happenings juntos, juntos reformamos o Brasil e o mundo. Sua memória certeira guardava praticamente todos os momentos dessa convivência — e tudo agora lá se foi, lá me fui eu também um pouco, a recuperação é impossível.

Perda pessoal muita dura de enfrentar, é difícil estimar sua extensão, o vazio que vai deixar. Só sei que uma grande referência minha desaparece, uma das mais importantes, desde que Glauber morreu. Ildásio não tinha nada a ver com Glauber, mas com ambos eu podia aparecer de peito aberto, mostrar fraqueza, pedir palpite, conversar desguarnecido, abrir segredos. E ambos seguraram minha barra, quando enfrentei vicissitudes para as quais não estava preparado, me acudiram quando precisei de força. Até hoje não me habituei à ausência de Glauber e sei que não vou habituar-me à ausência de Ildásio, o mundo ficou desfalcado.

E a Bahia também ficou desfalcada. Ildásio era um intelectual superior, conhecedor íntimo do ofício das letras, de senso crítico aguçado e erudito. Talvez isso não se percebesse com facilidade, por trás de seu comportamento muitas vezes desabusado, sua poesia satírica (de magnífica qualidade e da qual nem amigos como eu escapavam), seus modos informais e irreverentes. Escritor de cultura sólida, ensaísta informado e sensível, poeta laureado, meu compadre Ildásio era, além disso, um homem bom, de belos sentimentos e apego a causas nobres. E, para mim, sobretudo um velho amigo de fé, um grande amigo, insubstituível amigo, querido amigo, saudoso amigo, que Deus o tenha em Sua glória.

Publicada: 03/11/2010