sábado, 9 de outubro de 2010

Haibun para Flora

A flor desprendida do galho é uma tentativa de voo, e cada voo é sempre maior que a sua distância. Há no ar, levado pelo vento, um jardim de flores múltiplas aprendendo a voar.


borboletas são flores
que afinal foram voar –
voa, minha flor!

-

uma flor pousou
na minha vida de poeta –
eu sorri pra ela.

Em: Silêncios, livro que lançaremos hoje em Salvador

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Gabo lançará novo livro no fim do mês

O escritor colombiano Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura, publicará em 29 de outubro seu novo livro, “Yo No Vengo a Decir un Discurso”, anunciou no México a editora Mondadori. O livro, primeiro do premiado escritor colombiano desde “Memórias de minhas putas tristes” (2004), inclui 22 discursos que foram escritos para serem lidos por ele mesmo diante de um público e que percorrem praticamente toda a sua vida, explicou a editora, afirmando que, na maioria, estes discursos não foram publicados.

Fonte:
Folha Online - 05/10/2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Nobel de Literatura, merecidamente, vai para Mario Vargas Llosa

A informação acabou de ser apresentada e faz jus à obra desse peruano combatente, candidato a presidência do seu país, perdendo para o facínora Fujimori por um número mínimo de votos, apesar do apoio político qualificado, ótimo programa de governo e sua infinita superioridade ao opositor.
Llosa é um daqueles escritores que denunciam em sua obra o fato de que a hierarquia de castas sociais e raciais está vigente ainda hoje na América Latina. Observo o fato sobretudo em duas de suas obras mais importantes, as novelas “Los cachorros” e “Los jefes”, caracterizadas pelo existencialismo, obras que dão nome próprio e inconfundível a um continente selado por multitudinárias vozes merecedoras da mesma honraria, como é o caso, por exemplo, de Ferreira Gullar.

Vale lembrar ainda que pela Objetiva, segunda-feira chegará às livrarias uma nova obra de Llosa. Trata-se de “Sabres & Utopias”, que reúne textos que tratam de política, América Latina e, é claro, literatura. É uma boa dica para quem quiser conhecer a fundo o seu pensamento. A obra, segundo a jornalista Laura Greenhalgh, do Estadão, reúne ensaios, artigos e documentos organizados pelo colombiano Carlos Granés, doutor em Antropologia Social e expert na obra de Vargas Llosa. Em cinco grandes capítulos, estão aglutinados textos de modo a percorrer o itinerário intelectual (e político) de Llosa, que anteriormente já havia sido agraciado com outros prêmios literários importantes, entre eles, o Cervantes e o Príncipe de Asturias, além de ser membro da Real Academia de Letras da Espanha.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Lançamento duplo em Salvador neste sábado

Eu e o poeta Bernardo Linhares teremos a honra de receber a todos que nos prestigiarem com sua presença. Após, às 21 horas, haverá um sarau de poesia erótica com diversos músicos e convidados. A noite promete!
clique na imagem para vê-la em tamanho maior

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dom Quixote no YouTube

A Real Academia Espanhola da Língua, em parceria com o YouTube, está convidando pessoas de todo o mundo a participarem da leitura coletiva do clássico 'Dom Quixote de La Mancha'. O romance foi dividido em mais de 2 mil trechos. Os interessados recebem um desses trechos (em espanhol) para ler, gravar e em seguida fazer upload no site de vídeos. Segundo a Academia, a intenção é divulgar tanto o livro quanto a língua espanhola, argumentando que o idioma não ocupa o espaço que merece na internet.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Obra polêmica na 29ª Bienal de São Paulo

A 29ª Bienal de São Paulo está ancorada na ideia de que é impossível separar a arte da política. Essa impossibilidade se expressa no fato de que a arte, por meios que lhes são próprios, é capaz de interromper as coordenadas sensoriais com que entendemos e habitamos o mundo, inserindo nele temas e atitudes que ali não cabiam, tornando-o, assim, diferente e mais largo.
O trabalho abaixo, Autorretrato matando Ahmadinejad, da série inimigos, é do artista plástico pernambucano Gil Vicente e faz parte da 29ª Bienal de São Paulo, que vai até 12 de dezembro. 
Há outro trabalho igualmente bom e polêmico do autor, intitulado Lula Estrangulado, que se não estou enganado a OAB paulista, por meio da justiça, conseguiu proibir sua exposição. Como não temos nada com isso...
Site do artista: http://www.gilvicente.com.br/
Site da Bienal: http://www.fbsp.org.br/index.html

Fórum das Letras debate a cultura africana

A influência africana na cultura brasileira, sobretudo em Ouro Preto, cidade essencialmente erguida pelas mãos dos escravos, será a marca da sexta edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, que acontece entre os dias 10 e 15 de novembro, com participação de escritores de países de língua portuguesa. Entre os principais destaques da programação, estão os moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance; e os angolanos Pepetela, Ondjaki, Carmo Neto, João de Melo, Adriano Botelho e João Maimona, entre outros. De Portugal, estão confirmados Luandino Vieira, Inocência da Mata e Margarida Paredes. Fechando a aliança lusófona, participarão do encontro os brasileiros Ferreira Gullar, Alberto Mussa, Nei Lopes, Flávio Carneiro, Marina Colasanti, Laurentino Gomes, Décio Pignatari e outros.

domingo, 3 de outubro de 2010

Diversos Afins - Sugestão de Leitura

Está no ar a nova edição da Diversos Afins. Nela, uma entrevista onde falo um pouco sobre Silêncios, meu livro de estreia e outros temas.


Ao amigos e leitores de Salvador: Silêncios será lançado em Salvador no próximo sábado (09), às 19 horas, na Praia dos Livros, Porto da Barra, ao lado do Instituto Mauá. Na oportunidade também estará sendo lançado o livro As Flores do Ocaso, de Bernardo Linhares.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jardim de Haijin - Novo livro de Alice Ruiz

Texto de Luiz Tatit
Os primeiros textos de Alice Ruiz que me chamaram a atenção já eram haikais. Eram traduções do poeta japonês Issa Kobayashi, mas acima de tudo soluções que me pareciam mais sintéticas que as originais. Por exemplo:



vaga aqui
lume ali
o vaga-lume


Isso foi há mais de duas décadas. De lá para cá conheci melhor a pessoa, a letrista e a poeta incansável que extrai poesia até da página em branco:


página
que não dá poema
dá pena


Alice vê o haikai como um exercício fundamental para que o poeta saia de si e se concentre no mundo. Menos reflexão e mais apreensão. Menos sentimento e mais observação. O decurso do tempo cede lugar à percepção instantânea e palpável, como se pode ver aqui mesmo:


paineira na chegada
ainda mais florida
no dia da saída


Neste jardim de Alice as palavras precisam se despojar dos sentidos acumulados ao longo da História para refazer a experiência humana a partir de um olhar inédito. Surge então o diálogo direto com as crianças, seres que não fazem o menor esforço para dispor desse mesmo olhar.
E nasce uma espécie de gramática do jardim. Flores, folhas e árvores são substantivos. Vento é verbo. Chuva também. São eles que mobilizam a cena:

vento forte
sementes caem
folhas voam

Toda criança capta essas funções mesmo que não conheça seus nomes. Algumas vezes Alice expira para depois (se) inspirar. Primeiro, esvazia a imagem, reduz sua extensão:


noite estrelada
atrás do portão
última flor


Em seguida, recupera-as com toda plenitude e abrangência:

manhã de primavera
para todas as flores
dia de estreia


Retira para depois adicionar. Forja a debilidade para mostrar o vigor. É também dessa respiração que vive a poesia.
A matéria-prima deste livro não é a natureza. Tal palavra nem aparece nos poemas aqui transcritos. Sua vastidão impessoal seria abstrata demais para caber no haikai. O ponto de partida é o jardim, uma composição de elementos naturais emoldurada pela escrita da artista em perfeita sintonia com as ilustrações de Fê.

Bem simples assim. Jardim de haikaísta. Jardim de Haijin.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Monólogo de Salomé

(a cabeça de João Batista na bandeja)
The apparition, Gustave Moreau
       I

Enfim, olhaste para mim,
para essas pálpebras douradas
onde a luxúria se instalou
com suas vestes perfumadas;

para esses olhos perturbados
que se queriam devassados;

para essa boca onde o tumulto
se fez mistério e sofrimento
quando esperava por seu vulto:

deixo-te, aqui, meu doce beijo,
sobre a bandeja, o meu desejo.

        II

Vês, este é o corpo cobiçado,
semi despido, onde devias
ter repousado mansamente
e simplesmente gozarias;

uma obra prima, uma pintura,
assim meu corpo se afigura;

feito de pó, de sangue e luz,
a espada louca não lhe pesa
ou fere a cona se o seduz:

ele é meu para enlouquecer,
ferir, matar e dar prazer.

(Gustavo Felicíssimo)

Nota: Salomé é uma das personagens bíblicas mais pérfidas. Poucas mereceram por parte de escritores, dramaturgos, artistas plásticos e compositores a mesma atenção dada à filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
Gustavo Moreau, por exemplo, entre esboços, desenhos e telas, deu vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões.