segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fórum das Letras debate a cultura africana

A influência africana na cultura brasileira, sobretudo em Ouro Preto, cidade essencialmente erguida pelas mãos dos escravos, será a marca da sexta edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, que acontece entre os dias 10 e 15 de novembro, com participação de escritores de países de língua portuguesa. Entre os principais destaques da programação, estão os moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance; e os angolanos Pepetela, Ondjaki, Carmo Neto, João de Melo, Adriano Botelho e João Maimona, entre outros. De Portugal, estão confirmados Luandino Vieira, Inocência da Mata e Margarida Paredes. Fechando a aliança lusófona, participarão do encontro os brasileiros Ferreira Gullar, Alberto Mussa, Nei Lopes, Flávio Carneiro, Marina Colasanti, Laurentino Gomes, Décio Pignatari e outros.

domingo, 3 de outubro de 2010

Diversos Afins - Sugestão de Leitura

Está no ar a nova edição da Diversos Afins. Nela, uma entrevista onde falo um pouco sobre Silêncios, meu livro de estreia e outros temas.


Ao amigos e leitores de Salvador: Silêncios será lançado em Salvador no próximo sábado (09), às 19 horas, na Praia dos Livros, Porto da Barra, ao lado do Instituto Mauá. Na oportunidade também estará sendo lançado o livro As Flores do Ocaso, de Bernardo Linhares.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jardim de Haijin - Novo livro de Alice Ruiz

Texto de Luiz Tatit
Os primeiros textos de Alice Ruiz que me chamaram a atenção já eram haikais. Eram traduções do poeta japonês Issa Kobayashi, mas acima de tudo soluções que me pareciam mais sintéticas que as originais. Por exemplo:



vaga aqui
lume ali
o vaga-lume


Isso foi há mais de duas décadas. De lá para cá conheci melhor a pessoa, a letrista e a poeta incansável que extrai poesia até da página em branco:


página
que não dá poema
dá pena


Alice vê o haikai como um exercício fundamental para que o poeta saia de si e se concentre no mundo. Menos reflexão e mais apreensão. Menos sentimento e mais observação. O decurso do tempo cede lugar à percepção instantânea e palpável, como se pode ver aqui mesmo:


paineira na chegada
ainda mais florida
no dia da saída


Neste jardim de Alice as palavras precisam se despojar dos sentidos acumulados ao longo da História para refazer a experiência humana a partir de um olhar inédito. Surge então o diálogo direto com as crianças, seres que não fazem o menor esforço para dispor desse mesmo olhar.
E nasce uma espécie de gramática do jardim. Flores, folhas e árvores são substantivos. Vento é verbo. Chuva também. São eles que mobilizam a cena:

vento forte
sementes caem
folhas voam

Toda criança capta essas funções mesmo que não conheça seus nomes. Algumas vezes Alice expira para depois (se) inspirar. Primeiro, esvazia a imagem, reduz sua extensão:


noite estrelada
atrás do portão
última flor


Em seguida, recupera-as com toda plenitude e abrangência:

manhã de primavera
para todas as flores
dia de estreia


Retira para depois adicionar. Forja a debilidade para mostrar o vigor. É também dessa respiração que vive a poesia.
A matéria-prima deste livro não é a natureza. Tal palavra nem aparece nos poemas aqui transcritos. Sua vastidão impessoal seria abstrata demais para caber no haikai. O ponto de partida é o jardim, uma composição de elementos naturais emoldurada pela escrita da artista em perfeita sintonia com as ilustrações de Fê.

Bem simples assim. Jardim de haikaísta. Jardim de Haijin.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Monólogo de Salomé

(a cabeça de João Batista na bandeja)
The apparition, Gustave Moreau
       I

Enfim, olhaste para mim,
para essas pálpebras douradas
onde a luxúria se instalou
com suas vestes perfumadas;

para esses olhos perturbados
que se queriam devassados;

para essa boca onde o tumulto
se fez mistério e sofrimento
quando esperava por seu vulto:

deixo-te, aqui, meu doce beijo,
sobre a bandeja, o meu desejo.

        II

Vês, este é o corpo cobiçado,
semi despido, onde devias
ter repousado mansamente
e simplesmente gozarias;

uma obra prima, uma pintura,
assim meu corpo se afigura;

feito de pó, de sangue e luz,
a espada louca não lhe pesa
ou fere a cona se o seduz:

ele é meu para enlouquecer,
ferir, matar e dar prazer.

(Gustavo Felicíssimo)

Nota: Salomé é uma das personagens bíblicas mais pérfidas. Poucas mereceram por parte de escritores, dramaturgos, artistas plásticos e compositores a mesma atenção dada à filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
Gustavo Moreau, por exemplo, entre esboços, desenhos e telas, deu vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A revista Corsário está de volta

Comemora seu 5º aniversário preparando o primeiro número em papel, prometendo-o para dezembro.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Morte do Poeta

Talvez eu morra de tanto existir,
talvez um verso me socorra.

E quando passar, é certo,
não seja como um ser abjeto.

Quando eu morrer, à beira mar,
que seja ouvindo o bramido das ondas.

Assim, entre os versos de uma vida
alguma verdade quem sabe se afira.

Quem sabe um poema perdure
e perfure a pele do tempo.

Quem sabe na hora exata o poema
perfeito que não poderei anotar.

Talvez seja um haikai divino,
talvez um soneto fescenino.

O vento deixando no tempo
as palavras trazidas do mar.

Se buscando paz encontrei paisagens,
deixarei uma prece na última tarde.

E montado no dorso do ocaso
levarei, companheira, a saudade.

À filha que tive e muito tenho amado
ficarão os passarinhos nos telhados.

E à mulher que me foi destinada,
um concerto de orquídeas no jardim.

Ficarão as cinzas do que fui
junto aos coqueiros de Olivença.

E junto aos sonhos irrealizados,
aforismos à próxima existência.

Sem que pelas palavras seja revelada,
de mim apenas a natureza restará.

Lembrarão da minha voz grave
contra a sujeira do nosso tempo.

Lembrarão dos passos embriagados
atravessando noites enluaradas.

Se for durante a primavera
terei ouvido a Valsa das Flores.

Terei visto pela última vez
um beija-flor na minha varanda.

Mas se for ao verão, que pena;
não mais as meninas douradas de sol.

Alguns amigos ficarão
como sementes que plantei.

A face leve, embora vivida,
dirá sobre o tempo decorrido.

Em forma etérea olharei meu corpo
confortavelmente estendido na areia.

Direi para mim e para os céus:
como foi bom ter vivido em Ilhéus!

(Gustavo Felicíssimo)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quintas Culturais na UESC

Hoje, a partir das 18:30h, participo da abertura o Projeto Quintas Culturais, na UESC. Estarei por lá a convite do meu amigo André Rosa, Coordenador do Cedoc, recitando alguns poemas ao lado da Manzuá, banda que vem trabalhando com minha obra e abrindo espaço para que atue também como letrista.

No link, uma parceria nossa premiada no Festival Firmino Rocha: http://sopadepoesia.blogspot.com/2010/08/atacando-de-letrista.html

clique na imagem para vê-la em tamanho maior

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Máquina de Escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende ese rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas,tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas eclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

(Giuseppe Ghiaroni)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre os poemas de Dante a Beatriz

Ainda hoje, na cripta onde jaz
Aquela que ele não pode fazer sua
Por mais que a seguisse pela rua
Uma emoção forte em seu nome nos traz.

Pois ele cuidou de nos mantê-la na memória
Ao dedicar-lhe verso tão sublime
E não pode haver quem não se anime
A acreditar inteira em sua história.

Ah, que mau costume ele inaugurou então
Ao cobrir de louvor arrebatado
O que havia apenas visto e não provado!

Desde que versejou a uma simples visão
Tudo de aparência bela e casta, a qualquer ensejo
Cruzando uma praça, tornou-se objeto de desejo.

(Bertold Brecht)

Nota: Ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia: Dante e Beatriz veem Deus como um ponto supremo de luz cercado por anjos no "Último Céu".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Confissão de um velho boêmio

Toda vida devia ser
uma festa sem fim, velório
festivo da morte do tempo,
fogueira de azuis, crematório

ou, mesmo, hospital de lembranças
dos que nunca foram crianças,

e pularam toda a pureza,
ao invés de pular a corda,
dançar nas horas da beleza;

dos que hoje morrem sem saber
que festa acabam de perder.

(Alberto da Cunha Melo)