quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quintas Culturais na UESC

Hoje, a partir das 18:30h, participo da abertura o Projeto Quintas Culturais, na UESC. Estarei por lá a convite do meu amigo André Rosa, Coordenador do Cedoc, recitando alguns poemas ao lado da Manzuá, banda que vem trabalhando com minha obra e abrindo espaço para que atue também como letrista.

No link, uma parceria nossa premiada no Festival Firmino Rocha: http://sopadepoesia.blogspot.com/2010/08/atacando-de-letrista.html

clique na imagem para vê-la em tamanho maior

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Máquina de Escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende ese rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas,tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas eclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

(Giuseppe Ghiaroni)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre os poemas de Dante a Beatriz

Ainda hoje, na cripta onde jaz
Aquela que ele não pode fazer sua
Por mais que a seguisse pela rua
Uma emoção forte em seu nome nos traz.

Pois ele cuidou de nos mantê-la na memória
Ao dedicar-lhe verso tão sublime
E não pode haver quem não se anime
A acreditar inteira em sua história.

Ah, que mau costume ele inaugurou então
Ao cobrir de louvor arrebatado
O que havia apenas visto e não provado!

Desde que versejou a uma simples visão
Tudo de aparência bela e casta, a qualquer ensejo
Cruzando uma praça, tornou-se objeto de desejo.

(Bertold Brecht)

Nota: Ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia: Dante e Beatriz veem Deus como um ponto supremo de luz cercado por anjos no "Último Céu".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Confissão de um velho boêmio

Toda vida devia ser
uma festa sem fim, velório
festivo da morte do tempo,
fogueira de azuis, crematório

ou, mesmo, hospital de lembranças
dos que nunca foram crianças,

e pularam toda a pureza,
ao invés de pular a corda,
dançar nas horas da beleza;

dos que hoje morrem sem saber
que festa acabam de perder.

(Alberto da Cunha Melo)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

I Prêmio Litteris de Haikai

Se você é haikaísta, prepare- se. Neste concurso, cada participante poderá concorrer com até 6 (seis) poemas. As obras, informam os organizadores, deverão ser enviadas em língua portuguesa e as inscrições estarão abertas até o dia 30 de setembro.

Confira o regulamento:
www.litteris.com.br/concurso_haicai.htm

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A BIBLIOTECA DIGITAL MUNDIAL

Reúne mapas, textos, fotos, gravações e filmes de todos os tempos e explica em sete idiomas, incluindo o português, as jóias e relíquias culturais de todas as bibliotecas do planeta. Tem, sobretudo, caráter patrimonial.Entre os documentos mais antigos há alguns códices pré-colombianos, graças à contribuição do México, e os primeiros mapas da América, desenhados por Diego Gutiérrez para o rei de Espanha em 1562.
Os tesouros incluem o Hyakumanto Darani, um documento em japonês publicado no ano 764 e considerado o primeiro texto impresso da história; um relato dos astecas que constitui a primeira menção do Menino Jesus no Novo Mundo; trabalhos de cientistas árabes desvelando o mistério da álgebra; ossos utilizados como oráculos e esteiras chinesas; a Bíblia de Gutenberg; antigas fotos latino-americanas da Biblioteca Nacional do Brasil e a célebre Bíblia do Diabo, do século XIII, da Biblioteca Nacional da Suécia.

A BDM permite ao internauta orientar a sua busca por épocas, zonas geográficas, tipo de documento e instituição. O sistema propõe as explicações em sete idiomas e com um simples clique, podem-se passar as páginas de um livro, aproximar ou afastar os textos e movê-los em todos os sentidos. A excelente definição das imagens permite uma leitura cômoda e minuciosa.

Duas regiões do mundo estão particularmente bem representadas: América Latina e Médio Oriente. Isso deve-se à ativa participação da Biblioteca Nacional do Brasil, à biblioteca de Alexandria no Egito e à Universidade Rei Abdulá da Arábia Saudita.

Os seus responsáveis afirmam que a BDM está, sobretudo, destinada a investigadores, professores e alunos. Mas a importância que reveste esse site vai muito além da incitação ao estudo das novas gerações que vivem num mundo áudio-visual.

Vale a visita: www.wdl.org

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Silêncios - Breve comentário do Mestre Carlos Verçosa sobre nosso novo livro

A sopa de poesia de Gustavo Felicíssimo é nutritiva e variada. Deve ser tomada entre silêncios e como convém às sopas quentes, pelas beiradas.
Juntando ingredientes e condimentos da milenar cozinha poética japonesa às letrinhas de sua sopa, Gustavo mistura e manda: Pitadas haikai, folhas de cheiro tanka, raiz forte senryu, haikai encadeado picadinho e haibun ao molho. É soprar, tomar, devagar.
Seja na cuia profunda seja no prato raso, predomina o sabor haikai.
O leitor de paladar mais apurado poderá sentir numa ou noutra colherada o tempero tanka ou haibun. Há quem goste. Há quem não. Não se discute.
Sopa de poesia é assim mesmo: tem seus aromas e mistérios; segredos e truques de cozinheiro.
Assim, na sopa preparada por Gustavo: a receita permanece. É soprar, tomar, divagar.

Carlos Verçosa
Salvador, 10.01.2009
Obs: esse comentário consta na contra-capa de Silêncios

domingo, 12 de setembro de 2010

Silêncios - meu primeiro livro de poesia

Embora escreva poemas há algum tempo, somente agora, às vésperas de completar 40 anos, resolvo publicar em livro a minha produção, um projeto que resultará na edição de três compêndios distintos, os quais definem meu fazer literário.
SILÊNCIOS, uma obra imersa em formas oriundas do Japão e gestada durante os últimos dez anos, terá a função de ser o abre alas dessa série. Essa obra, organizada originalmente para atender a um edital do MEC (portanto, sem distribuição comercial), traz como posfácio o ensaio Flores de Cerejeira, no qual ouso traçar os principais aspectos do haikai no Brasil.
Além da maturidade do conteúdo, apontada por Carlos Verçosa, o que também me leva a publicar SILÊNCIOS é a possibilidade de trazer um fato novo para a poesia baiana: a publicação em livro de diversas formas da poesia japonesa, fato raro também no país.
Com uma belíssima capa e projeto gráfico muito feliz, SILÊNCIOS está previsto para ser lançado no início de outubro em Salvador; após em Ilhéus e em seguida em São Paulo e Marília (minha cidade natal). A tiragem será de apenas 500 exemplares. Quem tiver interesse, ao custo de 20,00 (incluindo a postagem), pode me escrever enviando o endereço postal para: gfpoeta@hotmail.com
No momento adequado o leitor aqui do blog receberá o número da conta corrente onde deverá fazer o depósito bancário.

Alguns haikais do livro

folhas ao vento
são como libélulas –
lume pro haikai

***

gatos no telhado –
a noite será de brigas
e muita desordem

***

segue seu instinto –
com leveza uma gaivota
vai vencendo o vento



SILÊNCIOS
Editora: Via Litterarum
Formato: 15 x 15 cm
Páginas: 92
ISBN: 978-85-98493-56-5
Valor: 20,00

Um haikai de Mario Benedetti

no carnaval
todos nos disfarçamos
do que somos

***

en carnaval
todos nos disfrazamos
de lo que somos

sábado, 11 de setembro de 2010

Um lindo poema de Rudyard Kipling com tradução de Guilherme de Almeida

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!