domingo, 12 de setembro de 2010

Silêncios - meu primeiro livro de poesia

Embora escreva poemas há algum tempo, somente agora, às vésperas de completar 40 anos, resolvo publicar em livro a minha produção, um projeto que resultará na edição de três compêndios distintos, os quais definem meu fazer literário.
SILÊNCIOS, uma obra imersa em formas oriundas do Japão e gestada durante os últimos dez anos, terá a função de ser o abre alas dessa série. Essa obra, organizada originalmente para atender a um edital do MEC (portanto, sem distribuição comercial), traz como posfácio o ensaio Flores de Cerejeira, no qual ouso traçar os principais aspectos do haikai no Brasil.
Além da maturidade do conteúdo, apontada por Carlos Verçosa, o que também me leva a publicar SILÊNCIOS é a possibilidade de trazer um fato novo para a poesia baiana: a publicação em livro de diversas formas da poesia japonesa, fato raro também no país.
Com uma belíssima capa e projeto gráfico muito feliz, SILÊNCIOS está previsto para ser lançado no início de outubro em Salvador; após em Ilhéus e em seguida em São Paulo e Marília (minha cidade natal). A tiragem será de apenas 500 exemplares. Quem tiver interesse, ao custo de 20,00 (incluindo a postagem), pode me escrever enviando o endereço postal para: gfpoeta@hotmail.com
No momento adequado o leitor aqui do blog receberá o número da conta corrente onde deverá fazer o depósito bancário.

Alguns haikais do livro

folhas ao vento
são como libélulas –
lume pro haikai

***

gatos no telhado –
a noite será de brigas
e muita desordem

***

segue seu instinto –
com leveza uma gaivota
vai vencendo o vento



SILÊNCIOS
Editora: Via Litterarum
Formato: 15 x 15 cm
Páginas: 92
ISBN: 978-85-98493-56-5
Valor: 20,00

Um haikai de Mario Benedetti

no carnaval
todos nos disfarçamos
do que somos

***

en carnaval
todos nos disfrazamos
de lo que somos

sábado, 11 de setembro de 2010

Um lindo poema de Rudyard Kipling com tradução de Guilherme de Almeida

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Encontro local do PROLER

Nesta quinta-feira, dia 09, às 18 horas, participo de um bate-papo entre escritores durante o VIII Encontro do PROLER, na UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus. Os outros convidados são Jorge Araújo (atualmente um dos mais prolíficos escritores e estudiosos da literatura brasileira) e Cyro de Mattos. A mediação será Samuel Mattos, Diretor do Departamento de Letras e Artes.

As atividades do PROLER estão abertas à comunidade interessada, não apenas a acadêmica. O tema deste ano é LEITURA: LETRAMENTOS, POLÍTICAS E PRÁTICAS CIDADÃS. Entre as atividades destaco os mini-cursos que estão sendo oferecidos nas tardes dos dias 09 e 10, cujos temas são: Charges: inferências na construção de sentidos, Machado e a cultura de massas, Leitura em sala de aula: linhas e entrelinhas, A intertextualidade em textos lobatianos, A carta de Caminha: leituras e imaginário, Leitura e Escrita de Cordel - exercício para um letramento em poesia, Círculo de leituras: interação nas práticas leitoras, Bibliotecas e formação de leitores: uma ação cultural, Letramento digital e TICs na formação de leitores, e por fim, Teatralizando o texto literário. Também merece destaque a apresentação dramatizada do poema “Iararana”, de Sosígenes Costa, que o ator José Delmo fará no dia 08, às 18 horas.

Confira a programação completa:
http://www.uesc.br/eventos/viiiencontroproler/index.php?item=conteudo_programacao.php

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sugestão de leitura

Belíssima conferência de Ildásio Tavares na Academia Brasileira de Letras sobre a poesia de Machado de Assis. Na plateia a presença de escritores como Carlos Heitor Cony, Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira e Lêdo Ivo.

Vale à pena:
http://www.machadodeassis.org.br/abl_minisites/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?UserActiveTemplate=machadodeassis&infoid=263&sid=37

domingo, 5 de setembro de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Maria da Conceição Paranhos

É natural, devido à qualidade da sua obra, exposição crítica e midiática recebida, que ao pensarmos em alguma voz feminina na poesia brasileira, nos lembremos logo de Cecilia Meirelles. Não é o que acontece comigo, pois antes penso em Hilda Hilst, Orides Fontela, Myriam Fraga e Maria da Conceição Paranhos, com quem aprendi muito em largas horas de estudos literários.
Mas o que se pode dizer sobre a obra de Maria da Conceição Paranhos, uma poeta que possui tão profundo entendimento da arte? Qualquer coisa será o mesmo que se valer de uma mola desgastada pelo tempo, pois Conceição é a essência da poesia em esmero, artesania, conhecimento, dedicação e paciência.
Meu primeiro contato com a sua obra foi o mais impactante. Seus primeiros poemas a chegar às minhas mãos foram os luxuriosos “Quatro Sonetos Cardinais”, uma pérola do erotismo em língua portuguesa, deles emergem metáforas e imagens tão bem elaboradas e consistentes quanto aquelas dos maiores cultores do gênero. Outras leituras vieram até me deparar com “Delírio do Ver”, escritos que correm trinta anos de poesia, sobre os quais Ildásio Tavares se manifestou dizendo que “poucas pessoas estarão fazendo poesia tão pacientemente construída, tão inteligentemente elaborada neste país de poemas em rascunho”. Não há como discordar.
Em janeiro de 2008, novamente, a poesia erótica de Conceição Paranhos volta a me arrebatar, desta vez através dos “Sonetos de uma Semana Perfeita”. São oito poemas inéditos a serem inseridos no livro que por enquanto traz o título de “Coita de Amor”. Vejamos um desses poemas:

1. SEGUNDA-FEIRA

A quem não foder bem cá neste mundo
há castigos previstos em triste averno,
e por salvar-te aqui do mal profundo
vai logo te afastando desse inferno.

Corre, ó Amado, deste mal imundo,
e entrai a salvo no meu paraíso,
pois foder é sinal de muito siso –
neste penar da vida, é bem jocundo.

Devêssemos guardar a castidade,
para que Deus nos daria o tesão,
se não para foder com liberdade?

Não duraremos para a eternidade:
se as horas do prazer só vêm e vão,
fodamos já, que é curta a nossa idade.

Penso que se faz urgente a publicação de uma nova coletânea de poemas seus. E se fosse seu editor, começaria pela reunião de toda a sua poesia erótica, édita e inédita, pois tenho certeza, seria capaz de se converter em um marco do gênero em língua portuguesa.

Aqui, os Quatro Sonetos Cardinais e sua biografia:
http://www.revista.agulha.nom.br/mconceicao.html#quatro

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Micro entrevista do mês - Henrique Wagner

Para dizer o mínimo, nossa entrevista do mês é polêmica, pois o entrevistado diz o que pensa não apenas sobre a poesia de alguns autores, mas, sobretudo, como vê o meio literário, que despreza, e no qual está inserido e ao mesmo tempo afastado, como se o aceitasse apenas por conta do grau de mistificação (para o bem e para o mal) que nele se faz presente.
Embora critique nessa entrevista algumas pessoas que me são caras, defenderei seu direito à opinião, pois percebo que se tivéssemos a coragem de olhar para as dúvidas que temos sobre nós mesmos, perceberíamos que somos todos impostores, sem excessão.

Gustavo Felicíssimo – Em que momento você percebeu o que pulsa na poesia e de que maneira se descobriu crítico de arte?
Henrique Wagner
– A poesia como pulsão foi descoberta por mim quando já em compulsão. Eu fazia cerca de cinco poemas por dia. Naturalmente todos do tipo que só o pai gosta. A poesia apenas pulsava, e como sempre fui pálido e frágil, apesar de minha biografia, minhas veias, grossamente verdes, e que apareciam até na testa, mostravam com notória evidência que, em algum momento, o pulso iria ser cortado. Antes que a morte me invadisse, me apaixonei por diversas musas, lesei todas elas e finalmente me tornei um monstro. Uma vez monstro, estava realizada a pulsão como um todo, a negação da morte, de Ernest Becker. Em função da minha natureza eminentemente transida, de fauno, o da coreografia de Nijinsky, e o mesmo que aparece na paisagem de Dante Milano, comecei a esporrar por trás das bananeiras, mas agora com todo o direito a que se arroga uma criatura livre de impostos e do título de eleitor. Esse direito me acalmou um pouco, e, junto ao Rivotril de todo dia, passei a estudar Poética, a ler os clássicos e a ouvir os preceitos de Ildásio Tavares e Maria da Conceição Paranhos. Lendo o Eclesiastes fiquei, paradoxalmente, mais vaidoso ainda... As veleidades me excitavam mais que Sulamita. Mas aprendi com Conceição Paranhos a lavar o vaso sanitário, cada vez que me achasse gênio, e então, minha poesia rendeu muito mais, meu lixo aumentou – sem lixo não se faz boa poesia - e eu parei de publicar, em respeito a Ideiafix e a mim mesmo, que me tornei crítico. Agora entra a segunda parte de sua pergunta. O crítico precisa ser crítico de si mesmo, antes de ser crítico dos outros. Em verdade não precisa: é assim que acontece. O que equivale a dizer que, se todo poeta fosse crítico de si mesmo, teríamos menos poesia – ruim – e talvez mais silêncio. Ou crítica. Mas certamente mais silêncio, uma vez que a produção de poesia diminuiria e o crítico, conseqüentemente, iria rareando. Ao poeta cabe a posição de acurado leitor, pois está diante de uma sinuca de bico digna da Ode Triunfal: é preciso ser bom leitor para ler a si mesmo. Todo bom poeta é, inapelavelmente, um bom leitor. Do contrário, como decidir que seu poema está pronto para os outros? Alguém emprestaria um livro do qual não tenha gostado? Mas o que tenho visto é uma porção de livros ruins emprestados ao público. Mas não se deve confundir o bom leitor com o leitor contumaz. Não há pessoa que leia tanto quanto a Gerana Damulakis, que faz questão, assim como Mayrant Gallo, de provar a todo o planeta, que lê tanto os judeus quanto os palestinos, e isso em plena Faixa de Gaza. Mas que adianta, se essa leitura não é bem processada? (outra coisa muito curiosa é que ambos, Damulakis e Gallo, sempre citam autores incomuns com uma familiaridade, com uma intimidade que nos faz pensar em noites perdidas, conversando com russos, estonianos, húngaros, suecos e japoneses, e tudo em português mesmo, é claro – ou em grego. Quando citam um autor da Chechênia, é num tom de que leram o sujeito na infância, quando o sujeito ainda nem escrevia!). Aprendi, em Fisiculturismo, que o músculo só cresce no descanso, de modo que não adianta malhar quatro horas por dia, todos os dias. Portanto, não adianta ler muito. Poucos têm a cegueira visionária de Borges, para quem os livros lidos eram motivo de maior orgulho que os livros escritos por ele. É preciso educar sua leitura, e talvez um bom começo seja pelo Didascalicon – Da arte de ler, do Padre Hugo de São Vítor. Apenas José Guilherme Merquior me impressionou pela equação “muita leitura X grande aproveitamento”. Há um exemplo significativo: um rapaz chamado Cleberton Santos. Lendo o livro dele, de poemas bastante magros e insípidos, percebi que todo capítulo era iniciado por uma citação poética, um verso ou conjunto pequeno de versos. Mas o que mais percebi é que todos os versos escolhidos pelo autor eram péssimos! Então ficou mais fácil entender a qualidade da poesia do Cleberton, com seus memoráveis calangos e sua mania de criptografar o nada. Aqueles versos que parecem dizer algo muito profundo, de tão estranho, e que fazem com que nossa vergonha procure algum sentido – no poema e na vida – para não desacreditar completamente da poesia baiana. Tenho a impressão de que esse rapaz escreve em latim: não há artigos em sua poesia. Tudo é tão moderno... Parece o Francisco Alvim de Lagarto. Pois bem, assim como o homem sábio é seu próprio médico, o poeta deve ser seu próprio crítico, e para isso, a leitura e a honestidade cultural são fundamentais. O poeta é o primeiro leitor de si mesmo e, por conta disso, toma para si uma enorme responsabilidade como crítico de poesia. Eu me tornei crítico porque aprendi a ler. E decidi compartilhar minhas leituras, mais que meus poemas.

Gustavo Felicíssimo – Existe a possibilidade de em algum momento a crítica e a poesia se amalgamarem?
Henrique Wagner
– Não só existe como já se deu essa possibilidade. Indo mais longe ainda, vejo muito mais poesia nos ensaios e conferências de Eliot do que em toda a poesia feita nos dias de hoje, no ocidente. Posso dizer o mesmo em relação aos textos de Gaetan Picön, I.A. Richards e Terry Eagleton, dentre outros. Mas voltando ao cerne da pergunta, o encontro entre a crítica de Antonio Carlos Secchin e a poesia de João Cabral de Melo Neto é dos mais amistosos. A leitura que Ildásio Tavares fez, e faz, da poesia de Machado de Assis, razoavelmente estudada por Claudio Murilo Leal, em livro publicado pela Biblioteca Nacional, é brilhante, notadamente acerca do famigerado soneto a Carolina, essa mulher que é, antes de tudo, soneto. O mesmo pode ser dito do encontro entre a crítica de Tania Franco Carvalhal e a poesia de Augusto Meyer – Tania melhora, consideravelmente, a poesia folclórica desse gaúcho um tanto enfadonho -, e ainda se pode citar o trabalho de Ivan Junqueira acerca de Baudelaire, Dylan Thomas, Eliot e Dante Milano. Encontros felizes. Mas não gosto de pensar em amálgama. Que sejam encontros, no máximo. Bifásicos.

Gustavo Felicíssimo – Por fim, em que medida a poesia perde ou ganha com tais questões?
Henrique Wagner
– A poesia em si não perde nada. Perde o poeta, que vai se tornando suprematista sem querer. A guerra biológica, o antrax da crítica de poesia está nos jornais. Mais, muito mais que nos livros, sobretudo num país de analfabetos e com um presidente sem regência – sou monarquista. A imprensa tem o poder de criar uma legenda e destruir um grande artista, ou pelo menos a carreira desse artista. Se esse grande artista for também um sábio, menos mal, ele saberá fazer bom uso da arte-fátua. Mas há um Picasso, de século em século... Enquanto Modigliani vende uma tela para comprar carne. Vejamos o caso Alberto Korda, que imortalizou a figura do serial killer Che Guevara, com seu Guerrilheiro Heróico, que só engana Maradona e Carlos Pronzato, argentinos, é claro. Aquela foto tirada em 1968 é quase tão famosa quanto a marca da Coca-cola, e fez com que jovens do mundo todo usassem camisetas, bottons e boinas sem ter o mínimo de conhecimento da história. Falo da história real, a caixa-preta, e não das cartas de Frei Beto. Che Guevara foi considerado por Sartre o único homem completo do mundo. Sartre foi aquele filósofo pop que ficou famoso por ter uma relação aberta com Simone de Beauvoir, por ter negado o Nobel em função de Pasternak ter vencido anos antes, e que panfletou a favor de Stalin. Pois bem, inventaram um líder até mesmo amoroso, lírico etc. Estou falando da imprensa – que não trabalha sozinha, é claro. Aqui na Bahia vem acontecendo algo muito grave. Há um cartel, um trabalho conspiratório, digno dos Protocolos dos Sábios de Sião, abrindo as portas para a maçonaria liderada por Aleilton Fonseca e seu simpático ex-bigode. De lado, preguiçosamente porque confiante, há um Carlos Ribeiro, jornalista, esperando as benesses de sua generosidade aprés-midi, ainda que chegue às bancas de manhã cedo. Serpenteando em campanha, e tricotando com Glaucia Lemos as platitudes mais afetadas, Luis Antonio Cajazeira Ramos vai fazendo amizade com Kátia Borges, articulista do jornal A TARDE, no caderno de cultura. Aliás, essa moça sofre um verdadeiro assédio moral. É a musa de todos os poetas baianos, mesmo não sendo encantadora – para quê? E assim não há crítica, porque não se fala mal de quem o elogia, nessa profícua troca de elogios. Kátia Borges, em menos de um semestre, foi convidada a participar de três eventos na Academia de Letras da Bahia! E não há um texto sequer, até hoje, questionando as deficiências de sua poesia – porque as há, embora ela escreva bem. Fico pensando em Márcia Tude, poeta inspiradíssima e com uma técnica admirável, fazendo belos sonetos, versos cheios de uma cadência envolvente etc. Pois bem, a vencedora do Prêmio Braskem 2008 jamais foi convidada a mesas redondas desse ninho. Bom é que a Márcia não queima as pestanas com vida literária. A essa hora deve estar queimando a pele, ao sol, numa praia próxima de Santo Amaro de Ipitanga. E há ainda o caso da Fabrícia Miranda, também vencedora do Braskem, de 2002. Quem quiser ler boa poesia que vá ao blog da moça. Cajazeira Ramos inventou um ciclo de encontro entre escritores – é assim mesmo, entre escritores, porque quase não há outro tipo de pessoa nesses eventos, que existem mais para serem registrados, historicamente, pela imprensa - na Academia de Letras da Bahia porque pensa numa cadeira para descansar suas varizes. As saturnálias e lupercálias se tornaram tão importantes aqui na Bahia que hoje só o invejoso diz que não gostou de algo. Eu, portanto, sou um eterno invejoso. Invejo até mesmo a poesia de José Inácio Vieira Melo, com seu ânus cheio de rosas (eu me refiro a seus recentes poemas anais) e uma leitura tão pobre da Bíblia, do Cântico dos Cânticos – clichê, quando se quer mexer com certa polêmica erótica, a partir do sagrado – e do corpo da mulher. Aliás, é curioso que sempre que essa turma faz poesia erótica, fala apenas em ânus. Cleberton Santos escreveu Aroma de Fêmea, livro de um mau cheiro terrível, pura flatulência. É aquela velha estratégia de aparecer pelo choque, como se cu ainda chocasse. O da galinha choca... Ainda pensando na Kátia Borges, lembro que, quando ela estreou, com seu De volta à caixa de abelhas, apareceu na capa do Caderno 2, ocupando página inteira, uma foto imensa e entrevista. Eu jamais vi um estreante obter tanto espaço na imprensa... E não era um livro premiado, nada disso, não havia furo jornalístico algum. Tratava-se apenas do lançamento de um livro! Quantos livros de poesia são lançados na Bahia, por mês? Só o Claudius Portugal vem enchendo estantes... E as edições do autor? Ou seja, é a Rede Globo divulgando suas novelas por meio do Vídeo Show. Bem, essa crítica vem comprometendo seriamente o trabalho de poetas grapiúnas excelentes, por exemplo, reunidos por você em uma bela antologia, sem resenhas em Salvador, salvo engano, chamada, muito justamente, Diálogos. O fato é que eles resenham pessoas, não livros. Para ter resenha por aqui, ou o poeta é aluno de Aleilton Fonseca ou é um dos 101 dálmatas-poetas descobertos por Inácio, sabe-se lá em que olho d’água, todos jovens e pobres leitores de seus livros lançados pelo erário público – leia-se Fundação Cultural do Estado, via Lúcia Carneiro, publicada por Inácio na revista Iararana. O jornal A TARDE, ainda o mais lido da Bahia, mesmo caindo das pernas, é funcionário da ALB. Mas é um círculo vicioso, pois foi o jornal quem ajudou a eleger Aleilton Fonseca acadêmico. E assim vão-se construindo teiados. Aleilton põe o Carlos Ribeiro para dentro e Ildásio Tavares e Maria da Conceição Paranhos, pasmem, ficam do lado de fora da quadrilha de Drummond, porque não são mesmo de fazer parte de quadrilha. Ainda quero pensar que a turma que está no poder, ou seja, com a mídia na mão, não tem idéia da responsabilidade que cai sobre si, quando se encontra na posição de definir toda uma história da literatura em movimento. Há muito tempo não se faz poesia, e isso o Benedito Nunes já havia falado há anos, afirmando que passou o tempo da arte contemplativa, que não vivemos em tempos de poesia, mas de cinema, de tecnologia. O que se faz hoje? Relações públicas. Não por acaso o poeta se tornou produtor cultural. É o que chamam agitador cultural. Até o Elizeu Moreira é agitador cultural, mesmo falando javanês. Essa profissão consiste em fazer o mesmo de sempre: encontro entre poetas e o público. Esse meio é ótimo para fazer amigos e influenciar pessoas, e assim Kátia Borges vai fazendo parte de mesas cada vez mais redondas. Um poeta, quando convidado, sente-se o plural majéstico, oficial, sente-se hebreu, o escolhido. E, cheio de comoção, quer, de todo jeito, retribuir. Assim começa a feira, o fisiologismo. Isso não vai acabar nunca, embora possa melhorar. Fui banido de todos os jornais e revistas de Salvador por ter honestidade cultural – é apenas essa a honestidade que tenho. Não se separa, de jeito algum, a pessoa da obra. Genet seria boicotado por aqui. Villon também, e mesmo Rimbaud, todos criminosos. Imagine, a Bahia se dando ao luxo de boicotar um Marquês de Sade, ou o obscuro John Cleland, autor de Fanny Hill... Salieri deixaria Mozart para trás, por conta de seu beatismo. Ou seja, apenas os medianos seriam contemplados pela imprensa. Quando lancei o livro As horas do mundo, pelo Selo Letras da Bahia, passei a ser convidado para tudo quanto era evento. Não imaginavam que eu tinha vida própria e não pretendia memorizar poemas enormes do Ruy Espinheira Filho para sair recitando diante dele, em troca de prefácio e algo mais. Eu não tenho amigos no meio literário porque não gosto dos livros dos escritores baianos, em sua maioria. É preciso gostar da obra para comprar geladinho na casa do poeta. Mesa de bar, então, nem pensar. Há ainda os laquês e pós dos coquetéis, quando as socialites literárias da Bahia dão seus beijinhos suspensos no ar. Isso é a literatura na Bahia do século XXI. E com essa literatura, e com essa imprensa, perde o poeta. Mas não perde a poesia, que é a alma desse negócio.

Henrique Wagner
é baiano de Salvador, onde reside. Nascido em 1977, é poeta, contista, ensaísta e crítico de cinema, teatro e literatura. Colaborou com os jornais A TARDE, Correio Brasiliense, Rascunho, entre outros. Publicou os livros de poemas O grande pássaro e As horas do mundo, e o livro de ensaio A linguagem como estética do pensamento.

Textos de Henrique Wagner no site: http://www.expoart.com.br

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Imperdível: José Castello entrevista Ferreira Gullar para O Globo

A literatura tem que mudar a vida (Ferreira Gullar)
A mesa de jantar está coberta de livros, servidos à fome dos que entram. Nas paredes, quase não sobram espaços: pinturas, aquarelas, serigrafias, que sobem até o teto. Em um canto da sala, algumas pinturas em andamento, poucas, discretas, em que o próprio Ferreira Gullar trabalha. “Isso não tem importância. Faço só para me distrair”. Resiste um pouco a posar para uma foto ao lado de um dos esboços. Mas logo cede. Aos 80 anos, apesar da magreza crônica e do ar um tanto frágil, nada mais parece atingi-lo.

Leia a entrevista:

domingo, 29 de agosto de 2010

Bruno Tolentino está de volta

Não perece quem lega à humanidade uma obra tão grandiosa, tão repleta de vida, por isso Bruno Tolentino está de volta com a reedição de uma de suas obras mais conhecidas, AS HORAS DE KATHARINA, grande responsável pela consolidação de seu nome como um dos principais autores nacionais contemporâneos. A obra sai pela Record sob a organização de Guilherme Malzoni, com comentários de Juliana Perez e notas do meu amigo Jessé Primo. O melhor é que a reedição da obra vem acompanhada pela publicação da peça inédita A ANDORINHA, OU; A CILADA DE DEUS.

Indo um pouco além
Para o crítico Manuel da Costa Pinto, “Bruno Tolentino conjugava em sua poesia elementos modernos e antimodernos. Era antimoderno em relação ao modernismo brasileiro, pois recusava suas soluções formais de coloquialidade e concisão”. Mas por outro lado a voz de Bruno se aproximava de certo modernismo europeu, que associava formas clássicas à voz das ruas.
Polemista, em 1996, depois de morar 30 anos fora do Brasil, manifestou em entrevista à revista Veja sua preocupação por ver o filho mais novo estudando em escolas que ensinavam as obras de letristas da MPB - como Caetano Veloso - ao lado de Machado de Assis, Camões e Fernando Pessoa. Com muita coragem ele afirmou que era “preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o showbiz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura”. Ele também disparou contra Chico Buarque e os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, ainda contra críticos literários e professores da USP.

Neste link a polêmica entrevista:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/bruno-tolentino-3-na-veja-ha-11-anos-so-entro-numa-universidade-disfarcado-cachorro/

Abaixo, o segundo poema do livro:

Noturno

I.

Porque o amor não entende
que tudo quer passar,
nunca, nunca consente,
a nada o seu lugar.

Planta presa, de alpendre,
sacudindo no ar
braços impenitentes,
tenazes, em lugar

de aceitar que não prende
nada, o amor quer dar
apaixonadamente
laços à luz solar

e é noite de repente.


II.

Se ainda te iluminar
com um olhar novamente,
sei que não vais estar
tão perto; a alma entende,

o corpo quer gritar!
Porque o olhar apreende
mais do que alcança dar,
à distância, na mente,

de que vale um olhar
com a noite pela frente?
Essa noite que tende
a unir e separar

inapelavelmente...

sábado, 28 de agosto de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Gladys Carmagnola

O Paraguai legou-nos a grande voz de Josefina Plá, poeta que embora nascida na Espanha, possui obra e vida totalmente identificadas com a cultura do país sulamericano. Entretanto, nesta postagem, falamos de Gladys Carmagnola, poeta que possui obra amplamente conhecida e reconhecida em sua pátria e demais entes hispanos.
Tendo recebido diversos prêmios literários, Gladys Carmagnola, chamada por Hugo Rodríguz-Alcala de “embaixadora do vento e da chuva”, nasceu em Guarambaré, em 1939, e escreve desde a adolescência. Seu primeiro livro foi “Ojitos negros”, lançado no já distante ano de 1965. De lá para cá, seguiram outras vinte publicações entre obras para o público infantil e adulto.
De sua autoria possuo apenas um livro, que é “De Banderas y señales”, de 1998, de onde extraí o poema abaixo, obra em que percebemos claramente uma poeta fecunda e consciente do tempo presente, que valoriza o uso da língua comum, ao rés da fala, e que além de possuir algo de próprio a dizer, o diz muitas vezes com uma consciência nascida do saber e de circunstâncias muito pessoais.

CANÇÃO

A canção possui facas
que ferem, hoje mais que antes
- mil punhais assassinos
aos que não se culpam –

facas que desde o vento
com o fio da tarde
apunhalam a palavra
e entre estertores e sangue
deixam uma e outra lágrima
(Isso não me extasia!)

facas que se refugiam
covardes, em qualquer parte,
enquanto no ar cresce a canção
com letras que são cadáveres.

(Tradução: Gustavo Felicíssimo)


CANCIÓN

La canción tiene cuchillos
que hieren, hoy más que antes
-mil puñales asesinos
a los que no acusa nadie-

cuchillos que desde el viento
con el filo de la tarde
apuñalan la palabra
y entre estertores y sangre
dejan una que otra lágrima
(¡Eso no me lo arrebaten!)

cuchillos que se refugian
cobardes, en cualquier parte,
mientras en el aire crece la canción
con letras que son cadáveres.

Relação externa:
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/paraguai/gladys_carmagnola.html