terça-feira, 31 de agosto de 2010

Imperdível: José Castello entrevista Ferreira Gullar para O Globo

A literatura tem que mudar a vida (Ferreira Gullar)
A mesa de jantar está coberta de livros, servidos à fome dos que entram. Nas paredes, quase não sobram espaços: pinturas, aquarelas, serigrafias, que sobem até o teto. Em um canto da sala, algumas pinturas em andamento, poucas, discretas, em que o próprio Ferreira Gullar trabalha. “Isso não tem importância. Faço só para me distrair”. Resiste um pouco a posar para uma foto ao lado de um dos esboços. Mas logo cede. Aos 80 anos, apesar da magreza crônica e do ar um tanto frágil, nada mais parece atingi-lo.

Leia a entrevista:

domingo, 29 de agosto de 2010

Bruno Tolentino está de volta

Não perece quem lega à humanidade uma obra tão grandiosa, tão repleta de vida, por isso Bruno Tolentino está de volta com a reedição de uma de suas obras mais conhecidas, AS HORAS DE KATHARINA, grande responsável pela consolidação de seu nome como um dos principais autores nacionais contemporâneos. A obra sai pela Record sob a organização de Guilherme Malzoni, com comentários de Juliana Perez e notas do meu amigo Jessé Primo. O melhor é que a reedição da obra vem acompanhada pela publicação da peça inédita A ANDORINHA, OU; A CILADA DE DEUS.

Indo um pouco além
Para o crítico Manuel da Costa Pinto, “Bruno Tolentino conjugava em sua poesia elementos modernos e antimodernos. Era antimoderno em relação ao modernismo brasileiro, pois recusava suas soluções formais de coloquialidade e concisão”. Mas por outro lado a voz de Bruno se aproximava de certo modernismo europeu, que associava formas clássicas à voz das ruas.
Polemista, em 1996, depois de morar 30 anos fora do Brasil, manifestou em entrevista à revista Veja sua preocupação por ver o filho mais novo estudando em escolas que ensinavam as obras de letristas da MPB - como Caetano Veloso - ao lado de Machado de Assis, Camões e Fernando Pessoa. Com muita coragem ele afirmou que era “preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o showbiz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura”. Ele também disparou contra Chico Buarque e os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, ainda contra críticos literários e professores da USP.

Neste link a polêmica entrevista:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/bruno-tolentino-3-na-veja-ha-11-anos-so-entro-numa-universidade-disfarcado-cachorro/

Abaixo, o segundo poema do livro:

Noturno

I.

Porque o amor não entende
que tudo quer passar,
nunca, nunca consente,
a nada o seu lugar.

Planta presa, de alpendre,
sacudindo no ar
braços impenitentes,
tenazes, em lugar

de aceitar que não prende
nada, o amor quer dar
apaixonadamente
laços à luz solar

e é noite de repente.


II.

Se ainda te iluminar
com um olhar novamente,
sei que não vais estar
tão perto; a alma entende,

o corpo quer gritar!
Porque o olhar apreende
mais do que alcança dar,
à distância, na mente,

de que vale um olhar
com a noite pela frente?
Essa noite que tende
a unir e separar

inapelavelmente...

sábado, 28 de agosto de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Gladys Carmagnola

O Paraguai legou-nos a grande voz de Josefina Plá, poeta que embora nascida na Espanha, possui obra e vida totalmente identificadas com a cultura do país sulamericano. Entretanto, nesta postagem, falamos de Gladys Carmagnola, poeta que possui obra amplamente conhecida e reconhecida em sua pátria e demais entes hispanos.
Tendo recebido diversos prêmios literários, Gladys Carmagnola, chamada por Hugo Rodríguz-Alcala de “embaixadora do vento e da chuva”, nasceu em Guarambaré, em 1939, e escreve desde a adolescência. Seu primeiro livro foi “Ojitos negros”, lançado no já distante ano de 1965. De lá para cá, seguiram outras vinte publicações entre obras para o público infantil e adulto.
De sua autoria possuo apenas um livro, que é “De Banderas y señales”, de 1998, de onde extraí o poema abaixo, obra em que percebemos claramente uma poeta fecunda e consciente do tempo presente, que valoriza o uso da língua comum, ao rés da fala, e que além de possuir algo de próprio a dizer, o diz muitas vezes com uma consciência nascida do saber e de circunstâncias muito pessoais.

CANÇÃO

A canção possui facas
que ferem, hoje mais que antes
- mil punhais assassinos
aos que não se culpam –

facas que desde o vento
com o fio da tarde
apunhalam a palavra
e entre estertores e sangue
deixam uma e outra lágrima
(Isso não me extasia!)

facas que se refugiam
covardes, em qualquer parte,
enquanto no ar cresce a canção
com letras que são cadáveres.

(Tradução: Gustavo Felicíssimo)


CANCIÓN

La canción tiene cuchillos
que hieren, hoy más que antes
-mil puñales asesinos
a los que no acusa nadie-

cuchillos que desde el viento
con el filo de la tarde
apuñalan la palabra
y entre estertores y sangre
dejan una que otra lágrima
(¡Eso no me lo arrebaten!)

cuchillos que se refugian
cobardes, en cualquier parte,
mientras en el aire crece la canción
con letras que son cadáveres.

Relação externa:
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/paraguai/gladys_carmagnola.html

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um haikai de Jorge Luis Borges

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um haikai de Laís Chaffe

nada de lua cheia
nada de arte
nada, baleia jubarte

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Originalidade e plágio

Recentemente, Helene Hegemann (foto), uma jovem alemã de apenas 17 anos, fez grande sucesso de crítica com seu primeiro romance, intitulado Axolotl Roadkill.
O problema é que logo se descobriu que longos trechos desse romance haviam sido copiados da obra de um autor menos conhecido. Pois bem, longe de pedir desculpas pelo plágio, a moça afirmou que "não existe originalidade; o que existe é autenticidade". É evidente que o fato de não haver originalidade absoluta não significa que não haja originalidade relativa ou que esta não possa em princípio ser conferida. Contudo, a falsa tese de que simplesmente não existe originalidade tornou-se trivial nesses tempos de internet e de "cópia e cola", e é frequentemente invocada, nos Estados Unidos (será diferente no Brasil?) por alunos universitários acusados de plágio. Segundo a antropóloga Susan D. Blum, professora da Universidade de Notre Dame, em Indiana, "nossa noção de autoria e originalidade nasceu, floresceu, e pode estar murchando".

Fonte: Folha de S. Paulo - 21/08/2010 - Por Antonio Cicero

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Leitura que vem do berço

Especialistas defendem que pais leiam para filhos a partir dos seis meses, porque melhora a cognição e o desempenho escolar

Ler ou não ler para o bebê, eis uma questão que David Dickinson, doutor em educação pela Universidade de Harvard, e Perri Klass, pediatra, escritora e professora de pediatria e jornalismo da Universidade de Nova York, garantem saber responder. Sim, deve-se ler e muito, a partir dos 6 meses de vida, mas sem deixar os olhinhos do neném arregalados com a maluquice de Hamlet ou as desgraças de Rei Lear. A recomendação dos super-especialistas é incluir, em meio à troca de fraldas, a mamadeiras, passeios e choros, o folhear diário das páginas de um livro apropriado para aquela faixa etária, cheio de cores e figuras. Para eles, esta é a melhor forma de desenvolver a inteligência da criança e a sua linguagem oral e escrita, preparando-a para a alfabetização e aprimorando sua capacidade de aprender. Que fique claro: a ideia não é transformar o bebê num minigênio. Os especialistas, que apresentaram pesquisas científicas na Bienal de São Paulo na semana passada provando como a leitura interfere no desenvolvimento cognitivo da criança, querem prazer e interação ao som da narrativa dos pais. Os benefícios desse ritual são insubstituíveis.
Fonte: O Globo - 23/08/2010 - Por Simone Intrator

sábado, 21 de agosto de 2010

José Delmo - 40 anos no palco

Meu querido amigo e ator José Delmo, reverenciado como um dos ícones do teatro da minha terra e excepcional contador de histórias, está comemorando 40 anos de atuação no teatro. Para celebrar, em breve entrará em cartaz na Casa dos Artistas, em Ilhéus, com seu mais novo espetáculo, UM ATOR EM BUSCA DE UM TEXTO. Enquanto isso alguns amigos começam a preparar uma exposição fotográfica sobre a sua trajetória a ser instalada na Galeria o Teatro Municipal de Ilhéus no próximo mês de dezembro.
Abaixo, minha homenagem a esse herói da resistência.
clique na imagem para vê-la em tamanho maior

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Gabriela Mistral

Quando pensamos em poetas chilenos o primeiro nome que nos vem à mente é o de Pablo Neruda, pois sua popularidade, favorecida em partes pela propaganda comunista, colocou sob cortinas o de Gabriela Mistral, a responsável pelo primeiro Nobel de Literatura da América Latina, em 1945.
Seu nome verdadeiro era Lucila Godoy Alcayaga. Adotou o nome de Gabriela em homenagem ao poeta italiano Gabriele D’Annunzio e, Mistral, como forma de expressar sua admiração pelo poeta provençal Frederic Mistral.
Em 1907, um fato trágico marcaria sua vida e obra para sempre. Seu noivo se suicidou e Gabriela nunca se casou, findando por dedicar sua vida ao trabalho, educação e causas femininas. Entre outras funções, foi Consulesa do Chile em diversos países, inclusive no Brasil durante o ano de 1940, sendo mais tarde designada como Consulesa geral em nosso país.
Em 1914, venceu seu primeiro concurso literário no Chile com os famosos “Sonetos de la Muerte”. Em 1922 publica seu primeiro livro de poemas, “Desolación”; este contém o poema “Dolor”, no qual fala da perda do amado. Após, seguem-se outros, entre eles destacamos “Ternura”, de 1924, “Tala”, de 1938 e “Lagar”, de 1954. Recentemente o coletivo teatral chileno El Signo montou a peça teatral Las Huellas de Gabriela (As pegadas de Gabriela), montagem baseada em sua vida e obra.

Chama-nos atenção em sua obra a construção de imagens singulares, expressas com intensidade inconfundível, onde se amalgamam sentimentos antagônicos que se equilibram muito bem: a ardência e a quietude, o amor e a solidão, a vida e a morte.

Sonetos da morte

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
abaixarei-te à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitarei-te na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido.

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastarei-me cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

II

Este longo cansaço se fará maior um dia,
e a alma dirá ao corpo que não quer seguir
arrastando sua massa pela rosada via,
por onde vão os homens, contentes de viver...

Sentirás que a teu lado cavam briosamente,
que outra dormida chega a quieta cidade.
Esperarei que me hajam coberto totalmente...
E depois falaremos por uma eternidade!

Só então saberás o porque não madura
para as profundas ossadas tua carne ainda.
Tiveste que abaixar, sem fadiga, a dormir.

Fará-se luz na zona das sinas, escura:
saberão que em nossa aliança, signo de astros havia
e, quebrado o pacto enorme, tinhas que morrer...

III

Más mãos tomaram tua vida desde o dia
em que, a um sinal de astros, deixara seu viveiro
nevado de açucenas. Em gozo florescia.
Más mãos entraram tragicamente nele...

E eu disse ao Senhor: - "Pelas sendas mortais
levam-lhe. Sombra amada que não sabem guiar!
Arrancá-lo, Senhor, a essas mãos fatais
ou lhe afundas no longo sonho que sabes dar!

Não lhe posso gritar, não lhe posso seguir!
Sua barca empurra, um negro vento de tempestade.
Retorná-lo a meus braços ou lhe ceifas em flor ".

Deteve-se a barca rosa de seu viver...
Que não sei do amor, que não tive piedade?
Tu, que vais a julgar-me, o compreendes, Senhor!

Para saber mais:
http://www.gabrielamistral.uchile.cl/

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Luto – Faleceu o poeta Sérgio Marinho

Peço licença aos leitores para dar uma pausa na série de textos sobre as Vozes femininas da poesia na América do Sul para noticiar a morte do haikaísta e meu amigo, Sérgio Marinho, nesta terça-feira, em Salvador.
A notícia causou-me espanto, pois há pouco tempo estive com ele e Carlos Verçosa na comemoração dos 70 anos de Ildásio Tavares. O poeta, orgulhoso faixa preta de karatê zen, me parecia muito bem.
Não sei ainda causa do óbito, mas para mim a perda é tremenda, pois foi Sérgio quem há cerca de dez anos atrás me apresentou o haikai, bem como a obra de Oldegar Vieira.
Seus haikais são alinhados à estética da contracultura e sua obra anda dispersa e pouco publicada em nossos veículos especializados, pois avesso às publicações, sequer tinha o cuidado de catalogar seus poemas que ficavam guardados exclusivamente na memória. Também eram raras as oportunidades de vê-lo recitar em público. Entretanto, sempre que me encontrava anotava algum novo haikai em algum papel de rascunho e me entregava.

Deixo aqui minha homenagem ao amigo, publicando alguns haikais de sua lavra:

todos os meus ais
cabem
num hai-kai

-

ao olhar do travesti
confesso:
não resisti

-

em matéria de vôo
tira de letra
a borboleta