sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um haikai de Jorge Luis Borges

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um haikai de Laís Chaffe

nada de lua cheia
nada de arte
nada, baleia jubarte

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Originalidade e plágio

Recentemente, Helene Hegemann (foto), uma jovem alemã de apenas 17 anos, fez grande sucesso de crítica com seu primeiro romance, intitulado Axolotl Roadkill.
O problema é que logo se descobriu que longos trechos desse romance haviam sido copiados da obra de um autor menos conhecido. Pois bem, longe de pedir desculpas pelo plágio, a moça afirmou que "não existe originalidade; o que existe é autenticidade". É evidente que o fato de não haver originalidade absoluta não significa que não haja originalidade relativa ou que esta não possa em princípio ser conferida. Contudo, a falsa tese de que simplesmente não existe originalidade tornou-se trivial nesses tempos de internet e de "cópia e cola", e é frequentemente invocada, nos Estados Unidos (será diferente no Brasil?) por alunos universitários acusados de plágio. Segundo a antropóloga Susan D. Blum, professora da Universidade de Notre Dame, em Indiana, "nossa noção de autoria e originalidade nasceu, floresceu, e pode estar murchando".

Fonte: Folha de S. Paulo - 21/08/2010 - Por Antonio Cicero

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Leitura que vem do berço

Especialistas defendem que pais leiam para filhos a partir dos seis meses, porque melhora a cognição e o desempenho escolar

Ler ou não ler para o bebê, eis uma questão que David Dickinson, doutor em educação pela Universidade de Harvard, e Perri Klass, pediatra, escritora e professora de pediatria e jornalismo da Universidade de Nova York, garantem saber responder. Sim, deve-se ler e muito, a partir dos 6 meses de vida, mas sem deixar os olhinhos do neném arregalados com a maluquice de Hamlet ou as desgraças de Rei Lear. A recomendação dos super-especialistas é incluir, em meio à troca de fraldas, a mamadeiras, passeios e choros, o folhear diário das páginas de um livro apropriado para aquela faixa etária, cheio de cores e figuras. Para eles, esta é a melhor forma de desenvolver a inteligência da criança e a sua linguagem oral e escrita, preparando-a para a alfabetização e aprimorando sua capacidade de aprender. Que fique claro: a ideia não é transformar o bebê num minigênio. Os especialistas, que apresentaram pesquisas científicas na Bienal de São Paulo na semana passada provando como a leitura interfere no desenvolvimento cognitivo da criança, querem prazer e interação ao som da narrativa dos pais. Os benefícios desse ritual são insubstituíveis.
Fonte: O Globo - 23/08/2010 - Por Simone Intrator

sábado, 21 de agosto de 2010

José Delmo - 40 anos no palco

Meu querido amigo e ator José Delmo, reverenciado como um dos ícones do teatro da minha terra e excepcional contador de histórias, está comemorando 40 anos de atuação no teatro. Para celebrar, em breve entrará em cartaz na Casa dos Artistas, em Ilhéus, com seu mais novo espetáculo, UM ATOR EM BUSCA DE UM TEXTO. Enquanto isso alguns amigos começam a preparar uma exposição fotográfica sobre a sua trajetória a ser instalada na Galeria o Teatro Municipal de Ilhéus no próximo mês de dezembro.
Abaixo, minha homenagem a esse herói da resistência.
clique na imagem para vê-la em tamanho maior

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Gabriela Mistral

Quando pensamos em poetas chilenos o primeiro nome que nos vem à mente é o de Pablo Neruda, pois sua popularidade, favorecida em partes pela propaganda comunista, colocou sob cortinas o de Gabriela Mistral, a responsável pelo primeiro Nobel de Literatura da América Latina, em 1945.
Seu nome verdadeiro era Lucila Godoy Alcayaga. Adotou o nome de Gabriela em homenagem ao poeta italiano Gabriele D’Annunzio e, Mistral, como forma de expressar sua admiração pelo poeta provençal Frederic Mistral.
Em 1907, um fato trágico marcaria sua vida e obra para sempre. Seu noivo se suicidou e Gabriela nunca se casou, findando por dedicar sua vida ao trabalho, educação e causas femininas. Entre outras funções, foi Consulesa do Chile em diversos países, inclusive no Brasil durante o ano de 1940, sendo mais tarde designada como Consulesa geral em nosso país.
Em 1914, venceu seu primeiro concurso literário no Chile com os famosos “Sonetos de la Muerte”. Em 1922 publica seu primeiro livro de poemas, “Desolación”; este contém o poema “Dolor”, no qual fala da perda do amado. Após, seguem-se outros, entre eles destacamos “Ternura”, de 1924, “Tala”, de 1938 e “Lagar”, de 1954. Recentemente o coletivo teatral chileno El Signo montou a peça teatral Las Huellas de Gabriela (As pegadas de Gabriela), montagem baseada em sua vida e obra.

Chama-nos atenção em sua obra a construção de imagens singulares, expressas com intensidade inconfundível, onde se amalgamam sentimentos antagônicos que se equilibram muito bem: a ardência e a quietude, o amor e a solidão, a vida e a morte.

Sonetos da morte

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
abaixarei-te à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitarei-te na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido.

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastarei-me cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

II

Este longo cansaço se fará maior um dia,
e a alma dirá ao corpo que não quer seguir
arrastando sua massa pela rosada via,
por onde vão os homens, contentes de viver...

Sentirás que a teu lado cavam briosamente,
que outra dormida chega a quieta cidade.
Esperarei que me hajam coberto totalmente...
E depois falaremos por uma eternidade!

Só então saberás o porque não madura
para as profundas ossadas tua carne ainda.
Tiveste que abaixar, sem fadiga, a dormir.

Fará-se luz na zona das sinas, escura:
saberão que em nossa aliança, signo de astros havia
e, quebrado o pacto enorme, tinhas que morrer...

III

Más mãos tomaram tua vida desde o dia
em que, a um sinal de astros, deixara seu viveiro
nevado de açucenas. Em gozo florescia.
Más mãos entraram tragicamente nele...

E eu disse ao Senhor: - "Pelas sendas mortais
levam-lhe. Sombra amada que não sabem guiar!
Arrancá-lo, Senhor, a essas mãos fatais
ou lhe afundas no longo sonho que sabes dar!

Não lhe posso gritar, não lhe posso seguir!
Sua barca empurra, um negro vento de tempestade.
Retorná-lo a meus braços ou lhe ceifas em flor ".

Deteve-se a barca rosa de seu viver...
Que não sei do amor, que não tive piedade?
Tu, que vais a julgar-me, o compreendes, Senhor!

Para saber mais:
http://www.gabrielamistral.uchile.cl/

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Luto – Faleceu o poeta Sérgio Marinho

Peço licença aos leitores para dar uma pausa na série de textos sobre as Vozes femininas da poesia na América do Sul para noticiar a morte do haikaísta e meu amigo, Sérgio Marinho, nesta terça-feira, em Salvador.
A notícia causou-me espanto, pois há pouco tempo estive com ele e Carlos Verçosa na comemoração dos 70 anos de Ildásio Tavares. O poeta, orgulhoso faixa preta de karatê zen, me parecia muito bem.
Não sei ainda causa do óbito, mas para mim a perda é tremenda, pois foi Sérgio quem há cerca de dez anos atrás me apresentou o haikai, bem como a obra de Oldegar Vieira.
Seus haikais são alinhados à estética da contracultura e sua obra anda dispersa e pouco publicada em nossos veículos especializados, pois avesso às publicações, sequer tinha o cuidado de catalogar seus poemas que ficavam guardados exclusivamente na memória. Também eram raras as oportunidades de vê-lo recitar em público. Entretanto, sempre que me encontrava anotava algum novo haikai em algum papel de rascunho e me entregava.

Deixo aqui minha homenagem ao amigo, publicando alguns haikais de sua lavra:

todos os meus ais
cabem
num hai-kai

-

ao olhar do travesti
confesso:
não resisti

-

em matéria de vôo
tira de letra
a borboleta

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vozes femininas da poesia na América do Sul - Delmira Agustini

Delmira Agustini (1886 – 1914) é uruguaia, nascida em Montevidéu. Filha de Italianos imigrantes, foi criança precoce. Consta em sua biografia que além de começar a escrever poemas quando ainda tinha 10 anos, estudou francês, música e pintura. Apesar de ter falecido muito cedo, com apenas 28 anos, ainda é considerada como uma das maiores poetas latino-americanos do início do século 20. Faz parte da geração de 1900, juntamente com Julio Herrera y Reissig, Leopoldo Lugones e Rubén Darío, a quem ela considerava seu professor. Naquele período, Darío, referindo-se à Agustini, afirma ter sido ela a única escritora mulher, desde Santa Teresa D’avila, a expressar-se como uma mulher, o que naquele tempo era mesmo um grande diferencial devido toda uma conjuntura machista existente.
Ela se especializou no tema da sexualidade feminina em uma época em que o mundo literário era dominado pelos homens. Seu estilo de escrita é considerado o melhor da primeira fase do modernismo, com temas baseados em fantasia e exotismos.
Eros, deus do amor, simboliza o erotismo e é a inspiração para os poemas Agustinianos sobre prazeres carnais. Ele é o protagonista de muitas das suas obras literárias. Seu terceiro livro, “Los Calices Vacíos” em 1913 foi aclamado como a sua entrada para um novo movimento literário, "La Vanguardia".
Agustini tinha olhos azuis, pele clara e uma figura esguia. Alguns amigos testemunharam que ela parecia um anjo inocente. O amor incondicional e arrogante levou-a a temas de submissão e de charme, assim como imagens eróticas altamente espiritualizadas.

Delmira Agustini publicou as seguintes obras: El Libro Blanco (1907), Cantos de la Mañana (1910), Los Cálices Vacíos (1913), El Rosario de Eros (1913), Los Astros del Abismo (1924). No Brasil tem publicado “Líricas”, edição bilíngüe, Desterro, SC, Edições Nephelibata, 2005. Tradução de Gleiton Lentz


O INTRUSO

Amor, naquela noite trágica e soluçante
Cantou tua chave de ouro em minha fechadura;
E logo, a porta aberta sobre a sombra arrepiante,
Te vi como uma mancha de luz e de brancura.

Tudo me iluminaram teus olhos de diamante;
Beberam-me na taça teus lábios de frescura,
Na almofada pousaste-me a cabeça fragrante;
Amei-te o atrevimento e adorei-te a loucura.

E hoje rio se ris e canto se tu cantas;
Se dormes, durmo como um cão a tuas plantas!
Na própria sombra levo a tua recendente

Primavera; e, se a mão tocas na fechadura,
Tremo e bendigo a noite que -soluçante e escura-
Floriu na minha vida tua boca amanhecente.

(Traduzido por Anderson Braga Horta)


O INEFÁVEL

Morro de estranho mal. Não, não me mata a vida
a morte não me mata e nem me mata o amor.
Morro de um pensamento mudo como ferida.
Não sentiste jamais aquela estranha dor

de um pensamento imenso enraizado à vida
devorando alma e carne e não alcança a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
por inteiro a abrasar-vos sem nenhum fulgor?

Cúmulo dos martírios! Levar eternamente
desgarradora e seca a trágica semente
como um dente feroz que as entranhas corroeu.

Mas arrancá-la em flor que amanhecera um dia
milagrosa e ideal — ah! maior não seria
do que ter entre as mãos a cabeça de Deus.

(Tradução de Henriqueta Lisboa)

Ligação externa:
http://www.patriagrande.net/uruguay/delmira.agustini/index.html

domingo, 15 de agosto de 2010

Vozes femininas na poesia da América do Sul - Blanca Varela

Blanca Varela é a grande dama da poesia peruana. Sua obra possui forte senso de humanidade e é densamente influenciada pelas correntes surrealistas do pós-guerra.
Nacida em Lima, em 1926, muito jovem ingressou na Universidade de São Marcos para estudar Letras e Educação, onde conquistou a amizade de importantes intelectuais da época. Em 1949 se radicou em Paris, onde conheceu Octávio Paz que foi determinante em sua carreira literária introduzindo-a no círculo de intelectuais latino-americanos e espanhóis radicados na França.
Posteriormente viveu em Florença e Washington, onde se dedicou principalmente à traduções. Em 1959 publicou seu primeiro livro, “Esse porto existe”. “Luz do dia” foi publicado em 1963 e “Valsas e outras confissões” em 1971. Em 1978 teve publicado “Canto vilão”, a primeira compilação de sua escrita, mas a antologia definitiva de sua obra publicada sob o título “Como Deus no nada”.
Obteve o prêmio Octávio Paz de Poesia e ensaio em 2001, o Prêmio Cidade de Granada em 2006 e os prêmios García Lorca e Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana em 2007. Faleceu na cidade de Lima, em Março de 2009.

CANTO VILÃO

e de pronto a vida
em meu prato de pobre
um magro pedaço de celeste porco
aqui em meu prato

observar-me
observar-te
ou matar a mosca sem malícia
aniquilar a luz
ou fazê-la

fazê-la
como quem abre os olhos e eleje
um céu farto
no prato vazio

rubens cebolas lágrimas
mais rubens mais cebolas
mais lágrimas

tantas histórias
negros indigeríveis milagres
e a estrela do oriente

emparedada
e o osso do amor
tão roído e tão duro
brilhando em outro prato

esta fome própria
existe
é a gana da alma
que é o corpo

é a rosa de gordura
que envelhece
em seu céu de carne

mea culpa olho turvo
mea culpa negro bocado
mea culpa divina náusea

não há outro aqui
neste prato vazio
senão eu
devorando os meus olhos
e os teus

(Tradução de Gustavo Felicíssimo)

Outros poemas de Blanca Varela:
http://www.lainsignia.org/2001/mayo/cul_002.htm

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Vozes femininas na poesia da América do Sul - Meira Delmar

Dentre os valores mais substanciosos da lírica feminina colombiana encontramos os versos de Meira Delmar, poeta do amor e da morte, sempre orientada por um ponto de vista feminino sobre estes temas, imprimindo em seus versos certo aspecto nostálgico, algo que não pode ser.
Diz Meira Delmar que o amor em sua poesia possui tons medidos, que não é um amor que grita ou exige, antes é um amor que está sempre indo, em busca.
Colombiana, grande amiga de Garcia Marquez, confessa que desde muito jovem foi leitora de outras autoras Sulamericanas como Mistral, Storni e Augustini, e que, de alguma forma elas podem ter lhe influenciado. Entretanto, sua lírica possui um acento reconhecidamente próprio, alcançado no próprio fazer poético, que tonifica e modula a sua voz, sem que esta seja devedora a nenhuma outra.
No Brasil, ao que nos parece, apenas o livro “Mundo Mágico: Colômbia” Edições Bagaço, Pernambuco, 2007, uma antologia da lírica daquele país, organizado e prefaciado por Lucila Nogueira e Floriano Martins, possui poemas de Meira Delmar, o que é extremamente lamentável e prova a quase completa ignorância brasileira sobre a obra de poetas não apenas da Colômbia, mas de toda América do Sul.

Minha morte

A morte não é ficar
com as mãos ancoradas
como barcos inúteis
em minhas próprias margens,
nem ter nos olhos,
a sombra da pálpebra
a última paisagem
naufragada em si mesmo.

A morte não é sentir-me
filha na terra obscura
enquanto move a noite
seu gomo de luzeiros,
e move o mar profundo
as naus e os peixes,
e o vento move estios,
outonos e primaveras.

Outra coisa é a morte!

Dizer teu nome uma
e outra vez entre a neblina
sem que tornes o rosto
a meu rosto, é a morte.
E estar de ti distante
quando dizes “A tarde
volta sobre as rosas
como uma asa de ouro”.

A morte é ir apagando
caminhos de regresso
e chegar com minhas lágrimas
a um país sem nós
e é saber que pergunta
meu coração em vão
por tua melancolia.

Outra coisa é a morte.

(Tradução de Gustavo Felicíssimo)

Relação externa:
http://www.los-poetas.com/f/delmar1.htm