quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Atacando de Letrista

Tenho feito letras de música em parceria com alguns compositores aqui da minha região. Entre eles Mither Amorim, da Banda Manzuá. Os primeiros frutos estão começando a aprarecer, pois com a música África ficamos em 2º Lugar no já tradicional Festival Multiarte Firmino Rocha. As vocalistas da banda, Brisa Aziz e Laísa Eça ficaram com o prêmio de melhor intérprete feminino.
Abaixo, a apresentação no Festival.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Continuando com o Pasticho

Lourival Pereira Filho, o Piligra, é, apesar de bastante jovem, provavelmente, o poeta brasileiro que mais se valeu do Alexandrino Trímetro (verso com cesura nas 4ª, 8ª e 12ª sílabas) para compor a sua lira, tendo escrito mais de dois mil sonetos dentro dessa forma. Temos um contato muito próximo, o que nos faz ter acesso em primeira mão à produção um do outro. O resultado dessa forte amizade é que sobrou para mim a revisão dos poemas do seu próximo livro, o que me levou a internalizar o ritmo da sua poesia e cometer também o meu Pasticho, um exercício apenas, dentro daquela forma poética tão peculiar do meu amigo. Aproveitei o tema impresso em “Desencanto” e “Esperança”, de Manuel Bandeira e Jorge Medauar, respectivamente, para construir o meu Alexandrino, embora na forma e na linguagem, o modelo é a poesia do meu amigo.

Concepção
Piligra

eu já concebo o verso assim metrificado
como arquiteto que planeja um edifício
na exatidão do prumo reto e equilibrado
sem perguntar se isto é fácil ou é difícil!

eu já concebo a rima assim – intercalada,
numa urdidura trabalhosa e singular –
puxando o fio de cada sílaba marcada
pelo tecido de uma métrica “sem par”!

eu já concebo o meu soneto alexandrino
(como a matriz de uma equação vetorial)
fazendo cálculo semântico e verbal,

com meu compasso atrapalhado de menino!
eu já concebo o meu poema ornamental
como operário que dá forma ao que é divino!


Inóspita Claridade
Gustavo Felicíssimo

Eu faço versos por viver na poesia
todo universo do real e do abstrato,
feito um menino que contempla a fantasia
enquanto bárbaros renegam seu retrato.

Eu faço versos porque vejo a claridade
do novo tempo que está prestes a nascer,
quando irmanados e distante a falsidade
a humanidade poderá se conhecer.

Verá sua face no sorriso da criança,
em cada gesto de modéstia ou de virtude:
no seu semblante verá toda plenitude.

Verá que a luz se faz presente e a esperança,
palavra viva, vem somar-se à liberdade,
reconduzida ao seu lugar, junto à verdade.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Flip em toda parte

O assunto que agora está na boca do povo é a literatura. Nas páginas dos jornais e revistas. A 8ª Festa Literária Internacional de Paraty começa na quarta-feira (4) e foi destaque em todos os cadernos culturais do fim de semana. O Prosa & Verso, do Globo, por exemplo, dedicou todo o caderno à festa e incluiu resenhas dos livros que serão lançados lá. A matéria principal, no entanto, falava sobre a repetição dos autores brasileiros, também tema de matéria da Folha de S. Paulo. A falta de ficcionistas na programação também foi sentida. A revista Época questionou a capacidade de Paraty receber o número sempre crescente de turistas, mas comentou sobre o bem que o evento faz para a cidade. Já o Estadão foi ouvir Liz Calder, a mãe da Flip, ou a dama das letras como colocaram, que se lembrou de fatos curiosos, como o sorriso do sisudo Coetzee ao comprar um pé de moleque na rua.

Fonte:
PublishNews - 02/08/2010

Ainda Bandeira e Medauar

Após o Pasticho a que nos referimos na postagem anterior, Manuel Bandeira em uma de suas crônicas transcreveu os versos de Medauar e lhes deu resposta impressa no poema “A Jorge Medauar”, justificando a tréplica dizendo com o seguinte argumento: Eu poderia me limitar a agradecer ao poeta o abraço e dizer-lhe que lhe ficam muito bem os sentimentos expressos nesses versos. Mas, em mim, pelo menos, verso puxa verso. Aquelas “tintas da madrugada” alvoroçaram o que ainda me resta de bossa poética, no coração contrito. O resultado foi essa insignificância, que ofereço, dedico e consagro

A Jorge Medauar
Manuel Bandeira

Há trint’anos (tanto corre
O tempo! escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.

Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:

“Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!”

Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva

Da alma e para outra alma corre.

Verso que dele se prive,
Ai dele! Quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso, com alma, vive.

Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um Pasticho genial

Pasticho é a imitação do estilo de determinado autor. Muitas vezes elaborado para ser a outra face do poema original. Não confundir com paródia, pois enquanto um à maioria das vezes homenageia o autor imitado, a outra imita com intenção satírica.
Em “Desencanto”, famoso poema de Manuel Bandeira, o poeta, por motivos muito conhecidos canta “Eu faço versos como quem morre”. Mais de trinta anos após, Jorge Medauar, ainda um jovem, diz em outro poema: “Eu faço versos como quem vive”. Deu-se, então, segundo Hélio Pólvora, “uma escaramuça cordial, com ampla repercussão nos meios literários do Rio de Janeiro”. O próprio Bandeira, ao nosso ver, erroneamente, tratou o poema de Medauar como uma paródia, o que, sem dúvida alguma, não é.


Desencanto
Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai gota à gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Esperança
Jorge Medauar

Eu faço versos como quem luta
De armas em punho... de armas nas mãos...
Forma ao meu lado, pois na labuta
Os companheiros são como irmãos.

Meu verso é aço. Fornalha ardente...
Peito ou bigorna... Braço ou trator...
Corre entre o povo. Salgado e quente,
Cai gota a gota, por que é suor.

E nestes versos de luta ousada
Deixo a esperança que sempre tive
Nas tintas rubras da madrugada.

- Eu faço versos como quem vive.

domingo, 1 de agosto de 2010

Micro entrevista do mês com Zeca Baleiro

Esse é apenas um excerto de uma entrevista que fiz com Zeca Baleiro há alguns anos atrás, quando lançou “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – de Ariana para Dionísio”, onde musicou dez poemas de Hilda Hilst e contou com algumas intérpretes de peso da música brasileira como Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Na Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.
GF – Como se deu o seu encontro com a poesia?
ZB
– Desde menino fui estimulado a ler muitos livros. Meu pai sempre foi um leitor compulsivo e quase que nos abrigava a ler os clássicos, Machado, José de Alencar, Dostoievski, etc... Eu, de todos os irmãos, devo ter sido o que menos livros li, preguiçoso que eu era. Por preguiça até, lia mais livros de poesia que romances, por exemplo. Foi assim que conheci grandes poetas e me encantei com a poesia.

GF – Inúmeros poetas e críticos literários sempre fizeram questão de afirmar que letra de música não é poesia, o que você pensa sobre esse assunto?
ZB
– É poesia sim, só que noutra instância, diferente da poesia literária. É outro “approach”, outra abordagem, tem que servir à música, e deve ser mais acessível, mais palatável.

GF – Você faz poesia que serve à essa estética literária?
ZB
– Tenho umas coisas guardadas, mas não sinto vontade de publicar, pelo menos não por agora.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A impressionante influência vocabular da literatura

Por W. J. Solha
Tornou-se lugar-comum, na imprensa, reportar fatos como o acidente com o avião da TAM, que matou 162 passageiros, ou o deslizamento de terra no Morro do Bumba, em Niterói, como “tragédias anunciadas”, influência evidente do belo título que é o Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez. Claro que isso não é de hoje. Todo sujeito ciumento é um “Otelo”, desde que Shakespeare escreveu a peça a respeito do suplício do Mouro de Veneza. Todo homem excepcionalmente forte é um “Hércules”, desde que Eurípedes encenou a tragédia Heracles entre os gregos, Sêneca levou ao palco o Hércules sobre o Eta, entre os romanos. Do mesmo modo, toda viagem ou percurso repleto de percalços passou a ser “uma odisséia”, desde que Homero escreveu a história de Ulisses, cujo nome grego era Odisseu. Daí 2001 – Uma Odisséia no Espaço, o filme de Stanley Kubrik – daí Ulisses, o famoso romance de James Joyce, que consome cerca de 800 páginas pra contar o que foi um dia – 16 de junho de 1904 - na vida de um certo dublinense chamado Leopold Bloom. Se esse caminho, porém, é de mais sofrimento do que aventura, o rótulo é o de “via-sacra”, “via-crúcis” ou “calvário”, por conta do peso do texto evangélico, que transformou, também, todo traidor em “judas”, toda vítima em “cristo”, todo mau caráter em “judeu”, toda maldade humana em “judiação”, todo homem caridoso em “bom samaritano”, todo fim do mundo em “apocalipse”. Do mesmo modo, abrindo para o Velho Testamento, todo começo de qualquer coisa é “gênesis”, todo assassino é um “Caim”, todo lugar maravilhoso é um “paraíso”, toda debandada é um “êxodo”, toda enchente é um “dilúvio”, todo vidente é um “profeta”, toda figura com salvadora liderança é “messiânica”, toda decisão sábia é “salomônica”, todo embate desproporcional, tipo camundongo Jerry contra o gato Tom, Oliveiros contra Ferrabrás, Vietnã versus Estados Unidos, é uma luta de “Davi e Golias”.

Quem nunca classificou alguma cena terrível de “dantesca”, por conta da Divina Comédia de Dante? Quem nunca chamou o herói de uma causa perdida – como Vitorino Papa Rabo, de Zé Lins; ou o Príncipe Michkin, de Dostoiévsky - de “quixotesco” devido à obra de Cervantes? Quem nunca disse que um sujeito em dúvida terrível é “hamletiano”? Caramba, já vi muita gente demasiado séria ser chamada de “Dom Casmurro”, por causa do livro de Machado de Assis. E de “masoquista”, devido ao romance A Vênus de Peles , de Leopold Ritter von Sacher-Masoch, no qual um personagem somente chega ao orgasmo depois de surrado pelo amante da esposa. Claro que você acaba de se lembrar de que “sádico”, se deve ao Marquês de Sade e a seus romances – como Os 120 Dias de Sodoma. Do mesmo modo, “pantagruélico” é o comilão por excelência, desde que Rabelais escreveu seu romance Pantagruel, e “acaciana” é sempre uma figura pública tipo Conselheiro Acácio,pseudo-intelectual pomposo, desde que Eça de Queirós escreveu o romance O Primo Basílio.

A quanto mulherengo já demos o nome de “casanova”, devido ao libertino escritor Giácomo Casanova, que – segundo afirma nos vinte e oito volumes de suas memórias – enumerou cento e vinte e duas mulheres que possuiu ao longo da vida! Ou de “Don Juan”, por causa do personagem fictício que, por suas inúmeras conquistas amorosas, compareceu em várias obras de arte, como a peça Don Juan Tenório, de José Zorrilla, e a ópera Don Giovanni, de Mozart!

Um dos casos mais famosos de apropriação desse tipo é o de Freud, que viu no personagem clássico de Sófocles – Édipo Rei – o protótipo do portador do complexo emocional que envolve amor e ódio na relação filho-mãe-pai, tendo Gustav Jung estabelecido a mesma relação filha-pai-mãe no Complexo de Eletra, partindo das peças de Sófocles e Eurípedes que contam como essa personagem matou a mãe, Clitemnestra, pra vingar a morte do pai, Agamênon.

Quanta História por trás de cada palavra!
(26-07-2010)

W. J. Solha é escritor, dramaturgo, ator e poeta paulista, radicado na Paraíba

ATENÇÃO!
O autor oferece o seu belíssimo e intrigante romance "Relato de Prócula" a quem se interessar por ele. Basta que mande nome e endereço para wjsolha@superig.com.br que receberá o livro pelo correio, sem qualquer despesa.

Em 10 anos, menos de 25% dos livros vendidos será em papel

Notícia do The New York Times que O Estado de S. Paulo reproduziu

A semana que passou foi histórica para o universo dos livros - se é que eles existirão no futuro. A Amazon.com, uma das maiores vendedoras de livros dos EUA, anunciou que, nos últimos três meses, as vendas de livros para o seu leitor eletrônico Kindle, ultrapassaram as de livros de capa dura. Neste período, a Amazon afirma ter vendido 143 livros Kindle para cada 100 de capa dura, inclusive aqueles que não foram editados para o Kindle. “Os amantes dos livros, que lamentam o fim dos de capa dura com seu peso e seu cheiro de antigo, precisam encarar a realidade”, observou Mike Shatzkin, fundador e diretor executivo da Idea Logical Company, que assessora as editoras de livros na mudança para a versão digital. "Este dia era esperado, um dia que tinha de vir", acrescentou. Ele prevê que numa década, menos de 25% de todos os livros vendidos serão em versões impressas. No entanto, o livro impresso não está absolutamente em extinção. As vendas de todo o setor subiram 22% este ano, segundo a Associação Americana de Editoras. A grande surpresa, segundo Shatzkin, foi que o dia chegou durante o primeiro período em que o Kindle enfrentava uma grave ameaça competitiva. O iPad da Apple.

26/07/2010 - Por Claire Cain Miller

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bernardo Linhares: 50 anos, 50 poemas

Meu grande e querido amigo, o poeta Bernardo Linhares comemora nesta sexta-feira, dia 30, 50tinha. Quem diria! Parceiro de garfo e de copo desde o tempo da oficina literária de Conceição Paranhos, confiou a mim a organização do seu livro que terá, igualmente aos anos vividos, 50 poemas.
Como no momento o que nos cabe apenas é homenageá-lo, deixo aqui dois dos seus melhores poemas. Espero que gostem!

As Flores do Ocaso

O meu neto Isak
dorme no final da tarde...


Refletindo as cores
de todas as flores
o mar se desata
em ondas de prata.

O lírio é netuno.
A dália, sereia.
As rosas são nuvens
cobertas de estrelas.

Bordados no céu,
o poente é um véu,
a noite, uma seda.

Sonha o girassol:
As flores do ocaso
são as borboletas.


Carolina


São rosas na bruma
buquê de gaivotas
por cima das águas
bordadas de espumas.

Com linha da costa
de seda tão pura
costuro tua moda
na vela do barco.

Ternura mais funda
os fios da corrente
revelam teus laços...

Cortando o silêncio,
um amor imenso
navega no vento.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Auto-retrato - Gustavo Felicíssimo

O meu retrato em preto e branco
deixei grafado nessas páginas,
deixei toda a minha loucura,
deixei também algumas lágrimas;

deixei o chapéu companheiro,
deixei meu mundo por inteiro;

deixei aqui tudo o que sou,
deixei um resto de alegria,
deixei o que de mim sobrou:

deixei as pedras nessa estrada,
deixei minha vida e mais nada.