terça-feira, 29 de junho de 2010

Casa de Eduardo Galeano

Fechada por futebol
Com a vitória do Uruguai sobre a Coreia do Sul, o escritor Eduardo Galeano, que queria na infância ser jogador, é todo felicidade. Ele colocou em sua casa em Montevidéu um cartaz dizendo: “Fechada por futebol.” Aliás, Galeano viu Garrincha jogar. “Era como assistir a Chaplin no gramado”, disse.

Fonte:
O Globo - 28/06/2010

Gullar pode ser Nobel?

O poeta Ferreira Gullar afirmou à coluna Painel de Letras (Folha de São Paulo) que sua candidatura ao Nobel de Literatura deverá ser reapresentada em Estocolmo em 2011.

Segundo o autor, as publicações na Suécia, dois anos atrás, de seu “Poema Sujo” e, mais recentemente, de uma antologia poética e da edição da revista Karavan, com dossiê dedicado a ele, levaram escritores e professores do país a propor a ideia. Gullar teve suas candidaturas registradas, em 2002 e 2004. O fato de ter ganho neste ano o Camões, principal prêmio a autores de língua portuguesa, também pesa.

Fonte:
Folha de S. Paulo - 26/06/2010

Veja recente nota que demos sobre Gullar e o Prêmio Camões: http://sopadepoesia.blogspot.com/2010/06/e-o-premio-camoes-2010-vai-para.html

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Celebração de Ilhéus

476 anos de história, 129 de emancipação política

Fotografia de José Nazal

Hoje a minha querida cidade de Ilhéus, onde nasceram e residiram tantos escritores, tantos poetas, comemora 476 anos de história, posto que foi uma das capitanias hereditárias do Brasil, e 129 de emancipação política. Bela, histórica e hospitaleira, está imortalizada nos romances de Jorge Amado e Adonias Filho, nas adaptações das suas obras para teatro e cinema, bem como em poemas de Sosígenes Costa, o poeta grego da Bahia, segundo Gerana Damulakis. Ainda Gil Nunesmaia, um dos primeiros haikaístas brasileiros é natural de Ilhéus, assim como Abel Pereira.
Fotografia de José Nazal

Em Ilhéus tenho grandes amigos, trabalho e estudo. E pela cidade, há muito tempo, sou completamente apaixonado. Por isso mesmo venho preparando um livro com poemas em sua homenagem, cujo título ainda não está definido, mas que pretendo publicar no próximo ano. A obra é composta por um poema longo, dividido em dez partes, e outros que versam sobre personagens e lugares da cidade.
Publico abaixo dois trechos de Saudação a Ilhéus, o poema longo ao qual me referi anteriormente, e outro, sobre um local e personagem bem conhecido do povo da cidade, o bom e velho Conde Badaró e sua barraca de praia.

SAUDAÇÃO A ILHÉUS

I

Ilhéus, de onde estou agora
abriga aurora e poente
encontro de rios que rasgam a terra
e o fragor do mar
o silêncio que se expande
a sinestesia de todas as cores
o segredo do ócio
o rumor de todas as águas
o cantar de todos os pássaros
a força do vento na vela
a tarde e a primeira manhã
montanha por montanha ao seu redor
onde paira a noite morna
as luas alvas, madrugadas
voando alto
a convergir todas as coisas
enquanto consagro horas à inutilidade
e escrevo versos para te saudar.

V

Sobre a tua superfície
uma imagem de água e de poder
em voltas que descrevem a história
que irrompe da lembrança mais longínqua
por onde navegam barcos ancestrais
com seus remos inquietos
a girarem no mesmo compasso
enquanto as ondas se afastam
e se aproximam, descompassadas
em rumores cada vez mais altos
cada vez mais exatos
por que na memória estão as águas recurvadas
o silêncio da alvorada
o nascer do sol à hora exata
à hora que mais esplende a vida
com todas as suas arcadas
enquanto afiro o peso da lucidez
e escrevo versos para te saudar.


NA BARRACA DO VELHO BADACA


É dia útil, dizem
mas toda segunda-feira
me cheira ao primeiro do ano.

Não deveria estar aqui
mas na barraca do velho Badaca
não existe hora para existir.

O sol se dá de presente
junto à praia
rebrilhando sobre as correntes.

O mundo corre lá fora
caduco, longe dos coqueirais
e da barraca do velho Badaca.

Mando meus compromissos
às favas e celebro
o que há de útil nessa vida.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o município pode visitar este belíssimo site: http://www.ilheense.com.br/

domingo, 27 de junho de 2010

RUMOS ITAÚ CULTURAL LITERATURA

Abertas as inscrições para o edital

Em sua quarta edição, o programa Rumos Literatura é dirigido aos interessados em desenvolver textos reflexivos sobre literatura e crítica literária brasileira contemporânea. A novidade desta edição é a possibilidade de estrangeiros, residentes fora do Brasil, também se inscreverem. O programa busca colaborar no desenvolvimento de potencialidades ao estimular a formação do interessado em literatura na ampliação de sua rede de relacionamentos intelectuais e profissionais e, posteriormente, lançar e divulgar uma publicação com sua produção autoral.

O edital está dividido em duas categorias:
1. Produção Literária, para projetos de ensaio que tratem de um tema relativo à produção literária brasileira a partir do início dos anos 1980.
2. Crítica Literária, para projetos de ensaio sobre a produção crítica na literatura brasileira realizada a partir do início dos anos 1980.

Importante: o interessado não precisa escrever o ensaio final, apenas o projeto que será desenvolvido em 2011, conforme consta no edital.

Prazo de inscrições: foram prorrogadas até 13 de agosto de 2010.

Público alvo: todas as pessoas interessadas nos temas propostos pelo edital, independente do nível escolar e segmento de atuação profissional.

Edital completo:
http://www.itaucultural.org.br/rumos/regulamento_literatura.pdf

. Dentre os prêmios, os selecionados receberão apoio financeiro mensal e remuneração referente ao licenciamento dos direitos autorais do trabalho concluído e aprovado.
. e-mail tira dúvida: rumosliteratura@itaucultural.org.br

Uma Criatura

O poema, em terza rima, é do Machado de Assis, mas poderia facilmente ser atribuído a Augusto dos Anjos

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

sábado, 26 de junho de 2010

Três poemas de Vinícius de Moraes

Vinícius é, sem dúvida, ao lado de Alberto da Cunha Melo, o poeta brasileiro que mais gosto. Sempre achei espetaculares os seus poemas, sobretudo os de amor. Tenho para mim que esses três são os seus melhores.

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
a caminho da Inglaterra, 09.1938


SONETO DA FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril - Portugal, 10.1939


SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Rio de Janeiro, 1951

Três notinhas que valem a pena

Estreia de filme e peça teatral, ambos baseados na vida de escritores + lançamento de livros são destaque na imprensa escrita

Lançamento: Fábula de Saul Bellow

Depois de publicar “As Aventuras de Augie March”, no ano passado, a Companhia das Letras agora lança outro romance clássico de Saul Bellow (1915-2005), “Henderson, o Rei da chuva”, com tradução de José Geraldo Couto. Ambos chegam em traduções notáveis, que reproduzem a escrita cheia de energia e exatidão do autor. Apesar de muito diferentes entre si, os dois livros transmitem o mesmo humor e o mesmo prazer de compartilhamento. “Henderson”, além disso, é escancaradamente filosófico - suas especulações, nas palavras de um crítico, vão do sublime ao absurdo. Como nas melhores comédias. “Augie”, de 1953, e “Henderson”, de 1959, pertencem à primeira fase da obra do escritor, que já era então plenamente reconhecido nos Estados Unidos, mas nem tanto no resto do mundo, o que só viria a acontecer quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1976. Nessa fase inicial, Bellow prestava homenagens e pagava tributos à literatura do século XIX, ainda que nada de anacrônico sobrevivesse ao filtro de seu ouvido musical e atento à fala das ruas.

Fonte:
Valor Econômico - 25/06/2010


Keats foi poeta, sonhou e amou na vida

Na Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia, a história é razoavelmente conhecida - o romance entre o poeta John Keats e sua musa, Fanny Brawne, ultrapassa a história da literatura. Havia o risco - essa história 100% romântica teria condições de interessar ao público não necessariamente de língua inglesa? Em Cannes, no ano passado, a diretora Jane Campion admitia que valia a pena ter arriscado. A resposta dos espectadores - jornalistas de todo o mundo - havia superado sua expectativa mais otimista. É verdade que “Bright Star”, traduzido para o português como “Brilho de Uma Paixão”, que estreia hoje nos cinemas, é o melhor filme da autora desde os sucessos do começo de sua carreira, com obras como “Um Anjo em Minha Mesa” e “O Piano”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Fonte:
O Estado de S. Paulo - 25/06/2010


Nos palcos, Clarice, Nara, Simone de Beauvoir e outros

O ritual de preparação leva duas horas, o que inclui a respiração ofegante, o corpo em movimentos bruscos, gritos e mantras entoados sem parar. A maquiagem, produzida delicadamente com a ponta dos dedos, consome mais uma hora e meia. E nada disso transforma Beth Goulart na personagem que encarna em "Simplesmente Eu, Clarice Lispector", monólogo cujo texto e direção ela também assina. "O mais delicado é encontrar o impulso, a emoção, o estado de alma da personagem", conta. "É essa emoção que une uma alma com a outra." Só minutos antes de entrar em cena, fitando a plateia pelas frestas da cortina, a atriz encontra a emoção e o impulso de Clarice Lispector (1920-1977). Essa metamorfose cênica, processo que só se desfaz ao rufar das palmas, é o desafio que mais sete diferentes espetáculos também apresentam nos palcos brasileiros. É uma tendência no circuito teatral: a vida real de escritores, poetas e músicos transformada em dramaturgia. Nara Leão, Simone de Beauvoir, Noel Rosa, Vicente Celestino, Lamartine Babo e Fiodor Dostoiévski são alguns dos personagens que voltam à cena em espetáculos nos quais a ficção e a realidade se misturam.

Fonte:
Valor Econômico - 25/06/2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lorca, por Drummond

Relendo algumas coisas de Drummond me deparei com um poema que até então não conhecia, pelo menos não me lembrava dele, afinal são tantos poemas de Drummond para se lembrar, tantos poemas... Falo de “Invocação com Ternura”, que está em Viola de Bolso. Trata-se de um poema onde o poeta exalta a memória de Federico García Lorca, com versos ao melhor estilo do vate andaluz, octossílabos vazados em uma linguagem cotidiana, eu diria. E diria mais, octossílabos que dispensam a cesura medial com a finalidade de dar ao poema maior flexibilidade, imprimindo-lhe, mesmo assim, um andamento consistente. Espero que gostem.

INVOCAÇÃO COM TERNURA

Poeta humílimo, em ritmo pobre,
todavia me sinto rico
se em Granada diviso a nobre
lembrança de ti,Frederico.

Toda essa árabe, agreste pena
de gitana melancolia,
como, à brisa, se faz serena,
vindo-te nos versos, García!

De um vinho andaluz corre a flama
por sobre a taça que se emborca.
Se mil mortes sofre quem ama,
é de amor que inda vives, Lorca.

E já baixam teus assassinos
a uma terra qualquer e vã,
enquanto, entre palmas e sinos,
tu inauguras a manhã.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fala aí, Raul!

Documentário sobre Raul Seixas em fase de montagem

Em fase de montagem do longa-metragem "Raul Seixas - o Início, o Fim e o Meio", a equipe do documentário incluiu uma cena, no depoimento do escritor Paulo Coelho, em que uma mosca invade o quadro justamente quando ele falava da canção Mosca na Sopa. Ao vê-la, o escritor disse para o inseto: "Fala aí, Raul!".

Fonte:
Folha de S. Paulo - 24/06/2010 - Mônica Bergamo

São João passou por aqui...

Para Elis e Ricardo

No São João do interior do nordeste tudo é muito simples. Há fartura nas mesas e cadeiras na calçadas. Fogueiras são acessas tão logo o sol se põe. Os vizinhos se achegam e perguntam: São João passou por aqui? Sim, respondemos! Formamos quadrilha e dançamos até o amanhecer. Tudo é movido por muita alegria e deliciosos licores. É a festa mais bonita que existe.

noite de são joão –
fogueiras lambendo o céu
ofuscam estrelas.
-

devotas na igreja
agradecem pelas graças –
nos bares cerveja.
-

do mel do cacau
o delicioso licor –
chegou o São João.

27.06.2009

OBS: Essa forma poética é de origem japonesa e conhecida como HAIBUN. Como se pode perceber, o haibun contém um texto curto, em prosa, seguido por um ou mais haikais. A prosa que antecede o haikai geralmente se refere a uma experiência vivida pelo escritor. Alguns autores de haibun preferem escrever a prosa de forma simples e direta, ou ainda compacta, curta ou telegráfica, omitindo verbos, pronomes e outros elementos gramaticais. O objetivo do haikai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, voz ou tempo, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente.