domingo, 27 de junho de 2010

RUMOS ITAÚ CULTURAL LITERATURA

Abertas as inscrições para o edital

Em sua quarta edição, o programa Rumos Literatura é dirigido aos interessados em desenvolver textos reflexivos sobre literatura e crítica literária brasileira contemporânea. A novidade desta edição é a possibilidade de estrangeiros, residentes fora do Brasil, também se inscreverem. O programa busca colaborar no desenvolvimento de potencialidades ao estimular a formação do interessado em literatura na ampliação de sua rede de relacionamentos intelectuais e profissionais e, posteriormente, lançar e divulgar uma publicação com sua produção autoral.

O edital está dividido em duas categorias:
1. Produção Literária, para projetos de ensaio que tratem de um tema relativo à produção literária brasileira a partir do início dos anos 1980.
2. Crítica Literária, para projetos de ensaio sobre a produção crítica na literatura brasileira realizada a partir do início dos anos 1980.

Importante: o interessado não precisa escrever o ensaio final, apenas o projeto que será desenvolvido em 2011, conforme consta no edital.

Prazo de inscrições: foram prorrogadas até 13 de agosto de 2010.

Público alvo: todas as pessoas interessadas nos temas propostos pelo edital, independente do nível escolar e segmento de atuação profissional.

Edital completo:
http://www.itaucultural.org.br/rumos/regulamento_literatura.pdf

. Dentre os prêmios, os selecionados receberão apoio financeiro mensal e remuneração referente ao licenciamento dos direitos autorais do trabalho concluído e aprovado.
. e-mail tira dúvida: rumosliteratura@itaucultural.org.br

Uma Criatura

O poema, em terza rima, é do Machado de Assis, mas poderia facilmente ser atribuído a Augusto dos Anjos

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

sábado, 26 de junho de 2010

Três poemas de Vinícius de Moraes

Vinícius é, sem dúvida, ao lado de Alberto da Cunha Melo, o poeta brasileiro que mais gosto. Sempre achei espetaculares os seus poemas, sobretudo os de amor. Tenho para mim que esses três são os seus melhores.

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
a caminho da Inglaterra, 09.1938


SONETO DA FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril - Portugal, 10.1939


SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Rio de Janeiro, 1951

Três notinhas que valem a pena

Estreia de filme e peça teatral, ambos baseados na vida de escritores + lançamento de livros são destaque na imprensa escrita

Lançamento: Fábula de Saul Bellow

Depois de publicar “As Aventuras de Augie March”, no ano passado, a Companhia das Letras agora lança outro romance clássico de Saul Bellow (1915-2005), “Henderson, o Rei da chuva”, com tradução de José Geraldo Couto. Ambos chegam em traduções notáveis, que reproduzem a escrita cheia de energia e exatidão do autor. Apesar de muito diferentes entre si, os dois livros transmitem o mesmo humor e o mesmo prazer de compartilhamento. “Henderson”, além disso, é escancaradamente filosófico - suas especulações, nas palavras de um crítico, vão do sublime ao absurdo. Como nas melhores comédias. “Augie”, de 1953, e “Henderson”, de 1959, pertencem à primeira fase da obra do escritor, que já era então plenamente reconhecido nos Estados Unidos, mas nem tanto no resto do mundo, o que só viria a acontecer quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1976. Nessa fase inicial, Bellow prestava homenagens e pagava tributos à literatura do século XIX, ainda que nada de anacrônico sobrevivesse ao filtro de seu ouvido musical e atento à fala das ruas.

Fonte:
Valor Econômico - 25/06/2010


Keats foi poeta, sonhou e amou na vida

Na Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia, a história é razoavelmente conhecida - o romance entre o poeta John Keats e sua musa, Fanny Brawne, ultrapassa a história da literatura. Havia o risco - essa história 100% romântica teria condições de interessar ao público não necessariamente de língua inglesa? Em Cannes, no ano passado, a diretora Jane Campion admitia que valia a pena ter arriscado. A resposta dos espectadores - jornalistas de todo o mundo - havia superado sua expectativa mais otimista. É verdade que “Bright Star”, traduzido para o português como “Brilho de Uma Paixão”, que estreia hoje nos cinemas, é o melhor filme da autora desde os sucessos do começo de sua carreira, com obras como “Um Anjo em Minha Mesa” e “O Piano”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Fonte:
O Estado de S. Paulo - 25/06/2010


Nos palcos, Clarice, Nara, Simone de Beauvoir e outros

O ritual de preparação leva duas horas, o que inclui a respiração ofegante, o corpo em movimentos bruscos, gritos e mantras entoados sem parar. A maquiagem, produzida delicadamente com a ponta dos dedos, consome mais uma hora e meia. E nada disso transforma Beth Goulart na personagem que encarna em "Simplesmente Eu, Clarice Lispector", monólogo cujo texto e direção ela também assina. "O mais delicado é encontrar o impulso, a emoção, o estado de alma da personagem", conta. "É essa emoção que une uma alma com a outra." Só minutos antes de entrar em cena, fitando a plateia pelas frestas da cortina, a atriz encontra a emoção e o impulso de Clarice Lispector (1920-1977). Essa metamorfose cênica, processo que só se desfaz ao rufar das palmas, é o desafio que mais sete diferentes espetáculos também apresentam nos palcos brasileiros. É uma tendência no circuito teatral: a vida real de escritores, poetas e músicos transformada em dramaturgia. Nara Leão, Simone de Beauvoir, Noel Rosa, Vicente Celestino, Lamartine Babo e Fiodor Dostoiévski são alguns dos personagens que voltam à cena em espetáculos nos quais a ficção e a realidade se misturam.

Fonte:
Valor Econômico - 25/06/2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lorca, por Drummond

Relendo algumas coisas de Drummond me deparei com um poema que até então não conhecia, pelo menos não me lembrava dele, afinal são tantos poemas de Drummond para se lembrar, tantos poemas... Falo de “Invocação com Ternura”, que está em Viola de Bolso. Trata-se de um poema onde o poeta exalta a memória de Federico García Lorca, com versos ao melhor estilo do vate andaluz, octossílabos vazados em uma linguagem cotidiana, eu diria. E diria mais, octossílabos que dispensam a cesura medial com a finalidade de dar ao poema maior flexibilidade, imprimindo-lhe, mesmo assim, um andamento consistente. Espero que gostem.

INVOCAÇÃO COM TERNURA

Poeta humílimo, em ritmo pobre,
todavia me sinto rico
se em Granada diviso a nobre
lembrança de ti,Frederico.

Toda essa árabe, agreste pena
de gitana melancolia,
como, à brisa, se faz serena,
vindo-te nos versos, García!

De um vinho andaluz corre a flama
por sobre a taça que se emborca.
Se mil mortes sofre quem ama,
é de amor que inda vives, Lorca.

E já baixam teus assassinos
a uma terra qualquer e vã,
enquanto, entre palmas e sinos,
tu inauguras a manhã.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fala aí, Raul!

Documentário sobre Raul Seixas em fase de montagem

Em fase de montagem do longa-metragem "Raul Seixas - o Início, o Fim e o Meio", a equipe do documentário incluiu uma cena, no depoimento do escritor Paulo Coelho, em que uma mosca invade o quadro justamente quando ele falava da canção Mosca na Sopa. Ao vê-la, o escritor disse para o inseto: "Fala aí, Raul!".

Fonte:
Folha de S. Paulo - 24/06/2010 - Mônica Bergamo

São João passou por aqui...

Para Elis e Ricardo

No São João do interior do nordeste tudo é muito simples. Há fartura nas mesas e cadeiras na calçadas. Fogueiras são acessas tão logo o sol se põe. Os vizinhos se achegam e perguntam: São João passou por aqui? Sim, respondemos! Formamos quadrilha e dançamos até o amanhecer. Tudo é movido por muita alegria e deliciosos licores. É a festa mais bonita que existe.

noite de são joão –
fogueiras lambendo o céu
ofuscam estrelas.
-

devotas na igreja
agradecem pelas graças –
nos bares cerveja.
-

do mel do cacau
o delicioso licor –
chegou o São João.

27.06.2009

OBS: Essa forma poética é de origem japonesa e conhecida como HAIBUN. Como se pode perceber, o haibun contém um texto curto, em prosa, seguido por um ou mais haikais. A prosa que antecede o haikai geralmente se refere a uma experiência vivida pelo escritor. Alguns autores de haibun preferem escrever a prosa de forma simples e direta, ou ainda compacta, curta ou telegráfica, omitindo verbos, pronomes e outros elementos gramaticais. O objetivo do haikai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, voz ou tempo, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Testamento, de Manuel Bandeira

Sou absolutamente incapaz de apontar o poema de Manuel Bandeira que mais gosto. São tantos, a começar por Vou me embora pra Pasárgada, Boi Morto, Consoada, O último poema, Bacanal... Ah, são tantos e tão belos poemas!
Ocorre que, como de praxe, relendo-o aleatoriamente, deparei-me com Testamento, um poema de 1943, onde o poeta, entre outras coisas, fala sobre não ter tido filhos. Parece-me um poema sobre a frustração, mas em contraste. O poeta transforma o que lhe falta em riqueza, em poesia, aquilo de mais grandioso que pode oferecer.
Esse poema, na tarde de ontem, me pegou de cheio, contrasta pelo avesso com o momento que vivo. Se por um lado tenho me deliciado diariamente com minha filhinha recém-nascida, por outro, quando leio Bandeira enxergo exatamente o poeta que gostaria de ser.

TESTAMENTO

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Prêmio da ABL para tradutor sob suspeita

Tradutores veem erros em obras do vencedor de Prêmio da ABL

A Academia Brasileira de Letras, três anos após causar espanto ao dar seu prêmio máximo, o Machado de Assis (R$ 100 mil), ao economista Roberto Cavalcanti de Albuquerque, que escreveu um livro em conjunto com Marcos Vinícios Vilaça, presidente daquela instituição, volta a ter uma de suas premiações no centro de uma polêmica. Tradutores apontaram erros que consideram "inacreditáveis" no trabalho do vencedor da categoria "tradução", o médico pernambucano Milton Lins, e contestam os critérios para a escolha dos laureados – que ocorre por indicação, e não por inscrição. Num poema do franco-uruguaio Jules Laforgue, em Pequenas traduções de grandes poetas-Volume 4, Lins traduz o que seria "têmpora" como "tampa" e transforma "fresca" em "frete". Os equívocos foram revelados pela tradutora Denise Bottmann, no blog Não gosto de plágio (link ao lado), e críticas ressoaram no meio. "São sandices completas, não têm nada a ver [com o original]”, afirmou Jório Dauster, tradutor de Nabokov e Salinger. Integrante da diretoria da Associação Brasileira de Tradutores, Joana Canêdo definiu os erros como "aberrantes". Criado em 2003, o prêmio de tradução da ABL já foi dado a Boris Schnaiderman (2003), Bárbara Heliodora (2007) e Paulo Bezerra (2009), entre outros.

Vencedor foi indicado por Ivan Junqueira e é colega de Vilaça na Academia Pernambucana de Letras

Colega do presidente da ABL, Marcos Vinícios Vilaça, na Academia Pernambucana de Letras o médico Milton Lins, 82, é um tradutor tardio. Começou aos 71 anos. Usa a aposentadoria para exercer a paixão, e já publicou, em edições de autor, dez livros com traduções. Questionado sobre os erros, disse: "É possível que eu tenha feito algumas variações. Mas não fui eu quem me premiei. Se eu fosse julgar, não me premiaria". Ele foi indicado pelo imortal Ivan Junqueira, que integrou, com Carlos Nejar e Evanildo Bechara, a comissão responsável pelo prêmio. Nem Junqueira nem Nejar souberam dizer de pronto quais foram os outros indicados ao prêmio - ambos disseram não lembrar. Num segundo contato, Junqueira afirmou que no primeiro telefonema tivera "um branco". "Mas agora lembro. Pensamos em Rosa Freire d'Aguiar, descartamos porque é viúva de Celso Furtado [que foi acadêmico]; em Leonardo Fróes, mas ele já ganhou; e em Paulo Henriques Britto, mas no ano anterior ele não tinha publicado [pré-requisito]".

Fonte:
Folha de S. Paulo - 19/06/2010

Tal questão não chega a nos causar espanto, pois aqui na Bahia o que bem temos são indícios de favorecimento de amigos por pessoas envolvidas tanto na promoção quanto no julgamento de obras literárias em concursos. Recentemente, o caso mais comentado foi o resultado do 4º Prêmio Wally Salomão de poesia, promovido pela Academia de Letras de Jequié, onde teriam sido premiados três poetas muito próximos de José Inácio Vieira de Melo, acadêmico daquela instituição, organizador do concurso e um dos jurados.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

no campo inimigo
o perigo tem um nome –
luís fabiano