segunda-feira, 14 de junho de 2010

Morreu Massao Ohno

Morreu na madrugada desta sexta-feira para sábado, de câncer no pulmão, o editor Massao Ohno, aos 74 anos. Pioneiro da edição independente no país, Ohno firmou-se publicando, sobretudo, livros de poesia, em edições de grande apuro gráfico.
Além de autores como Roberto Piva, Jorge Mautner e Hilda Hilst, também editou parte importante da poesia haikaística brasileira. Entre as obras de destaque estão a primeira antologia do haikai brasileiro e também latinoamericano.
Ohno também foi co-produtor de filmes brasileiros, o de maior destaque é "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), de Rogério Sganzerla.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

MONÓLOGO DE DON JUAN

Poema vencedor do Prêmio Bahia de Todas as Letras

Para Tirso de Molina, naturalmente

I

Desejo todas as mulheres
antes mesmo de as conhecer,
eu sou o pastor dos poentes,
o que as leva ao amanhecer;

são mulheres de fino trato
com olores e todo aparato

de lobas em pele de santas,
de putas com os seus pudores
e aquela nudez sacrossanta

vestida de lírio e de orvalho,
de lua e luar pro meu malho.

II

Levadas ao vinho e à mesa
de orgulhosas nunca se fazem,
sabem que o pecado é do corpo,
que a alma pura todas trazem;

pois se há abundância de afeto
lógico é dar-lhe o fim correto,

servir a quem delas precise
e delas se fazem cativos
antes que o ardor agonize,

que o fogo repouse no tempo
e a chama se esvaia no vento.

III

Infinitos por natureza
desejo e cobiça prosperam
onde florescem as paixões,
os prazeres que nos esperam,

as manhãs onde o corpo é luz
e exala o aroma que seduz:

a leveza do novo dia
escorre sobre seios fartos
onde, voraz, a alquimia

de dois corpos entrelaçados
louva os valores remoçados.

IV

O amanhã deve ser agora
o avesso da nossa existência,
e dela o que restar será
produto de eterna imanência,

o que fizermos e o que somos
hoje, tudo ao que nos expomos,

pois hoje é o dia do presente,
de olhar nos olhos da verdade
e concordar que se apresente

em cada corpo um novo porto,
ou então, um sedutor morto.

V

No tártaro estarei tranquilo
frente ao meu fatal julgamento,
nenhum drama, nenhuma culpa,
nos ombros nenhum sofrimento

me descobrirá arrependido,
meu olhar no espaço, perdido,

não poderá ser apontado,
pois a mim quase nada importa
ter a muitos desapontado:

se acaso Perséfone encontrar
um beijo seu eu vou roubar.

VI

E se no céu me deparar
não será por força divina,
mas ao certo, por honra e glória
de alguma santa libertina,

alguém que aspire viver,
amar e lutar por prazer,

por um membro sempre ao seu lado,
em riste, bélico, ardiloso,
no corpo de um Eros alado:

a imagem plena do poeta,
o encontro do alvo e sua seta.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Questão polêmica

Quando o escritor norte-americano Nicholas Carr (foto) começou a pesquisar se a internet estava arruinando nossas mentes, assunto de seu novo livro, ele restringiu seu acesso à internet, deu um tempo no e-mail e desligou suas contas no Twitter e no Facebook. Em seu novo livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains (W. W. Norton & Company, 276 pp., US$ 26,95), ele diz que a rede está nos privando da capacidade aprofundada de raciocínio. “Minha falta de habilidade em me concentrar era uma grande falha. Por isso deixei o Twitter e o Facebook e voltei a checar e-mail apenas algumas vezes por dia, em vez de a cada 45 segundos”. Apesar de inicialmente se sentir “perplexo” com sua repentina ausência de conexão, Carr disse que em algumas semanas ele já estava apto a manter o foco em uma única atividade por um longo período de tempo e, felizmente, pronto para seu trabalho. Seu livro examina a história da leitura e a ciência de como o uso de diferentes mídias afeta nossa mente. Explorando como a sociedade passou da tradição oral para a palavra escrita e depois para a internet, ele detalha como nosso cérebro se reprograma para se ajustar às novas fontes de informação. Ler na internet mudou fundamentalmente a forma como usamos nosso cérebro.

Fonte:
O Estado de S. Paulo - 07/06/2010

DEBATE SOBRE CULTURA NA UESC

Após onze anos, acontece o 3° Congresso de Estudantes da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, com o tema "(Re)construindo e democratizando a Universidade". De 10 a 12 de Junho, no Auditório Paulo Souto.
Esse tipo de atividade é o fórum máximo de deliberação do Movimento Estudantil da UESC, no qual os principais objetivos são unificar e fortalecer, através da interação entre os estudantes dos diversos cursos; além de elaborar coletivamente o novo estatuto do DCE.
Para tanto, haverá uma programação científica, política e cultural bastante diversificada. Participarei de um importante debate sobre Cultura, na sexta-feira, entre 9 e 11hs, ao lado da Deputada Federal Alice Portugal e do Presidente da UNE.

As inscrições são gratuitas (podem ser feitas na sede do DCE-UESC) e dão direito a certificados de 20 horas para quem participar de pelo menos 75% da programação.

No sábado, dia dos namorados, o encerramento cultural será sob o comando da banda Zabumbahia, do meu amigo Luciano de Lucas, a partir das 13:00 horas, no Inferninho.

Dúvidas e informações:
dce@uesc.br / (73)3680-5092
Contatos:
Lucas "Índio": (73) 8805-1386
Thiago: (73) 8108-4559
Manuela: (73) 8858-8073

Mais informações: http://www.uesc.br/

terça-feira, 8 de junho de 2010

Flores de Cerejeira

Aspectos do haikai no Brasil

O Kasato Maru, primeiro navio a aportar no Brasil com imigrantes japoneses, segunda a historiografia oficial em 18 de Junho de 1908, trouxe consigo 165 famílias que vinham trabalhar nas fazendas de café no oeste paulista, mas não há registros que confirmem tenham trazido a pedra fundamental do haikai para o nosso país.

Confira o texto de nossa autoria, na íntegra, na revista Zunái. Eis o link: http://www.revistazunai.com/materias_especiais/haicais/gustavo_felicissimo_floresdecerejeira.htm

Confira também uma breve seleção de haikais de autores brasileiros: http://www.revistazunai.com/materias_especiais/haicais/gustavo_felicissimo_breveantologia.htm

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ilhéus 40°

Por Ildásio Tavares
Ildásio Tavares, Gustavo Felicíssimo e Heitor Brasilero Filho

Gustavo Felicíssimo me intima para ir a Ilhéus proferir uma conferência sobre a poesia de Sosigenes Costa, o Bardo de Belmonte. Por isso digo que me intima. Pela atraente grandeza da poesia do belmontense e pelo dever da amizade. Gustavo, do início da nossa amizade, cresceu na minha admiração e no meu afeto pelo verdadeiro sacerdócio que vem exercendo em prol da literatura; em prol da cultura e que, na condição de Diretor da Fundação Cultural de Ilhéus teve a sorte de achar um prior na figura elegante e dinâmica de Mauricio Corso.
Minha conferência estava inserida num evento que culminou com a entrega do prêmio Bahia de Todas as Letras, pelos dois importantes editores, a afabilíssima Baísa Nora, Diretora da Editus, a editora da UESC, e o Agenor Gasparetto, como é conhecido afetuosamente um gaucho de origem Italiana, fixado e transformado em grapiúna, diretor da Via Litterarum, editora tradicional da região. O prêmio é bancado pela Fundação Chaves com todo Apoio da Fundação Cultural de Ilhéus. Concorridíssimo, o prêmio este ano foi abiscoitado por muitos escritores jovens de diversas cidades do estado, e se reveste de maior importância porque além da premiação em dinheiro, estas editoras publicam em livro os trabalhos premiados. Isto, sem dúvida, constitui um relevante incentivo aos escritores emergentes que, hoje em dia, encontram pouco espaço para publicar seus trabalhos.
Destarte, Ilhéus salta à frente das demais cidades no prestígio à cultura. Fiquei sinceramente impressionado com o empenho da Presidência e de toda diretoria da Fundação de estimular a cultura. O Quartel General do evento foi o magnífico Teatro Municipal, com sua fachada Art Nouveau e seu recheio de um amplo palco com uma boca de cena de 7,5m e lugares para cerca de 500 espectadores, sentados em poltronas requintadas, dotado o teatro de um potente serviço de ar condicionado que chega a fazer frio se regulado a capricho.
O evento foi pontilhado de cenas teatrais, inclusive aberto por um palhaço vestido a caráter que arrancou risos da platéia. Foram tantos os conferencistas e de tão alto nível que neste espaço mal caberia para todos.
Pawlo Cidade, Diretor da Fundação lançou uma coleção de livros infanto-juvenis, com belas capas e ilustrações. Nisso tudo, Gustavo não parava pra baixo e pra cima, orquestrando a produção do evento, transportando os convidados, hospedando-os em hotéis sofisticados no Pontal que logo me trouxe um mundo de recordações. 1954, Av. Soares Lopes, 484, meus tios Auto Marques e Mariá, uma imensa rencada de primos irmãos, os Tavares Marques, eu Marques Tavares – Entendam, um caso comum no interior de casamento de dois irmãos com dois outros irmãos, Tio Auto irmão de minha mãe, tia Mariá irmã de meu pai. A gente atravessava o Pontal a nado. No primeiro dia eu tremi de medo. Mas meus primos já iam longe e eu não podia dar parte de frouxo. Pescávamos siris no cais antigo com tripas de galinha, um jereré, e uma lata de gás que levávamos cheia. E a beleza de Ilhéus.
Jéssica a mais velha de minhas meninas ficou encantada. Tirou inúmeras fotos de um alto de onde se avista a baía do Pontal. Abri minha palestra lendo um artigo sobre Jorge Amado que ali morou, estudou e ambientou seus romances imortais. Pra arrematar, a Fundação me levou pra almoçar no Vesúvio e jantar no Bataclan. Beleza pura.
Até logo Ilhéus, minha capital. Sou grapiúna. Meu umbigo está enterrado em Gongogi. Até logo.

domingo, 6 de junho de 2010

HAIBUN PARA FLORA

A flor desprendida do galho é uma tentativa de voo, e cada voo é sempre maior que o galho do qual a flor se desprendeu. Há no ar, levado pelo vento, um jardim de flores múltiplas aprendendo a voar.

borboletas são flores
que afinal foram voar –
voa, minha flor!

-

uma flor pousou
na minha vida de poeta –
eu sorri pra ela.

sábado, 5 de junho de 2010

SILÊNCIO DA TARDE

novo livro da haikaísta Benedita Azevedo

Para quem não sabe, Benedita Azevedo é uma das mais talentosas e atuantes haikaístas brasileiras. Seus haikais seguem o cânone tradicional e como só assim poderiam ser, são frutos da vivência da autora.
Como afirma Douglas Eden Brotto: “É nesse gênero poético que Benedita, dedicada professora, mostra realmente ser mestra: modestamente, revive sua antiga experiência de aluna-aprendiz, maravilhando-se com a intensa carga emotiva contida nas duas singelas frases que compõem o haikai. Aceitando naturalmente a brevidade, logo descobre a importância da concisão naquele texto exíguo: com um mínimo de palavras, expressar verbalmente apenas um esboço da cena, sem ornamentos, desprovido de adjetivos (...).

Alguns haicais inseridos na obra:

Ao romper da aurora
o sabiá dobra seu canto –
Só isso me basta.

-

Chega o Ano Novo –
Acenam do portão
os filhos e os netos.

-

Os trilhos do trem
vazios sob a neblina...
Só resta a lembrança.

-

Dia de Santo Antônio –
Será que há tantos solteiros
quanto velas acesas?

-

Silêncio da tarde -
Somente acordes de um piano
na reunião de maio.

Site da autora:
http://www.beneditaazevedo.com/

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ildásio Tavares leva o Prêmio do Pen Clube de Portugal

Foi Adelmo Oliveira que na terça-feira cedinho me deu a noticia, mas nem o poeta sabia ao certo os detalhes da premiação. Ildásio, que esteve comigo em Ilhéus por três dias participando do Bahia de Todas as Letras, levou o prêmio com o livro “Flores do Caos”, editado em Portugal pela Labirinto, uma editora que apenas publica poesia. Tive o prazer de ler essa obra ainda antes da publicação e sobre ela fiz uma palestra na Academia de Letras da Bahia, dentro do evento Encontros Literários, onde também falei sobre a obra de Myriam Fraga.
Sempre digo ser impossível se ater à história da literatura baiana no Século XX sem se dedicar demoradamente a Ildásio Tavares. É tão vasta a sua obra, sua formação e suas incursões literárias que seria inviável e extravagante discorrer sobre essa questão. Ildásio Tavares estréia na poesia no ano de 1967, com poemas inseridos na antologia Moderna Poesia Bahiana. Seu primeiro livro veio ao público em 1968, “Somente Canto”, a esse seguem-se outros, entre os quais se destacam: “Tapete do Tempo”, 1980; “IX Sonetos da Inconfidência”, 1997; o moderno “Odes Brasileiras”, de 1999; e “Flores do Caos”.

DOIS POEMAS DE ILDÁSIO TAVARES

O MEU TEMPO

Não existe hora certa, existe o meu relógio,
Lembrando sempre com seu tic-tac
Que há vida
Para ser vivida,
Que houve a vida
Que não se viveu.
Não importa que o rádio renitente ruja
São tal hora e tal minuto,
Hora oficial,
Afinal,
Que há de oficial em minha vida?


RESTOS

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser, se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Prêmio Camões 2010 é de Ferreira Gullar

Isso mesmo. O bom Ferreira Gullar recebeu a mais importante premiação literária de língua portuguesa. O poeta almoçava em um sugestivo local, chamado Sítio do Pica Pau Amarelo, na cidade de Monteiro Lobato, quando foi comunicado ontem de que vencera o Prêmio Camões, o mais prestigioso da literatura em língua portuguesa. "Estava justamente comentando sobre a magia dessa região, onde Lobato nasceu, quando recebi um telefonema", contou.
"É para um grande homem da lusofonia que o Prêmio Camões rende homenagem", declarou em uma coletiva à imprensa a ministra portuguesa de Cultura, Gabriela Canavilhas.
Ferreira Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas em 1949. "Dentro da noite veloz" e "Poema sujo", da década de 1970, figuram entre suas obras mais importantes.
O Prêmio Camões, de 100 mil euros, foi criado em 1988 por Portugal e Brasil para homenagear autores lusófonos que tenham contribuído para enriquecer o patrimônio cultural e literário de língua portuguesa.

Veja a lista completa de ganhadores do Camões. Só tem fera:

1989 - Miguel Torga, Portugal.
1990 - João Cabral de Melo Neto, Brasil.
1991 - José Craveirinha, Moçambique.
1992 - Vergílio Ferreira, Portugal.
1993 - Rachel de Queiroz, Brasil.
1994 - Jorge Amado, Brasil.
1995 - José Saramago, Portugal.
1996 - Eduardo Lourenço, Portugal.
1997 - “Pepetela” - Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, Angola.
1998 - Antonio Candido, Brasil.
1999 - Sophia de Mello Breyner, Portugal.
2000 - Autran Dourado, Brasil.
2001 - Eugénio de Andrade, Portugal.
2002 - Maria Velho da Costa, Portugal.
2003 - Rubem Fonseca, Brasil.
2004 - Agustina Bessa-Luís, Portugal.
2005 - Lygia Fagundes Telles, Brasil.
2006 - José Luandino Vieira, Portugal/Angola (o autor recusou o prêmio).
2007 - Antonio Lobo Antunes, Portugal.
2008 - João Ubaldo Ribeiro, Brasil.
2009 - Arménio Vieira, Cabo Verde.
2010 - Ferreira Gullar, Brasil.

Fontes:
Jornal A Tarde / Estadão

DOIS POEMAS DE FERREIRA GULLAR

MEU PAI

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro


CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.