quinta-feira, 6 de maio de 2010

Duas sugestões de leitura

1ª - Quatro poemas de Henrique Wagner, um dos poetas e críticos da minha geração que mais admiro. Eis o link: http://poesiadiversidade.blogspot.com/

2ª - Prefácio que escrevi para “Rascunhos do Absurdo”, novo livro do poeta capixaba Jorge Elias Neto, publicado no Portal Cronópios. Eis o link: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4543

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cordel & Cantoria em Ilhéus

Começa hoje pessoal, vamos prestigiar!

confira a programação completa
clique na imagem para vê-la em tamanho maior

Com o objetivo de divulgar o trabalho artístico dos nossos Cantadores e Cordelistas, a Casa dos Artistas, com o apoio da Fundação Cultural de Ilhéus, apresenta CORDEL & CANTORIA, uma festa da nossa cultura popular que se realizará em todas as quartas-feiras do mês de Maio. Trata-se mais uma vez de uma atividade lítero musical, um desdobramento do Rock & Poesia, devido o grande sucesso e repercussão alcançada.

Dessa vez, cantadores e cordelistas dividirão o palco da Casa dos Artistas em busca da simbiose perfeita entre música e literatura popular, nutrindo de brasilidade o espectador com vozes destacadas da nossa cultura, mesclando o erudito e o popular dentro da tradição da depuração de estilos e virtuosismo, tanto instrumental como literário, numa travessia que vai se inscrevendo no tempo, ligando a cultura ao seu povo.

Nos diálogos que acontecerão, perceberemos o quanto nossos artistas, tanto os mais jovens quanto os mais experimentados, dignificam e ressignificam a nossa cultura popular.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Rascunhos do Absurdo, novo livro de Jorge Elias Neto

Capixaba, de Vitória, Jorge Elias Neto lança nesta sexta-feira, 07 de Maio, seu segundo livro, “Rascunhos do Absurdo”, na Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo. Sua busca se inicia com a questão ontológica basilar: o sentido do ser. Sua obra poética é marcadamente filosófica, metafísica e existencialista, partindo da realidade vivida para a apreensão de um sentido maior, através da poesia.
Foi, para mim, motivo de enorme alegria receber de Jorge Elias Neto o convite para a preparação dos seus poemas, pois trata-se, sobretudo, de um poeta que é um formidável esteta, criador de imagens cortantes, observador e crítico da condição humana.


A prazo


Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do indivíduo.

Será que não vêem
no meu ante-braço
o carimbo de “pago”?


A dor do corte


Violei o túmulo de minha mãe antes da sua morte.
Dilapidei o que já eram escombros.

Cobrei dela as palavras
com que me lavava os cabelos.

A palavra “verdade” – por exemplo.


Micro entrevista com o poeta

Gustavo Felicíssimo – Jorge, o exercício da cardiologia, uma área tão delicada da medicina, foi que te trouxe esse arsenal existencialista impresso na sua poesia, ou isso é algo inerente ao seu ser?
Jorge Elias Neto
- Quando pequeno, muito me chamou a atenção a estória de David Copperfield que desde a mais tenra idade teve que lidar com a idéia de morte e de perda. De alguma forma, ficou em mim incutida a impressão que eu deveria ser uma pessoa forte a lidar com a morte e que, em algum momento, me confrontaria com a “inesperada das gentes”. Percebi, com o tempo, que essa tarefa não me seria assim tão fácil...
Tornei-me médico, lidei com inúmeros casos graves, presenciei, ao longo dos últimos 25 anos, as diversas formas como o homem, à beira da morte, bem como os seus convivas, enfrentavam esse momento único e, para mim, definitivo (a verdade básica da vida).
E esse enfrentamento tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva que “sempre chega pontualmente na hora incerta”. Passei a entender a relevância desse entendimento na minha formação como homem. Li as reflexões nos Ensaios de Montaigne, n’O sofrimento do jovem Werther, de Goethe, Nietsche, Kant, Camus e fui fazendo meu percurso.
Hoje, tenho a tendência a crer que a morte é branca, que é o nosso retorno à irracionalidade e à nossa perfeita integração ao caos universal. Entendi que esse absurdo – a coexistência entre o homem e o universo –, só vale a pena se repisarmos cada segundo e que, para mim, já não é mais permitido o alento da religião. É difícil, eu sei, mas esse é o meu caminho.
Daí minha poesia ser carregada de questões metafísicas, existencialistas. Nela busco expressar minhas meias-verdades.
"Ninguém deixou de sentir alguma vez que o destino é poderoso e estúpido, que é inocente e também inumano. Para essa convicção, que pode ser passageira ou contínua, mas que ninguém evita, podemos escrever nossos versos" Jorge Luis Borges

GF- Em que medida você vê o poeta marcado pelos elementos do mito de Sísifo?
JEN
- Por que viver? Em um poema onde retrato o suicida, eu narro um fato real. Um amigo “comum”, trabalhador, bem situado profissionalmente, do tipo “família”, após realizar sua grande obra profissional – suicidou-se. Retirei seu corpo do mar juntamente com dois amigos: um ascético extremo e um espírita. Naquele momento, olhei meu amigo morto e observei a reação de meus outros amigos. No meu caso, me pareceu clara a decisão dele: cansou-se da rotina de rolar a vida e, ao constatar o absurdo de viver, decidiu dar o salto para o nada.
Como disse Nietsche: “Cada um tem a verdade que é capaz de suportar”.
Quanto ao poeta?... Bem, o poeta, como todo ser humano, é marcado pelos elementos do mito de Sísifo.
O poeta é o protótipo do herói absurdo, tal qual Sísifo. A poesia se faz da vida do poeta, dos seus “guardados”. Respondo esta questão à partir do meu entendimento: optei pela vida e tento levá-la da forma mais intensa possível – tento insistentemente entendê-la.
Rolo as pedras, e coloco em minha poesia meu processo de aprendizado. Quanto a ser um médico ou um poeta, para ambos é necessário o fazer diário, mas com o prazer comedido do eterno aprendiz.
Acho que o poeta é um felizardo ao conseguir, nos momentos em que se encontra no limiar da melancolia, ter a possibilidade de externar seus pensamentos na forma de poema.
Desculpem-me os que vêem a poesia de uma forma mecanicista, mas creio na poesia que parte de uma emoção (com consciência e sem pieguices, é claro).

GF - Não te pedirei escolhas entre a poesia e a medicina. Mas, pegando uma carona em Rilke, eu te pergunto: serias capaz de viver sem uma ou outra atividade?
JEN
- Não. Na minha adolescência iniciei uma pausa de 25 anos em relação ao fazer poético, período este totalmente dedicado a minha formação profissional, durante o qual tudo que escrevi foram textos médicos.
Certo dia, retomei a poesia e sinto que ela também passou a ser essencial no meu sentido de estar vivo. É óbvio que, apesar dos avanços na medicina cada vez aumentarem minha possibilidade de manter-me ativo profissionalmente, tornar-me-ei um profissional ultrapassado, mas isso é algo natural.
Quanto ao poeta, este ainda é muito jovem e pleno de incertezas e imperfeições. Espero que meus conhecimentos como médico, apesar das idiossincrasias cometidas, permitam-me uma terceira idade madura na poesia.
Penso que ambas, a poesia e a medicina, me permitirão um legado sem tragédia.

Sobre o mito de Sísifo


A labuta não respeita o portal das casas.
Dentro e fora – rolam-se pedras.

– Avisem-me
quem joga o bilboquê de pedra
dos dias.

E segue o homem-bastão
entre romper o barbante
ou deixar que lhe caia sobre a cabeça
o peso da tomada de consciência.

O homem é um ser interrompido.

Seja no curtume das horas
ou nas contas do terço,
ele sempre se agasalha
com a tênue esperança.

“roda peão,
bambeia peão...”
No absurdo de agora
e à espera da vida eterna,
Amém!

Quem quiser adquirir o livro poderá entrar em contato com o poeta através do seu blog, cujo endereço é o seguinte:
http://jeliasneto.blogspot.com/

Leia o prefácio que escrevemos para Rascunhos do Absurdo em: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4543

sábado, 1 de maio de 2010

A Pele de Esaú, novo livro de Silvério Duque

Caríssimos leitores, na próxima quinta-feira, 06 de Maio, será lançado em Feira de Santana, A Pele de Esaú, de Silvério Duque, pela Via Litterarum. Trata-se da obra de um dos melhores poetas da minha geração, um autor que faz jus à tradição de grandes poetas que a Bahia legou ao Brasil. Abaixo, um texto nosso que foi inserido na orelha do livro.

Creio na existência de dois tipos de leituras: a erudita, revelada por autores preocupados em dar ao texto um valor de interesse fundamental; e a vacilante, que engloba as leituras que proporcionam intelecção abstrata, não conferindo nenhuma sacralidade à obra lida. Certamente os poemas deste A pele de Esaú, de Silvério Duque, se inserem dentre aquelas do primeiro tipo, pois foram baseados em uma narrativa bíblica antiquíssima (sobre a qual Ildásio Tavares discorre muito bem no prefácio da obra), fonte de enigma e sabedoria.
Vale lembrar que nada na trajetória humana foi capaz de inspirar tantas obras de arte, tantos artistas, nas mais diferentes latitudes e longitudes do mundo ocidental, do que a bíblia. Levando-se em conta que o livro sagrado do cristianismo está no centro da nossa civilização, estranho seria se não fosse assim. E foram muitos os poetas que nela ou no cristianismo se inspiraram, com interesses e motivos vários, de diversas estirpes e épocas distintas, como Camões ou Bruno Tolentino, de quem se pode ouvir o eco na poesia de Silvério Duque, passando por Antero de Quental e Jorge de Lima, até encontrarmos o frescor de A pele de Esaú, uma obra dada ao leitor contemplativo, pois favorece a um recolhimento que possa proporcionar a reflexão adequada em relação ao universo circundante à obra.
Após ler os primeiros poemas deste livro percebi claramente que não se tratava de um compêndio qualquer de poesia, mas de uma obra refinada, alquímica, tecida com engenho e arte, em que o poeta apresenta-nos uma alternância riquíssima de perspectivas e expressões dramáticas do contrário, bem diversa e não apenas catártica, resultando em um canto verdadeiro, uma unidade e uma realidade concreta, não apenas a história evocada, objeto de meditação, mas os dramas pessoais do autor, suas vicissitudes, sonhos e desilusão. Enfim, uma obra muito superior ao que nos vem sendo apresentado pela maioria dos nossos contemporâneos.
Se pudesse resumir A pele de Esaú em uma única palavra, eu diria: inefável!

A pele de Esaú (Poema 04)

E o que eu adoro em ti é a tua carne,
porque tudo o que é vivo se deseja;
assim, desejo em ti o meu tormento
que há-de crescer na proporção do tempo.

O que eu almejo em ti é a tua sombra,
pois toda boca habita as mesmas vozes
que hão-de tecer com gritos o teu nome
na tarde azul tragada pela noite.

Beijo o teu rosto como se existisse
algum lugar pr’além do Precipício,
e, junto ao gosto de teu lábio esquivo,

uma palavra, sobrescrita em sangue,
há-de adornar o verso em que eu me esqueço
e há-de extirpar, do amor, a fúria imensa.

OBS:
1) A Pele de Esaú poderá ser adquirido em breve através do site da editora, que é o seguinte: http://www.vleditora.com.br/

2) Confira outros poemas de Silvério Duque em: http://poesiadiversidade.blogspot.com/2010/04/apresentacao-do-poeta-silverio-duque.html

3) A belíssima ilustração da capa é do artista plástico Gabriel Ferreira.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Língua e Linguagem, por Ildásio Tavares

Trechos de um texto ainda inédito

O grande criador esmera-se por sua obra. O criador pequeno esmera-se pela sua pessoa; pela sua vaidade; pelo seu reconhecimento.
Com exceções. Sabedores da sua fragilidade, os criadores pequenos se juntam, em clubes, associações, academias, sociedades, ao lado até de grandes criadores. Conquistam o poder artístico e passam a exercer a tirania seletiva do compadrio e do tráfico de referência, da corriola do elogio mútuo, discriminando quem não os bajula, mesmo que tenham mais talento do que eles; discriminando mais esses aí que lhes são perigosos e os podem desmascarar. Sua obra é breve e de pouco fôlego.

A literatura se perfaz de textos, não de comendas, prêmios, honrarias. Ao redor de todos grandes criadores sempre houve uma caterva de medíocres sugando seu axé, adjetivos aparecendo à custa do substantivo de outrem. Querem enfatizar o subjetivo da arte até um conceito para ocultar a fragilidade de seus textos; valorizar a fachada.

Alberto da Cunha Melo, sempre

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terça-feira, 27 de abril de 2010

O mariliense grapiúna: a poesia viva de Felicíssimo

Entrevista concedida ao jornalista e escritor Ramon Barbosa Franco e publicada neste último domingo, 25, no Caderno 2 do Jornal da Manhã, de Marília, minha cidade natal.

Seu nome é Gustavo. Seu sobrenome Felicíssimo. Ele nasceu na rua Rio Claro, no bairro Cascata. Estudou no antigo colégio Tomás Antônio Gonzaga. Tomás Antônio Gonzaga não foi poeta? Não é o autor da época de Tiradentes, e assim como tal, inconfidente? Não escreveu ‘Marília de Dirceu’? Sim, Tomás era poeta e autor do poema que deu nome ao município de Marília, cidade natal de Gustavo Felicíssimo. Hoje ele anda feliz em outras terras, nas mesmas terras de cacau, de suor e da prosa de Jorge Amado: nas terras grapiúnas da Bahia, terras de todas as letras, poesia e romance.
Sua paixão pela leitura, pelos livros e pela poesia o levou a ser uma referência, uma mão-de-obra altamente qualificada para o mercado editorial e assim ele segue, trabalhando, estudando e escrevendo entre Ilhéus e Itabuna, percorrendo os locais que vivem nas obras de Amado, imortalizado pelas letras, pelo cinema e pela televisão.
“Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com ‘O País do Carnaval’, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira”, comentou Felicíssimo em entrevista que nasceu a partir de um homem cuja trajetória ligou Bahia e Marília: Osório Alves de Castro (1901-1978). Osório fez a migração Bahia-Marília, Gustavo Felicíssimo percorreu o inverso Marília-Bahia.
Ao deixar Marília, o poeta não deixou sua alma literária. Além de ser batizada por um poema, a cidade é um dos berços da imigração japonesa no país e um dos redutos do haikai. Não é à toda que bem no jardim da Prefeitura Municipal, além da estátua do dito benemérito Bento de Abreu, há um momento em homenagem aos imigrantes japoneses com o poema haikai de Tenson, um poeta imigrante de talento reconhecido no Japão. O poeta mariliense grapiúna vem ampliando a interpretação brasileira sobre o haikai, tudo graças aos seus estudos e textos sobre este micropoema japonês. Ainda neste ano Felicíssimo publicará ‘Dendê no Haikai’, ensaio sobre a evolução do haikai na Bahia. Outros projetos literários consistem na realização da Festa Literária de Ilhéus e o resgate da obra completa do alfaiate e romancista Osório. O projeto, encampado pela editora Via Litterarum, pretende publicar além das três obras do baiano que entre as décadas de 40 e 60 viveu em Marília (‘Porto Calendário’, ‘Maria Fecha Porta Prau Boi Não te Pegar’ e ‘Bahiano Tietê’), outras duas inéditas (‘Nhonhô Pedreira’ e ‘A cidade do velho’). Os manuscritos estão com a família e deverão ser cedidos para a editora.

Entrevista

1) Gustavo Felicíssimo, você é nascido em Marília e vive na Bahia. Conte um pouco da sua trajetória de vida na cidade e quando você passou a se interessar pela literatura?
GF
– Nasci na Rua Rio Claro, no bairro Cascata, onde passei toda a infância e adolescência. Estudei no Tomaz Antônio Gonzaga e fui interno do Educandário Bento de Abreu. Ali passei anos maravilhosos, dali trouxe para a vida princípios que são a base de todo ser humano e os utilizei quando me encontrava em risco social. Minha infância foi das mais ricas: empinava pipa, rodava pião, jogava bilboquê, tomava banho na represa da Fazenda Cascata, espantava bois e vivia como doido atrás de uma bola. Esse período sobrevive impresso na minha memória, por consequência, na minha poesia.
Meu interesse pela leitura vem dessa época, quando li obras como O menino do dedo verde, O sítio do pica-pau amarelo, O escaravelho do diabo. Entretanto, nada de poesia. Foi na Bahia que a descobri. Aqui minhas leituras foram ficando mais sofisticadas e mesmo sem nunca ter lido um único livro de poesia começava a rabiscar alguns versos, garatujas, como só assim poderiam ser naquele momento. Foi quando uma namorada presenteou-me um caderninho amarelo, de capa dura, que tenho até hoje guardado, sugerindo que ali anotasse meus escritos, pois desse modo, afirmava com razão, poderíamos perceber se haveria alguma evolução ao longo do tempo. Foi o que fiz. Depois daquele caderninho vieram outros, uns dez, todos conservados até hoje. No primeiro deles, nostalgicamente, leio os seguintes versos, inocentes versos, mas que dão conta exata da dimensão que a poesia assumiria em minha existência: “Pedaços da minha vida/ Parte do meu caminho/ Meu mundo/ Páginas onde sofro/ Páginas onde sonho.”

2) A produção literária brasileira contemporânea sofre com a pressão dos meios digitais e das novas mídias. Qual é o reflexo disso na concepção de projetos editoriais?
GF
– Não percebo as coisas dessa forma. Antes ela interage. Com a tecnologia, inúmeras editoras estão se especializando em livros com pequenas tiragens, e isso é muito bom para o autor. Veja o boom dos blogues, é estimulante, pois neles há muita coisa boa. Pipocam publicações digitais de obras que fazem parte do domínio público e que podemos baixar pela internet sem pagarmos um só centavo. Mesmo com isso, edições de obras como Espumas Flutuantes ou Dom Casmurro continuam sendo vendidas e cada vez mais lidas.
Quanto aos projetos editoriais, sem uma editora que encampe um projeto, o que nos resta é a busca pelo financiamento público ou privado. E olha, nunca houve tanto dinheiro para o financiamento do fazer literário e para publicação do livro no país. O que falta são pessoas melhor preparadas para irem buscar esses recursos.

3) Para quem admira a literatura brasileira Ilhéus e toda a produção grapiúna são associadas ao escritor Jorge Amado. Como é atualmente absorvida em Ilhéus a obra de Amado? E quais outros expoentes da prosa baiana representam Ilhéus na literatura brasileira?
GF
– Moro aqui na Bahia desde 1993. Primeiramente em Salvador, e a partir de 2007 entre Ilhéus e Itabuna. Admiro a riqueza cultural dessa terra e à ela estou totalmente amalgamado. A Bahia legou ao Brasil grandes prosadores como Herberto Sales e Osório Alves de Castro, mas foi Jorge Amado aquele que alcançou maior sucesso. Amado alterou o discurso romanesco com “O País do Carnaval”, fundando a escola neo-realista no Brasil, atendendo, segundo o ensaísta Jorge Araújo, os novos motivos geracionais de se encarar a realidade brasileira, conflagrada por instâncias históricas, políticas, sociais. Com isso Amado fez nascer a literatura do Cacau, e com ele afloraram nomes como os de Adonias Filho e Jorge Medauar, outros dois monstros sagrados da literatura brasileira.
Costumo dizer que na literatura baiana, tanto na prosa como na poesia, o Século XX foi dos autores grapiúnas.

4) A atividade cultural brasileira carece de profissionalismo? Fale um pouco dos projetos culturais que você desenvolve na Bahia...
GF
– Carece sim, e está mais evidente pelo interior do Brasil. O Ministério da Cultura está fazendo um esforço para diminuir esse problema, mas a dificuldade ainda é grande. Entretanto, a pessoa que pretende viver daquilo que produz, em qualquer segmento, precisa ser profissional e empreendedor. Isso não difere no âmbito da cultura.
Quanto aos projetos culturais que desenvolvo aqui na Bahia, o que posso te dizer é que já fiz algumas coisas e continuo trabalhando. Fundei em Salvador e fui editor do tablóide literário SOPA. Promovi um encontro literário semanal, Soltando o Verbo, onde escritores palestraram sobre suas obras e questões fundamentais ligadas ao fazer literário. Também fui o editor da revista Poesia & Afins. Após essa fase comecei a escrever para sites e publicações especializadas em literatura. Recentemente promovi em Ilhéus o Rock & Poesia onde, durante quatro semanas consecutivas, um poeta se apresentou acompanhado por uma banda. Foi tão bom e inusitado que vamos reeditar por mais oito semanas entre os meses de Julho e Agosto.
Estudo a poesia feita por autores baianos no Século XX e o haikai na Bahia. Tenho o apoio da editora da nossa universidade e de uma editora privada aqui da região, a Via Litterarum, que costumam se envolver nos projetos que desenvolvo. Desse modo ajudei na recuperação e publicação da obra de diversos poetas que precisavam ser revistos e fiz publicar Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna. Atualmente sou um dos diretores da Fundação Cultural de Ilhéus.

5) Comente o seu processo criativo, por que você optou pela poesia e não pela prosa?
GF
– Não creio que uma pessoa opte por ser poeta. Nasce-se poeta. Além de estudar a obra de grandes teóricos, ainda fiz oficinas de versificação e estética com alguns mestres. Isso facilitou meu entendimento e prática. Hoje me dedico tanto à poesia dita universal, quando à Literatura de Cordel, pela qual sou totalmente apaixonado. Parece algo fora de lugar, mas em 2009, além de vencer o Prêmio Bahia de Todas as Letras na categoria Poesia, também venci na de Cordel. Minha prosa é o ensaio e o botequim.

6) Como você avalia o comportamento do poeta contemporâneo? Te incomoda o excesso de expressões de outros idiomas em versos de brasileiros?
GF
– Essa tal de pós-modernidade é uma coisa com a qual devemos ter cuidado. Na literatura, seus indícios mais violentos são as reverberações do modernismo, um movimento, a meu ver, fundamentalista. Os néscios falam da contribuição do modernismo, apontam o sentido de brasilidade, o verso livre e a linguagem coloquial. Eis uma grande falácia, um golpe apoiado pelas universidades, também repleta de néscios em suas cadeiras. Em verdade, essas mudanças já vinham sendo percebidas na literatura brasileira, na obra, por exemplo, de Manuel Bandeira, bem antes de 22. Aqui na Bahia desde a primeira década do século passado os poetas da revista Nova Cruzada já utilizavam tais elementos em seus poemas. Mas os modernistas, me parece, desconheciam esse fato. Esse processo veio da França, via Baudelaire, Rimbaud e Verlaine, já havia acontecido nos Estados Unidos a partir da obra de Walt Whitman, e em Portugal com Fernando Pessoa. Como disse, tais elementos já vinham sendo incorporados pelos poetas brasileiros. Grassar o todo seria uma questão de tempo, mas teria que ser feito com responsabilidade e de maneira gradual. 22 prestou um desserviço à poesia brasileira que, à partir da “liberdade”, muitas vezes caiu no vulgarismo e na permissividade.

7) Você é um amante da literatura de cordel. Em São Paulo, pelo menos na região de Marília, quase não há cordelistas. Onde está o foco principal da produção de cordel no país, no Nordeste? Fale um pouco sobre esta modalidade textual.
GF
– O Cordel é oriundo da península ibérica, chegou ao Brasil via Portugal, juntamente com a colonização. No Brasil se desenvolveu mais claramente aqui no nordeste, mas há focos por todo país.
O nome “cordel” está ligado à forma de comercialização dos folhetos, originalmente pendurados em cordões. Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de Gil Vicente, por exemplo. Hoje, inúmeros dramaturgos nordestinos escrevem nesse formato. Os temas incluem desde fatos do cotidiano, causos, lendas, religião, entre outros. A vida e as lendas sobre Lampião é o tema mais recorrente. Em verdade, todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
Particularmente, tenho a honra de ser amigo e discípulo de grandes cordelistas baianos, a exemplo de Franklin Maxado Nordestino e Jotacê Freitas. Tenho inúmeros folhetos escritos, mas ainda não publiquei nenhum. Um deles escrevi juntamente com um grande amigo, o poeta Lourival Pereira Júnior, o Piligra, trata-se de A Peleja Virtual Entre Dois Vates Arretados. Foi esse folheto que venceu o Prêmio Bahia de Todas as Letras.

8) O Estado brasileiro, de uma certa forma, vem incentivando a literatura, seja através de edital de fomento, seja através da compra direta de grandes quantidades de livro, uma vez que, segundo a Câmara Brasileira do Livro, o governo brasileiro é o principal cliente de livros do mundo. Como você vê este antagonismo: um Estado que compra uma enorme quantidade de livros, mas uma população que reconhece que não gosta de ler?
GF
– Não gosta de ler porque não há incentivo familiar. Quem nunca ouviu dizer que educação vem do berço? O gosto pela leitura também deve vir. E de que outro modo poderia ser? O pior é que a imensa maioria dos professores não possui o hábito da leitura. Tempo pobre, escola pobre, homem pobre de reais valores... Não é à toa que no poema Casa Vazia, o formidável Alberto da Cunha Melo grafou: escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos.

9) Gustavo, fale um pouco sobre seus projetos para 2010, incluindo o projeto que pretende resgatar a obra de Osório Alves de Castro.
GF
– Pela Fundação Cultural meu maior desafio é a realização em Agosto da Festa Literária de Ilhéus. No campo pessoal pretendo publicar Dendê no Haikai, um ensaio que escrevi sobre o haikai na Bahia. Também estou cuidando da publicação de um livro de poemas de minha autoria. Pretendo levar ambas as obras para Marília no segundo semestre. Já a Coleção Osório Alves de Castro é uma realidade. Mas esse não é um projeto meu, senão de um coletivo de apaixonados pela obra do “home”, entre eles você, meu caro Ramon. Aliás, se não fosse você o projeto não decolaria. Meu papel foi o de convencer uma editora a entrar no projeto. O processo está adiantado, acredito que em 2011 nosso anseio será alcançado.


BLUES PARA MARÍLIA


Penso todos os dias em Marília.
Sobretudo penso em tudo que deixei por lá:
os companheiros de infância, minha mãe,
o pão caseiro feito pela Tia Vilder,
as férias em Panorama.
Penso principalmente no cheiro do café;
café bom das lavras da Fazenda Cascata.
Marília são flashes na memória:
os passeios pela Praça São Bento,
as visitas ao Paço Municipal.
Por isso esse velho Blues,
esse reverso n’alma,
o silêncio que revolve a voz
e o olhar demorado para as coisas sem sentido.

Marília é tudo que ainda sangra.

Ilhéus
2009. X

domingo, 25 de abril de 2010

Meu poema "Radiografia", por Ivan Maia

No poema “Radiografia”, muito mais por dentro do que aconteceu de significativo na história, o poeta ainda não estava no mundo e, no entanto, hoje habita a consciência histórica de seu tempo munido das informações mais relevantes ao seu pensamento crítico.
Os feitos de grandes personagens, ainda que às vezes mantidos sob olhar neutralizador de suas influências, tornam-se matéria de uma poesia que se apropria dos acontecimentos para extrair-lhes um questionamento decisivo para nossas vidas: onde estávamos enquanto grandes feitos eram realizados, o que fazíamos de nossas vidas então?
A repercussão das grandes realizações depende daqueles que são responsáveis pela difusão de notícias e informações tanto quanto dos que a recebem e têm a função de digeri-las. E é desse modo que temos acesso à mensagem de Gustavo Felicíssimo nesse poema, que se destina, por um lado, às gerações mais novas, que ainda não estavam aqui quando muita coisa importante aconteceu e aos quais cabe apropriarem-se de tais acontecimentos através do interesse pela história dos seres que marcaram a vida de nossa gente. Por outro lado, essa mensagem paradoxal (não meramente contraditória, ou ambígua) também se dirige às gerações mais velhas que já estavam “aqui”, mas que em muitos casos não “estava nem aí” para o que ocorria de importante. E poderíamos, do mesmo modo, considerar ainda um terceiro sentido presente nos dois últimos versos, nos quais o poeta aponta para uma liberação necessária em relação ao sentido histórico, que pode ser útil à vida em seu movimento de auto-superação, mas do qual precisamos nos desprender para não ficarmos sobrecarregados por ele. Isso é o que permite uma leveza de espírito isenta de ingenuidade, pois possibilita incorporar o que do passado foi e é importante para o presente enquanto se prepara o porvir, ou seja, ir além de seu tempo.


RADIOGRAFIA

É para você que escrevo, hipócrita
Ana Cristina César

Eu não vi Chico Landi correr
nem o homem pisar na lua
Candeia sambou em cadeira de roda
mas isso eu também não vi
Eu não vi os socos no ar de Pelé
nem o vôo de Castilho
Lupicínio cantar Vingança, eu não vi
nem João desafinando
Eu não vi os POETAS NA PRAÇA
ou Geraldo Maia recitando Geração de Março
Charles Chaplin no Grande Ditador eu não vi
Nem Glauber, Deus e o Diabo
Eu não estava aqui
Eu não estava nem aí...

Ivan Maia
é poeta e Mestre em filosofia.

sábado, 24 de abril de 2010

Três haikais para São Jorge

ontem, 23, foi o seu dia
Meia-noite em ponto,
O foguetório no morro -
Salve, Jorge!

Cláudio Pestana


dia de São Jorge -
choro e aplausos para
o santo guerreiro

Carlos Viegas


Oxóssi ou São Jorge?
não visto branco ou vou à missa,
mas tenho respeito.

Gustavo Felicíssimo

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os Haikais de Jorge Araújo

Jorge Araújo (1947) é baiano de Baixa Grande e Ilheense por adoção. Mestre e Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ é ensaísta premiado diversas vezes e possui vários livros publicados, principalmente na área do ensaio, como o recente “Floração de Imaginários: O romance baiano no Século XX[1]”, e na poesia, com “Os Becos do Homem[2]”, seu livro de estréia, onde transita com versatilidade por várias formas poéticas, inclusive o haikai, ao qual dedica um capítulo inteiro, Munição & Víveres, composto por trinta haikais alinhados ao modelo utilizado pelos poetas da contracultura, como só assim poderia ser, pois esse livro foi gestado durante todo um período de ditadura no Brasil (desde o início dos anos 1970) e publicado em 1982, onde o poeta nos oferece haikais densos e reflexivos:

pra quem confia
a espera
é vera luz do dia

Como afirma Antônio Houaiss no prefácio do livro, Os Becos do Homem “se funda em duas direções políticas, a da inutilidade de certa ordem e a da incapacidade dos homens dessa ordem”. É o que nos revela o seguinte haikai:

tempo, espaço, memória
o homem
será isca da história?

Jorge Araújo possui um dos instrumentos essenciais para o poeta na modernidade: dizer densamente aquilo que pretende trafegando pelo indizível, mas sabendo sempre o que dizer. E diz colocando o homem no centro do seu discurso:

A fome
antes do nome
é o homem

E diz mais:

o ponto final
do sonho final
é o sono final?

Fulgurante, seu verso é valioso, quase inesgotável, e convida o leitor a voltar inúmeras vezes, pois é feito de inquietação; poesia que consegue estabelecer uma ligação orgânica de suas vivências e crenças pessoais com os anseios coletivos de grande complexidade. Por isso não se pode pensá-la como destinada a ser lida apenas em silêncio. Os poemas de “Os Becos do Homem” foram feitos para serem ditos em voz alta, nas praças, a plenos pulmões, inclusive os haikais, para que todos possam conhecer uma obra que vai fundo no sentimento humano, pois como diz José Maurício Gomes de Almeida em um artigo publicado no jornal O GLOBO[3], a poesia de Jorge Araújo “assume integralmente esta marca suja da vida”:

cega esta certeza
que desarma o olho
da cama e da mesa

o sussurro
próximo do grito
arde na língua

E lá se vão quase 30 anos do fim da ditadura, durante esse tempo, Jorge Araújo acabou se tornando um ensaísta e crítico dos mais premiados do país, entretanto, “Os Becos do Homem”, por sua vez, não perde o frescor, pois se durante o tempo em que tal obra foi escrita, o poeta tinha, além das questões existencialistas, um inimigo em particular, declarado, hoje este inimigo está em toda parte, porém oculto; domina o capital, os grandes conglomerados empresariais e a informação, manipulando-a de acordo com as suas conveniências.
Mas o poeta não é apenas um escritor engajado, ele ri da hipocrisia reinante:

ai ai caralho
como viver
dá trabalho

Ele é irrequieto:

não desvenda, nem deslinda
o poeta
inquieta-se ainda

Jorge Araújo pensa a própria poesia a partir dos instrumentos que possui e através do haikai questiona a condição ontológica do ser em um espaço que privilegia cada vez mais o valor utilitário das coisas. “Os Becos do Homem” é um livro para se guardar e para voltar a ele com certa regularidade.

OBS:
1) Esse texto é um excerto de um ensaio a ser publicado em “Dendê no Haikai”, conjunto de ensaios que escrevi sobre o haikai na Bahia, obra a ser lançada em breve pela Via Litterarum.

2) Os Becos do Homem pode ser adquirido pelo site da Via Litterarum: http://www.vleditora.com.br/

[1] Via Litterarum, 2008. Prêmio Nacional O Romance Baiano no Século XX, promovido pela Academia de Letras da Bahia em parceria com a Braskem
[2] Via Litterarum, 2006, 2ª Edição.
[3] Edição de 24/10/1982, pág. 5, Domingo.