terça-feira, 13 de abril de 2010

A BAHIA DE EUCLIDES DA CUNHA

Novo documentário de Carlos Pronzato

Nesta quarta feira, 14, às 17 horas, no Centro Cultural da Câmara Municipal de Salvador, que fica ao lado do elevador Lacerda, acontece o lançamento do documentário “A Bahia de Euclides da Cunha”, dirigido por Carlos Pronzato.
As entrevistas para o documentário foram feitas com estudiosos da obra de Euclides da Cunha e conduzidas pelo escritor Oleone Coelho Fontes, autor do livro “Euclides da Cunha e a Bahia”.
O vídeo oferece um panorama dos passos de Euclides da Cunha na Bahia, quando aqui esteve em 1897 durante a Guerra de Canudos, imortalizada no seu livro “Os Sertões”.

A entrada é gratuita.

Veja também: micro-entrevista que fiz com Pronzato em 2009.
Eis o link: http://sopadepoesia.blogspot.com/2009/07/micro-entrevista-com-carlos-pronzato.html

Pausa na Poesia

Agora é a hora e a vez da cidadania

O Brasil está gerando um movimento pela Internet sem precedentes pela Lei “Ficha Limpa”. Esta é uma luta histórica e a pressão pública está funcionando. Os oponentes da Lei Ficha Limpa estão tentando ganhar tempo adiando a votação, pois o projeto, que foi colocado em pauta para discussão na noite de quarta-feira, teve a votação adiada para o mês de maio.
Eles acham que a nossa mobilização massiva vai dispersar. Vamos mostrar que eles estão errados, conseguindo muito mais que a meta de 2 milhões de assinaturas!

Assine para acabar com a corrupção:
http://www.avaaz.org/po/brasil_ficha_limpa/?cl=531287876&v=5872

Leia Também:
Movimento social não perde a esperança de votação em breve:
http://www.avozdacidade.com/portal/Politica/htm000021515.asp

domingo, 11 de abril de 2010

Manuel Bandeira explica um de seus formidáveis poemas

“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema [...]

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca da Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d`água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei-
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Estrela da vida inteira, cit., p. 127-8.)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Poemas & Filhos

Eu, que até o momento não sabia como era ser pai, agora me alegro e experimento um turbilhão de sensações de natureza diversa com a chegada prevista para o final deste mês da minha pequena Flora. E como não poderia deixar de ser, ela já começa a ter poemas escritos em sua homenagem. O poema abaixo é apenas o primeiro de uma série que no momento tomam corpo e que divido com todos os amigos leitores.

1º POEMA PARA FLORA

Eu já fui o que sou agora,
poema posto em desalinho,
o cenho franzido, o espelho
e o saber não ser tão sozinho;

o curso da vida nas mãos
são quais as ondas que se vão;

e mais: uma filha a caminho
traz o dom de sermos imensos
e frágeis feito flor e espinho:

aos braços plenos de pecado
o amor virá purificado.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lançamento de Escritos sobre Cinema

Trilogia de um tempo crítico, do Mestre André Setaro

clique na imagem para vê-la em tamanho maior

No Volume I encontramos os escritos sobre filmes, atores e diretores
que marcaram a história do cinema e também depoimentos e artigos com inclinações autobiográficas. Além das impressões do crítico sobre Orson Welles, Kurosawa, Fellini, Godard, Bergman, entre outros ícones, fica-se também conhecendo a trajetória e paixão de Setaro pelo seu objeto de desejo e estudo.

O Volume II é dedicado integralmente ao cinema baiano que este ano completa 100 anos. Nas resenhas críticas, o autor fala sobre as obras e cineastas pioneiros na Bahia (a exemplo de Roberto Pires e Glauber Rocha) e também reflete sobre os homens e as circunstâncias que permitiram o surgimento e a efervescência do cinema na província. Setaro rende homenagens ao mestre Walter da Silveira e ao lendário Clube de Cinema da Bahia, assim como reconhece o valor de empreendedores, a exemplo de Guido Araújo e sua longeva Jornada de Cinema. Fala sobre o boom superoitista e recorda com ternura dos cinemas de rua de Salvador, como o Guarany, Excelsior, Liceu, Tamoio, Bahia, Pax, Aliança, Jandaia.

No Volume III Setaro trata especificamente da linguagem cinematográfica: Embrenha-se pelos caminhos teóricos, destaca as escolas, os autores, mas nunca perde de vista aquilo que o crítico Inácio Araújo, autor do prefácio da sua trilogia, definiu como “uma prazerosa proposta civilizatória”.

Este farto material estava praticamente destinado ao esquecimento, já que André Setaro, apesar do incentivo que sempre recebeu dos colegas e alunos, recusava a ideia de transformar tudo em livro: “Amigos sempre me falaram para escrever um livro, mas eu nunca quis”, relata, destacando que foi convencido da viabilidade do projeto pelo jornalista e escritor Carlos Ribeiro, que há mais de 15 anos insistia na publicação destes textos. Foi assim que, a partir de 2005, Carlos Ribeiro juntou-se a Carlos Pereira, André França, Marcos Pierry e alguns outros ex-alunos de Setaro e decidiram, de forma voluntária, realizar o trabalho de pesquisa e seleção da obra: “O enorme esforço dos professores que realizaram o trabalho foi, em si, um reconhecimento à contribuição de André Setaro ao cinema da Bahia e do Brasil. É um material valiosíssimo, que necessitava ser preservado.”, destaca Carlos Ribeiro, organizador dos três volumes. "Escritos sobre Cinema: Trilogia de um tempo crítico" em breve estará nas principais livrarias do país.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sá, Rodrix & Guarabyra, em Amanhã

Está chegando às lojas o disco “Amanhã”, do formidável trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Ao contrário do que imaginávamos, o lançamento em 2002 do CD e DVD ao vivo “Outra Vez na Estrada” não serviu apenas de simples revival do trio, mas o ponto de partida para o reinício de uma carreira a três desfeita vinte e seis anos antes, com a saída solo de Rodrix.
Ao contrário do disco anterior, que apesar de lançar cinco músicas novas baseava-se principalmente em regravações de grandes sucessos, “Amanhã” traz doze músicas completamente inéditas, o que talvez vá na contramão do mercado, mas reafirma o sentido autoral da carreira deles.
O trio, que forçosamente foi desfeito com a morte de Zé Rodrix em maio de 2009, continuará vivo com Sá & Guarabira, mas, sobretudo, eternizado nos amantes da boa música e do rock rural.
O Zé Rodrix, que fora um intelectual respeitável, concedeu-me em 20 de Novembro de 2008, para o projeto Micro-entrevistas, aquela que pode ter sido sua última entrevista por escrito, que reproduzo agora, em homenagem ao novo disco do trio Sá, Rodrix e Guarabira.

Entrevista com Zé Rodrix

Gustavo Felicíssimo – Zé, em que momento você acredita que suas atividades como compositor, publicitário e romancista se amalgamam?
Zé Rodrix
– O tempo todo. Não vejo nenhuma diferença essencial entre nenhum processo de criação, porque a criação é um ambiente contínuo no qual eu me movo de modos diferentes, adequando minhas ferramentas criativas para o objetivo desejado. A meu ver, nenhuma atividade criativa pode ser considerada mais elevada ou menos importante que a outra, por mais que exista preconceito de quem as observa, na maior parte das vezes sem saber do que se trata. Estar em pleno exercício criativo é a minha regularidade diária, sem a qual eu não seria eu mesmo: criar como forma de sobrevivência do corpo, da mente e do espírito, evoluindo, crescendo e me modificando a cada instante, tornando-me finalmente o objeto que surge da minha própria criação, através daquilo que eu realizo. Meus romances, minhas canções e meus jingles são facetas diversas de minha própria capacidade criativa, assim como meus desenhos, pinturas, peças teatrais e até poemas, cada um ocupando o seu espaço específico no mundo real, mas todos partindo de uma mesma fonte original, eu mesmo.

GF – Há quem diga que a música popular foi quem tomou o espaço já diminuto da poesia. O que você acha dessa afirmação?
ZR
– O equívoco, a meu ver, é dos poetas, que de maneira geral têm tido inveja do aparente sucesso popular dos músicos, e se dispuseram a enfiar a sua poesia de maneira artificial na seara musical, prejudicando tanto a poesia quanto a música. Não creio que exista nenhuma semelhança entre poesia e letras de música, por exemplo: são objetos artísticos perfeitamente diversos e diferentes, apesar de partilharem algumas semelhanças no uso da língua e dos truques criativos. A partir de determinado momento, quando letristas passaram a ser chamados de poetas, (equivocadamente, a meu ver) os poetas se sentiram à vontade para se transformarem em roqueiros, usando a música popular como veículo para sua poesia que, de maneira geral, funciona muito mal quando cantada, mas seria excelente se permanecesse nos limites reais da poesia escrita. Agora, vai ser preciso muita coragem da parte dos poetas para romper este vício da popularidade e retomarem seu processo poético original, de forma a recuperar o verdadeiro valor da poesia, pois, como disse Fernando Pessoa, “a popularidade é um plebeísmo”. Insuportável para a tão necessária verdade e permanência poética.

GF – Você acredita em um processo de alienação das massas provocado por uma possível e anunciada “ditadura midiática”? Essas questões chegam a te incomodar?
ZR
– De forma geral, esta “ditadura midiática” é papo muito velho, herdado do Manifesto do CPC da UNE em 1962, que já era cópia quase fiel do Manifesto por Um Realismo Socialista, de Jdanov, escrito na URSS em 1947. Nela se estabelecem como inimigos todos os processos de abrangência comercial da arte tanto burguesa quanto popular, descartando tanto a “arte burguesa’ quando a “arte popular” com sendo veículos de alienação, e pregando a necessidade de uma “arte popular revolucionária”, que nunca existiu realmente, a não ser como as experiências artificialíssimas da MPB, seguindo os passos de uma “brasilidade” estabelecida pela outra ditadura, a de Getúlio Vargas.
A tentativa de estabelecer um “padrão popular” de música feita no Brasil, por exemplo, já tinha sido intentada por Lourival Fontes, diretor do DIP durante o Estado Novo, e este padrão de “brasilidade” é uma barreira que permanece ainda vigente como parâmetro dos artistas nacionais, porque foi assumido como sendo “real” pelo manifesto da UNE, que preferiu a ditadura de Vargas à Ditadura Militar, pretendendo que a primeira fosse melhor que a segunda, no que se equivocaram profundamente.
O sistema de comunicação midiática mundial já pretendeu ser dono das vontades de todos, menos de quem o critica, ainda que quem o critique também esteja sob a égide de uma mídia específica e tão daninha quanto a que verbera. Acusar a mídia por todas as mazelas do mundo, menos as próprias, indica apenas um desconhecimento profundo das possibilidades humanas de livre-arbítrio, escolha, e capacidade de decisão. Tudo está, a meu ver, nos limites da consciência e responsabilidade pessoais, e para entender isto seria preciso estudar com atenção o momento em que Sartre, tendo durante algum tempo proposto como ideal a figura do “artista engajado”, a substituiu pela do “artista consciente”, já no fim de sua vida.
A Arte não está sob o controle de nenhuma mídia, se verdadeiramente for Arte, e nem os usuários desta mídia se tornam escravos dela, principalmente agora que a revolução tecnológica permite a livre expressão das individualidades através da escolha pessoal. Há inúmeros artistas que, filiando-se a esta ou aquela escola, se consideram mais artistas que outros de outras escolas, ao mesmo tempo em que partilham de práticas e usos que condenam em seus desafetos, aplaudindo-os em si mesmos como “exemplo de pragmatismo ideológico”. Dois pesos, duas medidas, infelizmente valorizados e divulgados como sendo ideais pelos que chamo de Perpetuadores dos Dogmas e Defensores dos Mitos, estes que, sendo parte da mídia, se especializaram em expor seu gosto pessoal ou filiação ideológica como sendo a Única Verdade, tornando-se divulgadores de seu próprio e equivocado Evangelho, tentando convencer a quem os ouve de que a Arte de que gostam nos foi doada diretamente por Deus e que todas as outras são imitações diabólicas desta.
Os seres humanos, atualmente, e a cada dia mais, têm infinitas formas de fazerem suas próprias escolhas, através das liberdades individuais, deixando-se envolver por aquilo que os agrada e rejeitando aquilo que os desagrada, por mais que as teorias vigentes ainda insistam em nos impor o gosto por aquilo de que não gostamos, como necessidade de sobrevivência da “kultura”. Neste sentido, as classes populares são muito mais livres, porque em seu território possível, selecionam e elegem como sendo SUAS as formas de Arte que lhes tocam mais de perto, em vez de seguirem, obedientemente, os parâmetros que algum evangelista lhes imponha como sendo os únicos possíveis, da maneira como a classe média tem feito.

sábado, 3 de abril de 2010

Carlos Falck, exímio e sofrido poeta

Segundo Henrique Wagner, Falck não teve educação formal, mas se submeteu a uma prova para entrar à Escola de Teatro da Bahia e passou, inteligente, culto e perfeccionista que era. E mesmo sem concluir os cursos preparatórios acabou ingressando no nível superior para tornar-se um dos mais incissivos críticos de teatro, assinando uma coluna muito lida, no extinto Jornal da Bahia.
Sua produção poética estende-se por dez anos, de 1954 a 1964, quando comete o suicídio. Seus sonetos, segundo Ildásio, são lapidares e suas redondilhas revestem de inovação a medida medieval construindo versos com um grande sabor de atualidade, mesmo quarenta anos após ter feito seu último poema.
Sua poesia, basicamente existencialista, possui certa obscuridade que nos faz lembrar muitas vezes de Fernando Pessoa. Percebam o segundo poema, trata-se de uma carta suicida deste que foi um exímio e sofrido poeta.

Cântico da Noite Triste
A todas as mães

Pelos versos noturnos que componho
Há passos vagarosos de mulheres
Nas estradas do vício – malmequeres
Feitos de sombra e luz, de choro e sonho...

Na convulsão de ilícitos misteres
Em que falece a vida, eu me envergonho
Das palavras de Amor que tu proferes
E a resistência da moral transponho,

E o lupanar de pompas tumultuário
Toma a lição macabra de um Calvário,
E cada leito a forma de uma cruz,

Em cujos braços, plenos de pecados
Vejo o Direito e a Fé crucificados
Como o corpo sangrento de Jesus!

Sexta-feira Santa de 1956.


Bilhete à Ilha

Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.

Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.

Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.

E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.
Nota:
Poemas retirados do livro Ofício de Cancioneiro e Outros Poemas, organizado por Ildásio Tavares e publicado pela Imago dentro da coleção Bahia: Prosa & Poesia.

Outros poemas do autor em:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cfrank.html

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Semana Santa de Outrora

Ildásio Tavares

Quando eu era menino em Salvador, a Semana Santa tinha um outro cariz, era mesmo um período solene, de contrição, de recolhimento. As atividades lúdicas eram suspensas, as rádios tiravam seus programas do ar e no lugar botavam música clássica. Em tudo havia uma atmosfera de religiosidade compulsiva e até do receio do pecado por um gesto desabrido ou uma palavra pesada. A gente falava por sussurros e evitava quaisquer conversas que pudessem ter uma interpretação pecaminosa. Conversa de sexo, imagine, nem pensar.
O comércio fechava na quinta. Até as prostitutas fechavam o balaio, como se dizia. Havia uma atmosfera geral de solenidade e respeito, a religião pesava sobre todos, a cidade aguardava em suas ilhargas silenciosas que viesse o estrépito do sábado de aleluia, com todo seu entusiasmo profano, a queima de Judas que até hoje há, mas com características diferentes da época. Ficávamos aguardando a hora que era no sábado mesmo e aí a garotada aproveitava pra desabafar fazendo barulho, batendo em latas, descontando a pasmaceira forçada dos dias anteriores.
Lembro-me bem que havia umas meninas sapecas numa casa vizinha que tiravam esses dias pra me provocar. Mulher é bicho do cão, eu pensava e procurava me afastar delas que não me davam bola, mas nesse dias ficavam no maior frete. Tudo quieto. Não se ouvia um barulho. As famílias recolhidas, rezando. Era mesmo uma semana de devoção, de fé até a catarse do Sábado de Aleluia. Até os cinemas só passavam a vida de Cristo. O prazer era proibido.
Uma coisa perdura daquele tempo, muito mais pelo espírito hedonista do baiano do que por sua fé – a ceia da Semana Santa.
Na quinta já se tinha mesa farta e vinho. Havia quem tomasse vinho branco na quinta e vinho tinto na sexta em alusão ao sangue de Cristo. Mas todos, todos de todas as classes não passavam a Semana Santa sem uma mesa farta em iguarias do cardápio afro-baiano, seu vatapá, seu caruru, seu efó, sua moqueca de peixe e de bacalhau, xinxim de galinha, fritada de marisco, feijão de leite e por aí lá vai. A paixão de Cristo servindo de pretexto pra se comer bem.
Isto é uma profanização do sagrado que está bem na raiz do barroco. Num momento em que a Igreja recomenda jejum, ou ao menos abstinência de carne vermelha, o baiano aproveita pra beber vinho e se empanturrar de todo tipo de carne branca ao tempero requintado da culinária de santo, outro paradoxo. É com comida de orixá que se reverencia a memória do sacrifício de Jesus Cristo.
Mais nada quase permanece da unção da Semana Santa do passado. O comércio abre direto. As rádios tocam toda música, principalmente de carnaval. As pessoas se agitam, vão ao cinema, ao teatro, às boates, aos barzinhos, aos motéis. As prostitutas trabalham regularmente. Dentro do quadro geral de decadência de valores em nossa sociedade, vemos uma Semana Santa leiga, reduzida a uma efeméride turística - mais uma semana de carnaval – com todo respeito e veneração, é claro. Sem trio elétrico.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O ceramista Osmundo Teixeira

Por Jorge Amado
Há algum tempo venho acalentando a vontade de mostrar neste blog alguns valores imensuráveis da arte da minha região, o litoral sul da Bahia. Além de Jorge Amado, essa região, que chamamos de Grapiúna ou Cacaueira, possui muitos outros valores. São poetas, que por aqui veem sendo publicados com alguma constância, mas são também cordelistas, contistas, atores, músicos, artistas plásticos e ceramistas, todos eles fazem dessa região uma das mais fortes expressões artísticas do estado. Um desses exemplos é Osmundo Teixeira, ceramista, santeiro, uma jóia de raro valor, sobre o qual conversava ainda há pouco com alguns amigos: o antiquarista Carlos Oliveira e o artista plástico Zebay, que foi quem me falou desse texto de Jorge Amado sobre a obra de Osmundo, que segue abaixo, e que foi publicado originalmente na revista Ventura em 2001.

Diz Jorge Amado: Maribeau Sampaio, escultor de Cristos e Madonas, pintor de santos, importante artista da grande geração que renovou a arte baiana, Carlos Bastos, Carybé, Jenner, Mário Cravo, Genaro de Carvalho, reuniu, no correr de muitos anos, uma das maiores e melhores coleções de imaginária do país. Acima de quinhentas peças, cada qual mais valiosa.
Envaidecia-se de possuir algumas peças de Frei Agostinho da Piedade, sendo que uma delas assinada: uma das quatro únicas assinadas pelo grande santeiro do século XVII.
Divertia-se colocando ao lado das imagens originais de Frei Agostinho, santos modelados por um ceramista contemporâneo, Osmundo Teixeira. Desejava que viéssemos e sentíssemos a herança transmitida pelo monge beneditino ao moço grapiúna. Não é que as peças se assemelhassem. Mais do que isso, elas tinham a mesma força de beleza e transmitiam idêntica emoção: as santas do século XVII e as de hoje possuem uma graça, uma ternura, uma condição brasileira, que lhes dão singularidade própria, que as diferenciam de todas as demais.
Frei Osmundo de Tabocas, assim Mirabeau denominava o santeiro itabunense, pois Tabocas foi o nome primitivo da cidade. Quem primeiro me falou desse artista que é meu conterrâneo, pois eu também sou nascido em Itabuna, não foi, como se poderia pensar, nem o colecionador Moysés Alves, tampouco Raymundo Sá Barreto que sabe tudo sobre letras e as artes grapiúnas, foi o jornalista português, doutor Nuno Lima de Carvalho, que seleciona os artistas que expõem na galeria do Cassino Estoril, uma das mais categorizadas de Portugal. Íntimo, ele também, da melhor imaginária, deixou-se seduzir pela arte de Osmundo e a fez conhecida do público europeu.
Em verdade, antes de ser um nome admirado e respeitado no Brasil, o moço de Itabuna mereceu os aplausos da melhor crítica da Península Ibérica.

Site oficial do artista:
http://www.osmundoteixeira.com.br/

Os zumbis de Maria Mandu

Novo filme de Gabriel Lopes Pontes

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